Caso
Victoria Natalini: a morte em excursão escolar que passou anos sem resposta e
levou pai a cruzada por justiça
A 4ª
Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu, por unanimidade, condenar
a escola Waldorf Rudolf Steiner, em São Paulo, a pagar indenização de R$ 1
milhão para João Carlos Natalini, pai de Victoria Mafra Natalini, que morreu
durante excursão pedagógica em 2015.
A jovem
tinha 17 anos quando desapareceu na fazenda Pereiras, em Itatiba, no interior
de São Paulo, e foi encontrada sem vida no dia seguinte.
A
condenação, ocorrida na terça-feira passada (3/2), reverteu decisão do Tribunal
de Justiça de São Paulo (TJSP) que reduzia o valor da indenização para R$ 400
mil. Para o STJ, a decisão reconhece a gravidade do caso e o elevado grau de
culpa da instituição.
O pai
da estudante afirmou à BBC News Brasil que a decisão é uma vitória, apesar de
não trazer a filha de volta.
"A
decisão do STJ representa um marco jurídico de altíssima relevância, pois
embora nenhum valor pague a vida de minha filha, essa vitória suplanta o
aspecto financeiro. O STJ reconheceu, com fundamentos técnicos sólidos e
elementos fáticos comprovados, a falha grave e a indesculpável omissão dos
deveres da escola. O STJ confirmou o que sustento há mais de dez anos",
disse.
Natalini
lembra a cruzada de onze anos que fez em busca de justiça com perícias
independentes e especialistas no Brasil e no exterior.
"Como
pai, recebo essa decisão com a convicção de que a verdade técnica começou,
enfim, a prevalecer; por isso espero a solução do caso com a responsabilização
de quem falhou e pela punição dos prepostos da escola, na esfera criminal e
também a responsabilização rigorosa e rápida de quem assassinou minha
filha".
Após a
publicação desta reportagem, a escola afirmou à BBC News Brasil, por meio de
nota, que "a trágica perda de Victoria" é "sentida até hoje por
todos que trabalham, estudam ou prestam serviço" à instituição.
A
escola afirmou que desde o início esteve à disposição das autoridades para
contribuir com a investigação e que a excursão à fazenda ocorrida desde 2005
sem nenhuma intercorrência.
Por
fim, a nota diz que a instituição já foi responsabilizada civilmente pela morte
de Victoria e que lamenta profundamente que as circunstâncias do falecimento da
aluna ainda não tenham sido concluídas.
Em
2023, a BBC News Brasil publicou reportagem contando em detalhes o ocorrido.
Leia a seguir.
Em 11
de setembro de 2015, um ônibus com estudantes da Escola Waldorf Rudolf Steiner,
em São Paulo, seguiu em direção a uma fazenda no interior do Estado. Os jovens
passariam uma semana na área rural.
Entre
os alunos estava Victoria Mafra Natalini, de 17 anos, descrita por familiares
como estudiosa e apaixonada por arte. Na viagem escolar, a jovem contava os
dias para um momento especial: quando voltasse para casa, ela iria a Porto
Alegre (RS) para assistir ao show da sua banda preferida, o Queen.
Mas
aquela atividade escolar foi a última viagem da vida dela. A jovem nunca
assistiu à apresentação musical que tanto esperava.
Victoria
foi encontrada morta dias depois de chegar à fazenda. O caso virou uma
investigação policial que foi arquivada. É um mistério que dura quase uma
década.
A
família da jovem cobra uma resposta e até contratou especialistas para uma
investigação particular, o que foi fundamental para descobrir que ela não
morreu por causas naturais. “Estou fazendo o papel de polícia e do Estado há
oito anos”, afirma o pai de Victoria, o engenheiro mecânico João Carlos
Natalini, de 58 anos.
Recentemente,
professores e gestores da escola se tornaram réus por abandono de incapaz, em
razão da morte da jovem.
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A viagem escolar que terminou em morte
A
excursão que hoje é lembrada pela morte de Victoria tinha o objetivo de levar
34 alunos da escola particular para passar alguns dias na Fazenda Pereiras, em
Itatiba, no interior de São Paulo.
Era um
passeio escolar tradicional na unidade de ensino. Os alunos, junto com dois
professores e três técnicos de topografia, foram à propriedade rural para fazer
estudos práticos sobre matemática e topografia. Eles fariam um mapeamento
detalhado da propriedade rural.
A
escola não permitia que os alunos levassem celular à fazenda. “Eles não
poderiam se comunicar com os pais. Ficamos confiando que a escola exerceria o
seu dever”, diz João à BBC News Brasil.
Tudo
parecia bem até o quinto dia da excursão, quando os alunos foram divididos em
grupos para mapear diferentes áreas da fazenda.
Por
volta das 14h30 daquele dia, Victoria avisou aos colegas de grupo que iria ao
banheiro. Ela seguiu por uma trilha de terra em direção à sede do local, a
cerca de 500 metros do ponto em que estava.
Essa
foi a última vez em que a jovem foi vista, segundo a investigação policial.
Cerca de duas horas depois, os colegas de grupo estranharam que ela não havia
retornado e procuraram os professores, para perguntar se eles sabiam o
paradeiro da adolescente.
E então
teve início uma busca pela jovem na propriedade rural. “Os professores
colocaram até os próprios alunos para procurarem a minha filha na mata. Só por
volta das 18h que a cozinheira da fazenda tomou a iniciativa de chamar a Defesa
Civil”, conta o pai da garota, com base nos relatos que ouviu na época.
“Eu só
fui comunicado sobre o desaparecimento da minha filha às 20h e só consegui
chegar lá por volta das 23h”, diz João..
Após o
registro do desaparecimento, a polícia foi à fazenda. Por volta das 23h, as
buscas foram suspensas e uma das possibilidades era de que a jovem tivesse sido
sequestrada.
As
buscas foram retomadas na manhã seguinte. Por volta das 8h, o helicóptero da
Polícia Militar de São Paulo encontrou o corpo de Victoria no entorno da
fazenda.
“Foi um
baque muito grande quando me contaram que haviam encontrado o corpo dela. Eu
estava em pé e tive que tomar fôlego para me reerguer. Foi tudo muito difícil.
Precisei avisar aos familiares e ainda reconhecer o corpo da minha filha”,
conta João. Ele define a descoberta sobre a morte da filha como o pior dia de
sua vida.
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Os desdobramentos
Não
havia lesão aparente ou qualquer outro indício evidente de que Victoria havia
sido vítima de um crime. No começo, a morte dela foi considerada como suspeita,
mas a principal possibilidade cogitada era de que tivesse acontecido por causas
naturais.
Após
viver os primeiros dias de luto intenso, João começou a questionar o que
poderia ter acontecido com a filha. Na época, chegaram a noticiar que a garota
tinha histórico de convulsões – o que foi negado pela família.
João
conta que a filha era saudável, se alimentava bem e praticava esportes. Em
razão disso, ele achava pouco provável que Victoria tivesse morrido por
problemas de saúde.
“Já
decorrido alguns dias ou semanas, a gente começou a pensar como havia coisa
esquisita nisso tudo. O corpo dela foi encontrado em uma direção oposta à sede
da fazenda, para onde ela queria ir quando desapareceu, e isso chamou a
atenção. Pedimos insistentemente para a polícia local investigar, mas se
negavam porque diziam que havia sido por causas naturais”, afirma João.
Pouco
após a morte da jovem, um laudo emitido pelo Instituto Médico Legal (IML) de
Jundiaí (SP) apontou “causa indeterminada, sugestiva de morte natural” e
descartou que ela tenha sido vítima de qualquer tipo de violência.
Segundo
os exames, Victoria não havia usado drogas nem ingerido bebida alcoólica.
O laudo
preocupou o pai da jovem, que acredita que depois disso a investigação do caso
não recebeu a devida atenção das autoridades policiais.
Para
ele, não havia chance de a filha ter morrido de causa natural. Um fato que
havia levantado desconfiança dele era a forma como o corpo dela foi encontrado:
de bruços e com os braços entrelaçados. Para ele, isso representava que
provavelmente alguém havia mexido no corpo.
João
decidiu investigar o caso por conta própria. Ele contratou peritos particulares
que apontaram que apesar da falta de lesão aparente e de não ter ocorrido abuso
sexual, a estudante foi assassinada e teve o corpo carregado até o local em que
foi encontrada morta.
“Esse
laudo apontou uma série de incongruências do IML de Jundiaí, em razão da não
investigação. Esses peritos que contratei pegaram todo o material a respeito da
minha filha, avaliaram e desenharam toda a dinâmica, apontando que não tinha
sido uma morte natural”, conta João.
O pai
da jovem apresentou o laudo particular à polícia. Diante disso, a apuração do
caso foi reavaliada e encaminhada para o Departamento de Homicídios e Proteção
à Pessoa (DHPP) de São Paulo.
No
começo de 2016, o DHPP pediu um novo laudo ao Centro de Perícias da Secretaria
da Segurança Pública de São Paulo. Essa nova análise confirmou que a aluna
morreu por "asfixia mecânica, na modalidade de sufocação direta".
O novo
resultado apontou que a jovem pode ter sido assassinada. Isso porque esse tipo
de sufocação direta, apontam especialistas, costuma ser feita pelas mãos, o que
pode indicar que uma pessoa atacou a jovem.
O pai
acredita que Victoria foi morta em uma emboscada enquanto seguia para a sede da
fazenda.
“A
pessoa tentou atacá-la, ela deve ter tentado se defender e a pessoa, com medo
de que ela gritasse e denunciasse, acabou tentando calá-la, por isso tapou a
boca e o nariz dela, o que acabou asfixiando a minha filha”, diz João.
Em nota
à reportagem, a Fazenda Pereiras, onde ocorreu a excursão, afirma que colaborou
com a investigação e que permitiu a circulação de investigadores e peritos “que
ouviram todos do staff que quiseram e quantas vezes consideraram necessárias,
exibir qualquer documento que fosse solicitado.”
“O
trabalho policial sempre foi realizado com máxima liberdade e sempre seguimos à
risca as determinações dos investigadores”, acrescenta o comunicado dos
responsáveis pela fazenda.
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Críticas à investigação
Mesmo
no DHPP, o pai de Victoria avalia que a investigação avançou muito pouco.
“Deixaram
de fazer várias coisas, deixaram de colocar uma série de depoimentos no
inquérito e tudo mais. Ao meu ver, foi uma investigação ruim e não foi bem
conduzida”, declara João.
O pai
da garota afirma que um dos principais problemas foi o fato de que muitas
provas foram deixadas de lado porque a apuração inicial, nos primeiros meses
após o crime, seguiu a linha de que a jovem morreu de forma natural.
Em nota
à BBC News Brasil, a Polícia Civil de São Paulo nega que tenha havido falhas na
investigação do caso e diz que “adotou todas as medidas de polícia judiciária
cabíveis para esclarecer o caso.”
Sem
avanço ou qualquer suspeito, o inquérito foi encaminhado à Justiça e arquivado
há cerca de um mês. A investigação só poderá ser reaberta se houver novas
informações sobre o caso.
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Oito anos sem resposta
Enquanto
a investigação oficial segue arquivada, João assegura que não descansará até a
prisão da pessoa que matou a sua filha.
Nos
últimos anos, ele teve algumas pequenas vitórias. Na área cível, a Justiça
determinou que a escola pagasse uma indenização. No entanto, a unidade de
ensino recorreu da decisão e pediu redução do valor. O caso segue em
tramitação.
Já no
mês passado, a Justiça de São Paulo aceitou uma denúncia do Ministério Público
do Estado de São Paulo (MPSP) e funcionários da Escola Waldorf Rudolf Steiner
se tornaram réus por abandono de incapaz.
Na
denúncia, o MPSP apontou que os dois professores que estavam na excursão com
Victoria "omitiram-se no seu dever legal, abandonando-a, deixando-a ir
sozinha até a sede da fazenda, percurso longo e ermo.”
Além
dos dois, também se tornaram réus o gestor-executivo da escola, uma gestora
pedagógica e a coordenadora do ensino médio.
O MPSP
apontou que eles “concordaram com a excursão com reduzido número de monitores e
professores para monitorar e acompanhar os alunos de forma constante durante os
dias na fazenda". O processo está em fase inicial.
A
reportagem procurou a escola, que disse, em nota, que adotou “todos os
procedimentos de segurança necessários durante a viagem de estudo do meio e
que, após a constatação da ausência de Victoria, as autoridades competentes
foram contatadas.”
“Esclarece,
ainda, que em todas as atividades pedagógicas desenvolvidas – sejam na escola
ou em ambiente externo - disponibiliza equipes de profissionais capacitados
para acompanhamento de seus alunos”, acrescenta o comunicado da unidade de
ensino.
Na nota
enviada, a escola não menciona especificamente sobre as questões judiciais do
caso. Porém, lamenta a morte da jovem e afirma que “segue comprometida em
contribuir com as autoridades e a justiça desde o primeiro dia das
investigações.”
A
reportagem procurou a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo para saber
se houve alguma punição do Estado à unidade de ensino. Em nota, a pasta afirma
que chegou a apurar o funcionamento da escola na época, mas não constatou
irregularidades no local.
Para
João, o caso da morte da filha é uma sequência de impunidades. Mas ele avalia
que a recente implicação jurídica aos gestores e professores da escola traz
“certo alívio”. Porém, ele reclama da demora. “Foram oito anos até que eles se
tornassem réus”, pontua.
Ele
segue com iniciativas para buscar respostas sobre a morte da filha. Há três
anos, João criou um abaixo-assinado online para cobrar que o caso seja
solucionado. Ele já conseguiu quase 58 mil assinaturas.
Nas
redes sociais, João mantém páginas para divulgar novidades do caso da filha. No
Instagram, ele tem perfil “Victoria Natalini vive”, em que compartilha as
notícias sobre o crime.
João
ainda continua com uma investigação particular para tentar descobrir novidades
e apresentar à polícia. Recentemente, anunciou uma recompensa de R$ 50 mil para
quem fornecer informações.
“Precisamos
de qualquer informação que leve ao autor do crime. Não é possível que nenhuma
pessoa tenha ouvido ou não saiba de qualquer coisa. Estou disposto a pagar e
manter o sigilo dessa pessoa que nos passar uma pista que pode levar ao
assassino”, conta.
Em meio
à incansável busca por justiça, João viveu anos de intenso desgaste emocional.
Mas ele afirma que caso fosse preciso, faria tudo de novo. “É a minha filha,
não me arrependo”, declara.
Para
ele, descobrir o que aconteceu com a adolescente é uma forma de honrar a
memória de Victoria.
Fonte:
BBC News Brasil

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