segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

A prisão de brasileiro que abalou rede global de abusadores de crianças

Em uma manhã de 2019, a Polícia Federal (PF) deflagrou uma operação que caiu como uma bomba atômica sobre redes globais de abusadores sexuais de crianças, mas quase ninguém ficou sabendo.

Naquele dia, após vários meses de investigação e com o apoio de policiais de diferentes países, investigadores brasileiros prenderam um homem que administrava cinco dos maiores fóruns de materiais de abuso sexual infantil na dark web, uma parte oculta da internet só acessível por ferramentas específicas.

Segundo a PF, os fóruns tinham quase 2 milhões de usuários espalhados pelo mundo. Discreto e dotado de grande conhecimento técnico, o dono dos sites era conhecido na dark web como Lubasa e vinha conseguindo escapar das forças globais de segurança fazia alguns anos.

Apesar da grandiosidade do feito, a prisão foi mantida em sigilo por um motivo: com os servidores do criminoso em mãos, a polícia tinha informações para desmascarar outros tantos abusadores que frequentavam seus sites e temia que, se eles soubessem da detenção de Lubasa, poderiam tentar fugir.

Sete anos depois da prisão — e de centenas de novas operações ocorridas a partir daquela, incluindo o resgate de um menino sequestrado que era tratado como morto na Rússia —, a história é narrada em Infiltrados na dark web, um documentário da BBC News Brasil com a BBC Eye, equipe de investigações da BBC.

A equipe de reportagem passou sete anos acompanhando a rotina de policiais do Brasil, Estados Unidos, Rússia e Portugal que integram uma coalizão formada para combater o abuso sexual infantil na dark web.

Muitos deles trabalham infiltrados em fóruns frequentados por pedófilos, buscando informações que levem à identificação de criminosos e ao resgate de suas vítimas.

Espécie de internet paralela, não indexada por buscadores, a dark web foi criada em 1990 pelo Departamento de Defesa dos EUA para que espiões se comunicassem em segredo, já que a rede permite que usuários ocultem a identidade e rastros digitais.

Após ter sido aberta ao público, em 2004, ela passou em poucos anos a abrigar fóruns voltados à distribuição de materiais de abuso sexual infantil, tornando-se um dos principais campos de ação para policiais que combatem esse tipo de crime.

<><> O início das buscas

A coalizão global de policiais retratada no documentário passou a priorizar a identificação de Lubasa, especialmente após a prisão de um de seus principais colaboradores — um português conhecido nos fóruns da dark web como Twinkle.

Os nomes reais de Twinkle e Lubasa não são revelados para proteger suas vítimas.

Twinkle era o principal colaborador do BabyHeart, um dos fóruns mais violentos da dark web. A plataforma era administrada pelo brasileiro Lubasa e abrigava cenas de abuso sexual de bebês.

Twinkle fornecia "uma quantidade quase inacreditável" de fotos e vídeos de abusos para o site, diz à BBC Greg Squire, agente do Departamento de Segurança Interna dos EUA e um dos líderes da coalizão internacional de policiais.

Segundo Squire, o criminoso português produziu e postou na plataforma cenas de abusos de até 15 crianças diferentes.

"Assistir alguém estuprar um bebê… Não há nada de humano nisso", diz Squire.

Identificá-lo, porém, era difícil, pois Twinkle escrevia em diferentes idiomas e evitava compartilhar informações pessoais na rede.

A primeira pista sobre sua nacionalidade só surgiu após Twinkle usar uma expressão típica da língua portuguesa em uma conversa em inglês com outro usuário: "Custou os olhos da minha cara".

Mas ele só foi identificado tempos depois, quando a polícia brasileira prendeu um abusador de crianças que se correspondia virtualmente com o criminoso português.

Twinkle foi preso em sua casa, em um vilarejo no norte de Portugal. Ao arrombar a porta, a polícia o encontrou na cama ao lado de duas crianças. Os arquivos onde ele armazenava fotos e vídeos de abusos estavam enterrados em uma floresta vizinha à residência e também foram recuperados.

Mas, ao questionarem Twinkle sobre como poderiam tirar do ar o site BabyHeart, os policiais ouviram dele que somente uma pessoa seria capaz de fazê-lo: Lubasa, a quem o português chamou de "chefão".

Twinkle cumpre hoje pena de 21 anos de prisão em Portugal.

<><> Um criminoso 'idolatrado por 2 milhões pessoas'

O nome Lubasa já circulava entre os policiais da coalizão fazia alguns anos, mas ainda não havia pistas que levassem à sua identificação.

"Lubasa estava em outro nível. Se chegássemos até ele, teríamos acesso a tudo o que acontecia sob seu comando", lembra Squire.

Naquela altura, policiais brasileiros já estavam no encalço do criminoso.

"Ele era uma pessoa idolatrada por mais de 2 milhões de pessoas ao redor do mundo", diz a delegada brasileira Rafaella Parca, também integrante da coalizão e membro da Divisão de Repressão a Crimes Cibernéticos da Polícia Federal.

Por criar e manter a estrutura para que os fóruns de abuso sexual infantil funcionassem, Lubasa era tratado pela polícia como "responsável por todos os crimes que aconteciam dentro desses locais", diz Parca.

Mas, assim como Twinkle e outros pedófilos da dark web, o brasileiro falava pouco de si na plataforma, dificultando sua identificação.

Até que, após vários meses de investigações, seu nome real foi finalmente descoberto.

As cenas da captura de Lubasa, em 2019, são reveladas pela primeira vez no documentário da BBC, assim como os detalhes de seu caso, que passaram vários anos sob sigilo.

Sete anos depois, a polícia avalia que a divulgação das informações já não compromete outras investigações nem a busca por outros criminosos associados a Lubasa.

"Ele ficou surpreso, apático, calado, como se aquilo fosse inacreditável", lembra Parca sobre o dia da prisão. "Ele acreditava que era inatingível."

Hoje, Lubasa cumpre pena de 266 anos de prisão no Brasil.

Ao capturá-lo, em meio a uma grande quantidade de lixo e sujeira na sua casa, a polícia encontrou os servidores que mantinham seus cinco fóruns de pedofilia no ar — máquinas avaliadas em vários milhares de reais.

Foi a maior apreensão de arquivos da dark web na história, segundo a coalizão de policiais.

Os arquivos foram compartilhados com as polícias que compunham a coalizão e com a Interpol, maior organização policial do mundo que reune 196 países para facilitar a cooperação global e o intercâmbio seguro de dados sobre crimes.

Com base nos documentos, centenas de usuários dos fóruns de Lubasa foram identificados e presos em diferentes países. Entre os detidos, havia pessoas que produziam materiais de abusos e outras que viam e assistiam aos conteúdos.

"Mesmo que a pessoa não tenha tido contato direto com crianças, ela é a razão da existência desses sites", diz Greg Squire, do Departamento de Segurança Interno dos EUA.

"Essas pessoas criam a demanda e incentivam aqueles que têm acesso a crianças."

<><> Menino foi resgatado na Rússia

Os arquivos apreendidos com Lubasa provocaram uma reviravolta em um caso que chocou a Rússia, em 2020.

Fazia 52 dias que a polícia russa procurava um menino de 7 anos sequestrado enquanto voltava da escola, em uma zona rural. Acompanhadas com destaque pela imprensa russa, as buscas envolveram milhares de voluntários e agentes de diferentes forças de segurança.

Fazendas e armazéns abandonados foram examinados, e as equipes esmiuçaram o trajeto do menino em busca de algum rastro. Mas, sem pistas significativas após várias semanas, a polícia suspendeu a operação e passou a considerar que o garoto tinha sido morto pelo sequestrador.

Enquanto isso, o agente Greg Squire viu em um fórum na dark web fotos de um menino "loiro, claramente em sofrimento", que se parecia com o garoto russo desaparecido.

As fotos haviam sido postadas por um usuário conhecido como Lover Boy Only (LBO), que já era monitorado por Greg. O agente lembra que LBO já havia dito nos fóruns que tinha planos de sequestrar e matar um menino.

Squire pediu então a ajuda de Gordana Vujisic, uma investigadora da Interpol em Montenegro, país da região dos Balcãs, com grande experiência em casos de abuso sexual infantil — e falante de russo.

"Estávamos todos em fusos horários diferentes, mas, mesmo sendo noite nos Estados Unidos ou na Rússia, quando eu enviava uma mensagem, recebia uma resposta imediatamente", ela lembra.

"Nem sequer pensávamos em dormir."

Os policiais temiam que LBO concretizasse o plano de matar o menino. "A vida dele estava em nossas mãos", diz a policial.

Vujisic então passou a se debruçar sobre os arquivos apreendidos durante a captura de Lubasa, em busca de alguma pista sobre a identidade de LBO.

Dentre as milhares de mensagens e fotos postadas pelo criminoso nos fóruns geridos por Lubasa, ela encontrou três informações que poderiam destravar as investigações: em diferentes conversas, LBO citou o local de trabalho do irmão, disse que sua mãe tinha morrido em um acidente de carro e que ele sofria de esquizofrenia.

Ao cruzar as informações, a polícia chegou ao nome de Dimitriy Kopylov e mobilizou uma equipe de resgate para vasculhar sua residência.

Chegando lá, arrombaram portas e janelas e encontraram Kopylov com o menino — vivo.

O garoto foi devolvido a seus pais, e Kopylov, condenado a 19 anos de prisão.

<><> Ciclo sem fim

Desde 2018 dedicada a investigações de abuso sexual de crianças, a delegada Rafaella Parca diz que, nesse campo, o fim de um caso significa o início de outro.

As provas colhidas em uma investigação muitas vezes levam a outros suspeitos, alimentando um ciclo que nunca se encerra.

Em nenhum caso isso foi tão verdadeiro quanto no de Lubasa, diz Parca.

"A gente sabia que aquela prisão seria o início de outras coisas, [ficou] uma sensação de que o trabalho estava recomeçando a partir dali", afirma a delegada.

Mesmo assim, Parca diz conseguir desfrutar do momento ínfimo que separa o fim de um caso do começo do seguinte.

"A gente sofre tanto até conseguir resolver, e quando a gente resolve, resgata uma criança ou prende o abusador, é algo libertador", diz a delegada.

"Você vê o resultado imediato, você muda a vida de uma criança, de uma família, de um círculo de pessoas, e isso é indescritível."

•        'Vivo sob ameaças constantes': a australiana que tenta tirar crianças das redes sociais

Nossa entrevista com Julie Inman Grant ainda nem começou. Na verdade, ela ainda nem entrou na sala.

Mas a conversa já trata da enxurrada de ameaças de morte e violação recebidas semanalmente pelo seu escritório.

O cargo de diretora da Comissão de Segurança Eletrônica da Austrália a coloca na primeira linha das batalhas na internet: notícias falsas, censuras, trollagem e segurança infantil.

O mundo digital pode ser um "poço sombrio", como admite um dos seus colegas. Ele destaca que a grande maioria dos abusos lançados ao escritório são dirigidos pessoalmente a Inman Grant.

"Infelizmente, tenho vivido esta realidade nos últimos anos", lamenta ela minutos depois, no seu escritório com vista para o porto australiano de Sydney.

Com 57 anos de idade, Inman Grant trabalhou por décadas em empresas privadas do setor de tecnologia. Agora, ela está do outro lado, chamando à responsabilidade algumas das empresas mais bem sucedidas do mundo, como diretora do organismo regulador independente de segurança na internet da Austrália.

Poderíamos dizer que o cargo a transformou na burocrata mais famosa do país. Mas ela também se tornou um alvo fácil.

Seus dados já foram expostos por grupos neonazistas. Ela também teve enfrentamentos públicos com Elon Musk e chegou a provocar a ira de alguns congressistas americanos.

Tudo isso ocorreu quando ela foi encarregada de implementar a pioneira proibição das redes sociais para adolescentes no país. Ou, em outras palavras, de expulsar todos os australianos com menos de 16 anos das redes sociais.

O trabalho de Inman Grant sempre foi de alta importância. Mas, agora, seu significado cresceu mais do que nunca, já que o mundo inteiro está observando o desenvolvimento do experimento australiano nas redes sociais.

<><> Legislação observada com lupa

A legislação entrou em vigor no dia 10 de dezembro e regulamenta 10 plataformas. Entre elas, o Facebook e o Instagram, da Meta, além do Snapchat e do YouTube.

Os pais australianos aprovam majoritariamente esta política. Para muitos deles, contar com o apoio do governo é de grande ajuda para enfrentar a pressão dos seus pré-adolescentes que desejam ter acesso às redes sociais.

Mas também há muitas críticas. Especialistas em tecnologia e defensores do bem-estar infantil expressaram sua preocupação. Eles afirmam que as crianças precisam ser educadas, não excluídas das plataformas.

Muitos questionam a aplicabilidade da proibição. Para eles, a legislação exclui injustamente grupos minoritários, como as crianças das zonas rurais e adolescentes com incapacidades ou que se identificam como LGBTQIA+. Todos eles têm mais possibilidade de encontrar suas comunidades na internet.

Como era de se esperar, nenhuma das empresas se mostra muito favorável.

De forma geral, elas afirmaram compartilhar a preocupação do governo sobre a segurança na internet e garantem que irão cumprir a lei, mas não acreditam que a "proibição" seja a solução.

Inman Grant defende que vale a pena tentar qualquer medida que ajude a proteger as crianças online.

"Se pudermos retardar a entrada das crianças nas redes sociais por três anos e complementar a medida com planos de ação digitais para desenvolver seu raciocínio crítico e resiliência, acredito que seja algo que valha a pena explorar", afirma ela.

Inman Grant costuma comparar o mundo digital com o mar aberto, talvez em uma tática inteligente para atrair os australianos, orgulhosos da sua relação com o oceano e suas belas praias.

"Da mesma forma que ocorre com a segurança na água, precisamos continuar ensinando nossos filhos a nadar até que sejam bons nadadores", defende ela.

"Precisamos educá-los sobre os riscos, como as fraudes algorítmicas. Precisamos educá-los sobre os predadores na água. São os tubarões online, os pedófilos e outros criminosos."

Mas ela também já usou a mesma analogia do mar para combater a proibição no passado.

"Nós não cercamos o oceano, nem mantemos as crianças totalmente fora da água. Nós criamos entornos de natação protegidos, que oferecem proteção e ensinam lições importantes desde cedo", declarou ela em junho de 2024, quando o governo ainda avaliava a proibição.

"De fato, precisei aceitar isso", admite ela, hoje.

Depois de pressionar pela liberdade na sua implementação, ela se convenceu e seu papel tem sido fundamental para determinar quais empresas serão incluídas e como elas devem cumprir a legislação.

Ela brinca dizendo que sua própria casa, que compartilha com três filhos (incluindo dois irmãos gêmeos de 13 anos), se transformou em um "laboratório".

"Tenho uma filha que não se queixou muito da ideia, mas outra pensou que o mundo fosse desabar em cima dela se retirassem seu Instagram e seu Snapchat", ela conta.

Mas Inman Grant não desanima.

"Elas estão em processo de descobrir quem são, de construir sua identidade. Quando eu era adolescente, conseguia cometer erros sem que eles fossem gravados nem amplificados por toda parte."

<><> Experiência no mundo tecnológico

Inman Grant passou seus anos de formação no mundo tecnológico. Ela cresceu em Seattle, nos Estados Unidos, berço da Microsoft e da Amazon.

Por isso, não surpreende que ela se dedique a esta linha de trabalho, depois de flertar brevemente com a ideia de trabalhar para a CIA, a agência de inteligência americana.

Ela aceitou um emprego no Capitólio, assessorando um congressista americano sobre tecnologia e telecomunicações. Posteriormente, ela concluiu um mestrado em comunicação internacional e passou a trabalhar na Microsoft.

O seu cargo na empresa a levou para a Austrália no início dos anos 2000, exatamente quando começava a florescer o mundo das redes sociais. Ali, ela conheceu seu marido e se naturalizou australiana.

Como parte do seu trabalho na Microsoft, Inman Grant procurava vulnerabilidades e falhas de segurança. E, depois de 17 anos, ela entrou para a divisão australiana do Twitter (hoje, X) e, depois, trabalhou brevemente na Adobe.

Enquanto essas empresas de tecnologia prosperavam, graças à proliferação de smartphones e aplicativos, ela sentia que havia um problema oculto.

Ela sentia que a segurança não era prioridade. Era uma época sem órgãos reguladores governamentais.

"Por isso, tentei mudar as coisas por dentro", ela conta. E, depois de mais de duas décadas, Inman Grant decidiu verificar se a mudança poderia ocorrer a partir do lado de fora.

Quando surgiu o cargo de Comissário de Segurança Eletrônica, ela explica timidamente que havia um pequeno grupo de candidatos para escolher.

O homem que ajudou a redigir o projeto de lei, Malcolm Turnbull, chegou ao cargo de primeiro-ministro (2015-2018). Ele queria, segundo ela, um comissário com experiência em segurança online, mas também no próprio setor de tecnologia. E a contratou.

"O governo acreditava que o órgão regulador só poderia ser eficaz se você conhecesse as pessoas, conhecesse os mecanismos, soubesse como eles pensavam e se fosse possível antecipar seus movimentos", explica ela.

"É preciso entender que tudo isso depende da receita, do crescimento e de quem detém o poder nas empresas."

Desde então, políticos de todas as tendências defenderam o cargo, o que muitos consideram testemunho da gestão de Inman Grant.

E, especialmente em um período em que o organismo de controle da segurança na internet passou a sofrer escrutínio cada vez maior, seu orçamento quadruplicou e sua competência e o número de funcionários se expandiram exponencialmente.

"Francamente, é uma gestão extraordinária em um campo de rápidas mudanças e bastante implacável para um órgão regulador", destaca o predecessor de Inman Grant, Alastair MacGibbon, sobre o trabalho da atual comissária.

"O escritório simplesmente se torna mais relevante a cada dia", defende ele.

O ex-ministro das Comunicações da Austrália, Paul Fletcher, ajudou a nomear Inman Grant e colaborou estreitamente com ela por vários anos. Ele afirma que ela assumiu esta função complexa com vigor e valentia.

"Em uma nação ocidental moderna, as pessoas têm a certeza de que, se você for assaltado, atacado ou se outro fato ruim ocorrer no mundo físico, você pode obter reparações", declarou ele à BBC.

"O Estado de direito deve se aplicar tanto à vida digital quanto à vida real e o Comissariado de Segurança Eletrônica é uma clara amostra disso."

A Austrália é considerada líder mundial em segurança na internet. Mas algumas empresas de tecnologia, com sede em outras partes do mundo, acusam o país, há muito tempo, de extrapolar os seus limites.

"Estamos regulamentando as grandes empresas de tecnologia, em relação à segurança online, há 10 anos", expõe Inman Grant. "E, nos primeiros sete, fomos os únicos."

Atualmente, Inman Grant enfrenta um pedido do Congresso dos Estados Unidos para testemunhar sobre as leis australianas de proibição das redes sociais.

O presidente republicano do Comitê Judiciário da Câmara dos Representantes (a câmara baixa do Congresso americano), Jim Jordan, se referiu a ela como uma "conhecida fanática dos desmantelamentos globais", que "ameaça a liberdade de expressão dos cidadãos americanos".

Jordan chegou a ameaçá-la com acusações de desacato, caso se negue a testemunhar.

Inman Grant afirma que não é responsável por defender a política e, na verdade, só pode falar sobre a sua implementação.

"Nada do que fazemos aqui afeta a capacidade das empresas americanas de mostrar o conteúdo que desejarem aos americanos", explica ela.

Ela também se prepara para contestar pelo menos duas impugnações relativas à proibição, frente ao Supremo Tribunal australiano. Uma delas foi apresentada pelo fórum online Reddit e a outra, por dois adolescentes australianos.

Paralelamente, ela processa judicialmente as empresas que infringiram as diversas leis de segurança na internet do país.

Mas esta não é sua primeira experiência deste tipo.

Em 2024, quando um bispo foi esfaqueado em Sydney durante uma missa, Inman Grant pediu ao X que eliminasse o vídeo. Mas o dono da plataforma, Elon Musk, se recusou a fazê-lo.

Musk a chamou de "comissária da censura" frente aos seus milhões de seguidores e os abusos dirigidos a ela atingiram um nível totalmente inédito.

<><> Objeto de abusos e insultos

Um relatório da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, revelou que Julie Inman Grant foi alvo de dezenas de milhares de publicações abusivas, incluindo ameaças de morte e estupro.

Somente no dia 23 de abril de 2024, o relatório contabilizou 73.694 menções do nome de Inman Grant ou do Comissariado de Segurança Eletrônica no X. Até aquela data, a média diária era de apenas 145.

Por fim, o vídeo foi bloqueado geograficamente na Austrália, mas continuou disponível em todo o mundo. O organismo australiano de controle da internet levou o X à Justiça, mas o caso acabou sendo rejeitado.

Inman Grant conta à BBC que há uma moral nesta história.

A polícia britânica afirma que Axel Rudakubana viu o mesmo vídeo pouco antes de esfaquear e matar três crianças em uma aula de dança inspirada em Taylor Swift, na cidade inglesa de Southport, naquele mesmo ano.

Ela defende que este tipo de conteúdo "normaliza, dessensibiliza e, às vezes, radicaliza. Em algum momento, é preciso assumir uma posição."

Enquanto Inman Grant e seu escritório lutam para conseguir a proibição das redes sociais entre os adolescentes na Austrália, ela se prepara para novas batalhas, agora em relação à inteligência artificial (IA).

Para ela, o mundo "se incorporou tardiamente" à regulamentação das redes sociais e não pode se permitir fazer o mesmo com a IA.

"Esta será a próxima ameaça e muito mais preocupante, para ser sincera."

Talvez ela não fique no cargo por tempo suficiente para observar os frutos da sua luta. Ela já é comissária há quase uma década e seu segundo mandato de cinco anos termina em 2027.

"Acredito que, provavelmente, será o momento de passar o controle para outra pessoa", segundo ela. "Como disse, este cargo exige muita determinação e resiliência. Foi um privilégio e uma honra para toda a vida."

Antes que as empresas de tecnologia respirem aliviadas, Inman Grant indica que não se deixará dissuadir da missão da sua carreira: tornar o mundo da tecnologia mais seguro.

"Talvez isso signifique ajudar outros governos a estabelecer regulamentações de segurança online e ajudar as empresas a integrar a segurança desde o seu projeto", explica ela.

 

Fonte: BBC News

 

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