segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

'Quase perdi a língua por um câncer e agora alerto outros homens sobre o risco do HPV'

Um pai de dois filhos esteve prestes a perder a língua depois que um pequeno caroço sob sua mandíbula revelou ser um câncer.

Anthony Perriam procurou seu clínico geral após notar o caroço pela primeira vez e, poucas semanas depois, foi diagnosticado com um câncer de cabeça e pescoço relacionado ao vírus do papiloma humano (HPV).

O HPV é um grupo comum de vírus que afetam a pele e não causam problemas na maioria das pessoas, mas certos tipos podem causar câncer ou verrugas genitais.

"Eu só tinha ouvido falar do HPV em relação ao câncer de colo do útero. Não tinha ideia de que poderia causar cânceres como este, especialmente em homens", conta Anthony, que vive em Cardiff, no País de Gales.

"Me considero sortudo por ainda conseguir comer e falar, mas se tivesse deixado passar mais tempo, poderia ter perdido a língua ou até mesmo morrido", acrescenta.

A maioria das pessoas que se infectam com o HPV elimina o vírus do organismo, de acordo com o Serviço Nacional de Saúde de Gales (NHS Wales).

No entanto, ele pode causar verrugas genitais ou até câncer, com maior frequência de cabeça e pescoço em homens, e de colo do útero em mulheres.

Em muitos países, recomenda-se a vacina contra o HPV para crianças de 12 e 13 anos e para pessoas com maior risco de contrair o vírus.

No Brasil, o SUS (Sistema Único de Saúde) oferece a vacina gratuitamente a quem tem enre 9 e 14 anos.

"Se você notar um caroço, mesmo que não doa, vá fazer um exame", diz Anthony.

"Não se fala o suficiente sobre este tipo de câncer, especialmente entre os homens. A detecção precoce realmente salva vidas."

Apesar de não apresentar nenhum sintoma, uma tomografia computadorizada, uma biópsia e uma ressonância magnética confirmaram a doença em março de 2023.

"Naquela época, eu tinha um filho de 3 anos e outro de 6. Meu primeiro pensamento não foi em mim, mas neles. Estava completamente apavorado por eles", diz.

Anthony, que tem 41 anos, teve 44 gânglios linfáticos removidos do pescoço, e o tumor primário na base da língua foi localizado por meio de cirurgia assistida por robô.

"Me disseram que detectaram bem a tempo", afirma. "Um dos gânglios linfáticos estava prestes a romper. Se tivesse avançado um pouco mais, poderia ter se espalhado."

A radioterapia e a quimioterapia foram duras, e Anthony perdeu 22 kg. "Perdi toda a saliva", disse ele. "Até beber era difícil, pois tudo se transformava em pó na minha boca."

"Estava tão fraco que acabei precisando de uma cadeira de rodas. Ser levado pelo corredor até a sala de radioterapia estava começando a afetar minha saúde mental", continua.

"Mas minha família me deu motivação para superar isso. Eu queria viver para comemorar meu aniversário de 40 anos."

<><> O que é o HPV?

O HPV é um vírus com 100 tipos diferentes que afeta a pele.

Pode ser contraído por contato pele a pele na zona genital, relações sexuais vaginais, anais ou orais, e pelo compartilhamento de brinquedos sexuais.

A vacina tem maior eficácia quando administrada em crianças de 12 e 13 anos.

O Hospital Universitário de Gales afirma que a vacina reduziu as taxas de câncer de colo do útero em quase 90% em mulheres na faixa dos vinte anos desde sua introdução em 2008.

Sandeep Berry, otorrinolaringologista e cirurgião de cabeça e pescoço do Serviço de Saúde de Cardiff e Vale, incentiva os pais a incentivarem seus filhos a se vacinarem.

"A vacina contra o HPV tem sido usada em todo o mundo há anos; é segura e eficaz", explicou.

"Ela ajuda meninos e meninas a se manterem saudáveis, previne o câncer relacionado ao HPV e fortalece a saúde pública em geral", afirma.

"A vacina é administrada quando o sistema imunológico responde com maior intensidade, antes do início da atividade sexual."

•        Câncer na garganta: por que sexo oral pode ser fator de risco? Por Hisham Mehanna

Nas últimas duas décadas, houve um rápido aumento na incidência de câncer de garganta no Ocidente, ao ponto de alguns chamarem de epidemia.

Isso aconteceu devido a um grande aumento no número de casos de um tipo específico de câncer de garganta chamado câncer de orofaringe, que afeta a região das amígdalas e a parte posterior da garganta.

Sua principal causa é o papilomavírus humano (HPV), que também está por trás de muitos casos de câncer de colo do útero.

Atualmente, o câncer de orofaringe é mais comum do que o câncer de colo do útero nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Na Espanha, o câncer de orofaringe está entre os dez mais diagnosticados, com cerca de 8 mil novos casos por ano. E na América Central e do Sul, é um problema cada vez mais grave, à medida que se prevê um aumento de 17,2% na mortalidade por câncer oral até 2030.

O HPV é transmitido sexualmente. No caso do câncer de orofaringe, o principal fator de risco é o número de parceiros sexuais ao longo da vida, sobretudo devido à prática de sexo oral.

As pessoas com seis ou mais parceiros de sexo oral ao longo da vida apresentam 8,5 vezes mais chances de desenvolver câncer de orofaringe do que aquelas que não praticam sexo oral.

<><> 80% dos adultos praticam sexo oral

Estudos sobre tendências comportamentais mostram que o sexo oral está bastante difundido em alguns países.

Em um estudo que meus colegas e eu realizamos com cerca de mil pessoas submetidas à amigdalectomia por motivos não relacionados ao câncer no Reino Unido, 80% dos adultos relataram ter praticado sexo oral em algum momento de sua vida.

Felizmente, no entanto, apenas um pequeno número dessas pessoas desenvolve câncer de orofaringe.

Embora ainda não esteja totalmente claro por que isso acontece, a teoria predominante é que a maioria de nós contrai infecções por HPV— e é capaz de eliminá-las completamente.

No entanto, um pequeno número de pessoas não consegue se livrar da infecção, talvez devido a um defeito em algum aspecto específico do sistema imunológico.

Nesses pacientes, o vírus é capaz de se replicar continuamente e, com o tempo, se encaixa em posições aleatórias no DNA do hospedeiro, algumas das quais podem fazer com que as células do hospedeiro se tornem cancerígenas.

<><> Vacina

A vacinação contra o HPV em meninas foi introduzida em muitos países para prevenir o câncer de colo de útero. Agora há cada vez mais evidências, embora ainda indiretas, de que também pode ser eficaz na prevenção da infecção por HPV na boca.

Há também evidências que sugerem que os meninos são protegidos pela chamada "imunidade de rebanho" em países onde a cobertura vacinal em meninas é alta (mais de 85%). Espera-se assim que, em algumas décadas, o aumento da proteção leve a uma redução do câncer de orofaringe.

Isso é muito bom do ponto de vista da saúde pública, mas apenas se a cobertura vacinal entre as meninas for alta, acima de 85%, e somente se a pessoa permanecer dentro do "rebanho" protegido.

No entanto, não garante proteção a nível individual — especialmente na era das viagens internacionais — se, por exemplo, alguém tiver relações sexuais com pessoas de países com baixa cobertura.

E certamente não oferece proteção em países onde a cobertura vacinal para meninas é baixa, como nos EUA, onde apenas 54,3% das adolescentes de 13 a 15 anos receberam duas ou três doses da vacina contra HPV em 2020.

<><> Meninos também deveriam ser vacinados

Isso levou vários países — como Reino Unido, Austrália e Estados Unidos — a expandirem seus programas nacionais de vacinação contra o HPV para incluir meninos, seguindo uma política de vacinação neutra em termos de gênero.

Mas ter uma política de vacinação universal não garante cobertura. Há uma proporção significativa de algumas populações que se opõem à vacinação contra o HPV devido a preocupações em relação à segurança, necessidade ou, em alguns casos menos comuns, incentivo à promiscuidade.

Paradoxalmente, há algumas evidências provenientes de estudos populacionais de que, possivelmente em um esforço para se abster de ter relações sexuais com penetração, os adultos jovens podem praticar sexo oral, pelo menos no início. Sem ter consciência de que isso também representa um risco.

 

Fonte: BBC News/The Conversation

 

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