Seymour
Hersh: Quando o jornalismo chacoalha o Império
O livro
do jornalista estadunidense Seymour Hersh é um documento monumental, não tanto
pelo seu tamanho gigante (530 páginas) como pelo conteúdo revelador da alma
profunda do seu país, assim como pelo estilo trepidante, irresistível, e
riqueza de imagens. Ele põe você na cena que, simplificando, é o retrato
pungente da política imperial dos Estados Unidos, composta de violência,
guerra, conspiração, corrupção contra os outros povos, mas também contra o
próprio povo. Monumental aula de jornalismo. (De um jornalismo, como ele mesmo
diz, que já não se pode fazer.)
E mais:
Seymour é a representação acabada do mito americano de sucesso pessoal, do
menino que sai da pobreza de um bairro de classe média baixa de Chicago e, com
trabalho duro, se torna uma referência mundial (self-made man).
Trabalho
duro é o que ele aprendeu desde o início. Filho de um rude imigrante judeu,
desde a adolescência se ocupa na lavanderia do pai, estudando nos intervalos.
Depois, enquanto faz universidade, trabalha em bares da periferia, convivendo
com trabalhadores pobres, muitos deles negros e imigrantes. É notável como toda
essa experiência vai lhe ser útil mais tarde.
Não
pensava em ser jornalista, mas para lutar contra a pobreza acaba se envolvendo
na produção de jornais de bairro, fazendo uma mistura de redator, repórter,
gráfico e vendedor de publicidade. Diz: “Naquela época, minha ideia de uma
reportagem de peso era uma que desse um jeito de elogiar um anunciante.”
Recusado
nos jornais mais importantes, acaba por ser contratado pela agência de notícias
UPI para trabalhar numa pequena cidade do interior, em Dakota do Sul. O
trabalho era apenas fazer um resumo das notícias da véspera às 7 da manhã. Mas,
tentando conhecer a região, descobre que ali vivem nove tribos indígenas na
mais completa pobreza, com 90% de desemprego, por racismo. Por iniciativa
própria, escreve matéria sobre a penúria da tribo Oglala Sioux, publicada no
Chicago Tribune, jornal importante do Meio-Oeste.
Em
1963, com 26 anos, consegue emprego na agência de notícias AP — Associated
Press, escalado para fazer matérias sobre interesses humanos. Faz denúncia de
corrupção policial, violação de direitos humanos, controle de natalidade,
pressão dos negros por direitos iguais. Isso ele conhecia: trabalhou doze anos
na lavanderia do pai em contato com negros. Entrevista o líder negro Martin
Luther King e passa a acompanhar seu movimento. É transferido para Washington.
<><>
Vietnã: McNamara está mentindo
Em
algum momento, Seymour ouviu de algum jornalista veterano a frase “se sua mãe
disser que te ama, é bom dar uma conferida”, que ele adotaria como lema. “Ler
antes de escrever”, dizia. Lia muito, lia tudo que caía em sua mão. Apurar,
apurar, apurar era sua rotina. Não divulgava uma denúncia sem antes confirmá-la
com uma segunda fonte.
Em
1966, os Estados Unidos estavam com mais de 380 mil soldados no Vietnã. É
cético, acha essa guerra um equívoco. Mas separa a visão pessoal da
responsabilidade profissional. Escalado como setorista no Pentágono, testemunha
diariamente as notícias oficiais sobre a guerra. Desconfia da versão do
governo.
Por
exemplo: uma tropa de 100 soldados caiu numa emboscada do vietcongue, sendo
dizimada. O general no comando mandou outra tropa que também sofreu muitas
baixas. O Secretário de Defesa, Roberto McNamara, informa que não foi um mal
resultado, o inimigo sofreu mais baixas. E que esse general até foi promovido
por essa ação. Seymour contata um alto oficial que confidencia: o tal general
na verdade fora rebaixado e retirado do cenário da guerra. Seymour compreende
que McNamara estava mentindo para o povo. Mas não publica para não comprometer
a fonte.
O The
New York Times enviou um repórter a Hanói, capital do Vietnã do Norte, Harrison
Salisbury, que logo depois de chegar enviou matérias relatando que Hanói estava
sendo bombardeada seguidamente com destruição aleatória e vítimas civis.
McNamara negou categoricamente e fontes do governo insinuaram que aquele
repórter e o jornal estavam atuando como agentes do inimigo. Depois concederam
que havia bombardeios em Hanói, mas só contra alvos militares.
Para
furar essa barreira de desinformação, Hersh entrevistou diversos altos oficiais
em suas casas. Disseram-lhe que bombardeios aéreos não tinham precisão, que “as
bombas nunca caem onde foram miradas”. Ele publicou isso, dizendo que o governo
tinha fotos mostrando extensos prejuízos causados à cidade de Hanói e que não
mais que 10% dos alvos foram atingidos.
Achava
que estava praticando um suicídio profissional. Mas o Times em seguida
republicou a matéria. Causou furor. Em seguida, Hersh replicou, contando que
McNamara havia determinado que um círculo de 8 quilômetros em torno de Hanói
não poderia mais ser bombardeado. Estavam confirmadas as reportagens de
Salisbury.
Hersh
soube que o governo estava fabricando armas químicas e biológicas de extermínio
em massa, além de jogar napalm para queimar as florestas no Vietnã. A
justificativa era para fazer frente às armas químicas dos russos, embora não
houvesse indicação de que estes estivessem trabalhando nisso. Descobriu 52
laboratórios em universidades e centros de pesquisa universitários ocupados
nesse projeto, em geral em cidades do interior. Havia perigo de contaminação da
população. Soube da morte de funcionários que foram contaminados e também de um
entregador que entrou num laboratório na hora errada.
Entregou
a matéria para seu editor na AP. Semanas depois, o texto foi devolvido. O
editor argumentou ser longo demais. Hersh levou o material para a revista New
Republic, que estava se tornando conhecida por sua oposição à guerra. Corria o
risco de ser demitido da AP por publicar a matéria em outro veículo. Mas, como
sempre, arriscou. Não houve manifestações de seus chefes. A série de matérias
provocou protestos nas universidades e questionamentos no Congresso. Também foi
convidado a escrever um livro sobre o assunto. Pediu demissão da AP e foi fazer
o que seria seu primeiro livro.
Terminado
o livro, aceitou trabalhar como assessor de imprensa na campanha do senador
Eugene McCarthy à presidência porque ele anunciava que iria acabar com a guerra
no Vietnã.
Foi um
período de atividade intensa, rocambolesca. Hersh descreve de modo eletrizante
o caos que envolve uma campanha e a agitação em que o país estava envolvido em
1968, quando no Vietnã ocorreu a ofensiva vietcongue do Tet que chegou até à
embaixada dos EUA em Saigon, e quando Martin Luther King (abril) e Robert
Kennedy (junho), este pré-candidato à presidência, foram assassinados. E como
tudo isso levou à desistência do presidente democrata Lyndon Johnson de se
candidatar à reeleição. O que favoreceu a eleição do republicano Richard Nixon.
De
volta ao jornalismo, Hersh publica o livro sobre as armas químicas de
destruição em massa, causa repercussão e vira matéria de destaque no Washington
Post. Seis mil ovelhas aparecem mortas na zona rural de Nevada, numa área
próxima a um laboratório de testes ultra secreto do Exército.
Ele
publica uma série de reportagens sobre o perigo da produção dessas armas
químicas e biológicas que estavam sendo produzidas para aplicar no Vietnã, mas
que também eram uma ameaça para a população dos EUA. O debate acaba indo para o
Congresso e toma conta da opinião pública, milhões de pessoas protestam, uma
marcha em Washington reúne 500 mil manifestantes. O governo recua. O presidente
Nixon determina a interrupção do programa de armas biológicas. Hersh se diz
orgulhoso de haver participado. É cada vez mais reconhecido e também detestado.
<><>
My Lai, um vilarejo no Vietnã do Sul
Em
1969, aconteceu algo que ia mudar a vida de Hersh. Ele já sabia que o governo e
o Exército mentiam todo o tempo sobre o Vietnã. Incomodava perceber que os
sucessos na guerra eram avaliados pelo número de inimigos mortos. Foi procurado
por um ativista contra a guerra que lhe falou de um soldado que estava sendo
processado em corte marcial pelo Exército, acusado da morte de 75 civis.
Aqui
começa um momento fascinante temperado pelo faro de repórter com ajuda do
acaso. Fuçando pelo Pentágono e não encontrando informação alguma, cruzou com
um oficial conhecido. Tinha sido ferido no Vietnã, estava mancando, fora
promovido a general, e agora trabalhava no Pentágono. Conversa vai, conversa
vem, pergunta ao general se sabia de alguma chacina. A resposta foi furiosa:
“Você tá me dizendo que alguém que mata bebezinhos e sai por aí dizendo que
está matando vietcongues sabe o que tá fazendo? (…) Esse Calley é um lunático!”
Hersh
controlou seu entusiasmo e sua discordância. Não se tratava de um louco, mas de
uma ação generalizada. E agora ele tinha um nome!
Ao
longo de muitas páginas, Hersh conta como foi a caçada incansável, quase
inacreditável, por um labirinto de dezenas de quartéis do Exército na base de
Forte Bhening até conseguir encontrar, beber, comer com Calley e fazer uma
entrevista exaustiva com ele.
Tinha a
matéria, mas para publicá-la enfrentou uma batalha ainda maior, batendo de
frente com um muro de autocensura. Os grandes jornais e revistas recusavam a
publicação. Foi vendendo o material para jornais menores; o Times de Londres se
interessou. Acontece um debate no Parlamento inglês. Ele dá entrevistas, faz
discursos em universidades e centros de debates.
Aos
poucos, os grandes jornais do país vão entrando no caso. Isso ia acontecendo ao
mesmo tempo que Hersh contatava outros soldados da companhia de Calley que
participaram do massacre. Levou um deles para contar na TV sua participação na
matança. Essa entrevista num programa de grande audiência na CBS News, na
opinião de Hersh, “mudou os Estados Unidos”. Diante das contestações, que são
muitas e poderosas, vai opondo novas informações, novos detalhes confirmados
pelos participantes do horrível acontecimento. Vários repórteres começam a
publicar matérias de outros massacres promovidos pelos soldados americanos no
Vietnã, deixando claro que a matança indiscriminada de civis, mulheres, velhos,
crianças, era a rotina dessa guerra. Nas estatísticas do governo constavam como
vietcongues mortos.
O
movimento contra a guerra cresce no país e repercute em todo o mundo. Torna-se
consenso que os EUA não iriam ganhar. O governo de Nixon fica cada vez mais
impopular e na defensiva.
Hersh
reúne tudo num livro: “My Lai 4: um relato do massacre e sua repercussão”. Em
1970, recebe o Pulitzer, o maior prêmio jornalístico dos EUA. Em seguida,
outros prêmios importantes. Ganha fama e algum dinheiro para comprar uma
pequena casa em Washington. Continua desempregado.
Após
suas matérias sobre My Lai Hersh, é bem visto em Hanói e vê aceito um pedido de
visto que fizera anos antes. Escreve de lá várias matérias para o New York
Times. Contratado afinal pelo Times, acompanha em Paris as negociações entre
EUA e Vietnã que estavam paralisadas. O Vietnã recusa firmemente as propostas
de Nixon-Kissinger. De volta a Washington, descobre que um general punido por
fazer bombardeios em desacordo com ordens superiores na verdade havia recebido
ordens secretas de Nixon e Kissinger.
<><>
Watergate
Havia
dois anos os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein, do Washington Post,
estavam denunciando uma conspiração do governo Nixon-Kissinger. Durante a
campanha eleitoral de 1972, um grupo de cinco funcionários havia invadido o
escritório do Partido Democrata para implantar escutas e espionar. Os culpados
foram descobertos e o processo do escândalo que se chamou Watergate (nome do
edifício) se arrastava. O Times escalou Hersh para entrar no caso. De 19 de
abril a 1º de julho de 1973, ele publicou 42 reportagens com informações
exclusivas que apontavam cada vez mais para o presidente Nixon.
Convidado
para um almoço com um funcionário do FBI, este ficou jogando conversa fora
enquanto Hersh achava que estava perdendo tempo. O homem do FBI disse que ia
ter que sair antes, mas que na cadeira em que estava sentado havia alguma coisa
para ele. O cara foi embora e o repórter pegou um envelope sobre o qual o outro
estivera sentado. Abriu o envelope na redação e havia nada menos do que 16
ordens de Kissinger para grampear telefones de jornalistas e funcionários do
seu próprio gabinete. Avisado de que a matéria iria sair, Kissinger ameaçou
renunciar. Saiu e ele não renunciou. Hersh comentou: “ele mente mais do que uma
pessoa normal respira”.
Além do
Watergate, Hersh tornou públicos outros crimes de Kissinger: mandara bombardear
secretamente o Camboja, era o mandante do grupo de “encanadores” que faziam os
grampos e movia uma frenética guerra clandestina através da CIA contra o
governo de Allende no Chile. Por tudo isso, crescia a oposição na opinião
pública e no Congresso. O governo de Nixon ficava cada vez mais ameaçado de
impeachment. Diante de novos escândalos, sua situação ficou insustentável e
renunciou para fugir do impeachment.
A
reportagem de maior repercussão foi a que revelou que a CIA, criada para atuar
no exterior, também agia dentro dos Estados Unidos e que monitorava muitos
milhares de cidadãos estadunidenses. Também reportou que, desde o governo de
Kennedy, Fidel Castro estava no topo da lista dos inimigos que deviam ser
assassinados.
<><>
Kissinger
Depois
de se demitir do Times Hersh, dedicou-se por quatro anos a escrever um livro
sobre Henry Kissinger. The Price of Power tem 698 páginas em que mostra os
grandes crimes cometidos pela CIA e as forças armadas sob as ordens de
Kissinger no Vietnã, Camboja, Chile etc. E também sua grande habilidade para
não ser incriminado, tanto que não foi condenado. Ao redor dele havia uma
“atmosfera vil, vingativa e paranoica”. Os críticos diziam que o livro era um
amontoado de mentiras, mas, quando convidados a mostrar quais afirmações do
livro eram mentirosas, respondiam que não o haviam lido. Nem Kissinger nem
ninguém moveu processo contra Hersh.
<><>
Israel nuclear
Em
1991, Hersh publica o livro The Sampson Option em que revela ao mundo o apoio
dos EUA na construção da bomba nuclear de Israel, fato que Israel não admite
até hoje. Houve grande repercussão, os judeus se voltaram contra ele. Explicou:
“O que eu quis dizer não era que Israel não devesse ter bombas, mas que o apoio
secreto americano tinha sido descoberto pelo Oriente Médio e transformava em
piada os esforços dos Estados Unidos para impedir a proliferação de armas no
Paquistão e em outras nações com ambições nucleares não declaradas”.
<><>
John Kennedy
Em
seguida, Hersh remexe o passado para escrever o livro O lado escuro de Camelot
sobre o ex-presidente John Kennedy. Camelot foi uma comparação de seu governo
com a corte de Alexandre Magno e os cavaleiros da távola redonda. Com riqueza
de detalhes, Hersh revela os repetidos, mas inúteis esforços do presidente para
assassinar Fidel Castro, por meio da CIA, e usando inclusive o apoio da máfia.
Revela também o apetite sexual de Kennedy. O livro foi um sucesso de vendas,
mas o repórter foi muito criticado. Assassinado em 1963, Kennedy era endeusado
pelo establishment e jogar luz sobre seu lado escuro foi visto como uma
heresia.
<><>
Torres gêmeas e a guerra contra o terror
Depois
do atentado de 11 de setembro de 2001, o projeto do presidente Bush filho era
reorganizar e moldar o Oriente Médio, instalar democracias de estilo liberal
pró-americanas em todos aqueles países. Resultado: as tropas ianques ficaram
enterradas no Afeganistão e, após 20 anos, fizeram uma retirada vergonhosa. No
Iraque, em que pese toda a violência e mortandade, a guerra foi mal e o que se
viu foi uma guerra de guerrilha que não deu sossego para os invasores. Nos dias
atuais, a situação permanece instável e o governo xiita conclama os EUA a se
retirarem.
O
repórter Seymour Hersh desmentiu que Saddam Hussein tivesse armas de destruição
em massa. Adiante, divulgou as barbaridades cometidas pelos EUA, as torturas e
humilhações cometidas contra os presos na prisão de Abu Ghraib, inclusive com
fotos, com grande repercussão. Revelou que os corpos dos prisioneiros mortos
durante interrogatório não eram enterrados, mas destruídos com ácido.
Pelos
anos seguintes, Hersh continuou. Revelou a existência de um grupo de assassinos
que matou muita gente durante o governo de Bush filho. Afirmou que a derrota de
Israel diante do Hezbollah em 2006 foi muito mais séria do que se admitiu.
Obama foi eleito com uma esperança de que as coisas podiam mudar na política
externa, mas foi uma decepção. Mandou mais tropas para o Afeganistão, atacou a
Síria violentamente e montou a farsa da morte de Bin Laden. Aos 80 anos, em
2017, Hersh ainda trabalhava num livro sobre Dick Cheney.
Em
2018, escreveu suas memórias que terminam assim:
“Essa
minha profissão é incrível. Passei a maior parte da minha carreira escrevendo
matérias que questionavam a narrativa oficial, e fui muito recompensado por
isso, tendo sofrido apenas um pouco. Eu não faria nada diferente”.
Atualmente
tem 87 anos.
Fonte:
Por Carlos Azevedo, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário