segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Dismorfia corporal: como deixei de odiar minha aparência e aprendi a me aceitar

Muitos de nós conseguimos encontrar defeitos no que vemos no espelho — mas o ódio intenso que Charlotte sentia pela própria aparência começou a tomar conta da vida dela no início da adolescência.

"Eu acordava às 5h30 para me maquiar, mesmo que o ônibus escolar só passasse às 8h30", conta.

"Eu aplicava a maquiagem compulsivamente, tirava, reaplicava, tirava de novo — tentando deixá-la o mais simétrica e perfeita possível."

Charlotte diz que começou a se isolar, até que não conseguia mais ir à faculdade, a não ser para fazer provas. Ela não foi ao baile de formatura porque não suportava a ideia de ser fotografada.

Por fim, recebeu o diagnóstico de Transtorno Dismórfico Corporal.

Dismorfia corporal é um termo frequentemente usado nas redes sociais para expressar a insatisfação de uma pessoa com o próprio corpo. Mas o diagnóstico do Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) é diferente: ocorre quando a ansiedade em relação à aparência começa a interferir na vida cotidiana, explica Viren Swami, professor de psicologia social da Anglia Ruskin University.

Trata-se de uma obsessão com algum aspecto da própria aparência que outras pessoas consideram normal, mas que, para quem vivencia o transtorno, pode parecer completamente errado, disse Swami ao podcast Complex, da BBC (áudio em inglês).

Entre as características do transtorno estão sofrimento emocional, muito tempo gasto em ruminação e a sensação de não conseguir controlar pensamentos sobre a própria aparência.

O transtorno também pode envolver comportamentos repetitivos, como checar o espelho com frequência ou tocar repetidamente a parte do corpo considerada defeituosa.

"O mundo inteiro da pessoa passa a girar em torno desse aspecto do corpo, e todo o resto meio que vai desaparecendo", afirma.

Swami diz que é muito mais comum mulheres experimentarem insatisfação corporal, mas, no caso do transtorno, não há uma divisão clara entre os gêneros.

Charlotte começou a fazer terapia no serviço local de saúde mental antes de ser internada em uma unidade residencial para transtornos de ansiedade, em Londres.

"Fiz terapia ocupacional durante a internação, como aulas de arte, cerâmica e composição musical — e foi assim que voltei a me conectar com a música", conta.

"Isso me ajudou a canalizar meu perfeccionismo, tirando-o da escuridão e trazendo-o para a luz, dissipando aquela vergonha."

Depois de receber alta, ela passou a compartilhar sua história nas redes sociais na esperança de ajudar outras pessoas.

Swami orienta que quem possa estar sofrendo com o transtorno procure inicialmente apoio de um clínico geral.

E, se você acha que alguém próximo pode estar enfrentando o TDC, ele ressalta a importância de ter paciência e empatia. É comum que essas pessoas busquem reafirmação para seus pensamentos diariamente, explica.

"Em vez de encerrar essas conversas ou reagir com raiva ou frustração, é importante reconhecer que o TDC é um transtorno de saúde mental que não desaparece sozinho e que, sem ajuda profissional, muitas vezes pode piorar."

<><> 'Eu queria pedir desculpa por ser feia'

Tilly também desenvolveu dismorfia corporal no início da adolescência.

"Eu sentia vontade de pedir desculpa às pessoas que passavam por mim por eu ser tão feia", diz. "Eu nunca conseguia olhar para um espelho em público."

Ela evitava roupas justas e achava "excruciante" se arrumar para festivais e festas.

"Isso desencadeava uma espiral negativa da qual eu não conseguia me recuperar a tempo para o evento."

No começo, ela achava que se tratava de baixa autoestima e depressão.

"Eu não tinha consciência para perceber a conexão entre os diferentes tipos de experiências, que na verdade estavam todas relacionadas à minha aparência", afirma.

Os sintomas da dismorfia corporal começaram a piorar quando ela entrou na universidade para estudar design de moda, já que passou a se comparar com pessoas que trabalhavam na indústria.

Isso levou a pensamentos sombrios e angustiantes sobre sua aparência, incluindo sentimentos persistentes de não merecimento.

Ao longo dos anos, Tilly consultou vários terapeutas, mas nenhum era especializado em imagem corporal.

Ela começou a fazer acompanhamento com uma psicoterapeuta do NHS (o sistema p[ublico de saúde do Reino Unido), que identificou que ela tinha dismorfia corporal.

Tilly conta que entrou para um grupo de apoio da BDD Foundation e também passou a trabalhar com uma terapeuta particular para ajudar a aliviar os sintomas.

Ela recomenda que qualquer pessoa que esteja apresentando sintomas de dismorfia corporal pesquise sobre o transtorno antes de conversar com um médico sobre suas preocupações.

"Isso pode fazer com que as pessoas consigam pedir o tipo certo de ajuda com mais confiança", acrescenta.

Agora, Tilly consegue ter mais controle sobre os próprios pensamentos.

"Se estou me olhando no espelho para me arrumar e não gosto do que vejo, se começo a sentir aquela sensação de pânico chegando, consigo interromper isso imediatamente", diz.

"A forma como eu me vejo, dependendo do dia ou do meu humor, não é como as outras pessoas me veem — elas apenas me veem como Tilly."

Ela afirma que passou por uma mudança completa de mentalidade.

"Eu reencontrei a alegria na minha vida e, pela primeira vez desde a infância, senti amor por mim mesma."

Charlotte quer que as pessoas saibam que "há esperança, é possível se recuperar".

"Hoje me sinto realizada, feliz e em paz. Eu realmente amo a minha vida agora — e nunca imaginei que chegaria até aqui."

•        Dismorfia corporal: 'preocupação com meu aspecto físico não me deixava viver'

Desde pequeno, onde quer que fosse, sempre me comparavam com minha irmã, loira de olhos azuis. Eu sou moreno.

"Por que ela é tão linda? E o que aconteceu com você?", as pessoas me diziam.

Esses comentários eram gracejos, feitos de brincadeira, mas para mim ficaram gravados, de tanto que foram repetidos. Ali, meu transtorno começou a criar forma.

Este é o relato de Carlos*, que sofre de transtorno dismórfico corporal, mas, como muitos outros pacientes, ele somente soube disso anos depois de manifestar os primeiros sintomas.

Também conhecida como dismorfia corporal, esse transtorno está incluído entre os transtornos obsessivo-compulsivos nas principais classificações médicas.

As pessoas que sofrem do transtorno não conseguem deixar de pensar em um aspecto que consideram um defeito físico - algo que frequentemente as outras pessoas nem chegam a ver - e tratam de escondê-lo ou modificá-lo de forma repetida e obsessiva. Com isso, eles vivem em um estado de ansiedade permanente, com pensamentos intrusivos constantes e comportamentos de difícil controle.

Sua preocupação com a aparência e seu comportamento tentando escondê-la ou alterá-la ocupam tanto tempo que chegam a prejudicar suas atividades diárias, como suas relações pessoais e familiares até o seu desempenho profissional.

Foi o que aconteceu com Carlos. Ele prossegue com seu relato:

Comecei a me preocupar muito com meu aspecto físico. Primeiro, com o peso. Com 16 anos de idade, eu estava meio gordinho, de forma que entrei em uma academia e comecei a cuidar muito da alimentação.

Não cheguei a sofrer anorexia - porque, na verdade, eu comia - mas fazia tantos exercícios que cheguei a perder 10 kg em duas semanas.

"É o bastante, você já emagreceu muito", as pessoas me diziam. Mas eu não via isso. Eu tinha a falsa ideia de que permanecer magro era tudo o que importava.

E havia mais: eu achava que as pessoas mais magras e com saúde têm melhores oportunidades na vida. Sei que não é assim, mas era isso que eu pensava.

Naquela época, minha relação com a família começou a piorar. Eles viam que eu estava mal e tentaram me avisar de muitas formas, até que um dia me disseram que eu precisava de ajuda profissional. Eu continuava não admitindo, mas naquela época já não conseguia ir a festas, aniversários... porque me sentia mal.

A preocupação com o peso foi se alterando para outros "defeitos". Fiquei obcecado pelo meu nariz. Eu o achava grande, largo e feio. Eu me olhava no espelho e tirava fotos de todos os ângulos possíveis para comprovar como eu me via. E poderia passar muito tempo olhando aquelas imagens.

Depois, minha atenção se voltou para a assimetria, tanto do rosto quanto do corpo. Eu me analisava detalhadamente, me dissecava. Eu me concentrava em cada parte do corpo e não percebia o nível de perfeccionismo e obsessão pelas minhas observações.

Tanto é verdade que, se ficasse com alguém, eu me arrumava e me trancava por horas no banheiro para gravar minhas imagens e verificar minha aparência. Eu precisava ter controle sobre como me via. E, se eu não gostasse do que visse, minha autoestima caía e provavelmente nem sairia.

O mesmo acontecia quando eu sabia que alguém iria publicar fotos da festa do dia anterior no Instagram ou no Facebook. Eu não queria nem ver as fotos. Não queria enfrentar isso. Sabia que veria muitos defeitos em mim e não conseguiria aguentar. Isso me gerava muita ansiedade e comecei a me isolar.

Até que, em um momento, eu disse a mim mesmo que não aguentava mais. Eu era apenas um adolescente e tinha passado a vida me condicionando, de forma que decidi recorrer a um profissional. Fui a um médico que me encaminhou a outro, que me deu medicação: antiobsessivos e antidepressivos.

O transtorno dismórfico corporal foi descrito pela primeira vez em 1891, pelo médico italiano Enrico Morselli. Segundo os especialistas que o estudaram, ele afeta de 1,7 a 2,9% da população, tanto homens quanto mulheres.

Mesmo assim, ele passa despercebido com frequência, até pelos especialistas, e é subdiagnosticado ou mal diagnosticado.

Devido às suas comorbidades, os pacientes são frequentemente considerados esquizofrênicos ou diagnosticados com algum transtorno alimentar, segundo Tania Borda, psicóloga argentina especializada nesse tipo de transtorno de saúde mental, autora do livro "Trastorno Dismórfico Corporal: un desorden complejo" ("Transtorno dismórfico corporal: um distúrbio complexo", em tradução livre).

Carlos prossegue:

Inicialmente, senti uma grande melhora, mas os medicamentos causam um sobe e desce. Às vezes me sentia bem, outras muito mal.

Precisei ir mudando os medicamentos, já que a obsessão pelo corpo, "o que vão dizer", "como eles irão me ver", era claramente mais forte que os comprimidos.

Não se sabe especificamente o que causa o transtorno dismórfico. Pode ser o resultado de uma combinação de problemas, como antecedentes familiares, anomalias do cérebro e avaliações ou experiências negativas sobre o corpo ou a imagem que se tem de si próprio, segundo a organização norte-americana Clínica Mayo.

Mas os especialistas concordam que ele começa a se manifestar na adolescência, que não melhora sozinho e, se não for tratado, pode desencadear depressão grave e até pensamentos e comportamentos suicidas.

"É um dos transtornos com maior índice de tentativas de suicídio da psicopatologia", afirma Tania Borda, que também é diretora clínica do BioBehavioral Institute de Buenos Aires, na Argentina.

Já me haviam diagnosticado com transtorno dismórfico corporal e comecei a fazer terapia. Coincidiu com meu pior momento. Eu não saía de casa. Não fazia nada.

Eu tinha a autoestima tão baixa, estava tão deprimido e com tanta ansiedade que qualquer coisa - ouvir música, ver um filme - me fazia chorar. Eu estava em um buraco tão fundo que não aguentava nem isso.

O que eu fazia era acordar tarde. Quando você está deprimido, dormir é uma boa escapatória. Eu me levantava às 10 horas da manhã e dormia de novo até o meio-dia. Comia e me olhava no espelho. E assim passava horas, o dia inteiro, dormindo e levantando-me para olhar no espelho, até que os meus pais me tiraram do quarto.

Depois de superar aquele período, que durou cerca de um mês, a terapia prosseguiu avançando lentamente, com altos e baixos. Às vezes, eu contava as coisas, outras não... e, para progredir, é preciso tirar o que você tem dentro de si. Você precisa ser sincero com o profissional. Não pode dizer que está bem quando claramente não está.

Eu seguia sofrendo ataques de ansiedade muito fortes. Acontecia em determinadas situações, como em festas, por exemplo. A ansiedade me dominava porque eu não sabia como os outros estavam me vendo. E ativava esse pensamento de "não sei se irão me aceitar, se vão gostar de mim".

Era como se eu estivesse amarrado a esse pensamento, como se ele me perseguisse e eu precisasse sair correndo. E a primeira coisa que fazia era ir ao banheiro. Resolvia olhando-me no espelho ou tirando uma foto minha. Isso me acalmava.

Fiquei em terapia de manutenção depois de dois anos de tratamento, mas tive recaídas e voltei no final do ensino médio.

Melhorei bastante. Fiquei animado a fazer coisas que antes não fazia: convidar alguém para sair, ir a uma festa onde não conhecia ninguém ou me vestir com uma determinada roupa.

Quando comecei a me sair bem em todos os aspectos, fui trabalhar. Isso foi um gatilho porque é muito social: as reuniões são muito frequentes e você acaba se abrindo com as pessoas.

Tirei definitivamente o foco sobre o que vão dizer e deixei de colocar o aspecto físico em primeiro lugar.

O transtorno dismórfico corporal faz com que você coloque a sua aparência acima de tudo: dos amigos, das relações, de como você é. Você coloca o aspecto físico em um pedestal e pensa que as pessoas lindas são as únicas que triunfam na vida. Até que você se dá conta de que não é o mais importante e observa que os demais o aceitam mesmo que você não seja o Ken (o namorado da boneca Barbie).

Agora, eu me sinto bem. Eu sempre tenho alguma preocupação relativa ao meu aspecto físico, mas já não é como antes. Aquilo não me deixava viver.

Acredito que seja parte da minha personalidade, de como sou, de como vejo as coisas e o mundo. A diferença é que antes era uma trava, uma parede enorme que eu não conseguia ultrapassar. Agora, é uma preocupação que permanece presente, mas me deixa viver.

*Nome alterado para proteger identidade.

 

Fonte: BBC News

 

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