Qual
a origem da 'relação especial' entre Cuba e México, que vem sendo colocada à
prova por Trump
A histórica relação entre México e Cuba, que atravessou diferentes tensões desde a Revolução Cubana de 1959, enfrenta neste ano um teste sem
precedentes.
Os Estados Unidos lançaram uma política agressiva para isolar o
governo de Cuba, com uma ordem direta do presidente americano, Donald Trump,
promulgada no fim de janeiro, para sancionar países que enviem petróleo a
Cuba."Há um embargo. Não há petróleo, não há dinheiro, não há nada",
disse Trump na segunda-feira (16/2), ao afirmar que seu governo busca um
"acordo" com sua contraparte cubana, sem detalhar qual é o objetivo.
Depois de pressionar o governo da Venezuela
no início do ano, o foco regional dos EUA passou a ser Cuba, um país que há
mais de seis décadas se mantém como antagonista dos EUA sob o governo dos
irmãos Fidel e Raúl Castro e do herdeiro político deles, Miguel Díaz-Canel. O México agora se encontra no centro da disputa.
A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum,
criticou abertamente a imposição de sanções dos EUA aos envios de petróleo a
Cuba, que definiu como "bastante injusta", mas precisou buscar
equilíbrio entre sua cooperação com Cuba e a sua relação com os EUA. Sheinbaum
optou por aumentar os envios de ajuda humanitária em solidariedade à população
cubana, ao mesmo tempo em que cancela o carregamento de mais navios com
combustível destinado à ilha, como vinha ocorrendo nos últimos anos. "Não
é de agora, é de sempre... Sempre houve apoio a Cuba desde sua Revolução",
justificou Sheinbaum há alguns dias, ao lembrar que os governos mexicanos, há
mais de seis décadas, seja de esquerda, centro ou direita, mantiveram
cooperação com a ilha.
Para especialistas, o cenário atual
representa um grande teste para a presidente e para a "relação
especial" entre seu país e a ilha. "Hoje o México tenta um exercício
de política externa, não apenas de solidariedade, mas estratégico, no qual o
México está pagando o custo político, diplomático e monetário para desempenhar
um papel no presente e no futuro próximo de Cuba", afirma Juan Pablo Prado
Lallande, analista de relações internacionais. "Tem que se pagar um custo,
e esse custo é manter essa ajuda humanitária para que o México preserve sua
capacidade de negociação, conquistada ao longo de décadas, em relação a Cuba e
seu futuro", acrescenta Prado Lallande, em conversa com a BBC News Mundo,
serviço em espanhol da BBC.
<><> O acordo que sustentou as
relações
Desde a vitória da Revolução Cubana, em 1º de
janeiro de 1959, as relações entre Cuba e EUA se deterioraram rapidamente, até
o ponto de ruptura representado pela fracassada invasão da Baía dos Porcos, organizada nos EUA, em 1961. Naquela época, os EUA
adotaram uma política anticomunista ativa na região — em meio à consolidação da
Guerra Fria com a União Soviética — e exerceram influência para que governos da
América Latina (e de outras regiões do mundo) rompessem laços com Cuba. Mas o
México, vizinho geográfico estratégico, não apenas reconheceu o governo
revolucionário de Cuba, como foi o único país a não romper relações com a ilha
na época, mesmo diante de pressões explícitas, como as registradas em assembleias
da Organização dos Estados Americanos (OEA) nos primeiros anos da década de
1960.
Prado Lallande afirma que o México justificou
a decisão com base em seus princípios pacifistas de política externa, expressos
na Doutrina Estrada, mas também se posicionou como país mediador entre Cuba e
os EUA, obtendo um acordo trilateral, não divulgado publicamente, que atendia
ambas as partes. "Por um lado, os EUA 'permitem' ao México manter uma
política soberana em relação a Cuba, de apoio político, diplomático, de
cooperação e assim por diante. Por outro lado, o mais interessante é que, após
a Revolução Cubana, México e Cuba concordaram que Cuba não promoveria
revoluções no México, como fez em outros países da América Central, da América
do Sul e da África, em troca de que o México apoiasse o governo de Fidel Castro em cenários internacionais e no âmbito global. Uma
espécie de olho por olho [isto por aquilo]", afirma o analista. Os EUA,
por sua vez, zelaram para que não houvesse influência comunista em sua
fronteira direta com o México, ao mesmo tempo em que combatiam os grupos
guerrilheiros de esquerda surgidos na América Central e na América do Sul.
Ao governo mexicano daquela época, liderado
por Adolfo López Mateos, do Partido Revolucionário Institucional (PRI) e de
perfil nacionalista, interessava apresentar-se aos mexicanos como um Estado que
tomava suas próprias decisões, sobretudo diante dos EUA e de seu histórico de
influência hegemônica sobre o país. Mas de maneira menos evidente, o acordo
também permitia evitar a influência cubana sobre os nascentes movimentos
revolucionários e esquerdistas de orientação socialista no território mexicano
surgidos na década de 1960, alguns deles inspirados na ilha.
Na verdade, Fidel Castro e seus companheiros
organizaram a sua revolta armada quando estavam no México, entre 1955 e 1956. Por
outro lado, a nível cultural, tanto México como Cuba passaram a manter um
intercâmbio intenso, principalmente na música, no cinema e na literatura. "Historicamente,
houve uma proximidade a nível social entre México e Cuba. Existem afinidades
históricas, por proximidade cultural e geográfica, e um passado comum de
colonialismo espanhol", afirma Prado Lallande. "E existem fortes
laços sociais entre mexicanos e cubanos, e vice-versa, sobretudo de orientação
de esquerda, seja pessoal ou de partidos, sindicatos e organizações sociais.
Historicamente, viram Cuba como uma referência."
<><> Cooperação e desacordos
Os presidentes do México na segunda metade do
século 20 mantiveram boas relações com Fidel Castro e consolidaram acordos de
intercâmbio sob o marco do pacto firmado na década de 1960, já que interessava
aos EUA ter, nos mandatários mexicanos, um canal de escuta na ilha. Adolfo
López Mateos, Gustavo Díaz Ordaz, Luis Echeverría Álvarez, José López Portillo
e Miguel de la Madrid foram colaboradores da CIA (a agência de inteligência dos
EUA) entre 1960 e 1994, como foi revelado posteriormente, quando o sigilo foi
retirado de documentos secretos antigos. "Durante o período do PRI",
explica Prado Lallande, "houve iniciativas de cooperação em diferentes
áreas: técnica, científica, tecnológica, cultural e educacional, para vincular
oficialmente os dois países". O colapso da União Soviética representou um
duro golpe para Cuba, que perdeu o apoio da potência rival dos EUA. Ainda
assim, contou com o apoio do México.
Na década de 1990, o presidente Carlos
Salinas de Gortari, político de orientação neoliberal e distante da esquerda,
preservou a cooperação econômica quando a ilha enfrentava escassez de alimentos
e de mantimentos no chamado "período especial".
Castro compareceu pessoalmente à posse de
Salinas, que enfrentava acusações de fraude eleitoral, gesto que contribuiu
para legitimar o governo do mexicano. E o México também passou a enviar
petróleo para a ilha, reflexo de como ambos os governos se beneficiavam da
relação política. Mas, com a saída do PRI da Presidência do México, em 2000, as
relações entre México e Cuba esfriaram de forma significativa sob os governos
de Vicente Fox Quesada e Felipe Calderón Hinojosa, ambos do direitista Partido
Ação Nacional (PAN). O episódio conhecido como "Fidel, comes e te vas"
("Fidel, coma e vá embora", em tradução livre) evidenciou esse
distanciamento: Fox convidou Castro para a Conferência Internacional sobre
Financiamento para o Desenvolvimento da Organização das Nações Unidas (ONU),
realizada no México, mas pediu pessoalmente ao líder cubano que deixasse o
evento após o almoço, de forma discreta, para evitar conflitos com outro
convidado de destaque, o então presidente dos EUA, George W. Bush.
A conversa foi gravada e divulgada por Cuba,
o que provocou forte irritação no governo mexicano. "Não houve rompimento
de relações, mas houve uma crise", recorda Prado Lallande. Mesmo com as
relações abaladas, em parte devido às críticas do governo mexicano à falta de
democracia e de direitos humanos na ilha, tanto Fox quanto Calderón realizaram
visitas a Cuba. O retorno do PRI à Presidência, com Enrique Peña Nieto
(2012-2018), representou um novo entendimento, a ponto de o México perdoar uma
dívida superior a US$ 350 milhões (cerca de R$ 1,83 bilhão) referente a envios
de petróleo a Cuba. "O objetivo do México era não perder o que havia sido
conquistado. Não perder o capital político investido em Cuba em termos do
relacionamento histórico em favor do respeito mútuo, respeito às
soberanias", afirma Prado Lallande. E acrescenta: "O país queria uma
presença política e geoestratégica no Caribe, que é a terceira fronteira do
México. E Cuba é a maior ilha das Antilhas, portanto é uma referência
obrigatória na política externa do México para qualquer governo, de esquerda ou
de direita."
Embora a relação entre México e Cuba sempre
tenha sido justificada na política externa de cooperação consagrada na
Constituição mexicana, a promoção dos direitos humanos ou da democracia, que
também são princípios do Estado mexicano, não foi prioridade durante os
governos do PRI. Prado Lallande considera que isso se explica porque "para
o PRI, que não tinha sensibilidade democrática, esse tema não gerava problemas,
desafios ou contradições". "O PRI passou de um partido com
antecedentes de esquerda a se reorientar, ao longo do tempo, política e
ideologicamente. Um partido muito adaptável e pragmático. Em sua relação com
Cuba, não teve conflito nesse sentido." No entanto, os presidentes Carlos
Salinas e Ernesto Zedillo realizaram os primeiros contatos conhecidos com
grupos da dissidência cubana, assim como Vicente Fox e Felipe Calderón, o que
tensionou as relações com o presidente Fidel Castro.
<><> Novo impulso no obradorismo
A chegada do primeiro governo de esquerda ao
México, em 2018, com Andrés Manuel López Obrador, representou um novo impulso à
relação com Cuba, então sob o mandato de Miguel Díaz-Canel. López Obrador
expressava abertamente sua admiração pelos cubanos "por sua arrogância de
se sentirem livres" diante dos EUA e criticava as políticas de embargo
econômico dos EUA sobre a ilha: "Não é mesquinha essa política
medieval?", questionou o presidente mexicano em 2022.
Durante o seu mandato, López Obrador reativou
os envios de petróleo a Cuba e firmou acordos que incluíram desde a chegada de
médicos cubanos para atuar em clínicas remotas no México até a compra de
vacinas durante a pandemia de covid-19 e a impressão de livros didáticos
cubanos em gráficas mexicanas. Prado Lallande avalia que, a partir de então,
tornou-se evidente a diferença entre a cooperação "horizontal"
mantida nos governos do PRI com Cuba, com intercâmbios de ambas as partes, e a
assistência "vertical" iniciada no governo López Obrador e mantida
pela presidente Claudia Sheinbaum desde 2024."Diante do agravamento da
situação cubana, no plano político e social, e considerando a força do
presidente López Obrador e sua visão de um governo assistencialista, o México
estendeu apoio a Cuba não propriamente como cooperação, mas sobretudo por meio
de uma relação de caráter assistencial e paternalista", afirma o
especialista.
A empresa estatal Petróleos Mexicanos (Pemex)
passou a vender petróleo a Cuba "em termos muito generosos", afirma
Prado Lallande. Embora não tenham sido divulgadas informações detalhadas sobre
vendas diretas à ilha, o atual diretor da Pemex, Víctor Rodríguez Padilla,
informou no início de fevereiro que o montante comercializado alcançou US$ 496
milhões (cerca de R$ 2,59 bilhões, pela cotação atual), com contrato em vigor
desde 2023. Ele relativizou as críticas da oposição ao afirmar que o volume
representava menos de 0,1% da produção mexicana.
Segundo os relatórios mais recentes
disponíveis da Pemex, de janeiro a setembro de 2025 o México enviou 17.200
barris de petróleo por dia, o equivalente a 3,3% das vendas externas do país. Questionado
por jornalistas, Padilla evitou informar quanto é destinado à ilha em termos de
assistência direta, mas declarou que "é muito mais por contrato do que por
ajuda humanitária".
A partir da ameaça tarifária de Trump, no
entanto, o México passou a enfrentar um cenário sem precedentes, no qual se viu
obrigado a deixar de cooperar livremente com Cuba. Sheinbaum criticou a decisão
dos EUA, que definiu como "muito injusta" por afetar diretamente a
população ao limitar a produção de energia elétrica e paralisar, de forma
geral, as atividades na ilha."Pode-se estar de acordo ou não com o regime
do governo de Cuba, mas a população nunca deve ser afetada. Portanto, vamos
continuar apoiando e seguimos realizando todas as ações diplomáticas
necessárias para recuperar o envio de petróleo, porque não se pode sufocar um
povo assim, dessa maneira. É muito injusto, muito injusto", afirmou a
presidente mexicana.
O México já enviou dois navios carregados com
alimentos e itens de higiene pessoal para a ilha, mas não enviou mais petróleo
enquanto mantém conversas com o governo dos EUA sobre o tipo de sanções que
poderão ser impostas caso isso ocorra.
"Por enquanto, não vamos enviar
combustível", afirmou Sheinbaum. O antigo pacto que perdurou por décadas
foi deixado de lado: "O fluxo de cooperação para Cuba nunca havia sido
interrompido por forças externas. É uma mudança muito importante, estrutural,
que o México tenha sido obrigado a parar. E, diante disso, recorre ao plano B,
que é oferecer ajuda humanitária", diz Prado Lallande. Embora o México já
não mantenha um intercâmbio direto com uma Cuba que não pode oferecer algo em
troca, a lógica de preservar o apoio à ilha continua sendo central, avalia o
especialista. "É preciso pagar um custo, e esse custo é manter essa ajuda
humanitária para que o México retenha sua capacidade de negociação, conquistada
ao longo de décadas, em relação a Cuba e seu futuro", explica. "É um
exercício estratégico de política externa. Independentemente do partido
político que governe o México, Cuba é um objetivo de Estado pelo peso político
da ilha, sua proximidade geográfica, sua relevância nas relações internacionais
e na política em relação aos EUA", prossegue. "A linha vermelha — que
o México não está disposto a cruzar — seria deixar de fazer política externa em
relação a Cuba."
¨
Como cubanos estão
vivenciando pior racionamento de combustível em décadas
Elizabeth Contreras* (nome fictício) retira o
carvão da cozinha improvisada sobre blocos de cimento no pátio de sua casa. Na
grelha há pedaços de frango que irão alimentar três famílias do bairro onde ela
mora, em um município da periferia a sudoeste da capital de Cuba, Havana. "Muita gente vem cozinhando assim há dias,
pois a panela elétrica só pode ser usada sem corrente e temos pouco gás",
conta ela à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC. "Os vizinhos se
ajudam uns aos outros nesta incerteza", destaca a aposentada de 68 anos. Cuba
sofre uma crise de falta de combustível e energia elétrica, que vem se
agravando desde meados de 2024. Mas, neste ano de 2026, a escassez se aproxima de um
abismo imprevisível. "Vamos viver tempos difíceis", declarou o
presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, em discurso público no último dia 5/2, ao
anunciar um plano extraordinário de economia de energia.
Após a captura do então
presidente venezuelano Nicolás Maduro em
Caracas, no dia 3 de janeiro, o governo dos Estados Unidos publicou várias
medidas destinadas a dificultar o
acesso da ilha ao combustível. Em meio a
essa crise de combustíveis, uma refinaria de petróleo em Havana pegou fogo
recentemente. A causa do incêndio está sendo investigada. Como parte dessas
medidas, o presidente americano Donald Trump ameaçou impor tarifas de
importação aos países que enviarem petróleo para Cuba. Washington se assegurou
de evitar que a ilha receba petróleo da Venezuela (o principal aliado de Havana
por duas décadas) e aumentou a pressão para reduzir o combustível proveniente
do México. Desde então, o México afirmou que continuaria apoiando Cuba por
razões humanitárias. Na quinta-feira (12/2), Cuba recebeu dois navios
carregados com pouco mais de 800 toneladas de suprimentos alimentares enviados
pelo governo mexicano como ajuda humanitária para a população civil.
Segundo o Ministério das Relações Exteriores
do México, os dois navios partiram do porto de Veracruz em 8 de fevereiro,
poucos dias depois da ameaça de Trump. Mais 1.500 toneladas de alimentos serão
enviadas em carregamentos futuros, segundo a presidente Claudia Sheinbaum. Ela
não disse, contudo, se manterá os envios de petróleo ou se se limitará a enviar
alimentos e outros suprimentos essenciais. O governo brasileiro também avalia
enviar carregamentos de ajuda humanitária a Cuba, como remédios e alimentos. Ainda não há, contudo, uma
definição sobre qual o volume dessa ajuda, quando ela será enviada e nem mesmo
de que forma essa ela chegaria ao país. A essa situação se unem problemas
crônicos de geração de eletricidade, causados por deficiências de produção,
usinas termoelétricas obsoletas e falta de divisas para importar combustível no
mercado internacional. O governo de Havana atribui esse cenário ao embargo
econômico imposto pelos Estados Unidos a Cuba desde os anos 1960, após o
triunfo da revolução socialista de Fidel Castro (1926-2016) e a nacionalização de indústrias e
outras empresas americanas no país.
<><> Mais grave que o 'Período
Especial'?
A situação vivida atualmente por Cuba traz
recordações do passado para alguns moradores da ilha. Nos anos 1990, Cuba
dependia majoritariamente da União Soviética (1922-1991), seu principal aliado político e
comercial. Após a queda da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, seu
nome oficial), os cubanos sofreram uma grave crise, que ficou conhecida como
"Período Especial". E, para muitos (incluindo Contreras), a ilha
nunca chegou a superar por completo aquele período, tendo passado "por momentos
melhores e outros piores". "Mas,
agora, me parece mais grave", opina ela.
Com o colapso do comércio entre Moscou e
Havana, no início dos anos 1990, os cubanos se viram forçados a adotar um
racionamento extremo de recursos e alimentos. Eles cozinharam com carvão, como
fazem agora, sofreram problemas de transporte e conviveram com longos apagões
de várias horas. Contreras recorda que, "de forma parecida com três
décadas atrás, sofremos cortes de eletricidade de até 18 horas nas últimas
semanas, em mais de uma ocasião".
O plano de economia anunciado pelo governo
cubano inclui o racionamento da venda de combustível, seu uso para atividades
econômicas imprescindíveis e serviços essenciais, além de priorizar o trabalho
à distância e implementar aulas semipresenciais nas universidades. Em seu
discurso, Díaz-Canel resgatou o conceito de "opção zero", um plano de
sobrevivência criado nos anos 1990, frente a um cenário de "zero
petróleo". O professor de estudos cubano-americanos Michael Bustamante, da
Universidade de Miami, nos Estados Unidos, destaca que, em termos comparativos,
o PIB de Cuba hoje é menos frágil que na década de 1990. "Entre 1991 e
1994, o PIB desabou em mais de um terço", explica o acadêmico. "Da
pandemia para cá, calcula-se uma deterioração de cerca de 11%. Não há a mesma
magnitude."
Mas Bustamante compreende por que muitos
acreditam que a crise atual é mais grave. "A economia cubana nunca se
recuperou totalmente do Período Especial. E, embora o colapso atual seja
percentualmente menor, para muitos parece ser pior porque se parte de uma
situação que, por si só, já é delicada", prossegue o professor.
Bustamante observou em sua última viagem a
Cuba, em 2023, que os cubanos sentem que, nos anos 1990, a crise atingiu a
todos por igual, enquanto hoje se notam
disparidades. "Depois do surgimento de lojas
privadas, bem sortidas, quem tiver dinheiro pode conseguir coisas",
detalha ele. "Pode-se imaginar que isso aliviaria a crise para algumas
pessoas, mas tenho a sensação de que existe uma desigualdade galopante, que
pouco tem a ver com o vivido nos anos 1990."
<><> Costume e criatividade
Dois testemunhos fornecidos à BBC News Mundo
indicam que, em meio à crise, ainda se nota certa normalidade nas ruas. "Vejo
Cuba [da mesma forma] como algumas semanas atrás", contam duas mulheres,
em mensagens de voz. "Não há fogueiras nas ruas e vimos muita gente fora
de casa, fazendo fila nos caixas automáticos, e muito trânsito. Ainda não vi a
'era das cavernas' que muitos preveem." O certo é que, seja por costume ou
por criatividade, esta situação encontra muitas pessoas já prevenidas.
Uma usuária cubana do TikTok,
@darlinmedina93, explicou na sua conta como cozinhar com lenha ou lavar roupa
nos rios. "Sei que você vai me dizer que a cozinha a lenha é muito rica
[...], mas não é fácil, meu amor, precisar se empenhar todo dia para cozinhar
com carvão, lenha, ver sua casa cheia de fuligem e você sufocando com a
fumaça", descreve ela em um dos seus vídeos. Jennifer Pedraza*,
trabalhadora e estudante de 34 anos, reúne "lâmpadas, ventiladores e
luminárias recarregáveis, além de carregadores portáteis". "Também
acumulo água, que está faltando", conta ela à BBC.
Pedraza e Contreras, de fato, observam
redução do tráfego nos últimos dias. Imagens captadas por agências de notícias
mostraram importantes avenidas de Havana vazias no último domingo (8/2), como a
Avenida del Malecón, normalmente uma vias de maior tráfego da capital cubana. "Só
rezo para não ficar doente, porque fico apavorada em pensar como poderei me
mover", afirma Contreras. Esta questão afeta menos Pedraza, pois ela mora
perto do seu trabalho. Mas, recentemente, ela "deixou de fazer um exame na
universidade" porque estuda longe e "não tinha como chegar".
Sua principal preocupação é seu filho de nove
anos de idade. "Na escola, quase nunca há eletricidade", ela conta.
"E, quando ele sai, precisa revisar e fazer tarefas no escuro ao chegar em
casa, onde também não há energia elétrica." "Ele também não pode ver
desenhos animados nem filmes, nem usar muito o telefone quando não há luz ou
internet. É complicado para uma criança ficar o tempo todo às escuras."
A situação é grave, mas não é crítica para
todos os cidadãos contatados pela BBC News Mundo. Vários deles contam com
familiares no exterior que enviam remessas de dinheiro, alimentos e recursos,
ou têm emprego por conta própria. Mas aqueles que não contam com estas
possibilidades lutam com um salário mensal médio de 6.830 pesos cubanos (US$ 14
pelo câmbio informal, cerca de R$ 73), segundo dados de novembro do Escritório
Nacional de Estatísticas e Informações da República de Cuba. Uma garrafa de
óleo custa cerca de US$ 2,50 (R$ 13) e uma caixa com 30 ovos, quase US$ 6 (R$
31), segundo Pedraza. Só aqui, já se vai mais da metade da receita oficial.
<><> Efeitos incertos
Após a captura de Maduro, Donald Trump e seu
secretário de Estado, Marco Rubio (de origem cubana), começaram a pressionar o
governo da ilha. Não se sabe ao certo se, como no caso da
Venezuela, eles buscam forçar uma mudança de comando, após mais de 60 anos de
um sistema comunista com um único partido. Antes das pressões pelo petróleo,
Trump já havia incluído novamente Cuba na lista de países patrocinadores
do terrorismo e revertido muitas das medidas de
abertura tomadas por Washington em 2015, no final do governo Barack Obama
(2009-2017).
No seu discurso de 5 de fevereiro, Díaz-Canel
garantiu que "Cuba está disposta a um diálogo com os Estados Unidos sobre
qualquer assunto", mas "sem pressões".
A história registra que as medidas dos
Estados Unidos contra a ilha pouco serviram para este tipo de aproximação. "A
asfixia econômica dos Estados Unidos em relação a Cuba nunca funcionou",
afirma Bustamante. "Ela empobreceu a população, que é muito mais
prejudicada que o governo. Não serviu para negociar a gestão econômica e
política da sociedade cubana." O professor acredita ser possível a
repetição desta história de pressão que não chega a lugar nenhum, mas, para
ele, os Estados Unidos têm hoje mais cartas sobre a mesa. "A questão é se
Washington forçará uma crise humanitária que provoque uma revolta social e
justifique uma intervenção militar ou se o governo cubano cederá ou apostará em
aguentar até as eleições de meio de mandato, esperando que Trump perca capital
político", analisa Bustamante.
Estas teorias encontram ressonância entre a
população cubana. "Há quem comente se aqui pode ocorrer o mesmo que na
Venezuela, mas ninguém gosta de ouvir falar em balas e bombas", comenta
Contreras. A sensação de que "algo vai acontecer" é compartilhada
entre os cubanos, dentro e fora do país. Mas é difícil prever o que será esse
"algo", depois de décadas de impasses políticos entre Washington e
Havana.
* Os nomes das pessoas que ofereceram seus
testemunhos foram alterados para protegê-las.
Fonte: BBC
News Mundo

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