A
polêmica reforma trabalhista de Milei que gerou greves e protestos na Argentina
A
Argentina está discutindo uma reforma trabalhista defendida pelo presidente
Javier Milei, que pretende redefinir as condições de trabalho no país. Mas o
assunto vem causando polêmica e polarização. O governo descreve a iniciativa
como uma "modernização" das relações trabalhistas, enquanto críticos
dizem que se trata de um grande retrocesso.
Na
quinta-feira (19/2), a Câmara dos Deputados aprovou preliminarmente o projeto
de lei, que já havia passado no Senado uma semana antes.
No
entanto, um artigo polêmico sobre licença médica foi retirado pelo partido
governista durante a votação na Câmara dos Deputados, o que significa que o
projeto terá que retornar ao Senado para poder virar lei.
O
debate de quinta-feira no Congresso ocorreu em meio a uma greve geral convocada
pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) — a principal central sindical do
país — e manifestações na Praça dos Congressos, onde os deputados estavam
reunidos.
Entre
as propostas mais polêmicas estão a extensão da jornada de trabalho para um
máximo de 12 horas, o cálculo da indenização por demissão e restrições na
licença médica.
Para
muitos setores da sociedade, a proposta de Milei representa um debate há muito
esperado na Argentina, um país com longa tradição sindical e amplos direitos
trabalhistas que muitos consideram antiquados.
"Nossa
legislação trabalhista foi consolidada na década de 1970 e reflete um mundo
diferente, um modelo trabalhista baseado em funcionários de escritório e
operários de fábrica", disse Miguel Ángel Maza, professor de Direito do
Trabalho, à BBC Mundo.
Hoje, o
país enfrenta um nível recorde de informalidade, com quase metade dos
trabalhadores sem direitos trabalhistas garantidos.
Esse
número representa quase 6 milhões de pessoas que não têm direito a seguro
saúde, licença médica, indenização por demissão ou contribuições para a
previdência.
Entre
os menores de 29 anos, a taxa de emprego informal chega a quase 6 em cada 10, e
esse número é ainda maior entre as mulheres jovens, segundo o Instituto
Nacional de Estatística e Censos.
A
insegurança no trabalho vem aumentando nos últimos 13 anos, com mais
trabalhadores em empregos informais, de acordo com dados do Sistema Integrado
de Pensões da Argentina e da Pesquisa Permanente de Domicílios.
Essas
são as principais questões no centro do debate na Argentina.
<><>
1. O que Milei propõe
Entre
os principais pilares da reforma, o governo propõe permitir a extensão da
jornada de trabalho diária de 8 para 12 horas sem a necessidade de pagamento de
horas extras, desde que o período de descanso de 12 horas seja respeitado e o
limite legal semanal de 48 horas não seja ultrapassado.
Para
tanto, será criado um banco de horas extras para cada funcionário, que a
empresa poderá compensar com folgas ou dias de folga em vez de dinheiro.
"Não
é o ideal, mas a realidade é que muitas pessoas trabalham mais de 8 horas,
muitíssima gente, e nem sempre recebem horas extras", diz Maza.
O
governo defende que os trabalhadores poderão negociar, por exemplo, trabalhar
mais horas todos os dias de segunda a quinta-feira e ter folga às
sextas-feiras.
O
projeto de lei permite o pagamento de salários em moeda nacional ou
estrangeira, em uma economia onde o dólar tem grande importância, e também uma
parte em "benefícios em espécie, moradia ou alimentação".
Também
está previsto o conceito de "negociação salarial dinâmica".
Este
ponto implica que o empregador tem maior liberdade para negociar novas
condições após a assinatura do contrato.
A
fórmula para o cálculo da indenização por demissão está sendo redefinida,
restringindo o que constitui remuneração do empregado.
Caso a
medida seja aprovada, férias, bônus e outros itens não incluídos no salário
mensal serão excluídos do cálculo.
O
partido governista argumenta que se desenvolveu na Argentina uma
"indústria de litígios trabalhistas" porque, devido a regulamentações
vagas, juízes estavam concedendo indenizações que multiplicavam os salários por
dezenas de vezes, incentivando os empregados a recorrerem à justiça.
Em
relação às demissões, o governo propôs a criação de um fundo com contribuições
patronais, que poderia ser usado para o pagamento das indenizações.
Essa
porcentagem viria das contribuições patronais já existentes, portanto sem
custos adicionais aos empregadores. Já o Estado receberia menos dinheiro.
O
projeto ainda amplia a lista de "serviços essenciais" que têm fortes
restrições ao direito de greve, incluindo o setor da educação e serviços
alfandegários, entre outros.
A
reforma estabelece alterações na lei sobre sindicatos. As assembleias sindicais
não poderão interromper o funcionamento normal da empresa, precisarão da
autorização do empregador e o trabalhador não será remunerado durante esse
período.
A
proposta inclui benefícios fiscais para incentivar as empresas a contratarem
novos funcionários. As empresas que contratarem desempregados, trabalhadores
autônomos ou ex-funcionários públicos receberão descontos nas contribuições
previdenciárias patronais durante os primeiros quatro anos.
O
artigo 44 do projeto de lei, que foi retirado pelo próprio governo após a
primeira votação no Senado, estipulava que, em casos de licença médica ou
acidentes não relacionados ao trabalho, os trabalhadores receberiam 50% ou 75%
do seu salário, dependendo do caso. Hoje, o valor é de 100%.
<><>
2. Os motivos de Milei
A
reforma de Milei surge em um momento de fechamento de vagas qualificadas na
Argentina. O setor industrial acumulou uma perda de quase 65 mil empregos nos
últimos dois anos, segundo a União Industrial Argentina (UIA).
Milei
pôs fim às políticas protecionistas anteriores, que descreveu como as de
empresários que "caçavam dentro de um zoológico" e que elevavam o
custo dos produtos para os argentinos.
Para o
partido governista, o problema tem origem em governos anteriores, com uma
legislação atual contraproducente.
O
governo acredita que o novo marco regulatório gerará mais empregos formais
devido aos menores custos para as empresas.
"Esta
lei representa um ponto de virada na história trabalhista argentina",
afirmou a Presidência da República em um comunicado à imprensa após a aprovação
do projeto pelo Senado.
"Após
anos de litígios trabalhistas que beneficiaram apenas alguns, burocracia
excessiva e regulamentações obsoletas diante de profundas mudanças econômicas e
tecnológicas, estamos agora diante de uma profunda transformação que restaura a
previsibilidade, o dinamismo e a liberdade do mercado de trabalho."
O
documento enfatiza que a iniciativa é "uma reforma estrutural destinada a
atualizar um sistema que, durante décadas, excluiu milhões de argentinos do
emprego formal e dificultou a criação de empregos registrados".
Milei
já havia insistido em diversas ocasiões sobre a necessidade de atualizar as
normas trabalhistas na Argentina.
Antes
da sessão na Câmara dos Deputados, um debate acalorado aconteceu na
quarta-feira em uma comissão parlamentar, onde Gabriel Buenos, diretor de
assuntos corporativos da Rappi, aplicativo de entrega em domicílio, defendeu a
proposta.
"Apoiamos
esse tipo de discussão. Precisamos de regras claras que permitam o
desenvolvimento da economia de plataformas", afirmou Buenos, segundo a
imprensa argentina.
<><>
3. As críticas à reforma de Milei
Uma das
principais críticas às mudanças é que elas equiparam o poder de negociação das
empresas ao dos trabalhadores.
"A
reforma tem uma falha fundamental muito grave e perigosa. Ela mascara a crença
ideológica de que as relações de trabalho são relações comuns, de que o direito
do trabalho não é necessário. É uma descrença na inferioridade do trabalhador
em relação ao empregador", diz Maza.
"O
direito do trabalho não é uma invenção peronista; ele surge do reconhecimento
de que o trabalhador, individualmente, não pode negociar em igualdade de
condições com o empregador", acrescentou.
Segundo
o especialista em direito do trabalho, a nova lei incentivará a demissão de
trabalhadores, pois os empregadores não hesitarão em usar o fundo criado
especificamente para esse fim.
"Minha
experiência me diz que o emprego provavelmente não aumentará após a medida,
porque a contribuição para a previdência social não é o fator mais importante.
O que os empregadores levarão em consideração ao contratar é se terão clientes
e se a margem de lucro permitirá a sustentabilidade do negócio", afirmou.
Uma
formalização maior do emprego, diz ele, é alcançada por meio de inspeções.
O líder
do bloco de oposição peronista, União pela Pátria, Germán Martínez, declarou
antes da votação de quinta-feira que "a lei é horrível e absolutamente
inconstitucional".
"Longe
de ser uma lei que moderniza, é uma lei que nos faz retroceder e não acrescenta
nenhum novo direito aos trabalhadores. Pelo contrário, o que ela faz é gerar um
processo regressivo em termos de direitos, sem precedentes na Argentina",
acrescentou à Rádio 10.
"Atacam
os direitos dos trabalhadores, atacam a indústria nacional e o futuro do país.
Direitos não são negociáveis", declarou a CGT (Confederação Geral do
Trabalho) após convocar uma greve.
Os
governadores das províncias de Buenos Aires, Terra do Fogo, Formosa, Santiago
del Estero, La Rioja e La Pampa manifestaram sua rejeição à reforma.
"Estamos
convencidos da necessidade de empreender reformas e transformações nos marcos
regulatórios que governam o mundo do trabalho", disse o governador
peronista Axel Kicillof nas redes sociais.
"No
entanto, nenhuma reforma pode ter como objetivo desmantelar direitos arduamente
conquistados ou reduzir proteções, mas sim, pelo contrário, reconhecer novas
garantias em um mercado de trabalho instável", acrescentou o governador.
Em meio
a acusações cruzadas e opiniões divergentes sobre o assunto, os mais céticos
acreditam que a reforma pode simplesmente manter o status quo.
Fonte:
BBC News Mundo

Nenhum comentário:
Postar um comentário