A
ofensiva do Reino Unido contra o 'Brazilian butt lift', procedimento para
aumentar o bumbum
O
procedimento estético conhecido como Brazilian butt lift (BBL), procurado por
quem deseja aumentar os glúteos, está na mira de parlamentares e do governo no
Reino Unido.
Em um
documento publicado nesta quarta-feira (18/2), o Comitê de Mulheres e Igualdade
do Parlamento inglês recomendou que a legislação seja alterada para restringir
apenas aos médicos o direito de realizar este e outros procedimentos
considerados de alto risco.
Atualmente
não há no país regulamentação que determine quais profissionais podem ou não
conduzir procedimentos que não envolvam incisões.
Essa
brecha legal, conforme o relatório final divulgado pelo comitê, criou um
mercado "sem lei" em que procedimentos chegam a ser realizados
"em imóveis alugados pelo Airbnb, quartos de hotel, galpões de jardim e
banheiros públicos".
Alguns
deles, apesar de serem considerados "não cirúrgicos", são altamente
invasivos e com alto risco aos pacientes, como o aumento de mamas com uso de
solução salina e a versão "não cirúrgica" do BBL, na qual são usados
preenchedores como ácido hialurônico.
Nos
últimos anos foram noticiados diversos casos de complicações e morte após a
intervenção no Reino Unido.
No
Brasil, o procedimento com ácido hialurônico na área dos glúteos tem sido
popularmente chamado de "harmonização de bumbum" e pode ser realizado
por profissionais habilitados pelos conselhos de classe que permitam e
estabeleçam diretrizes para a prática — por exemplo, de médicos e biomédicos.
O
polimetilmetacrilato, ou PMMA, também já foi usado nesse tipo de procedimento
no Brasil, mas diante de uma onda de casos de complicações e mortes o Conselho
Federal de Medicina (CFM) pediu, no ano passado, que a Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa) proibisse seu uso em procedimentos estéticos.
Atualmente ele é liberado apenas para uso em casos médicos específicos, não
mais estéticos.
O BBL
tradicional, ou gluteoplastia, consiste na aplicação na área do glúteo de
gordura extraída de outras áreas do corpo — e é conhecida como o procedimento
com maior índice de mortalidade entre as cirurgias plásticas.
Ficou
popularmente conhecida em diversos países como "Brazilian butt lift"
— "lifting de bumbum brasileiro", em tradução literal — em referência
à anatomia mais curvilínea das brasileiras.
Em
agosto do ano passado, o governo chegou a propor, entre uma série de medidas
para coibir os abusos na área de procedimentos cosméticos que têm causado
preocupação no país, restrições para limitar a realização do BBL "não
cirúrgico" apenas a profissionais qualificados.
Nesse
sentido, o novo relatório do comitê do Parlamento inglês afirma que o Executivo
"não está agindo com rapidez suficiente" na implementação de um
sistema de licenciamento para procedimentos estéticos não cirúrgicos e
"deveria acelerar as ações regulatórias".
"Durante
nossa investigação, o comitê ouviu um depoimento impactante e chocante de uma
mulher que desenvolveu sepse [infecção generalizada] depois de se submeter a um
'BBL líquido'", declarou Sarah Owen, presidente do colegiado. "A
experiência dela e de muitas outras pessoas deve servir como um alerta urgente
para o governo sobre a necessidade de mudanças", completou
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'Pesadelo completo'
No
início de 2024, a britânica Sasha Dean entrou em coma depois de se submeter ao
procedimento, que foi realizado em parte em uma residência particular, e
desenvolver uma infecção generalizada.
"Tudo
se transformou em um verdadeiro pesadelo muito rapidamente", ela contou à
BBC.
"Tive
um ataque cardíaco, um dos meus pulmões colapsou, meus rins estavam falhando.
Meu corpo simplesmente entrou em colapso."
Após
cinco dias em coma induzido, Dean se recuperou e sobreviveu, mas afirma que a
experiência deixou sequelas físicas.
"Foram
os últimos dois anos mais horríveis. Perdi todo o meu cabelo, tenho problemas
cognitivos, de visão. É uma batalha constante", diz ela.
"Honestamente,
arruinou minha vida."
Dean
hoje alerta outras mulheres sobre os perigos do procedimento.
"Como
não é uma cirurgia, as pessoas ainda acham que é seguro. Mas, para mim, é o
procedimento mais perigoso que existe. Sinceramente, gostaria que fosse
proibido."
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Apelo por medida mais rígidas
A
parlamentar Sarah Owen pediu que o governo se comprometesse a introduzir o
sistema de licenciamento para procedimentos não cirúrgicos que propôs até o
final desta legislatura, em 2029.
De
acordo com os planos do governo, intervenções de alto risco só poderão ser
realizadas por profissionais de saúde regulamentados e os serviços serão
inspecionados pela Comissão de Qualidade de Atendimento (Care Quality
Commission).
Procedimentos
de baixo risco, como botox e preenchimento labial, ficariam sujeitos aos
sistemas de licenciamento municipais.
Uma
porta-voz do Departamento de Saúde e Assistência Social (DHSC) declarou que o
governo já está tomando medidas para reprimir os "aspirantes a
profissionais de estética" e erradicar tratamentos perigosos, sem contudo,
estabelecer uma data para a implementação dessas medidas.
"Nossas
novas e rigorosas medidas garantirão que apenas profissionais de saúde
qualificados possam realizar os procedimentos de maior risco. Para quem estiver
considerando um procedimento estético, verifique as qualificações e o seguro do
profissional e evite tratamentos que pareçam suspeitosamente baratos."
Um
estudo recente do University College London constatou que agora existem mais de
5.500 clínicas que oferecem tratamentos estéticos não cirúrgicos no Reino
Unido, dentro das quais apenas um terço dos profissionais que prestam serviços
são médicos qualificados.
O
relatório do comitê afirmou que não há consistência nos padrões de treinamento
e que alguns profissionais chegam a fazer apenas cursos de treinamento online
antes de oferecer os tratamentos.
Fonte:
BBC News

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