ONU:
ataques em Gaza geram temores de "limpeza étnica"
Os
ataques de Israel durante a guerra na Faixa de Gaza e a
transferência forçada de palestinos levantam "preocupações sobre limpeza
étnica", afirma um relatório do Escritório do Alto Comissariado das Nações
Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) divulgado nesta quinta-feira (19/02).
O texto
acusa as forças israelenses, o grupo islamista Hamas e outras milícias armadas
palestinas de cometerem graves violações do direito internacional humanitário
em Gaza.
O
documento destaca que as ações israelenses parecem ter como objetivo uma
mudança demográfica permanente em Gaza, ao mesmo tempo em que afirma que a
detenção e os maus-tratos a reféns pelo Hamas
podem constituir crimes de guerra", afirma o órgão da ONU.
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"Uso sistemático de força ilegal"
"A
intensificação dos ataques, a destruição metódica de bairros inteiros e a
negação de assistência humanitária parecem ter como objetivo uma mudança
demográfica permanente em Gaza", diz o texto. "Isso, juntamente com
as transferências forçadas, que parecem visar
um deslocamento permanente, levanta preocupações sobre limpeza étnica em Gaza e
na Cisjordânia."
O
relatório, que avaliou o período de 1º de novembro de 2024 a 31 de outubro de
2025, destaca o "uso sistemático de força ilegal" pelas forças de
segurança israelenses na Cisjordânia ocupada e em Jerusalém
Oriental, denunciando detenções arbitrárias "generalizadas"
e a "demolição ilegal em larga escala" de casas palestinas. O
objetivo, segundo o documento, é "discriminar, oprimir, controlar e
dominar sistematicamente o povo palestino".
Essas
ações, segundo o texto, alteram "o caráter, o status e a composição
demográfica da Cisjordânia ocupada, levantando sérias preocupações de limpeza
étnica".
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"Escolha desumana"
O
Escritório de Direitos Humanos da ONU condenou o assassinato e a mutilação
contínuas de "um número sem precedentes de civis", a disseminação da fome e a destruição da
"infraestrutura civil remanescente". Durante os 12 meses analisados
pelo relatório, pelo menos 463 palestinos, incluindo 157 crianças, morreram de
fome em Gaza.
"Os
palestinos enfrentaram a escolha desumana de morrer de fome ou arriscar serem
mortos enquanto tentavam conseguir comida", diz o documento.
Segundo
o relatório, a fome, a desnutrição e as mortes "previsíveis e
repetidamente anunciadas" resultaram diretamente de ações tomadas pelo
governo israelense.
O
ACNUDH lembra que qualquer uso da fome como método de guerra constitui um crime
de guerra e, dependendo da intenção, também pode constituir genocídio.
Durante
o período avaliado, o Hamas e outros grupos armados palestinos continuaram a
manter reféns israelenses e estrangeiros capturados durante o ataque de 7 de
outubro de 2023 contra Israel – vivos ou mortos – como "moeda de
troca".
O
Escritório de Direitos Humanos também afirmou que o tratamento dado aos reféns
configurou crimes de guerra.
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"A impunidade mata"
Nesta
terça-feira, o ministro das Finanças de Israel, o ultradireitista Bezalel
Smotrich, prometeu incentivar a "emigração" dos territórios
palestinos. A Cisjordânia constituiria a maior parte de qualquer futuro Estado
palestino, mas muitos na direita religiosa de Israel a consideram território
israelense.
O
relatório concluiu que as práticas israelenses "indicam um esforço
concertado e crescente para consolidar a anexação de grandes partes do
território palestino ocupado e negar o direito dos palestinos à
autodeterminação", e disse existir um clima generalizado de impunidade
para graves violações do direito internacional cometidas pelas autoridades
israelenses nos territórios palestinos.
"A
impunidade não é abstrata – ela mata", disse o alto-comissário de direitos
humanos da ONU, Volker Turk, em nota. "A responsabilização é
indispensável. É o pré-requisito para uma paz justa e duradoura na Palestina e
em Israel."
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Israel acusa campanha de "demonização"
A
missão permanente de Israel em Genebra rejeitou as conclusões do relatório
sobre as ações de Israel e afirmou, em comunicado, que o Escritório do Alto
Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos perdeu sua
credibilidade.
"O
Escritório do Alto Comissariado está envolvido em uma campanha perversa de
demonização e desinformação contra o Estado de Israel", declarou.
Os
ataques terroristas do Hamas no sul de Israel em outubro de 2023 mataram mais
de 1.200 pessoas e fizeram mais de 250 reféns, segundo dados israelenses. A
ofensiva militar de Israel em Gaza matou mais de 72 mil pessoas, de acordo com
o Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas – grupo considerado
terrorista pelos EUA, União Europeia e outros.
Um cessar-fogo mediado pelos
Estados Unidos entrou em vigor em outubro passado, após dois anos de guerra que
forçaram o deslocamento da maioria dos habitantes de Gaza e provocaram uma
grave crise humanitária. Israel ainda controla mais da metade do enclave.
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Artistas criticam "silêncio" da Berlinale sobre
Gaza
Mais de
80 figuras da indústria cinematográfica, incluindo atores vencedores do Oscar como o espanhol Javier Bardem e a escocesa Tilda
Swinton, divulgaram nesta terça‑feira (17/02) um comunicado criticando o
"silêncio" do Festival de Cinema de Berlim sobre Gaza.
Os
signatários da carta aberta disseram estar consternados com o "silêncio
institucional" do festival e desapontados com seu "envolvimento na
censura de artistas que se opõem ao genocídio em curso cometido por Israel
contra palestinos em Gaza".
A
declaração foi divulgada após o presidente do júri da Berlinale, o diretor
alemão Wim Wenders, responder a uma pergunta sobre a postura do governo alemão
no conflito dizendo que o cinema deveria ficar "fora da
política".
"Temos que nos manter fora da política, porque, se fizermos filmes que
sejam dedicadamente políticos, entramos no campo da política; mas nós somos o
contrapeso da política", afirmou ele na última quinta-feira.
Entre
os diretores de destaque que assinaram a carta – coordenada pelo coletivo Film
Workers for Palestine – estão o britânico Mike Leigh e o americano Adam McKay.
O brasileiro Fernando Meirelles também subscreve o documento.
Os
signatários incluem diversos artistas que já exibiram trabalhos no Festival de
Berlim. A própria Swinton recebeu no ano passado o Urso de Ouro Honorário, que
celebrou sua carreira.
Eles
afirmam "discordar veementemente" dos comentários de Wenders, argumentando que
cinema e política não podem ser separados. "Assim como o festival fez
declarações claras no passado sobre atrocidades cometidas contra pessoas no Irã
e na Ucrânia, pedimos que a Berlinale cumpra seu dever moral e declare
claramente sua oposição ao genocídio de Israel", diz a carta.
Os
signatários criticam também "o papel central do Estado alemão em
permitir" as ações de Israel. "Conclamamos a Berlinale a cumprir seu
dever moral e declarar claramente sua oposição ao genocídio, aos crimes contra
a humanidade e aos crimes de guerra cometidos por Israel contra os palestinos,
e a encerrar completamente seu envolvimento em proteger Israel de críticas e de
pedidos de responsabilização", conclui o texto.
O
governo israelense nega as acusações de genocídio.
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"Tempestade midiática"
A
Berlinale é conhecida por seu teor mais político, e a programação
costuma refletir isso. Na abertura desta edição, artistas desfilaram no tapete
vermelho pressionando pelo fim do regime autoritário no Irã, por exemplo.
Após as
reações críticas à fala de Wenders, a diretora da 76ª Berlinale, Tricia
Tuttle, divulgou uma nota em defesa dos cineastas e jurados. Afirmou que os
artistas "são livres para exercer seu direito à liberdade de expressão da
forma que desejarem" e não devem "ser obrigados a se pronunciar sobre
toda questão política que lhes seja apresentada, a menos que queiram".
A
Berlinale também divulgou um segundo comunicado defendendo Wenders da
"tempestade midiática", afirmando que suas declarações haviam sido
tiradas de contexto.
Além de
Wenders, a produtora Ewa Puszczynska, que também integra o júri do
festival, havia reagido à pergunta sobre Gaza dizendo que era "um pouco
injusto" esperar que eles assumissem uma posição direta sobre o tema.
As
falas levaram a premiada escritora indiana Arundhati Roy a
cancelar uma participação prevista no festival, dizendo estar
"chocada e enojada" com os comentários dos jurados.
À Folha
de S.Paulo, o diretor brasileiro Karim Aïnouz, que concorre ao Urso de Ouro com Rosebush
Pruning, argumentou que "fazer cinema sempre foi um ato político"
"Acho
que Wenders foi infeliz. Até porque ele faz um cinema profundamente político e
transformador [...] no sentido em que ele questiona as estruturas de poder. É
isso que eu chamo de política. É quando você, de fato, conta uma história em
que você questiona", disse ao jornal.
A
diretora brasileira Eliza Capai, que disputa prêmio de melhor documentário em
Berlim, também afirmou à Folha que "fazer cinema é fazer
política".
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Controvérsias sobre Gaza
O
festival tem sido alvo de diversas controvérsias relacionadas a Gaza nos últimos
anos. Em 2024, o prêmio de documentário do festival foi para No Other Land, que acompanha o
deslocamento de comunidades palestinas na Cisjordânia ocupada por Israel.
Autoridades
do governo alemão criticaram as declarações "parciais" sobre Gaza
feitas pelos diretores desse filme e de outros durante a cerimônia de premiação
daquele ano.
O
conflito em Gaza teve início após o ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de
2023, que causou quase 1.200 mortes. A retaliação israelense deixou ao menos 71
mil mortos em Gaza, segundo o Ministério da Saúde do território administrado
pelo Hamas. Os números são considerados confiáveis pelas Nações Unidas.
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Festival se pronuncia após polêmica sobre Gaza
A
diretora da 76ª Berlinale, o festival de cinema de Berlim, Tricia
Tuttle, divulgou nota em defesa dos cineastas e jurados que participam do
evento após o presidente do júri, o diretor alemão Wim Wenders, ser criticado por afirmar que o cinema
deveria ficar "fora da política".
Na
nota, Tuttle ressalta o caráter político do festival e argumenta que os
cineastas não têm o dever de se posicionar sobre tudo.
"Temos
que nos manter fora da política, porque, se fizermos filmes que sejam
dedicadamente políticos, entramos no campo da política; mas nós somos o
contrapeso da política", havia declarado Wenders na quinta-feira, em
resposta a um jornalista que perguntou aos jurados como eles viam a postura do
governo alemão em relação ao conflito na Faixa de Gaza.
A fala
de Wenders gerou mal-estar entre alguns participantes da Berlinale e levou a
autora indiana Suzanna Arundhati Roy a anunciar a retirada do seu filme do
festival.
"Ouvir
essas pessoas dizerem que a arte não deve ser política é de deixar qualquer um
boquiaberto", declarou a escritora em comunicado à imprensa. "É uma
forma de encerrar uma conversa sobre um crime contra a humanidade, mesmo quando
ele se desenrola diante de nós em tempo real – quando artistas, escritores e
cineastas deveriam estar fazendo tudo ao seu alcance para impedi-lo."
Reagindo
à polêmica deflagrada após a coletiva, Tuttle afirmou, em nota publicada neste
sábado (14/02) no site da Berlinale, que os cineastas falam "através de
seus filmes, sobre seus filmes – e às vezes também sobre temas geopolíticos que
podem estar associados ao seu trabalho ou não".
Ela
destacou que a programação inclui 278 filmes, sobre temas diversos: genocídio,
violência sexual na guerra, corrupção, violência patriarcal, colonialismo e
abuso de poder estatal. "Entre os cineastas, há pessoas que vivenciaram
violências e genocídios, e que por causa de seu trabalho ou posicionamento
político correm o risco de ser presos, exilados ou até mesmo mortos",
frisou.
Tuttle
disse não acreditar que entre os participantes do festival haja alguém
"indiferente ao que acontece no mundo", ou que não leve a sério
"os direitos, a vida ou o imenso sofrimento das pessoas em Gaza e na
Cisjordânia, República Democrática do Congo, no Sudão, no Irã, na Ucrânia, em
Minneapolis e em um número assustadoramente grande de outros lugares".
Ao
mesmo tempo, ressaltou que os artistas "têm a liberdade de exercer seu
direito à liberdade de expressão como queiram", mas não são obrigados a se
posicionar "sobre todos os temas políticos que lhes são apresentados – a
menos que eles queiram".
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Festival diz que críticas se baseiam em palavras tiradas do contexto
Em um
segundo comunicado, enviado a jornalistas neste domingo, a Berlinale ressaltou
a importância de sair "em defesa de nossos cineastas e, especialmente, de
nosso júri e de seu presidente [Wenders]" diante da "tormenta
midiática" que se desenrolou desde a coletiva de imprensa da quinta-feira.
De
acordo com a Berlinale, as críticas à falta de posicionamentos políticos mais
contundentes por parte dos jurados estão baseadas em palavras
"desvinculadas não só do contexto, como também da trajetória e dos valores
que esses artistas representam".
"Nossa
responsabilidade é criar um espaço em que se possam escutar e respeitar
diversas perspectivas, tanto dos próprios filmes como por parte de quem os
realiza, incluindo aqueles que trabalham com fortes impulsos políticos",
afirma a nota.
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Como a polêmica começou
A
Berlinale é conhecida por seu teor mais político, e a programação
costuma refletir isso. Na abertura desta edição, artistas desfilaram no tapete
vermelho pressionando pelo fim do regime autoritário no Irã, por exemplo.
A
polêmica começou durante uma coletiva de imprensa antes da abertura do
festival.
A
entrevista, transmitida ao vivo pelo site do festival, chegou a ter o sinal interrompido quando um
jornalista direcionou ao júri a pergunta sobre o conflito entre Israel e Hamas
na Faixa de Gaza.
"A
Berlinale, como instituição, tem demonstrado solidariedade com os povos do Irã
e da Ucrânia, mas nunca com a Palestina, mesmo hoje em dia", afirmou o
jornalista alemão Tilo Jung durante a coletiva. "À luz do apoio do governo
alemão ao genocídio em Gaza e seu papel como principal financiador da
Berlinale, vocês, como membros do júri..."
A
transmissão ao vivo foi interrompida antes que ele pudesse terminar o
questionamento: "Vocês, como membros do júri, apoiam esse tratamento
seletivo dos direitos humanos?"
A
interrupção gerou especulações sobre se o festival teria tentado censurar o
tema, o que os organizadores negaram. Posteriormente, o vídeo com a íntegra da
coletiva foi disponibilizado no site da Berlinale.
Antes
da resposta de Wenders, outra jurada, Ewa Puszczynska, produtora do filme Zona de Interesse, que trata do
Holocausto, disse que o questionamento do jornalista era "um pouco
injusto".
"Há
muitas guerras com genocídios, e não falamos sobre isso", reagiu ela.
"Portanto, essa é uma questão muito complicada e acho um pouco injusto
perguntar o que pensamos, como apoiamos ou não apoiamos, se conversamos com
nossos governos ou não."
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Acusações de antissemitismo
Nos
últimos dois anos, vários cineastas fizeram declarações políticas sobre o
conflito em Gaza, e o festival de cinema de Berlim enfrentou críticas de
diferentes lados sobre como lidou com esse tema.
Por um
lado, a Berlinale é apontada como relutante em manifestar solidariedade aos
palestinos; por outro, de antissemitismo por abrir espaço a vozes dissidentes.
Críticas
às políticas de Israel por parte de um cineasta israelense estiveram entre os
incidentes da edição de 2024 que levaram o festival a ser acusado de
antissemitismo.
Yuval Abraham, o co-diretor
israelense do documentário No Other Land, que retrata a
ocupação na Cisjordânia, passou a receber ameaças de morte em seu país natal
após seu apelo, na cerimônia de premiação do festival, para que se pusesse fim
a "esse apartheid, essa desigualdade".
Fonte:
DW Brasil

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