segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Os dilemas da política externa de Trump expostos pela tensão com o Irã

O presidente dos Estados UnidosDonald Trump, deu mais um ultimato ao Irã na quinta-feira (19/2).

O anúncio ocorreu durante a primeira reunião do Conselho de Paz, a coalizão formada por Trump para estabilizar o Oriente Médio, a mesma região onde ele poderá mergulhar em breve em uma nova guerra.

A ironia da convocação de paz realizada simultaneamente com a ameaça de ações militares destacou os impulsos divergentes que norteiam a política externa de Trump, durante seu segundo mandato.

O ponto em que esta contradição pode ser observada mais claramente talvez seja o impasse entre Washington e Teerã.

A tensão entre os dois países vem se intensificando rapidamente e, agora, ela poderá levar à maior campanha aérea dos Estados Unidos nos últimos anos.

Trump declarou que prefere uma solução diplomática, na forma de um acordo que ponha fim ao programa de armas nucleares do Irã.

Uma autoridade da Casa Branca declarou na quarta-feira (18/2) que seria "muito inteligente", por parte do Irã, chegar a esse acordo.

Mas, apesar de todas as declarações em favor da diplomacia, Trump elevou sua retórica contra a República Islâmica nas últimas semanas.

Ele ordenou o que analistas consideram ser o maior deslocamento militar americano no Oriente Médio desde a Guerra do Iraque, em 2023.

Este é mais um exemplo marcante da disposição de Trump de usar a força militar com mais frequência do que seus apoiadores esperavam durante seu segundo mandato, sem aprovação prévia do Congresso americano.

A ameaça de Trump de atacar o Irã não pode ser simplesmente menosprezada como uma tática de negociação. Afinal, na última vez em que ele ameaçou um adversário com ações militares, os Estados Unidos atacaram a Venezuela.

Aquela operação tinha um objetivo militar restrito, pelo menos segundo declarou o governo americano. E terminou com a captura do então presidente venezuelano, Nicolás Maduro, no início de janeiro.

Em relação ao Irã, a lógica que leva a outra campanha militar é muito menos evidente.

Trump não quer que Teerã desenvolva armas nucleares, uma prioridade compartilhada pelos aliados dos Estados Unidos.

O Irã está enfraquecido pelas sanções econômicas e pelos protestos em massa contra o regime liderado pelo líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei. O país sinalizou que está aberto à negociação sobre a questão do enriquecimento de urânio.

As conversações indiretas entre os Estados Unidos e o Irã chegaram a um impasse.

O governo americano defende que Teerã também restrinja seu programa de mísseis balísticos e o apoio a grupos aliados na região.

As negociações podem estar paralisadas, mas Trump não informou por que um novo ataque ao Irã neste momento atingiria seus objetivos, menos de um ano depois do bombardeio de junho passado.

Trump insiste que o ataque dos Estados Unidos ao Irã em 2025 "obliterou" as instalações nucleares do regime.

O presidente americano não explicou por que é necessário um novo ataque, se for o caso, ou quais podem ser os novos alvos.

E, ao contrário da Venezuela, os objetivos mais amplos de Trump no Irã permanecem envoltos em mistério.

O governo americano quer forçar uma mudança de regime no Irã? Os Estados Unidos estão preparados para uma reação militar iraniana contra bases militares americanas na região?

Como um conflito prolongado afetaria outros objetivos estratégicos dos Estados Unidos no Oriente Médio, como o processo de reconstrução da Faixa de Gaza, liderado pelo Conselho de Paz?

Trump ofereceu poucos detalhes sobre suas ideias de possíveis cenários após a ação militar. E o papel de Israel em um possível ataque também permanece incerto.

Israel se uniu aos Estados Unidos no ataque do ano passado e sua participação é novamente esperada, caso Trump lance uma segunda ação militar.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, se reuniu com Trump na Casa Branca na semana passada para discutir a situação.

O primeiro discurso oficial do Estado da União do segundo mandato de Donald Trump está programado para a próxima semana.

Com isso, o presidente americano também enfrenta mais pressões para esclarecer como um possível ataque ao Irã se enquadra na sua agenda política doméstica.

Trump concorreu à presidência em 2024 com a promessa de retirar os Estados Unidos de conflitos externos. Esta postura é popular entre sua base de apoio e entre muitos republicanos no Congresso que se opõem à intervenção americana em países como a Ucrânia.

Mas, desde que tomou posse, Trump lançou diversos ataques militares. Eles incluíram ações contra a Síria, Irã e Venezuela, além de navios no mar do Caribe, supostamente carregados com drogas.

Uma extensa campanha aérea no Irã arriscaria a perda de alguns apoiadores, antes das eleições americanas de meio de mandato, em novembro — justamente em um momento em que as pesquisas de opinião indicam que os eleitores estão cada vez mais frustrados com as ações de Trump em questões como a imigração e a economia. E o presidente também vem atraindo críticas devido ao seu foco na política externa.

Um grande ataque ao Irã também representaria uma contradição à corrida de Trump pelo Prêmio Nobel da Paz. Ele declarou que merece a premiação por ter posto fim a oito guerras, desde o início do seu segundo mandato, o que é largamente contestado.

Não há precedentes de um presidente americano que defenda ativamente sua candidatura para o mais prestigiado prêmio da paz do mundo e, simultaneamente, empunhe o poderio militar do país no exterior.

Todas estas incertezas deixaram o resto do mundo em dúvida sobre as motivações de Trump ao levar os Estados Unidos para mais perto de uma guerra contra o Irã.

Mas esta talvez seja exatamente a intenção do presidente americano. Afinal, desde que voltou à Casa Branca, no ano passado, Trump parece apreciar seu papel de negociador-chefe do planeta.

Ele presidiu diversas cerimônias de assinatura de acordos e cúpulas internacionais, como a reunião do Conselho de Paz em Washington, na quinta-feira.

Seu regime de tarifas de importação também forçou outros países a buscar acordos comerciais mais favoráveis com os Estados Unidos, o que colocou Trump no centro de importantes negociações para a economia global.

Em janeiro, Trump atraiu a atenção mundial com o ataque à Venezuela e ao reivindicar que os Estados Unidos assumam o controle da Groenlândia, um outro caso em que as nações tiveram dificuldade para interpretar as reais intenções do presidente americano.

Em relação ao Irã, Trump declarou na quinta-feira que o mundo precisará esperar para ver o que ele poderá fazer.

"Precisamos chegar a um acordo substancial", ele disse. "Caso contrário, coisas ruins irão acontecer."

¨      Trump diz que mundo tem poucos dias para ver se Irã concorda com acordo ou 'coisas ruins acontecerão'

O presidente dos Estados UnidosDonald Trump, disse que o mundo descobrirá "nos próximos provavelmente 10 dias" se o país chegará a um acordo com o Irã ou se tomará medidas militares.

Na primeira reunião de seu Conselho de Paz em Washington, Trump disse sobre as negociações com a república islâmica a respeito de seu programa nuclear: "Temos que fazer um acordo significativo, caso contrário coisas ruins acontecerão."

Nos últimos dias, os EUA aumentaram suas forças militares no Oriente Médio, enquanto progressos foram relatados nas negociações entre americanos e iranianos na Suíça.

O governo iraniano disse ao secretário-geral das Organizações das Nações Unidas (ONU) que considerará as bases americanas na região como alvos legítimos, caso sejam usadas em qualquer agressão militar contra o Irã.

A missão do Irã na ONU afirmou, em carta ao secretário-geral António Guterres, que a retórica de Trump sinalizava um risco real de ataque, mas ressaltou que o Irã não desejava uma guerra.

Parlamentares democratas e alguns republicanos manifestaram oposição a qualquer possível ação militar no Irã sem a aprovação do Congresso.

Em seu discurso, o presidente americano observou que os enviados especiais Steve Witkoff e Jared Kushner, que também é seu genro, tiveram "algumas reuniões muito boas" com representantes do Irã.

"Ao longo dos anos, provou-se que não é fácil fechar um acordo significativo com o Irã", disse ele. "Caso contrário, coisas ruins acontecem."

Um dia antes, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, alertou que o Irã seria "muito sábio" em fazer um acordo com os EUA, acrescentando que Trump ainda esperava uma solução diplomática para o programa nuclear de Teerã.

<><> O Conselho de Paz de Trump

Quando Trump anunciou pela primeira vez o Conselho de Paz, acreditava-se que seu objetivo era ajudar a encerrar a guerra de dois anos entre Israel e o Hamas em Gaza e supervisionar a reconstrução.

Mas, no último mês, sua missão pareceu ir além de um único conflito, com muitos se perguntando se o conselho presidido por Trump, composto por cerca de duas dezenas de países, tem como objetivo marginalizar as Nações Unidas.

Em junho, um ataque aéreo dos EUA atingiu três instalações nucleares iranianas, e a Casa Branca estaria discutindo novas ações militares esta semana.

As forças americanas têm intensificado sua presença na região nas últimas semanas, incluindo o envio do porta-aviões USS Abraham Lincoln.

No entanto, a BBC apurou que o governo britânico não autorizou os EUA a usar bases militares do Reino Unido para apoiar quaisquer ataques potenciais ao Irã. Em operações militares anteriores no Oriente Médio, os EUA utilizaram a RAF Fairford, em Gloucestershire, e o território ultramarino britânico de Diego Garcia, no Oceano Índico.

Imagens de satélite também mostraram que o Irã reforçou suas instalações militares, e o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, publicou mensagens nas redes sociais ameaçando as forças americanas.

"O presidente americano afirma constantemente que os EUA enviaram um navio de guerra em direção ao Irã. É claro que um navio de guerra é um equipamento militar perigoso", dizia uma das postagens de Khamenei. "No entanto, mais perigosa do que esse navio de guerra é a arma que pode afundá-lo."

Vários membros do Congresso americano expressaram oposição a qualquer ação militar contra o Irã.

O democrata Ro Khanna, da Califórnia, e o republicano Thomas Massie, do Kentucky, afirmaram que tentarão forçar uma votação sobre o assunto na próxima semana, citando a Lei de Poderes de Guerra de 1973.

A lei concede ao Congresso a capacidade de controlar o poder do presidente de comprometer os EUA em conflitos armados. "Uma guerra com o Irã seria catastrófica", publicou Khanna nas redes sociais. "O Irã é uma sociedade complexa de 90 milhões de pessoas com defesas aéreas e capacidades militares significativas."

Ele também disse que milhares de soldados americanos na região "poderiam estar em risco de retaliação".

As chances de aprovação de um ataque militar em ambas as casas do Congresso não são fortes. Em janeiro, os senadores republicanos bloquearam uma resolução semelhante sobre poderes de guerra que exigiria que o governo Trump obtivesse a aprovação do Congresso antes de lançar novas operações militares na Venezuela após a captura de Nicolás Maduro.

¨      Possível conflito EUA-Irã pode se estender além do Oriente Médio, adverte especialista

O possível ataque dos EUA ao Irã poderia levar a um conflito que afetaria todo o Oriente Médio e até mesmo parte da Europa, compartilhou sua opinião com a Sputnik o analista israelense e especialista em conflitos internacionais Yuri Bocharov.

O canal de TV CBS informou na quarta-feira (18) que o Exército dos EUA pode estar pronto para possíveis ataques contra o Irã já no sábado, mas o presidente dos EUA, Donald Trump, ainda não tomou uma decisão.

"O Irã tem mais de 3.000 mísseis de vários tipos, mas importante aqui não é a quantidade, mas o alcance e dispersão. O alcance máximo dos modernos mísseis balísticos iranianos é de 2.500 quilômetros. Se você pensar em um raio de 2.500 quilômetros de Teerã, fica claro que isso não é uma questão de troca local de ataques. Dentro deste raio estão as capitais de todos os países do Oriente Médio, com um alcance parcial do sudeste da Europa – incluindo os Bálcãs e o leste da Grécia", disse o interlocutor da agência.

De acordo com Bocharov, é particularmente importante que as bases militares dos EUA estão localizadas dentro deste raio, o que automaticamente torna o hipotético conflito multinível.

O especialista acredita que as medidas tomadas pelas autoridades iranianas não são típicas de uma simples expectativa diplomática: a mais alta liderança política e militar do Irã está distribuída entre diferentes regiões do país, e as estruturas de comando do IRGC e do Exército são instruídas a agir autonomamente em caso de perda do controle central.

"Em Teerã, parece que partem do cenário de um ataque repentino e, portanto, estão construindo um sistema capaz de continuar a resistência mesmo que o centro de tomada de decisão seja parcialmente destruído", opina o analista.

Na quinta-feira, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que "coisas ruins" poderiam acontecer se os Estados Unidos e o Irã não chegarem a um acordo.

¨      Manifestantes voltam a protestar no Irã

Estudantes de diversas universidades do Irã realizaram neste fim de semana protestos contra o governo — as primeiras manifestações desse tipo e escala desde a violenta repressão das autoridades no mês passado.

A BBC confirmou a veracidade de imagens de manifestantes marchando no campus da Universidade de Tecnologia Sharif, na capital, Teerã, no sábado (21/2). Confrontos entre estudantes e apoiadores do governo também foram registrados.

Um protesto pacífico ocorreu em outra universidade de Teerã, e uma manifestação foi relatada no nordeste do país. Os estudantes homenageavam os milhares de mortos nos protestos em massa de janeiro.

Os Estados Unidos têm reforçado sua presença militar perto do Irã. O presidente americano, Donald Trump, já afirmou que está considerando um ataque militar limitado.

<><> Alta tensão

Os EUA e seus aliados europeus suspeitam que o Irã esteja desenvolvendo armas nucleares, algo que o Irã sempre negou.

Autoridades americanas e iranianas se reuniram na Suíça na terça-feira (17/2) e afirmaram que houve progresso nas negociações destinadas a conter o programa nuclear iraniano.

No entanto, apesar do progresso relatado, Trump declarou que o mundo saberia "provavelmente nos próximos 10 dias" se um acordo com o Irã seria alcançado ou se os EUA tomariam medidas militares.

O líder americano chegou a demonstrar apoio aos manifestantes no mês passado, dizendo que "ajuda está a caminho".

Imagens verificadas pela BBC mostram centenas de manifestantes, muitos carregando bandeiras iranianas, marchando pacificamente no campus da Universidade de Tecnologia Sharif no início do novo semestre, no sábado.

A multidão entoava cânticos como "Morte ao ditador", em referência ao Líder Supremo, o Aiatolá Ali Khamenei, e outros slogans contra o governo.

Vídeos mostram apoiadores de uma manifestação rival pró-governo nas proximidades. Os dois lados acabaram entrando em confronto.

Fotos verificadas pela BBC também mostram um protesto pacífico na Universidade Shahid Beheshti, na capital.

A BBC também verificou imagens de outra universidade de Teerã, a Universidade de Tecnologia Amir Kabir, mostrando slogans contra o governo. Em Mashhad, a segunda maior cidade do Irã, no nordeste do país, estudantes teriam cantado "Liberdade, liberdade" e "Estudantes, gritem, gritem por seus direitos".

Grandes manifestações também foram relatadas em outros locais no sábado, com chamadas para novos protestos neste domingo.

Não está claro se algum manifestante foi preso.

Os protestos de janeiro começaram com reclamações sobre a situação econômica atual do Irã e rapidamente se transformaram nas maiores manifestações populares desde a Revolução Islâmica de 1979.

A agência de notícias Human Rights Activists News Agency (HRANA), sediada nos EUA, afirmou ter confirmado a morte de pelo menos 7.015 pessoas durante essa onda de protestos, incluindo 6.508 manifestantes, 226 crianças e 214 pessoas ligadas ao governo. Os dados mais recentes foram atualizados em 15 de fevereiro.

A HRNA também informou estar investigando outras 11.744 mortes relatadas.

Já as autoridades iranianas declararam no final do mês passado que mais de 3,1 mil pessoas morreram, mas que a maioria eram membros das forças de segurança ou civis atacados por "manifestantes violentos".

Os protestos de sábado ocorrem enquanto as autoridades iranianas se preparam para uma possível guerra com os EUA.

A oposição exilada está pressionando Trump a cumprir suas ameaças e lançar um ataque, na esperança de um colapso rápido do atual governo linha-dura.

No entanto, outros grupos de oposição se opõem à intervenção estrangeira.

Ambos os lados em conflito têm se engajado em campanhas de desinformação nas redes sociais, tentando amplificar suas narrativas conflitantes sobre os desejos do povo iraniano.

 

Fonte: BBC News/Sputnik Brasil

 

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