A
prisão de brasileiro que abalou rede global de abusadores de crianças
Em uma
manhã de 2019, a Polícia Federal (PF) deflagrou uma operação que caiu como uma
bomba atômica sobre redes globais de abusadores sexuais de crianças, mas quase
ninguém ficou sabendo.
Naquele
dia, após vários meses de investigação e com o apoio de policiais de diferentes
países, investigadores brasileiros prenderam um homem que administrava cinco
dos maiores fóruns de materiais de abuso sexual infantil na dark web, uma parte
oculta da internet só acessível por ferramentas específicas.
Segundo
a PF, os fóruns tinham quase 2 milhões de usuários espalhados pelo mundo.
Discreto e dotado de grande conhecimento técnico, o dono dos sites era
conhecido na dark web como Lubasa e vinha conseguindo escapar das forças
globais de segurança fazia alguns anos.
Apesar
da grandiosidade do feito, a prisão foi mantida em sigilo por um motivo: com os
servidores do criminoso em mãos, a polícia tinha informações para desmascarar
outros tantos abusadores que frequentavam seus sites e temia que, se eles
soubessem da detenção de Lubasa, poderiam tentar fugir.
Sete
anos depois da prisão — e de centenas de novas operações ocorridas a partir
daquela, incluindo o resgate de um menino sequestrado que era tratado como
morto na Rússia —, a história é narrada em Infiltrados na dark web, um
documentário da BBC News Brasil com a BBC Eye, equipe de investigações da BBC.
A
equipe de reportagem passou sete anos acompanhando a rotina de policiais do
Brasil, Estados Unidos, Rússia e Portugal que integram uma coalizão formada
para combater o abuso sexual infantil na dark web.
Muitos
deles trabalham infiltrados em fóruns frequentados por pedófilos, buscando
informações que levem à identificação de criminosos e ao resgate de suas
vítimas.
Espécie
de internet paralela, não indexada por buscadores, a dark web foi criada em
1990 pelo Departamento de Defesa dos EUA para que espiões se comunicassem em
segredo, já que a rede permite que usuários ocultem a identidade e rastros
digitais.
Após
ter sido aberta ao público, em 2004, ela passou em poucos anos a abrigar fóruns
voltados à distribuição de materiais de abuso sexual infantil, tornando-se um
dos principais campos de ação para policiais que combatem esse tipo de crime.
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O início das buscas
A
coalizão global de policiais retratada no documentário passou a priorizar a
identificação de Lubasa, especialmente após a prisão de um de seus principais
colaboradores — um português conhecido nos fóruns da dark web como Twinkle.
Os
nomes reais de Twinkle e Lubasa não são revelados para proteger suas vítimas.
Twinkle
era o principal colaborador do BabyHeart, um dos fóruns mais violentos da dark
web. A plataforma era administrada pelo brasileiro Lubasa e abrigava cenas de
abuso sexual de bebês.
Twinkle
fornecia "uma quantidade quase inacreditável" de fotos e vídeos de
abusos para o site, diz à BBC Greg Squire, agente do Departamento de Segurança
Interna dos EUA e um dos líderes da coalizão internacional de policiais.
Segundo
Squire, o criminoso português produziu e postou na plataforma cenas de abusos
de até 15 crianças diferentes.
"Assistir
alguém estuprar um bebê… Não há nada de humano nisso", diz Squire.
Identificá-lo,
porém, era difícil, pois Twinkle escrevia em diferentes idiomas e evitava
compartilhar informações pessoais na rede.
A
primeira pista sobre sua nacionalidade só surgiu após Twinkle usar uma
expressão típica da língua portuguesa em uma conversa em inglês com outro
usuário: "Custou os olhos da minha cara".
Mas ele
só foi identificado tempos depois, quando a polícia brasileira prendeu um
abusador de crianças que se correspondia virtualmente com o criminoso
português.
Twinkle
foi preso em sua casa, em um vilarejo no norte de Portugal. Ao arrombar a
porta, a polícia o encontrou na cama ao lado de duas crianças. Os arquivos onde
ele armazenava fotos e vídeos de abusos estavam enterrados em uma floresta
vizinha à residência e também foram recuperados.
Mas, ao
questionarem Twinkle sobre como poderiam tirar do ar o site BabyHeart, os
policiais ouviram dele que somente uma pessoa seria capaz de fazê-lo: Lubasa, a
quem o português chamou de "chefão".
Twinkle
cumpre hoje pena de 21 anos de prisão em Portugal.
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Um criminoso 'idolatrado por 2 milhões pessoas'
O nome
Lubasa já circulava entre os policiais da coalizão fazia alguns anos, mas ainda
não havia pistas que levassem à sua identificação.
"Lubasa
estava em outro nível. Se chegássemos até ele, teríamos acesso a tudo o que
acontecia sob seu comando", lembra Squire.
Naquela
altura, policiais brasileiros já estavam no encalço do criminoso.
"Ele
era uma pessoa idolatrada por mais de 2 milhões de pessoas ao redor do
mundo", diz a delegada brasileira Rafaella Parca, também integrante da
coalizão e membro da Divisão de Repressão a Crimes Cibernéticos da Polícia
Federal.
Por
criar e manter a estrutura para que os fóruns de abuso sexual infantil
funcionassem, Lubasa era tratado pela polícia como "responsável por todos
os crimes que aconteciam dentro desses locais", diz Parca.
Mas,
assim como Twinkle e outros pedófilos da dark web, o brasileiro falava pouco de
si na plataforma, dificultando sua identificação.
Até
que, após vários meses de investigações, seu nome real foi finalmente
descoberto.
As
cenas da captura de Lubasa, em 2019, são reveladas pela primeira vez no
documentário da BBC, assim como os detalhes de seu caso, que passaram vários
anos sob sigilo.
Sete
anos depois, a polícia avalia que a divulgação das informações já não
compromete outras investigações nem a busca por outros criminosos associados a
Lubasa.
"Ele
ficou surpreso, apático, calado, como se aquilo fosse inacreditável",
lembra Parca sobre o dia da prisão. "Ele acreditava que era
inatingível."
Hoje,
Lubasa cumpre pena de 266 anos de prisão no Brasil.
Ao
capturá-lo, em meio a uma grande quantidade de lixo e sujeira na sua casa, a
polícia encontrou os servidores que mantinham seus cinco fóruns de pedofilia no
ar — máquinas avaliadas em vários milhares de reais.
Foi a
maior apreensão de arquivos da dark web na história, segundo a coalizão de
policiais.
Os
arquivos foram compartilhados com as polícias que compunham a coalizão e com a
Interpol, maior organização policial do mundo que reune 196 países para
facilitar a cooperação global e o intercâmbio seguro de dados sobre crimes.
Com
base nos documentos, centenas de usuários dos fóruns de Lubasa foram
identificados e presos em diferentes países. Entre os detidos, havia pessoas
que produziam materiais de abusos e outras que viam e assistiam aos conteúdos.
"Mesmo
que a pessoa não tenha tido contato direto com crianças, ela é a razão da
existência desses sites", diz Greg Squire, do Departamento de Segurança
Interno dos EUA.
"Essas
pessoas criam a demanda e incentivam aqueles que têm acesso a crianças."
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Menino foi resgatado na Rússia
Os
arquivos apreendidos com Lubasa provocaram uma reviravolta em um caso que
chocou a Rússia, em 2020.
Fazia
52 dias que a polícia russa procurava um menino de 7 anos sequestrado enquanto
voltava da escola, em uma zona rural. Acompanhadas com destaque pela imprensa
russa, as buscas envolveram milhares de voluntários e agentes de diferentes
forças de segurança.
Fazendas
e armazéns abandonados foram examinados, e as equipes esmiuçaram o trajeto do
menino em busca de algum rastro. Mas, sem pistas significativas após várias
semanas, a polícia suspendeu a operação e passou a considerar que o garoto
tinha sido morto pelo sequestrador.
Enquanto
isso, o agente Greg Squire viu em um fórum na dark web fotos de um menino
"loiro, claramente em sofrimento", que se parecia com o garoto russo
desaparecido.
As
fotos haviam sido postadas por um usuário conhecido como Lover Boy Only (LBO),
que já era monitorado por Greg. O agente lembra que LBO já havia dito nos
fóruns que tinha planos de sequestrar e matar um menino.
Squire
pediu então a ajuda de Gordana Vujisic, uma investigadora da Interpol em
Montenegro, país da região dos Balcãs, com grande experiência em casos de abuso
sexual infantil — e falante de russo.
"Estávamos
todos em fusos horários diferentes, mas, mesmo sendo noite nos Estados Unidos
ou na Rússia, quando eu enviava uma mensagem, recebia uma resposta
imediatamente", ela lembra.
"Nem
sequer pensávamos em dormir."
Os
policiais temiam que LBO concretizasse o plano de matar o menino. "A vida
dele estava em nossas mãos", diz a policial.
Vujisic
então passou a se debruçar sobre os arquivos apreendidos durante a captura de
Lubasa, em busca de alguma pista sobre a identidade de LBO.
Dentre
as milhares de mensagens e fotos postadas pelo criminoso nos fóruns geridos por
Lubasa, ela encontrou três informações que poderiam destravar as investigações:
em diferentes conversas, LBO citou o local de trabalho do irmão, disse que sua
mãe tinha morrido em um acidente de carro e que ele sofria de esquizofrenia.
Ao
cruzar as informações, a polícia chegou ao nome de Dimitriy Kopylov e mobilizou
uma equipe de resgate para vasculhar sua residência.
Chegando
lá, arrombaram portas e janelas e encontraram Kopylov com o menino — vivo.
O
garoto foi devolvido a seus pais, e Kopylov, condenado a 19 anos de prisão.
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Ciclo sem fim
Desde
2018 dedicada a investigações de abuso sexual de crianças, a delegada Rafaella
Parca diz que, nesse campo, o fim de um caso significa o início de outro.
As
provas colhidas em uma investigação muitas vezes levam a outros suspeitos,
alimentando um ciclo que nunca se encerra.
Em
nenhum caso isso foi tão verdadeiro quanto no de Lubasa, diz Parca.
"A
gente sabia que aquela prisão seria o início de outras coisas, [ficou] uma
sensação de que o trabalho estava recomeçando a partir dali", afirma a
delegada.
Mesmo
assim, Parca diz conseguir desfrutar do momento ínfimo que separa o fim de um
caso do começo do seguinte.
"A
gente sofre tanto até conseguir resolver, e quando a gente resolve, resgata uma
criança ou prende o abusador, é algo libertador", diz a delegada.
"Você
vê o resultado imediato, você muda a vida de uma criança, de uma família, de um
círculo de pessoas, e isso é indescritível."
• 'Vivo sob ameaças constantes': a
australiana que tenta tirar crianças das redes sociais
Nossa
entrevista com Julie Inman Grant ainda nem começou. Na verdade, ela ainda nem
entrou na sala.
Mas a
conversa já trata da enxurrada de ameaças de morte e violação recebidas
semanalmente pelo seu escritório.
O cargo
de diretora da Comissão de Segurança Eletrônica da Austrália a coloca na
primeira linha das batalhas na internet: notícias falsas, censuras, trollagem e
segurança infantil.
O mundo
digital pode ser um "poço sombrio", como admite um dos seus colegas.
Ele destaca que a grande maioria dos abusos lançados ao escritório são
dirigidos pessoalmente a Inman Grant.
"Infelizmente,
tenho vivido esta realidade nos últimos anos", lamenta ela minutos depois,
no seu escritório com vista para o porto australiano de Sydney.
Com 57
anos de idade, Inman Grant trabalhou por décadas em empresas privadas do setor
de tecnologia. Agora, ela está do outro lado, chamando à responsabilidade
algumas das empresas mais bem sucedidas do mundo, como diretora do organismo
regulador independente de segurança na internet da Austrália.
Poderíamos
dizer que o cargo a transformou na burocrata mais famosa do país. Mas ela
também se tornou um alvo fácil.
Seus
dados já foram expostos por grupos neonazistas. Ela também teve enfrentamentos
públicos com Elon Musk e chegou a provocar a ira de alguns congressistas
americanos.
Tudo
isso ocorreu quando ela foi encarregada de implementar a pioneira proibição das
redes sociais para adolescentes no país. Ou, em outras palavras, de expulsar
todos os australianos com menos de 16 anos das redes sociais.
O
trabalho de Inman Grant sempre foi de alta importância. Mas, agora, seu
significado cresceu mais do que nunca, já que o mundo inteiro está observando o
desenvolvimento do experimento australiano nas redes sociais.
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Legislação observada com lupa
A
legislação entrou em vigor no dia 10 de dezembro e regulamenta 10 plataformas.
Entre elas, o Facebook e o Instagram, da Meta, além do Snapchat e do YouTube.
Os pais
australianos aprovam majoritariamente esta política. Para muitos deles, contar
com o apoio do governo é de grande ajuda para enfrentar a pressão dos seus
pré-adolescentes que desejam ter acesso às redes sociais.
Mas
também há muitas críticas. Especialistas em tecnologia e defensores do
bem-estar infantil expressaram sua preocupação. Eles afirmam que as crianças
precisam ser educadas, não excluídas das plataformas.
Muitos
questionam a aplicabilidade da proibição. Para eles, a legislação exclui
injustamente grupos minoritários, como as crianças das zonas rurais e
adolescentes com incapacidades ou que se identificam como LGBTQIA+. Todos eles
têm mais possibilidade de encontrar suas comunidades na internet.
Como
era de se esperar, nenhuma das empresas se mostra muito favorável.
De
forma geral, elas afirmaram compartilhar a preocupação do governo sobre a
segurança na internet e garantem que irão cumprir a lei, mas não acreditam que
a "proibição" seja a solução.
Inman
Grant defende que vale a pena tentar qualquer medida que ajude a proteger as
crianças online.
"Se
pudermos retardar a entrada das crianças nas redes sociais por três anos e
complementar a medida com planos de ação digitais para desenvolver seu
raciocínio crítico e resiliência, acredito que seja algo que valha a pena
explorar", afirma ela.
Inman
Grant costuma comparar o mundo digital com o mar aberto, talvez em uma tática
inteligente para atrair os australianos, orgulhosos da sua relação com o oceano
e suas belas praias.
"Da
mesma forma que ocorre com a segurança na água, precisamos continuar ensinando
nossos filhos a nadar até que sejam bons nadadores", defende ela.
"Precisamos
educá-los sobre os riscos, como as fraudes algorítmicas. Precisamos educá-los
sobre os predadores na água. São os tubarões online, os pedófilos e outros
criminosos."
Mas ela
também já usou a mesma analogia do mar para combater a proibição no passado.
"Nós
não cercamos o oceano, nem mantemos as crianças totalmente fora da água. Nós
criamos entornos de natação protegidos, que oferecem proteção e ensinam lições
importantes desde cedo", declarou ela em junho de 2024, quando o governo
ainda avaliava a proibição.
"De
fato, precisei aceitar isso", admite ela, hoje.
Depois
de pressionar pela liberdade na sua implementação, ela se convenceu e seu papel
tem sido fundamental para determinar quais empresas serão incluídas e como elas
devem cumprir a legislação.
Ela
brinca dizendo que sua própria casa, que compartilha com três filhos (incluindo
dois irmãos gêmeos de 13 anos), se transformou em um "laboratório".
"Tenho
uma filha que não se queixou muito da ideia, mas outra pensou que o mundo fosse
desabar em cima dela se retirassem seu Instagram e seu Snapchat", ela
conta.
Mas
Inman Grant não desanima.
"Elas
estão em processo de descobrir quem são, de construir sua identidade. Quando eu
era adolescente, conseguia cometer erros sem que eles fossem gravados nem
amplificados por toda parte."
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Experiência no mundo tecnológico
Inman
Grant passou seus anos de formação no mundo tecnológico. Ela cresceu em
Seattle, nos Estados Unidos, berço da Microsoft e da Amazon.
Por
isso, não surpreende que ela se dedique a esta linha de trabalho, depois de
flertar brevemente com a ideia de trabalhar para a CIA, a agência de
inteligência americana.
Ela
aceitou um emprego no Capitólio, assessorando um congressista americano sobre
tecnologia e telecomunicações. Posteriormente, ela concluiu um mestrado em
comunicação internacional e passou a trabalhar na Microsoft.
O seu
cargo na empresa a levou para a Austrália no início dos anos 2000, exatamente
quando começava a florescer o mundo das redes sociais. Ali, ela conheceu seu
marido e se naturalizou australiana.
Como
parte do seu trabalho na Microsoft, Inman Grant procurava vulnerabilidades e
falhas de segurança. E, depois de 17 anos, ela entrou para a divisão
australiana do Twitter (hoje, X) e, depois, trabalhou brevemente na Adobe.
Enquanto
essas empresas de tecnologia prosperavam, graças à proliferação de smartphones
e aplicativos, ela sentia que havia um problema oculto.
Ela
sentia que a segurança não era prioridade. Era uma época sem órgãos reguladores
governamentais.
"Por
isso, tentei mudar as coisas por dentro", ela conta. E, depois de mais de
duas décadas, Inman Grant decidiu verificar se a mudança poderia ocorrer a
partir do lado de fora.
Quando
surgiu o cargo de Comissário de Segurança Eletrônica, ela explica timidamente
que havia um pequeno grupo de candidatos para escolher.
O homem
que ajudou a redigir o projeto de lei, Malcolm Turnbull, chegou ao cargo de
primeiro-ministro (2015-2018). Ele queria, segundo ela, um comissário com
experiência em segurança online, mas também no próprio setor de tecnologia. E a
contratou.
"O
governo acreditava que o órgão regulador só poderia ser eficaz se você
conhecesse as pessoas, conhecesse os mecanismos, soubesse como eles pensavam e
se fosse possível antecipar seus movimentos", explica ela.
"É
preciso entender que tudo isso depende da receita, do crescimento e de quem
detém o poder nas empresas."
Desde
então, políticos de todas as tendências defenderam o cargo, o que muitos
consideram testemunho da gestão de Inman Grant.
E,
especialmente em um período em que o organismo de controle da segurança na
internet passou a sofrer escrutínio cada vez maior, seu orçamento quadruplicou
e sua competência e o número de funcionários se expandiram exponencialmente.
"Francamente,
é uma gestão extraordinária em um campo de rápidas mudanças e bastante
implacável para um órgão regulador", destaca o predecessor de Inman Grant,
Alastair MacGibbon, sobre o trabalho da atual comissária.
"O
escritório simplesmente se torna mais relevante a cada dia", defende ele.
O
ex-ministro das Comunicações da Austrália, Paul Fletcher, ajudou a nomear Inman
Grant e colaborou estreitamente com ela por vários anos. Ele afirma que ela
assumiu esta função complexa com vigor e valentia.
"Em
uma nação ocidental moderna, as pessoas têm a certeza de que, se você for
assaltado, atacado ou se outro fato ruim ocorrer no mundo físico, você pode
obter reparações", declarou ele à BBC.
"O
Estado de direito deve se aplicar tanto à vida digital quanto à vida real e o
Comissariado de Segurança Eletrônica é uma clara amostra disso."
A
Austrália é considerada líder mundial em segurança na internet. Mas algumas
empresas de tecnologia, com sede em outras partes do mundo, acusam o país, há
muito tempo, de extrapolar os seus limites.
"Estamos
regulamentando as grandes empresas de tecnologia, em relação à segurança
online, há 10 anos", expõe Inman Grant. "E, nos primeiros sete, fomos
os únicos."
Atualmente,
Inman Grant enfrenta um pedido do Congresso dos Estados Unidos para testemunhar
sobre as leis australianas de proibição das redes sociais.
O
presidente republicano do Comitê Judiciário da Câmara dos Representantes (a
câmara baixa do Congresso americano), Jim Jordan, se referiu a ela como uma
"conhecida fanática dos desmantelamentos globais", que "ameaça a
liberdade de expressão dos cidadãos americanos".
Jordan
chegou a ameaçá-la com acusações de desacato, caso se negue a testemunhar.
Inman
Grant afirma que não é responsável por defender a política e, na verdade, só
pode falar sobre a sua implementação.
"Nada
do que fazemos aqui afeta a capacidade das empresas americanas de mostrar o
conteúdo que desejarem aos americanos", explica ela.
Ela
também se prepara para contestar pelo menos duas impugnações relativas à
proibição, frente ao Supremo Tribunal australiano. Uma delas foi apresentada
pelo fórum online Reddit e a outra, por dois adolescentes australianos.
Paralelamente,
ela processa judicialmente as empresas que infringiram as diversas leis de
segurança na internet do país.
Mas
esta não é sua primeira experiência deste tipo.
Em
2024, quando um bispo foi esfaqueado em Sydney durante uma missa, Inman Grant
pediu ao X que eliminasse o vídeo. Mas o dono da plataforma, Elon Musk, se
recusou a fazê-lo.
Musk a
chamou de "comissária da censura" frente aos seus milhões de
seguidores e os abusos dirigidos a ela atingiram um nível totalmente inédito.
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Objeto de abusos e insultos
Um
relatório da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, revelou que Julie Inman
Grant foi alvo de dezenas de milhares de publicações abusivas, incluindo
ameaças de morte e estupro.
Somente
no dia 23 de abril de 2024, o relatório contabilizou 73.694 menções do nome de
Inman Grant ou do Comissariado de Segurança Eletrônica no X. Até aquela data, a
média diária era de apenas 145.
Por
fim, o vídeo foi bloqueado geograficamente na Austrália, mas continuou
disponível em todo o mundo. O organismo australiano de controle da internet
levou o X à Justiça, mas o caso acabou sendo rejeitado.
Inman
Grant conta à BBC que há uma moral nesta história.
A
polícia britânica afirma que Axel Rudakubana viu o mesmo vídeo pouco antes de
esfaquear e matar três crianças em uma aula de dança inspirada em Taylor Swift,
na cidade inglesa de Southport, naquele mesmo ano.
Ela
defende que este tipo de conteúdo "normaliza, dessensibiliza e, às vezes,
radicaliza. Em algum momento, é preciso assumir uma posição."
Enquanto
Inman Grant e seu escritório lutam para conseguir a proibição das redes sociais
entre os adolescentes na Austrália, ela se prepara para novas batalhas, agora
em relação à inteligência artificial (IA).
Para
ela, o mundo "se incorporou tardiamente" à regulamentação das redes
sociais e não pode se permitir fazer o mesmo com a IA.
"Esta
será a próxima ameaça e muito mais preocupante, para ser sincera."
Talvez
ela não fique no cargo por tempo suficiente para observar os frutos da sua
luta. Ela já é comissária há quase uma década e seu segundo mandato de cinco
anos termina em 2027.
"Acredito
que, provavelmente, será o momento de passar o controle para outra
pessoa", segundo ela. "Como disse, este cargo exige muita
determinação e resiliência. Foi um privilégio e uma honra para toda a
vida."
Antes
que as empresas de tecnologia respirem aliviadas, Inman Grant indica que não se
deixará dissuadir da missão da sua carreira: tornar o mundo da tecnologia mais
seguro.
"Talvez
isso signifique ajudar outros governos a estabelecer regulamentações de
segurança online e ajudar as empresas a integrar a segurança desde o seu
projeto", explica ela.
Fonte:
BBC News

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