segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

A corda bamba de Delcy Rodríguez — e as cartas na manga da presidente da Venezuela

Uma visão luminosa de Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores brilhou sobre Caracas no céu noturno, em janeiro. A luz firme de centenas de drones em um show organizado pelo governo da Venezuela ergueu a imagem do casal em frente às nuvens. Em seguida, os drones se redispuseram para pedir seu retorno: El pueblo los reclama, dizia a mensagem, em espanhol. "O povo os quer de volta." Desde a operação relâmpago dos Estados Unidos, que levou o presidente deposto e sua esposa para fora do país no dia 3 de janeiro, a Venezuela se encontra em um limbo.

A vice de Maduro e, agora, presidente em exercício Delcy Rodríguez vem pedindo o retorno de Maduro e Flores ao país. Mas não há sinais de que isso vá acontecer. O ex-primeiro-casal da Venezuela segue no Centro de Detenção Metropolitano do Brooklyn em Nova York, nos Estados Unidos. Eles aguardam julgamento por supostos crimes, incluindo tráfico de drogas. O casal nega todas as acusações. "Trump indicou que a Venezuela, agora, é um protetorado dos Estados Unidos e, por isso, ela atende à vontade do presidente americano", segundo o pesquisador sobre América Latina Christopher Sabatini, do centro de estudos britânico Chatham House. "Ela também é investigada pela DEA [a Agência de Combate às Drogas dos EUA]", prossegue ele. "Não há condenação, nem um prêmio pela sua cabeça, nem indiciamento, mas a ameaça está presente. A ameaça é 'temos provas contra você'."

A BBC entrou em contato com a DEA em busca de comentários, mas não recebeu resposta. Rodríguez caminha no momento por uma corda bamba diplomática. "O presidente Maduro já havia alertado sobre um ataque desta natureza, devido ao desespero dos Estados Unidos e sua voracidade por energia", afirmou Rodríguez na sua primeira declaração após a operação. Mas, pouco depois, Trump anunciou a concordância de Caracas em enviar até 50 milhões de barris de petróleo. E que ele administraria o dinheiro.

No seu primeiro discurso como presidente na Assembleia Nacional venezuelana, em 16 de janeiro, Rodríguez criticou o que chamou de "expansão imperialista dos Estados Unidos". E, no mesmo dia, a presidente se reuniu com o diretor da CIA (a agência de inteligência americana) John Ratcliffe em Caracas. Também entramos em contato com Delcy Rodríguez com um pedido de comentários. "A legitimidade de Rodríguez depende do poderio militar dos Estados Unidos. E ela irá durar enquanto Trump assim quiser. Ela não pode fazer frente a ele", explica a analista política venezuelana Carmen Beatriz Fernández, CEO (diretora-executiva) da empresa de consultoria política DataStrategia. Por quanto tempo Rodríguez poderá manter essa ação dupla, mantendo a esquerda venezuelana e o governo dos Estados Unidos ao seu lado? E, se ela precisar escolher, será uma escolha difícil ou um dos lados obviamente detém o poder?

<><> 'Ianques, voltem para casa!'

A capital da Venezuela, Caracas, tem cerca de três milhões de habitantes. Ela está repleta de faixas pedindo a volta de Maduro e denunciando o intervencionismo dos Estados Unidos. "Ela está mantendo a comunicação da melhor forma possível e estabelecendo orientações para que o país continue a funcionar, apesar do sequestro", explica à BBC o servidor civil Leonardo Arca, de 39 anos, durante uma pequena marcha a favor do governo em Caracas, no mês de janeiro. Estas exibições públicas pedindo o retorno de Maduro normalmente são organizadas pelo governo. E é comum que os patrões digam aos seus funcionários que compareçam. Ele carrega uma faixa que diz "Cilia Livre". Outras pessoas trazem cartazes com os dizeres "ianques, voltem para casa" ou "traga-os de volta", em inglês.

Desde que Maduro e Flores foram detidos, a impressão é que anos de mudanças foram concentrados em algumas semanas. O superpoder do chavismo — a ideologia política de esquerda que sustentou os governos de Hugo Chávez (1954-2013) e de Maduro como seu sucessor — é que ele pode mudar rapidamente de curso para manter o presidente no poder, seja ele quem for. Ao assumir seu mandato "temporário", Delcy Rodríguez — chavista por toda a vida — nomeou basicamente tecnocratas, não ideólogos. É uma indicação da necessidade de pragmatismo nesta entrada do país em uma nova era. Além de aprovar uma lei que abre o caminho para que as empresas petrolíferas americanas comecem a trabalhar na Venezuela, Rodríguez também permitiu a libertação de diversos políticos e defensores dos direitos humanos, que estavam presos há meses ou anos.

A oposição afirma que isso só aconteceu devido à pressão dos Estados Unidos e destaca que muitos prisioneiros políticos continuam na prisão. Trump já se referiu a Rodríguez como "uma pessoa maravilhosa" e "alguém com quem trabalhamos muito bem". Já Rodríguez admitiu que houve ligações telefônicas e afirmou que o tom é "cortês" e de "respeito mútuo". O presidente americano também reconheceu as dificuldades diplomáticas enfrentadas por Rodríguez. Questionado por um repórter sobre sua opinião a respeito das declarações da líder venezuelana, de que Maduro ainda é o presidente legítimo do país, Trump minimizou a questão, dizendo "acho que provavelmente ela precisa dizer isso".

<><> A escalada das pressões

Delcy Rodríguez vem evitando comentários inflamados sobre Donald Trump. Mas ela já usou linguagem profundamente enraizada na oposição comunista da América Latina ao expansionismo norte-americano, ao se referir aos Estados Unidos como "potência nuclear letal", "invasor" e "imperialista". Para o analista Phil Gunson, do centro de estudos Grupo Internacional de Crises, "Washington precisa entender que ela precisa manter esta retórica. É uma forma de reafirmar a coesão com o projeto chavista, mesmo sabendo que ela não é real."

Todos os especialistas consultados pela BBC concordam que as pressões e ameaças dos Estados Unidos a Delcy Rodríguez e à Venezuela são reais. "A pressão americana pode se escalar", afirma a cientista política venezuelana Ana Milagros Parra. Ela afirma que as opções dos Estados Unidos podem incluir o aumento da intervenção em território venezuelano, novas sanções econômicas e mais bloqueios ao petróleo.

Rodríguez precisa continuar satisfazendo os chavistas tradicionais, mas eles representam apenas 15 a 20% da sociedade venezuelana. E existem muitas pessoas na Venezuela que nunca apoiaram Nicolás Maduro. Durante seus 13 anos no poder, Maduro viu sua popularidade se desvanecer. Sua vitória nas eleições presidenciais de 2024 foi questionada devido às muitas acusações internacionais de fraude. As atas da oposição, coletadas pelos seus observadores e avaliadas de forma independente, mostraram que seu candidato, Edmundo González, conquistou 67% dos votos, contra 30% de Maduro, que assumiu o governo reivindicando a vitória com 53% dos votos.

Mais de 7,9 milhões de venezuelanos deixaram o país desde 2014. Destes, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) contabiliza 6,5 milhões como refugiados. Estes números demonstram a escala da crise civil e econômica enfrentada pelo país. "Este não foi um governo popular", segundo Sabatini. "A maioria dos venezuelanos se sente mais otimista sobre sua destituição."

Existe um fator importante que pode jogar em favor de Rodríguez: a promessa de uma trégua para a economia venezuelana, que enfrenta dificuldades há muito tempo.

A inflação do país é, de longe, a maior do mundo. 86% dos venezuelanos viviam na pobreza em 2024, segundo o Observatório Venezuelano das Finanças. E os alimentos são extremamente caros no país. Pesquisas realizadas em 2025 concluíram que uma cesta básica composta de 60 produtos de uso diário custa na Venezuela o equivalente a US$ 526,83 (cerca de R$ 2.760). Assolados por anos de hiperinflação, os venezuelanos esperam que os investimentos norte-americanos reduzam a crise. Mas, com o firme foco na indústria petrolífera demonstrado até agora por Washington, não se sabe ao certo quais benefícios chegarão ao trabalhador médio do país — e quando.

<><> Os 'colectivos'

Delcy Rodríguez também precisa manter um delicado equilíbrio com os militares, que são leais a Nicolás Maduro. O ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello, detém grande poder e Rodríguez o trata com cautela. "Ele lidera não só uma guarda nacional ou as forças armadas profundamente corruptas, mas também um grupo desorganizado de paramilitares conhecido como los colectivos... Eles são as tropas de choque destacadas para ameaçar manifestantes", explica Sabatini. "Este é, por assim, dizer, o exército privado de Cabello. O prêmio pela sua captura nos Estados Unidos é de US$ 25 milhões", cerca de R$ 131 milhões. O prêmio pela captura de Cabello mostra que os Estados Unidos o mantêm na sua mira. Ainda assim, ele e Rodríguez aparecem juntos em eventos, em uma aliança desconfortável. "Existe uma teoria que diz que eles estão brincando de 'policial bom, policial mau'", destaca Sabatini. "Ela sabe que precisa dele para manter as forças de segurança ao seu lado... mas, desde que elas não interfiram com sua intenção de atrair investidores e a maior parte dos elementos do governo Trump, ele serve aos seus propósitos."

Apesar dessa tentativa massiva de equilíbrio e de todo o poderio norte-americano, alguns defendem que Rodríguez não é tão impotente contra Trump, como pode parecer à primeira vista. Para Sabatini, Trump está ansioso para que o mundo veja a retirada de Maduro como um sucesso absoluto. "Trump quer ver a Venezuela prosseguindo no caminho atual. Ele não quer que nada contradiga a narrativa de que tudo está às mil maravilhas. Trump não quer ver o 'circo pegar fogo', por assim dizer." Por isso, "ela tem algum poder sobre Trump, que a maioria das pessoas não percebe. Ela não é apenas uma parceira secundária", segundo Sabatini.

"É uma parceria mais igualitária do que Trump gostaria que fosse."

<><> Uma nação dividida

Divisões existentes no próprio governo dos Estados Unidos também poderão ter fortalecido o poder de Rodríguez. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, tem uma agenda explicitamente anticomunista e se acredita que ele deseje a derrubada do governo venezuelano. "Rubio... fala regularmente com a oposição, que não está satisfeita", explica Christopher Sabatini. "Existem focos de descontentamento. Rubio e os outros irão forçar a antecipação das eleições, mas é ela quem decide quando elas irão acontecer. E, quanto melhor estiver a situação na Venezuela, maior a probabilidade de que Rodríguez convoque eleições. "Ela quer esperar a economia se reerguer para poder competir e, possivelmente, vencer", destaca Sabatini. De fato, este pragmatismo faz parte do DNA político de Delcy Rodríguez. "O chavismo é pragmático", segundo Phil Gunson. "Seu principal objetivo é sobreviver, manter o poder e a riqueza." Para Ana Milagros Parra, "eles se dobram para não quebrar". E, aparentemente, isso significa que, mesmo contra todo o poderio de Trump, Rodríguez não está totalmente destituída de poder.

¨      As outras riquezas naturais da Venezuela que são 'críticas' para os EUA

Venezuela e petróleo são termos quase sinônimos. Por mais de um século, o país sul-americano foi um dos maiores produtores de petróleo do mundo. E, no fim da década passada, foi confirmado o que até então só se suspeitava: o país possui a maior reserva de petróleo comprovada do planeta. O solo venezuelano abriga cerca de 300 bilhões de barris de petróleo, principalmente extrapesado. O volume supera os 260 bilhões da Arábia Saudita, o principal exportador do combustível do mundo e, por décadas, seu maior produtor. "Aqui fica a maior reserva de petróleo deste planeta. Aqui, na Venezuela, temos petróleo para mais de 100 anos", declarava insistentemente o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez (1954-2013). Mas não existe só petróleo nas entranhas do solo venezuelano. Elas também abrigam grandes jazidas de diversos metais e outros minerais.

Durante anos, Chávez e seu sucessor, Nicolás Maduro, atribuíram suas más relações com os Estados Unidos ao interesse de Washington de se apropriar desses recursos.

"Qual é o objetivo do atual governo dos Estados Unidos? Eles já declararam: apoderar-se de todo o petróleo da Venezuela, do ouro, das terras raras, das riquezas da Venezuela", afirmou Maduro em entrevista publicada no dia 1° de janeiro — dois dias antes da inédita operação militar ordenada pelo presidente americano, Donald Trump, que resultou na captura do então governante e da sua esposa, Cilia Flores. As primeiras palavras de Trump após o ocorrido pareciam confirmar as suspeitas de Maduro. "O que precisamos [das autoridades interinas venezuelanas] é de acesso total", declarou Trump. "Total acesso ao petróleo e a outras coisas do país que nos permitam reconstruí-lo." Para os analistas consultados pela BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) e para o próprio governo interino da Venezuela, estas "outras coisas" não especificadas pelo presidente dos Estados Unidos aparentemente incluem as vastas jazidas minerais do país.

<><> Amplo estoque

"Na Venezuela, o petróleo não é o único recurso mineral importante. Existem também outros e uma minoria deles começou a ser explorada", explica à BBC o geólogo venezuelano Gustavo Coronel, um dos diretores fundadores da empresa estatal Petróleos de Venezuela (Pdvsa). Mas quais são esses minerais? "Ferro, bauxita e ouro", detalha ele. Já o sociólogo Emiliano Terán Mantovani, da Universidade Central da Venezuela (UCV), acrescenta à lista "diamantes, coltan, níquel, cobre e carvão". Terán Mantovani é um pesquisador especializado nos impactos para a América Latina do chamado "extrativismo", a exploração e exportação de grandes volumes de recursos naturais com pouco processamento.

As autoridades venezuelanas garantem que existem no país pelo menos 50 minerais e calculam que cerca de 15 deles podem ser explorados comercialmente. O Centro Internacional de Investimentos Produtivos (CIIP), um organismo subordinado à vice-presidência da Venezuela, indica que o país detém a oitava maior reserva mundial de ferro, com 14,721 bilhões de toneladas do metal. Além disso, existem na Venezuela mais de 321 milhões de toneladas de bauxita, a matéria-prima usada para a obtenção de alumínio metálico, que é empregado na fabricação de aviões, automóveis e muitos outros produtos. Em relação ao ouro, o CIIP assegura que o país abriga entre 2,2 mil e 8 mil toneladas do metal. Este volume transformaria a Venezuela na segunda maior reserva mundial de ouro.

Mas os especialistas consultados pela BBC News Mundo alertam que estes dados não foram verificados de forma independente. "Ninguém sabe, nem mesmo o governo, qual o volume das reservas comprovadas de ouro, já que sua exploração é muito desordenada e não houve mais estudos a respeito", explica Coronel. A maior parte das jazidas desses minerais está localizada no sudeste do país, particularmente na região de Guayana, formada pelos Estados de Bolívar, Amazonas e Delta Amacuro. Algumas delas são exploradas há várias décadas. Em outras partes da Venezuela, como a península de La Guajira, no Estado de Zulia (na fronteira com a Colômbia, a oeste), existem depósitos de carvão. E o cobre está espalhado pelo centro-norte e nordeste do país.

<><> O mistério das terras raras

Nos últimos anos, as autoridades venezuelanas garantiram que existem no país depósitos das chamadas terras raras, os 17 elementos químicos atualmente em alta demanda para a fabricação de baterias, telas, ímãs e outros equipamentos tecnológicos. Os especialistas concordam com esta avaliação.

"No ano de 1971, foi realizado um levantamento aeromagnético, que detectou a existência de terras raras em Cerro Impacto, entre os Estados de Bolívar e Amazonas", segundo Coronel. O tório é um elemento altamente radioativo e muito utilizado na indústria nuclear. Ele foi identificado ao lado do nióbio e do tântalo, segundo um relatório do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês), publicado em 1990. Mas o organismo americano não inclui a Venezuela entre os depósitos de terras raras por falta de dados. O motivo é que, mesmo décadas depois das primeiras descobertas, o volume destas jazidas ainda é desconhecido. "Esses minerais estão em uma zona de difícil acesso, com muita vegetação, e estão cobertos por uma enorme quantidade de sedimentos", explica Coronel. "Por isso, é necessário escavar e perfurar, o que afetaria gravemente o meio ambiente." Mas as autoridades afirmam que existem grandes depósitos destes elementos, bem como de coltan, que é muito utilizado pela indústria de tecnologia civil e militar.

O coltan é uma mistura de columbita e tantalita, das quais são extraídos, respectivamente, o nióbio e o tântalo. Ambos são extensamente empregados na fabricação de componentes eletrônicos. "As reservas de coltan na Venezuela, em uma avaliação muito preliminar, podem se aproximar de US$ 100 bilhões" (cerca de R$ 520 bilhões), afirmou Chávez em um discurso no parlamento venezuelano, em 2010. Mas a primeira exportação do chamado "ouro azul" só ocorreu oito anos depois. Em 2018, o então ministro do Desenvolvimento Mineral, Víctor Cano, anunciou a venda de cinco toneladas de coltan para a Itália, pelo valor de US$ 330 mil (cerca de R$ 1,7 milhão). Desde então, não houve registro de novos embarques formais do mineral para o exterior. Mas existem relatos de organizações ambientalistas e da imprensa local indicando um contrabando cada vez maior de coltan venezuelano.

<><> Plano B

A tradição venezuelana da mineração remonta aos tempos da colonização espanhola. Mas ela nunca foi um motor da economia do país, apesar do seu potencial. Isso mudou a partir da segunda metade da década passada. "Com a redução da produção de petróleo, Maduro estabeleceu em 2016 o Arco Mineiro do Orinoco, para explorar os minerais da região", recorda Terán, "particularmente do ouro, que assumiu protagonismo graças aos seus elevados preços internacionais."

O Arco Mineiro é uma vasta região de mais de 110 mil km², o que equivale a 12% do território da Venezuela. Ele está localizado ao norte dos Estados venezuelanos do Amazonas, Bolívar e no sul de Delta Amacuro, perto do Cinturão Petrolífero do Orinoco, onde fica a maior parte das reservas de petróleo da Venezuela. O Arco foi dividido em quatro blocos, conforme a preponderância das jazidas minerais que eles contêm. "Esperava-se que cerca de 150 empresas participassem da exploração do Arco", explica o especialista. "Mas a falta de segurança jurídica, o agravamento da crise política e as sanções internacionais prejudicaram os planos."

O setor de mineração também foi objeto de desapropriações durante o governo de Hugo Chávez. Algumas destas disputas continuam a ser travadas em tribunais internacionais. "A partir dali, o governo recorreu à pequena mineração para extrair o ouro, uma atividade que nem sempre respeita o meio ambiente, nem as comunidades indígenas", explica Terán. E, como se tudo isso já não fosse suficiente, o especialista denuncia que "o crime organizado se expandiu na região, graças à sua associação a setores militares que enriqueceram com a mineração". As autoridades reconheceram irregularidades na região. "Eles levam o ouro, o coltan, os diamantes", admitiu Maduro, em janeiro de 2018. Mas os funcionários afirmam que estes são casos isolados e que seus responsáveis são perseguidos.

Apesar dos obstáculos, a exploração do ouro aumentou de forma constante nos últimos anos, atingindo cifras sem precedentes. São 40 a 50 toneladas por ano, o que representa US$ 2,7 bilhões a US$ 3,3 bilhões (cerca de R$ 14 a 17 bilhões), segundo fontes nacionais e internacionais. Mas apenas uma pequena parcela destes valores chega aos cofres públicos do país. "Estariam ingressando no Banco Central da Venezuela apenas 8% do ouro explorado, a título de royalties, e 6% pela autorização de exportação, enquanto as organizações criminosas ficariam com cerca de 20% e as alianças estratégicas vinculadas à elite política, com 66%", denunciou a organização Transparência Venezuela, em um relatório publicado em 2024. As autoridades venezuelanas têm sido muito pouco claras em relação à produção de ouro e não informam os valores recebidos pelo BCV. Em fevereiro, a presidente interina Delcy Rodríguez afirmou que o ouro "mantém o serviço exterior" (embaixadas e consulados) e financia "os esportistas venezuelanos" que comparecem a competições internacionais. Paralelamente, ela revelou que foram extraídas 9,5 toneladas do metal em 2025.

<><> As minas estão na mira

Além do pedido de "total acesso" por parte de Trump, outras autoridades americanas deixaram claro o interesse de Washington pelos recursos naturais venezuelanos. "Eles têm ferro e todos os minerais críticos, têm um grande histórico de mineração que se deteriorou, mas o presidente Trump irá arrumar e recuperá-lo", anunciou o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, horas depois da captura de Maduro e Flores. Acrescente-se a todo o acima que, em novembro de 2025, a bauxita, o níquel, o cobre e o carvão, também existente na Venezuela, foram incorporados à lista de minerais críticos fundamentais para a economia americana, elaborada pelo USGS. "Os minerais críticos sustentam indústrias que valem trilhões de dólares e a dependência da importação coloca setores fundamentais em risco", alerta o diretor do USGS, Ned Mamula.

Especialistas dão como certo que o interesse de Washington não se limitará ao petróleo venezuelano. Afinal, o governo dos Estados Unidos já deixou claro que pretende diversificar sua cadeia de matérias-primas. "O ouro faz parte do interesse americano nesta nova situação", destaca Coronel. "Sabe-se que o presidente Trump detém especial predileção pelo ouro, como mostra a decoração do seu escritório na Casa Branca." Mas o geólogo expressou preocupação com a forma de exploração de alguns dos minerais. "Um governo democrático certamente deixaria intacta a região de Cerro Impacto, já que existe o risco de um desastre ecológico", explica Coronel. "Mas receio que, agora, alguns países que precisam desesperadamente desses minerais poderiam pressionar para abrir a zona para exportação. E um deles, obviamente, são os Estados Unidos." Terán também expressou sua apreensão com os desejos de Washington. "Não é exagero afirmar que, aqui, não há nenhuma consideração ambiental, nem preocupação com a democracia ou os direitos humanos", alerta ele. "O que estamos observando são sinais de acordos muito subordinados, que colocam em risco a ideia de soberania que tivemos."

Mas empresas especializadas, como a GlobalData Energy, expressaram suas dúvidas sobre a capacidade da Venezuela de se transformar em um fornecedor confiável de minerais para os Estados Unidos a curto prazo. Isso se deve à carência de infraestrutura moderna no país, de estudos confiáveis sobre suas reservas e, sobretudo, de um marco jurídico estável, segundo um relatório publicado recentemente. As autoridades venezuelanas já estão abordando este último aspecto. Elas se mostraram dispostas a abrir as jazidas minerais ao investimento privado. "Essas imensas reservas de petróleo precisam ser extraídas para serem transformadas em escolas e hospitais [...]. Debaixo da terra, elas não servem para ninguém", declarou o presidente da Assembleia Nacional venezuelana, Jorge Rodríguez — irmão da presidente em exercício, Delcy Rodríguez. Jorge Rodríguez fez a declaração para defender a rápida reforma da Lei de Hidrocarbonetos, que reverte parte do modelo estatizador imposto pelo chavismo nas últimas duas décadas. E, entre os 29 textos legais que o governo pretende modificar, também se inclui a lei que regulamenta a mineração.

 

Fonte: BBC News Mundo

 

 

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