Depoimento:
'Meu ex disse que meu futuro seria de tristeza e solidão e então matou nossos
filhos'
"Em
dezembro [de 2022], diante de todo o ciúme que ele estava demonstrando de forma
muito doentia — estava ficando cada vez pior —, eu coloco fim ao
relacionamento, porque vejo que não tinha mais como manter aquela relação. E
aí, em julho de 2023, ele tira a vida dos nossos dois filhos."
As
lembranças dolorosas são da delegada Amanda Souza, da Polícia Civil de Belém
(PA). Ela relembra os fatos ocorridos em 10 de julho de 2023, quando sua vida
mudou para sempre.
"Ele
me escreve uma mensagem na manhã, dizendo que meu futuro seria de tristeza e
solidão. Eu vou para a delegacia trabalhar", lembra a delegada.
"E
aí, quando dá 16h, ele me liga. E nessa ligação ele me fala: 'Parabéns, você
conseguiu o que você queria: eu matei os seus dois filhos'."
Vítima
da chamada violência vicária — quando o agressor atinge os filhos ou pessoas
próximas com a intenção de causar sofrimento emocional à mulher —, Amanda se
viu de volta àquele dia 10 de julho de 2023 ao ler as notícias sobre o caso
similar ocorrido na semana passada em Itumbiara (GO).
Na
última quarta-feira (11/2), o secretário de Governo da prefeitura de Itumbiara
(GO), Thales Machado, atirou contra os dois filhos na residência onde morava e,
em seguida, tirou a própria vida. Um dos meninos, de 12 anos, morreu antes que
pudesse ser socorrido. O irmão mais novo, de 8 anos, foi levado ao hospital em
estado gravíssimo, mas morreu horas depois.
No
Brasil, faltam dados consolidados específicos sobre a violência vicária, o que,
segundo especialistas, dificulta a formulação de políticas públicas mais
eficazes.
O Mapa
Nacional da Violência de Gênero, plataforma de dados públicos oficiais sobre
violência contra as mulheres, passou a apresentar dados sobre a violência
vicária contra brasileiras no exterior a partir de sua edição de 2024,
registrando 904 casos do tipo em 2023 e 794 em 2024.
A maior
parte desses casos ocorreu na Europa, envolvendo disputas de guarda de
crianças.
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'Culpar a mãe é falta de humanidade'
A
delegada Amanda Souza conta que soube pelas redes sociais do caso de Sarah
Araújo, que teve os dois filhos assassinados pelo marido Thales Machado em
Itumbiara.
"Eu
fiquei muito mexida, muito abalada emocionalmente. Eu me projetei em 10 de
julho de 2023 e consegui sentir toda a dor que aquela mãe estava
sentindo", lembra.
A
delegada conta que o que mais a chocou ao ler sobre o caso foram comentários
nas redes sociais culpando a mãe pelo assassinato brutal de seus dois filhos.
"Era
muita crueldade com aquela mãe. Diante de tudo o que tinha acontecido, a
sociedade ainda insistia em culpar uma pessoa que tinha perdido toda a sua
família."
Amanda
observa que os comentários citavam uma suposta traição por parte da esposa para
justificar o ato criminoso do marido.
"É
uma falta de humanidade e de compaixão sem tamanho. Uma prova viva da sociedade
machista em que a gente vive, como se uma traição legitimasse o homem a tirar a
vida dos próprios filhos, algo inconcebível", revolta-se a delegada.
Ainda
mais chocante para Amanda foi ver muitos desses comentários sendo feitos por
outras mulheres. Isso num país que registrou em 2025 número recorde de
feminicídios (1.518, ante 1.458 em 2024) e onde em média quatro mulheres são
assassinadas por dia por questões de gênero.
"Ver
esses comentários tão machistas partindo de mulheres é o que causa mais dor e
tristeza. E mais revolta, porque nós, mulheres, estamos morrendo por conta
desse machismo. E as mulheres são as primeiras a apontar o dedo e a tentar
diminuir a culpa do homem, colocando a culpa na mãe vítima."
Para a
delegada, o crime praticado por Thales Machado em Itumbiara é típico de um
homem narcisista, que nunca amou os próprios filhos e quis impor sua própria
vontade a qualquer custo.
Ao
matar os filhos, na opinião dela, ele quis impor o mais terrível sofrimento à
mulher, e ao atribuir seu crime a uma suposta traição, quis destruí-la
inclusive moralmente na cidade onde ambos viviam.
"Ele
quer que essa mulher sofra em vida. Que ela se sinta culpada por aquilo que
aconteceu. Esse é o conceito de violência vicária", explica a delegada,
que à época do duplo homicídio de seus filhos trabalhava como delegada na
Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) de Cametá, no Pará,
unidade especializada em atendimento a vítimas de violência doméstica.
Hoje,
aos 43 anos, ela trabalha como delegada na Unidade de Recuperação de
Dispositivos Móveis em Belém.
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'Vivi um relacionamento abusivo por 20 anos, sem me dar conta'
Amanda
diz que, ao contar sua própria história como vítima da violência de gênero, tem
por objetivo ajudar outras mulheres que estejam vivendo relacionamentos
abusivos.
Natural
de Teófilo Otoni, no interior de Minas Gerais, ela conta que, no seu caso, o
comportamento do marido começou a dar sinais de alerta quando ela se mudou de
Belo Horizonte, onde a família vivia, para Belém, para passar pela formação de
delegada.
"Por
vinte anos, ele tinha total controle sobre a minha vida. E conseguia fazer isso
de forma muito dissimulada, para que eu percebesse todo o controle que ele
tinha sobre mim como cuidado e não como controle", lembra a delegada.
"Mas,
com a minha vinda para o Estado do Pará, eu saio desse âmbito de controle.
Então, tudo que era velado, começa a ser explícito. Ele começa a ser mais
ciumento, mais controlador."
Amanda
conta que o marido queria sempre saber onde ela estava e com quem. Fazia sempre
ligações de vídeo, para confirmar que ela estava onde dizia estar, e queria os
contatos das pessoas com quem ela estaria.
Após
ela decidir terminar o relacionamento, o marido cometeu o crime que destruiu a
família.
Depois
daquela ligação fatídica, às 16h de uma quinta-feira, Amanda dirigiu correndo
para casa. Ela foi a primeira pessoa a encontrar os corpos dos filhos — Marcelo
tinha então 12 anos e Letícia, 9. Também estava no local o corpo do ex-marido,
que tirou a própria vida após cometer o crime.
"Ele
disse: 'Eu matei os seus dois filhos. Parabéns, você conseguiu o que você
queria', ou seja, como eu disse não para aquele casamento, como eu não queria
mais me manter num relacionamento abusivo, ele coloca em mim a responsabilidade
de ter tirado a vida dos próprios filhos", afirma.
"E
a mesma coisa aconteceu com a Sarah agora [em Itumbiara], porque isso é um
padrão. Eles sempre tendem a colocar a culpa na vítima pelo ato de crueldade
que eles praticam."
A
delegada conta que a frase usada pelo ex-marido, com intuito de destruí-la, foi
na verdade o que deu força a ela para seguir em frente.
"Ele
disse que meu futuro seria de tristeza e solidão. Essa mesma frase eu usei para
me manter de pé, porque eu não podia dar a ele a vitória que ele queria. Eu não
podia admitir que um homem entrasse na minha vida e ditasse o meu
destino."
Agora,
além de contar sua história e ajudar outras mulheres a identificarem os sinais
de um relacionamento abusivo, e se fortalecerem para sair desses
relacionamentos, Amanda planeja estudar a violência vicária num mestrado.
"Eles
[os abusadores] têm um padrão. Ou seja, se a conduta desse doente tem um
padrão, significa que a gente pode identificar e pode evitar. Então esse é o
meu objetivo: levar informação para que as pessoas entendam que estão num
relacionamento abusivo, consigam identificar esses narcisistas, loucos,
psicopatas, e consigam ter forças e estratégias para sair desse relacionamento
em segurança."
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O que fazer para sair de um relacionamento abusivo
Para as
mulheres que estão vivendo um relacionamento abusivo ou que não têm certeza se
estão, a delegada dá dois conselhos.
"A
primeira coisa é mergulhar no autoconhecimento. Porque muitas estão presas a
relacionamentos abusivos, porque há uma dependência emocional tão grande que
ela não consegue se libertar. Ela não consegue nem se enxergar dentro de um
relacionamento abusivo", diz ela.
"E
aí, nesse mesmo processo de autoconhecimento e de amor próprio, ela também
precisa entender que precisa de estratégias financeiras, porque, muitas vezes,
muitas pessoas sabem que vivem um relacionamento abusivo, mas são dependentes
financeiramente e não conseguem se libertar", afirma.
"Então
é necessário que a mulher busque a sua independência financeira para que isso
dê forças para que ela saia dessa relação abusiva."
Fonte:
BBC News Brasil

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