Hilder
Alberca Velasco: O conflito como estrutura do capital
Repensar
o urbano na América Latina exige assumir o conflito como constitutivo e
resgatar o planejamento como campo de disputa por justiça social...
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Território, planejamento e contradições urbanas
Huancabamba,
localizada na região de Piura, no norte do Peru, expressa com clareza as
contradições centrais do planejamento territorial em contextos periféricos. A
cidade organiza-se a partir de uma combinação de crescimento urbano
desordenado, informalidade consolidada e fragilidade institucional do Estado
local.
Nesse
cenário, o planejamento territorial apresenta-se fundamentalmente como um
discurso técnico e normativo, mas não como uma prática efetiva capaz de
orientar a produção do espaço urbano nem de mediar os conflitos que estruturam
o território. A distância entre o planejamento formal e a vida urbana concreta
revela um modelo de gestão territorial profundamente limitado.
O
território de Huancabamba não é resultado do acaso nem de falhas isoladas de
gestão. Ele é produzido a partir de relações sociais marcadas pela
desigualdade, pela assimetria de poder e pela expansão seletiva do capital
sobre o espaço urbano. A cidade cresce sob uma tensão permanente, na qual
interesses econômicos avançam sobre o território enquanto o Estado local
demonstra baixa capacidade de regulação e intervenção. Nesse contexto, o
planejamento deixa de cumprir uma função pública e passa a operar como uma
linguagem legitimadora de processos já em curso.
Este
ensaio tem como objetivo analisar criticamente o planejamento territorial em
Huancabamba como uma prática discursiva dissociada da realidade social,
evidenciando como a expansão do capital e a fragilidade institucional do
município produzem conflitos socioespaciais persistentes.
A
partir de uma perspectiva sociológica crítica, o texto compreende o território
como uma construção social e política, e o conflito urbano como expressão
estrutural de um modelo de desenvolvimento urbano excludente. Além disso,
propõe-se refletir sobre como esse caso específico pode contribuir para os
debates acadêmicos no Brasil, particularmente no campo do planejamento urbano e
regional.
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Análise do território e dos conflitos socioespaciais
O
território urbano não pode ser compreendido como um simples suporte físico
sobre o qual se organizam atividades econômicas e sociais. Trata-se de uma
produção histórica resultante de relações sociais que expressam interesses,
disputas e formas específicas de poder, especialmente em contextos marcados por
profundas assimetrias políticas e econômicas (LEFEBVRE, 2001).
Em
Huancabamba, essa produção do espaço ocorre em um cenário de baixa capacidade
institucional, no qual o planejamento territorial não consegue orientar a
expansão urbana nem garantir acesso equitativo ao solo e aos serviços urbanos.
A cidade constrói-se a partir de práticas sociais que escapam aos instrumentos
formais, revelando a fragilidade do Estado como agente regulador.
A
expansão do capital sobre o território local ocorre de maneira desigual e
seletiva. Determinadas áreas passam a concentrar investimentos, enquanto outras
permanecem à margem das políticas públicas. O solo urbano é tratado como
mercadoria, e a lógica da valorização econômica orienta decisões que deveriam
ser coletivas, redefinindo o uso do território e aprofundando a fragmentação
urbana (HARVEY, 2014). Essa dinâmica produz espaços altamente desiguais no
interior de uma mesma cidade e intensifica os conflitos socioespaciais.
Em
Huancabamba, a distância entre planejamento e vida urbana torna-se visível no
cotidiano. A ocupação de encostas e áreas periféricas avança sem mediação
pública, enquanto o centro urbano concentra atividades comerciais informais que
disputam o espaço de ruas e praças. A ausência de infraestrutura básica em
bairros recentemente consolidados convive com uma presença estatal
intermitente, geralmente limitada a ações reativas.
O
planejamento aparece como uma referência abstrata, distante das práticas
sociais que efetivamente produzem o território. A migração da população rural
para a cidade intensifica essa pressão, transformando o solo urbano em recurso
estratégico para a acumulação privada e aprofundando os conflitos territoriais,
como evidenciado em disputas recentes entre comunidades e o governo local.
A
informalidade urbana em Huancabamba não constitui uma exceção, mas uma dimensão
estrutural do processo de urbanização. Ela expressa a incapacidade do Estado de
garantir acesso democrático ao solo urbano e aos serviços básicos (MARICATO,
2011). Bairros inteiros consolidam-se fora dos marcos legais como resposta a
necessidades sociais concretas, produzindo territórios socialmente dinâmicos,
porém institucionalmente invisibilizados.
Esses
territórios informais costumam ser estigmatizados pelo discurso técnico do
planejamento, que os apresenta como problemas a serem corrigidos, ignorando as
condições sociais que os produzem. Ao assumir-se como técnica neutra, o
planejamento oculta seu caráter político e contribui para a reprodução das
desigualdades socioespaciais (SANTOS, 2006). Essa postura aprofunda a distância
entre Estado e população, alimentando conflitos urbanos persistentes.
Os
conflitos socioespaciais em Huancabamba emergem principalmente em torno do uso
do solo, da regularização da posse e do acesso a serviços básicos. Não se trata
de eventos isolados, mas de expressões estruturais de um modelo urbano que
privilegia a acumulação de capital em detrimento da reprodução da vida social.
O conflito urbano consolida-se, assim, como forma recorrente de organização do
território em contextos nos quais o planejamento fracassa na mediação de
interesses divergentes.
A
fragilidade institucional do município agrava esse cenário. A administração
pública local opera com recursos limitados, equipes técnicas reduzidas e baixa
capacidade de articulação intergovernamental. A ausência de uma formação
crítica em planejamento territorial compromete a elaboração e a implementação
de políticas públicas consistentes. Nesse contexto, o Estado local mostra-se
incapaz de enfrentar a lógica do mercado que orienta a produção do espaço
urbano.
O
discurso do desenvolvimento urbano é frequentemente mobilizado para legitimar
intervenções que aprofundam as desigualdades. Em nome da modernização, práticas
excludentes são naturalizadas e apresentadas como inevitáveis. O planejamento
territorial assume, assim, um papel legitimador, afastando-se de qualquer
compromisso com a justiça social (ROLNIK, 2015).
A
participação social, embora presente nos documentos oficiais, raramente se
concretiza de forma substantiva. As decisões sobre o território são tomadas de
maneira centralizada, distantes da experiência cotidiana dos habitantes. Essa
exclusão política intensifica os conflitos urbanos e enfraquece a legitimidade
do planejamento.
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Considerações finais
O caso
de Huancabamba permite iluminar questões estruturais do planejamento urbano e
regional que atravessam grande parte da América Latina. Municípios pequenos e
médios compartilham uma combinação persistente de baixa capacidade
institucional, informalidade urbana e conflitos territoriais recorrentes.
Nesses contextos, o planejamento territorial opera mais como formalidade
administrativa do que como prática efetiva de mediação social.
A
análise evidencia que a existência de instrumentos normativos não garante a
mediação de interesses nem a efetivação do direito à cidade. Em contextos
periféricos, tais instrumentos costumam permanecer desconectados das dinâmicas
reais de produção do território, subordinados à lógica de valorização do
capital.
O
conflito urbano não deve ser interpretado como uma anomalia, mas como dimensão
constitutiva de um modelo de desenvolvimento excludente. Reconhecer essa
condição implica abandonar a ilusão de um planejamento neutro e assumir o
caráter político de toda intervenção territorial.
Repensar
o planejamento em contextos periféricos exige fortalecer a gestão pública
local, promover uma formação crítica dos gestores e avançar em direção a formas
substantivas de participação social. Somente assim o planejamento poderá
recuperar seu sentido público e contribuir para a construção de cidades mais
justas.
Do
ponto de vista acadêmico, o caso de Huancabamba dialoga com debates centrais do
planejamento urbano e regional no Brasil, particularmente aqueles desenvolvidos
no IPPUR, reforçando a necessidade de pensar o território como espaço de
disputa e o conflito como elemento estruturante da cidade.
• Caminhos da utopia. Por Luiz Marques
O
século XVI traz a “utopia” no título de um livro do diplomata inglês Thomas
Morus. O autor inventa o termo (u-tópos, nenhum lugar) para descrever uma ilha
imaginária. Idem, a “antiutopia” ao exercer a condição de chanceler. Com isso,
a tolerância do lorde humanista some e, este, propõe que em seu epitáfio conste
ter sido um “perseguidor de ladrões, assassinos e hereges”. Pelo que João Paulo
II, o papa inquisidor da Teologia da Libertação, nomeia-o padroeiro dos
políticos. No século XX, o editor J. Max Patrick cria a palavra “distopia” numa
coletânea de obras utópicas.
Um
ponto de inflexão recente é o fracasso do comunismo soviético, o qual respinga
nos críticos à esquerda: os que denunciam os “desvios burocráticos” como Leon
Trótski e os que apontam o “totalitarismo” e, a exemplo de Cornelius
Castoriadis, cobram dos trotskistas um tom mais incisivo sobre o fenômeno.
Com as
revelações das atrocidades do “farol dos povos”, vinte anos após o relatório
secreto de Nikita Kruschev, o dissidente alemão Rudolf Bahro, em A alternativa
– para uma crítica do socialismo real (1977), absolve a teoria marxista, mas
condena a prática stalinista pela tragédia. A separação é elogiada por liberais
no Ocidente, que reiteram o corte epistemológico no balanço.
Diferentemente
os “novos filósofos franceses” diante dos horrores do stalinismo concluem que
os crimes de Joseph Stalin já estão, em embrião, nas formulações de Karl Marx.
Há continuidade entre utopia e distopia. A desqualificação do marxismo abarca o
estruturalismo de Louis Althusser – de projeção internacional até em um surto
estrangular a esposa, a socióloga Hélène Rytmann, no apartamento do casal na
École Normale Supérieure, em Paris.
A
virada de sentido se dá na convergência da crítica dos nouveaux philosophes com
uma ascensão dos quadros do neoliberalismo, reforçada pelos Prêmios Nobel de
Economia para Friedrich Hayek (1974) e Milton Friedman (1976). A seguir,
Margaret Thatcher no Reino Unido e Ronald Reagan nos Estados Unidos transformam
a ordem do egoísmo em políticas assumidas pelo Estado. Distopias então são
vistas como o complemento lógico das utopias.
O
comunismo e o nazismo são igualados na responsabilização, embora na Segunda
Guerra Mundial se aquartelassem com bandeiras antagônicas. “Devemos nos
precaver da utopia”, sublinha Ralf Dahrendorf. O sociólogo estuda as classes
não sob o viés da propriedade dos meios de produção, senão do poder e da
autoridade; e atribui às instituições o papel de regulação dos conflitos
políticos. “Para evitar o pior – uma revolução”.
Assim,
o senso comum joga fora a criança junto com a água suja do banho e a utopia,
órfã, cai em um ostracismo. Não obstante, o liberalismo desenha um horizonte
inconfiável. As promessas não se realizam. O fim da história com a economia de
mercado e a democracia representativa aumentam a desigualdade e o
ressentimento. A necropolítica toma as rédeas da sociedade.
No
decênio de 1990, a internet livre reinaugura o espírito utópico. Entusiastas
anunciam a era do “socialismo digital”. O anjo cibernético reatualiza o
inconformismo e ataca o mal – a alienação social – na webesfera. O destino
reabre as portas à incerteza e, a política, à ação dos internautas. Mas os
sonhos libertários esbarram nas megacorporações dos monopólios tecnológicos.
Russell
Jacoby, em Imagem imperfeita – pensamento utópico para uma época antiutópica,
expõe a contradição. “As utopias buscam a emancipação ao visualizar um mundo
baseado em ideias novas, negligenciadas ou rejeitadas. As distopias buscam o
assombro ao acentuar as tendências contemporâneas que ameaçam a liberdade
(leia-se mercado)”. Num caso, a presidenta do México Claudia Sheinbaum; noutro,
o presidente da Argentina Javier Milei.
Para o
professor da Universidade da Califórnia, o utopismo é “projetista” ou
“iconoclasta”. O projetista mira a sociabilidade de amanhã no parâmetro de
ontem, com o que veem. O iconoclasta age feito um profeta do Primeiro
Testamento. Não acredita na iconografia visual de símbolos e de imagens; e
recusa fazer o inventário do futuro. Apenas compartilha uma orientação – lazer,
harmonia, cooperação, paz, prazer – para um coletivo. Importa manter os ouvidos
abertos e a espinha ereta, com dignidade.
Três
razões são elencadas para o enfraquecimento da ideologia utopista: (i) o
referido colapso da URSS, iniciado em 1989 e oficializado em 1991; (ii) a
convicção propagada de que nada distingue os utópicos dos totalitaristas na
geleia geral e; (iii) o empobrecimento crescente da imaginação social, com
adaptações ao status quo. A mercadoria vira panaceia para a depressão.
A
imaginação confere energia ao utopismo; sem o que degringola no totalitarismo.
Explica-se a perseguição a artistas e intelectuais censurados no regime de
exceção, com prerrogativas suprimidas e filhos estimulados a denunciar os pais,
na política de vigilância no seio das famílias. Afetos privados desmancham no
ar fétido.
Uma
geração atrás se tinha a sensação de que outro mundo é possível, na versão
otimista do Fórum Social Mundial (FSM, 2001). Hoje parece estarmos na plateia
da crise climática, do genocídio da Faixa de Gaza, do controle orwelliano da
verdade e da conversão dos indivíduos em empresas. No teatro do ódio, o
imaginário é preso pelo discurso da corrupção e das fake news. O farisaísmo
tira da coxia o medo e coloca-o no palco.
Nasce a
“rebeldia a favor” que afronta os poderes institucionais, mas aceita e enrijece
as hierarquias sociais e a dominação do capital-rentista e do capital-nuvem na
sociedade. E mais, libera o mando-obediência em cada estrato. Se o melhor no
capitalismo é ser capitalista; o melhor num sistema hierarquizado em que os
deveres superam os direitos é ser aquele que manda em alguém. A extrema direita
cresce no terreno árido da desvalia e da desdemocratização da democracia –
“onde os fracos não têm vez”.
No
ensaio sobre a redenção judaica e a utopia pós-capitalista, Michael Löwy fala
da necessidade de descrever a história sob o prisma dos vencidos para “uma nova
percepção da temporalidade, em ruptura com o evolucionismo e com a filosofia do
progresso”. É preciso questionar o processo civilizatório. A terceira via
liberista prega o caminho do meio entre os de cima e os de baixo; a politeia
aristotélica. Mas é uma comensal no banquete da burguesia que conspira contra o
Estado de direito democrático.
O
perigo se esconde na demagogia; o atraso espia as pesquisas. Como na canção The
Sound of Silence: “As palavras dos profetas / Estão escritas nas paredes do
metrô / E nos corredores dos cortiços / Sussurradas no som do silêncio”. Que os
corações estejam prontos, em 2026, para superar o risco de o apelo utópico se
confundir com o outdoor do paraíso ou o neon da opressão. Trata-se, antes, de
uma estação de resiliência e esperança.
Fonte:
A Terra é Redonda

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