segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Arquivos de Epstein podem ser apenas 'ponta do iceberg' na investigação contra Andrew

Quando o ex-príncipe Andrew Mountbatten-Windsor foi preso por volta das 8h desta quinta-feira (19/02), a detenção não tinha nada a ver com Virginia Giuffre, a mulher que o acusou de abuso sexual.

O que levou à sua prisão começou com informações divulgadas nos arquivos de Epstein em janeiro, referentes às atividades desempenhadas por Andrew enquanto enviado comercial do governo britânico.

Mas não parou por aí.

Foram os e-mails presentes nesses arquivos, aparentemente trocados entre Andrew e o criminoso sexual Jeffrey Epstein, que levaram a polícia de Thames Valley a se envolver no caso.

Um e-mail em particular chamou a atenção. Em novembro de 2010, depois de retornar de uma viagem à Ásia financiada pelo governo do Reino Unido, Andrew recebeu uma série de relatórios sobre os países visitados.

Cinco minutos depois de recebê-los, o ex-príncipe aparentemente os enviou para Epstein, que, àquela altura, já havia sido condenado e cumprido pena por crimes sexuais.

Novas revelações surgiram a partir dos e-mails encontrados nos arquivos.

Um mês depois, na véspera de Natal, Andrew teria enviado a Jeffrey Epstein um e-mail com informações confidenciais sobre oportunidades de investimento na reconstrução da província de Helmand, no Afeganistão — na época supervisionada pelas Forças Armadas britânicas e financiada com recursos do governo do Reino Unido.

Em um outro e-mail, enviado em 9 de fevereiro de 2011, Andrew parece sugerir que Epstein invista em uma empresa de private equity (fundos de capital privado) que ele havia visitado na semana anterior.

Essas mensagens devem ter sido o ponto de partida para o que hoje se transformou em uma investigação conduzida pela polícia de Thames Valley.

Mas os investigadores não devem ter se baseado apenas nos e-mails divulgados.

Para construir o caso, a polícia provavelmente procurou o governo britânico e também o palácio, solicitando acesso a comunicações que possam esclarecer o que, de fato, estava acontecendo.

Na última segunda-feira, o palácio afirmou que "apoiaria" a investigação da polícia de Thames Valley.

Os investigadores também devem ter vasculhado os cerca de três milhões de documentos que compõem os arquivos de Epstein, além de solicitar cópias na íntegra ao FBI e ao Departamento de Justiça americano.

A Agência Nacional de Combate ao Crime está auxiliando as forças policiais do Reino Unido nesses pedidos.

Até agora, o que veio à tona parece ser apenas a ponta do iceberg, mas os investigadores podem ter visto mais do que aparece na superfície.

É muito improvável que a polícia tenha detido Andrew nesta quinta com base apenas em alguns e-mails encontrados nos arquivos de Epstein.

Até o momento, Andew foi apenas preso. Ele não foi acusado de algum crime.

Ele sempre negou qualquer irregularidade decorrente da sua relação com Epstein e não respondeu a perguntas específicas da BBC sobre os arquivos divulgados em janeiro.

E vale lembrar novamente: essa prisão não tem nenhuma relação com as alegações feitas anteriormente por Giuffre, que acusou Andrew de forçá-la a fazer sexo em diversas ocasiões no início dos anos 2000.

Um acordo financeiro extrajudicial foi firmado entre Andrew e Giuffre em 2022, que não incluiu nenhuma admissão de culpa por parte do ex-príncipe.

A polícia liberou Andrew na noite desta quinta-feira, mantendo-o sob investigação.

Em prisões relacionadas a crimes de "colarinho branco" é comum que as pessoas detidas sejam mantidas sob custódia por algumas horas para que buscas e interrogatórios sejam feitos.

Ser liberado nessa condição não descarta a possibilidade de novos depoimentos no futuro.

Agora, os investigadores terão uma decisão importante a tomar — um processo que pode levar semanas.

Policiais com uma coroa em seus distintivos deverão se reunir com advogados do Ministério Público da Coroa para decidir se há provas suficientes para apresentar uma denúncia formal contra o irmão do rei.

Se decidirem levar o caso adiante, o processo será registrado como "R versus Mountbatten-Windsor" — ou, em termos simples, o rei contra o irmão do rei.

¨      Como prisão do ex-príncipe Andrew pode afetar a família real britânica

Como esse episódio poderia resultar em algo que não fosse negativo para a família real e a monarquia britânica?

Andrew Mountbatten-Windsor, irmão do rei Charles 3º, foi preso na quinta-feira (19/2), na propriedade real de Sandringham, e então fotografado e submetido à coleta de impressões digitais. Ele foi solto após permanecer cerca de 11 horas sob custódia da polícia por suspeita de má conduta no exercício de cargo público, em uma investigação ligada ao caso do falecido criminoso sexual Jeffrey Epstein.

Antes de se mudar para Sandringham neste mês, Andrew era o homem que vivia, dede a morte da mãe da rainha Elizabeth 2ª, em 2002, no suntoso Royal Lodge, em meio ao luxo de 30 quartos no Windsor Great Park.

Há até poucas semanas, ele era o "príncipe" Andrew, título que parou de usar após ordem de seu irmão, o rei Charles 3º.

Há poucos meses, ele foi fotografado nos degraus da Catedral de Westminster, ao lado dos demais membros da família, no funeral da duquesa de Kent.

E, durante anos após sua saída do cargo de enviado especial para o comércio em 2011, ele usou o Palácio de Buckingham como pano de fundo para seu empreendimento de investimentos, o Pitch@Palace.

Ninguém invejaria a posição do rei Charles 3º neste momento; seus apoiadores apontam as ações que ele já tomou — retirando os títulos e a residência do irmão, além de prometer cooperação com quaisquer investigações.

Eles destacam o que descrevem como rapidez e determinação do rei.

E mencionam a declaração divulgada nas horas seguintes à prisão de Andrew Mountbatten-Windsor. Um comunicado que não fez uma única referência aos laços de sangue entre o rei e Andrew.

Em sua declaração, ele afirmou ter "profunda preocupação" com "Andrew Mountbatten-Windsor e suspeitas de má conduta em cargo público" e declarou que as autoridades "contam com nosso total e irrestrito apoio e cooperação".

Jonathan Dimbleby, biógrafo e amigo do rei, traçou uma distinção entre a família real e a monarquia na quinta-feira (19/2), no programa World at One, da BBC. "Não acho que isso prejudique a monarquia", disse ele sobre a prisão. "Acho que precisamos separar a ideia de família da instituição da monarquia."

"Acho que isso é muito importante. É muito fácil alinhar as duas coisas", acrescentou Dimbleby.

Alguns avaliam que a prisão dará à família real e ao Palácio algum fôlego e que o tratamento de Andrew Mountbatten-Windsor como apenas mais um suspeito reduzirá o dano causado.

Pode ser um pequeno alívio em um dia de notícias desastrosas. Mas isso não chega nem perto de deixar o copo meio cheio.

Durante décadas, o Palácio de Buckingham, a instituição que serve à família real sob sua direção, traçou uma linha entre o papel público dos membros da família e suas vidas privadas.

À medida que Andrew se afastou da vida pública, o Palácio também deixou de representá-lo.

Mas a distinção — tão importante para o Palácio — não é percebida pela maioria das pessoas; o Palácio, a família real e a monarquia parecem uma coisa só.

Andrew pode não aparecer há algum tempo na varanda do Palácio de Buckingham. Mas, por mais de seis décadas, integrou o que seu pai, o príncipe Philip (1921–2021), costumava chamar de "negócios de família".

A ideia de que isso seja ou tenha sido um "assunto privado" não se sustenta. Mountbatten-Windsor é o ex-príncipe Andrew e permanece na linha de sucessão ao trono. O sangue real é a essência de uma monarquia hereditária.

Mesmo que ele fosse apenas um "cidadão comum", sua relação passada com a família real e com a instituição bastaria para arrastar a monarquia para a controvérsia.

Quem sabe o que poderá emergir da cooperação "total e irrestrita" com as investigações que o rei prometeu.

O Palácio destaca as medidas sem precedentes adotadas até agora pelo rei — a retirada dos títulos e da residência de Andrew, a oferta de assistência e a decisão de não buscar, de nenhuma forma, qualquer favorecimento junto às autoridades.

Não há dúvidas sobre o dilema enfrentado pelo rei ao equilibrar a lealdade familiar, uma situação herdada ao ascender ao trono, e seu dever para com a Coroa.

Mas a monarquia se baseia na continuidade; é a soma do que veio antes e, ao mesmo tempo, um organismo vivo que responde ao presente.

Os apoiadores do rei enfatizam o quanto ele já fez. Os críticos da instituição questionarão por que não agiram antes, por que não demonstraram maior disposição para apurar os fatos à medida que os relatos e as acusações se acumulavam e em que momento, e por qual razão, mudaram a forma como passaram a tratar o ex-príncipe.

O drama do dia perderá força, mas o estrago já está feito. A questão para o Palácio, a família real e a Coroa é: quanto ainda está por vir?

<><> Detenção de Andrew em Norfolk

Imagens mostraram carros chegando à propriedade onde Andrew estava vivendo em Sandringham, no condado de Norfolk, por volta das 8h (horário local).

Segundo a polícia de Thames Valley, que conduz a operação, Andrew foi liberado "sob investigação" e que as buscas em Norfolk, onde o ex-príncipe mora, foram concluídas.

Andrew foi fotografado com o corpo reclinado na parte de trás de um veículo saindo de uma delegacia no Reino Unido por volta das 19h (horário local).

Anteriormente conhecido como Duque de York, Andrew é filho da rainha Elizabeth 2ª e irmão mais novo do rei Charles 3º, que afirmou em comunicado oficial ter recebido "com profunda preocupação a notícia" e que "a lei deve seguir seu curso".

Andrew é o primeiro membro sênior da família real na história moderna a ser preso.

O Palácio passou por momentos de tensão recentemente, com acusações de que estaria tentando proteger Andrew. A declaração do rei buscou encerrar esse assunto e separar a família real de qualquer desdobramento relacionado a Andrew.

A prisão, sob suspeita de má conduta em cargo público, refere-se ao período em que Andrew atuou como representante comercial do Reino Unido entre 2001 e 2011. Ela acontece após uma série de alegações, motivadas pela divulgação dos arquivos de Epstein, de que Andrew teria compartilhado documentos oficiais.

Entre eles estariam relatórios de visitas comerciais e uma informação confidencial sobre investimentos no Afeganistão enviados ao criminoso sexual Jeffrey Epstein, além de um documento do Tesouro britânico repassado para um contato pessoal.

Andrew Mountbatten-Windsor sempre negou qualquer irregularidade em suas relações com Epstein.

Mas a história dos vínculos de Andrew com Epstein vem sendo construída há décadas — assim como sua queda, que foi corroendo sua reputação aos poucos até se transformar em uma avalanche de desprestígio.

A associação com Epstein fez com que Andrew perdesse seu cargo de enviado comercial em 2011 e, após aquela desastrosa entrevista ao programa Newsnight, da BBC, em 2019, ele foi afastado de suas funções como membro ativo da família real.

E, em outubro do ano passado, quando e-mails revelaram que Andrew não havia cortado seus laços com Epstein como alegava, ele foi destituído de seus títulos de príncipe e duque e acabou sendo transferido de sua residência no Royal Lodge, em Windsor.

¨      Foto de Andrew em choque e assustado é parte de como prisão de ex-príncipe será lembrada

O rosto em choque, incrédulo e assustado do ex-príncipe Andrew Mountbatten-Windsor será parte de como sua prisão será lembrada.

Não é uma imagem particularmente edificante. Andrew está reclinado no banco de trás de um carro após ter sido solto, com os dedos entrelaçados, seja em oração ou proteção.

O colarinho da sua camisa está levantado. Aliás, seu colarinho foi tocado por alguém. Será que a expressão de choque de Andrew é a mesma que ele mostrou quando tiraram sua foto na delegacia?

A imagem se tornará o equivalente daquela outra foto famosa de Andrew, tirada há quase 25 anos, de um príncipe sorridente e confiante, ao lado de Virginia Giuffre, na época com 17 anos, em uma casa em Londres.

Na quinta, Andrew Mountbatten-Windsor se tornou o primeiro membro sênior da Família Real na história moderna a ser preso.

Foi mais um daqueles momentos que fazem prender a respiração.

Pouco depois, veio uma declaração sem precedentes de seu irmão, o rei Charles 3°. "Deixe-me ser claro: a lei deve seguir seu curso", dizia a mensagem direta do rei, sem brechas ou cláusulas de proteção real.

A prisão, sob suspeita de má conduta em cargo público, refere-se ao período em que Andrew atuou como representante comercial do Reino Unido entre 2001 e 2011. Ela acontece após uma série de alegações, motivadas pela divulgação dos arquivos de Epstein, de que Andrew teria compartilhado documentos oficiais.

Entre eles estariam relatórios de visitas comerciais e uma informação confidencial sobre investimentos no Afeganistão enviados ao criminoso sexual Jeffrey Epstein, além de um documento do Tesouro britânico repassado para um contato pessoal.

O fato de ser membro da Família Real não fará diferença legal na forma como o caso será tratado.

Andrew Mountbatten-Windsor sempre negou qualquer irregularidade em suas relações com Epstein.

A declaração direta da polícia na manhã desta quinta-feira foi um terremoto de notícias: "O homem permanece sob custódia policial neste momento."

Quem imaginaria ler essa frase quando o homem em questão ainda está na linha de sucessão ao trono e que, na teoria — senão na prática — continua sendo um conselheiro de Estado?

A explicação de Andrew sobre seu comportamento não será dada em uma entrevista de TV.

O público ainda se lembra de sua entrevista ao programa Newsnight da BBC, que continua sendo a última vez que Andrew falou publicamente sobre sua relação com Epstein.

Desta vez, será na presença de um advogado e dos investigadores, em vez de sob as luzes da TV, e as consequências de quaisquer inverdades serão muito mais sérias.

Mas a história dos vínculos de Andrew com Epstein vem sendo construída há décadas — assim como sua queda, que foi corroendo sua reputação aos poucos até se transformar em uma avalanche de desprestígio.

A associação com Epstein fez com que Andrew perdesse seu cargo de enviado comercial em 2011 e, após aquela desastrosa entrevista ao Newsnight em 2019, ele foi afastado de suas funções como membro ativo da família real.

Seu afastamento da vida pública tornou-se ainda mais completo após o acordo de 2022 com sua acusadora, Virginia Giuffre.

E em outubro do ano passado, quando e-mails revelaram que Andrew não havia cortado seus laços com Epstein como alegava, ele foi destituído de seus títulos de príncipe e duque e acabou sendo transferido de sua residência no Royal Lodge, em Windsor.

Foram sanções duras, que removeram qualquer vestígio de status real.

O Palácio passou por momentos de tensão recentemente, com acusações de que estaria tentando proteger Andrew.

A declaração do rei buscou encerrar esse assunto e separar a Família Real de qualquer desdobramento relacionado a Andrew.

Outro fator importante em tudo isso é a opinião pública. Os arquivos de Epstein e o que eles revelaram sobre uma rede de pessoas aparentemente influentes, mas com pouca moral, deixaram as pessoas revoltadas com tamanho poder e riqueza sem responsabilização.

Ao público soou ofensivo que pessoas ricas e influentes pareçam estar imunes às consequências de seus atos, sejam eles sexuais ou financeiros. A impressão geral é de que a corrupção compensa.

O fato de a prisão ter ocorrido no 66º aniversário de Andrew torna tudo ainda mais impactante. As velas teriam que esperar.

Há referências a aniversários anteriores de Andrew nos arquivos de Epstein, como uma festa para comemorar seus 50 anos no Palácio de St. James.

Uma das pessoas que teve de recusar o convite para aquela noite de "travessuras misteriosas" foi justamente Jeffrey Epstein, que ainda estava em prisão domiciliar como parte de sua condenação por aliciar uma menor para prostituição.

Há um ano, Andrew comemorava o aniversário como príncipe Andrew, duque de York, conde de Inverness e cavaleiro da Ordem da Jarreteira.

Quem sabe o que terá mudado até seu próximo aniversário.

 

Fonte: BBC News Mundo

 

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