A
ciência das almas gêmeas: existe mesmo alguém que 'foi feito para você'?
Em
datas associadas ao amor — como 14 de fevereiro, considerado o Dia dos
Namorados em vários países — surge a tentação de acreditar que, em algum lugar,
existe "a pessoa certa": a alma gêmea, o par perfeito, alguém com
quem você estava destinado a ficar.
Ao
longo da história, os seres humanos sempre se sentiram atraídos pela ideia de
que o amor não é aleatório. Na Grécia antiga, Platão imaginou que já fomos
seres completos, com quatro braços, quatro pernas e dois rostos, tão radiantes
que Zeus nos dividiu ao meio. Desde então, cada metade vagueia pela Terra em
busca da outra metade, um mito que deu à noção moderna de alma gêmea sua origem
poética e a promessa de que, em algum lugar, alguém nos fará sentir completos.
Na
Idade Média, os trovadores e as lendas arturianas transformaram esse anseio no
chamado "amor cortês", uma devoção intensa e muitas vezes proibida,
como a de Lancelot por Guinevere, na qual o cavaleiro demonstrava seu valor por
meio do sacrifício pessoal por uma amada que talvez jamais pudesse declarar
publicamente.
No
Renascimento, autores como William Shakespeare (1564-1616) falavam em
"amantes marcados pelas estrelas", casais unidos por uma conexão
avassaladora, mas separados por família, circunstâncias ou destino, como se o
próprio universo escrevesse a história de amor e, ao mesmo tempo, impedisse um
final feliz.
Em
tempos mais recentes, Hollywood e os romances venderam histórias de amor dignas
de contos de fadas.
Mas o
que diz a ciência mais recente sobre as almas gêmeas? Existe, de fato, alguém
especial destinado a cada um de nós?
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Como nos apaixonamos pela 'pessoa certa'
Viren
Swami, professor de psicologia social na Anglia Ruskin University (ARU), em
Cambridge (Reino Unido), afirma que a compreensão contemporânea europeia do
amor romântico remonta à Idade Média e às narrativas de Camelot, Lancelot,
Guinevere e os cavaleiros da Távola Redonda, que se espalharam pelo continente.
"Essas
histórias foram as primeiras a difundir a ideia de que você deve escolher um
único indivíduo como companheiro, e que esse companheiro é para a vida
toda", diz. "Antes disso, em grande parte da Europa, você podia amar
quantas pessoas quisesse, e o amor era mais fluido, muitas vezes não centrado
no sexo."
Com o
tempo, afirma Swami, à medida que as pessoas foram deslocadas de comunidades
agrícolas e a industrialização desfez vínculos tradicionais, os indivíduos
passaram a se sentir "alienados". "Eles começam a procurar uma
única pessoa que os salve, que os resgate da miséria de suas vidas."
Os
aplicativos de relacionamento de hoje transformam essa narrativa em algoritmo,
o que Swami chama de "consumo de relacionamentos" (relation-shopping,
em inglês). A busca por uma alma gêmea acaba se tornando o oposto do que se
procura. "Para muitas pessoas, é uma experiência sem alma", diz
Swami.
"Você
está comprando um parceiro… passando possivelmente por dezenas de perfis até
chegar a um ponto em que pensa: preciso parar", afirma.
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A pessoa certa
Jason
Carroll, professor de estudos sobre casamento e família na Brigham Young
University, em Provo, Utah (EUA), demonstra compreensão em relação ao anseio
pela "pessoa certa".
"Somos
criaturas movidas pelo apego", diz. "Desejamos esse vínculo." No
entanto, em suas aulas, Carroll afirma aos estudantes que é preciso abandonar a
ideia de alma gêmea, sem abrir mão do desejo de encontrar a "pessoa certa".
Pode
soar contraditório, mas, para Carroll, trata-se da diferença entre destino e
construção.
"Uma
alma gêmea é simplesmente encontrada. Já está pronta. Mas 'a pessoa certa' é
algo que duas pessoas constroem juntas ao longo dos anos, se adaptando, pedindo
desculpas e, às vezes, cerrando os dentes", afirma.
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A armadilha da alma gêmea
argumento de Carroll, da Brigham Young
University, se apoia em décadas de pesquisas reunidas em seu relatório The
Soulmate Trap (A Armadilha da Alma Gêmea, em tradução livre). Boa parte desses
estudos distingue o que psicólogos chamam de "crenças no destino" — a
ideia de que o relacionamento certo deve ser fácil e natural — das
"crenças de crescimento", que enfatizam o que os parceiros podem
fazer para que a relação funcione.
Em uma
série de estudos amplamente citados, conduzidos no fim dos anos 1990 e início
dos anos 2000 pelo professor C. Raymond Knee, da Universidade de Houston (EUA),
pesquisadores constataram que pessoas que acreditavam que relacionamentos eram
"feitos para acontecer" tinham maior probabilidade de questionar seu
compromisso após conflitos. Já aquelas com uma visão orientada para o
crescimento tendiam a manter maior comprometimento, mesmo em dias de discussão.
Segundo
Carroll, quem adota a perspectiva de crescimento também deseja algo especial,
mas reconhece que haverá dificuldades. "Essas pessoas perguntam… o que
podem fazer para melhorar a relação, promover avanços e crescer juntos?"
Na
visão de Carroll, a crença na alma gêmea é uma armadilha — não pelo romantismo
em si, mas pela expectativa de que o amor nunca deve ser difícil. A parte mais
"profunda" de um relacionamento duradouro, afirma, não é a
intensidade digna de cinema, mas ter "lugar na primeira fila não apenas
para as qualidades do outro, mas também para os seus desafios e suas
fragilidades".
"É
um espaço bastante sagrado", diz. "Só conhecemos essas coisas porque
a outra pessoa nos permitiu estar ali."
Para
Carroll, quando o amor é tratado como destino, as pessoas tendem a se mostrar
menos dispostas a realizar o trabalho discreto que sustenta a relação. Segundo
ele, a "armadilha da alma gêmea" torna muito mais difícil lidar com o
primeiro grande obstáculo.
"Na
primeira dificuldade, o pensamento imediato é: 'Eu achava que você era minha
alma gêmea. Talvez não seja, porque as almas gêmeas não deveriam passar por
isso'", afirma. "Mas, se um relacionamento vai durar, ele nunca será
apenas uma descida suave."
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Química ou trauma?
Vicki
Pavitt, coach de relacionamentos em Londres (Reino Unido), costuma atender
pessoas que acreditaram ter encontrado a alma gêmea e depois perceberam que o
conto de fadas vinha acompanhado de manipulação emocional, instabilidade e
ansiedade constante.
"Quando
há uma química muito forte e aquela faísca, acho que às vezes isso significa
reabrir padrões antigos e pouco saudáveis, como antigas feridas
emocionais", afirma. "Uma pessoa inconsistente, que alterna entre
proximidade e distanciamento, pode fazer você pensar 'mal posso esperar para
vê-la de novo', mas o que está acontecendo é que ela gera tanta ansiedade que
isso faz você querer ainda mais."
Pavitt
diz que o que interpretamos como destino pode ser, na verdade, uma reação do
nosso sistema nervoso ao reconhecer algo que já nos causou dor no passado e
tenta "consertar" essa experiência, um padrão que terapeutas chamam
de vínculo traumático.
Segundo
Pavitt, esse vínculo pode parecer amor e levar pessoas a se sentirem
magneticamente atraídas por dinâmicas pouco saudáveis, não por serem
compatíveis, mas por serem familiares.
Um
estudo frequentemente citado é o dos psicólogos canadenses Donald Dutton e
Susan Painter. Em pesquisa publicada em 1993, quando atuavam na Universidade da
Colúmbia Britânica (Canadá), eles acompanharam 75 mulheres após deixarem
parceiros abusivos.
A
equipe avaliou o grau de apego que as mulheres ainda sentiam pelos
ex-companheiros e comparou esses dados com o tipo de relação que haviam vivido.
Eles
constataram que os vínculos mais fortes não estavam entre as mulheres que
sofreram abuso contínuo, mas entre aquelas cujos parceiros alternavam entre
charme e crueldade.
Dutton
e Painter argumentam que o vínculo traumático ajuda a explicar por que algumas
pessoas se sentem atraídas de volta a relações que, objetivamente, lhes fazem
mal — não por serem saudáveis, mas porque a combinação de perigo e afeto lhes é
familiar.
É essa
distinção que Pavitt busca explorar em seus atendimentos. "É sobre
discernir se a química que você sente indica compatibilidade ou se é apenas uma
sensação familiar de ansiedade", explica.
"Na
minha prática, nunca falo em almas gêmeas", afirma. "Não acredito que
exista uma única pessoa para cada um de nós… mas acredito que podemos nos
tornar 'a pessoa certa' para alguém."
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Química real
Se
negar a existência de uma alma gêmea soa pouco romântico, a biologia da atração
aponta na mesma direção.
Os
contraceptivos hormonais podem alterar de forma sutil a maneira como os
parceiros se sentem um pelo outro. Pesquisas sugerem que as pílulas que reduzem
as variações naturais da fertilidade ao longo do ciclo menstrual também podem
atenuar mudanças na atração que normalmente ocorrem nesse período, o que pode
influenciar a escolha inicial de um parceiro.
Um
amplo estudo feito com 365 casais heterossexuais constatou que a satisfação
sexual das mulheres era maior quando seu status atual em relação ao uso de
contraceptivos coincidia com o que tinham quando escolheram o parceiro. O dado
sugere que mudanças no uso da pílula podem alterar a forma como o parceiro é
percebido. Os efeitos são pequenos, mas podem ajudar a explicar mudanças sutis
na química do casal ao longo do tempo.
Se os
hormônios e os contraceptivos podem influenciar quem parece ser "a pessoa
certa", torna-se mais difícil sustentar a ideia de um único par
predestinado — e é aí que entram os matemáticos.
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A pessoa certa, mas não a única
A
psicologia e a biologia oferecem uma forma de pensar sobre "a pessoa
certa"; a matemática, outra.
Greg
Leo, economista da Universidade Vanderbilt, em Nashville, Tennessee (EUA),
desenvolveu um algoritmo de compatibilidade que indica que uma pessoa pode ter
não apenas "uma", mas várias possíveis "pessoas certas".
No
artigo "Matching Soulmates" (Almas Gêmeas Compatíveis, em tradução
livre), publicado no periódico Public Economic Theory, todos os participantes
integram um ambiente simulado de encontros, no qual milhares de perfis digitais
se avaliam mutuamente. O algoritmo identifica "almas gêmeas de primeira
ordem": pares que se escolhem em uma correspondência estável. Em seguida,
remove esses pares e repete o processo com os restantes, gerando "almas
gêmeas de segunda ordem", e assim sucessivamente.
Nas
simulações de Leo, era extremamente raro que duas pessoas se escolhessem
mutuamente como primeira opção. No entanto, muitos participantes apareciam como
segunda ou terceira escolha um do outro. Nesse modelo, um casal é considerado
bem-sucedido quando cada um está entre as primeiras posições da lista do outro
e nenhum dos dois encontra alguém que ambos prefiram mais.
Pode
parecer apenas exercício estatístico, mas o algoritmo do amor sugere que
existem muitos parceiros possíveis — não apenas "a pessoa certa".
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Valorize os pequenos gestos
Mas
como um casal pode construir sua própria "pessoa certa"?
Jacqui
Gabb, professora de sociologia e estudos da intimidade na The Open University
(Reino Unido), investigou essa questão no projeto Enduring Love (Amor Eterno,
em tradução livre), publicado na revista Sociology em 2015.
O
estudo entrevistou cerca de 5.000 pessoas e depois acompanhou 50 casais em
detalhes minuciosos, por vezes invasivos, combinando dados estatísticos com
diários, entrevistas e "mapas emocionais" do cotidiano doméstico.
Quando
perguntou o que fazia as pessoas se sentirem valorizadas, não surgiram pedidos
de casamento ao pôr do sol ou viagens-surpresa a Paris.
As
respostas incluíram "presentes inesperados, gestos atenciosos e a
gentileza de levar uma xícara de chá na cama". Aquecer o carro numa manhã
fria. Colher flores silvestres e colocá-las num vaso. Compartilhar um sorriso
discreto numa festa.
Em
termos quantitativos, esses "atos cotidianos de atenção", como ela os
define, se mostraram mais significativos do que grandes gestos românticos.
Na
pesquisa, 22% das mães e 20% das mulheres sem filhos apontaram pequenos gestos
como um dos dois principais fatores que as faziam se sentir valorizadas — mais
do que saídas sofisticadas ou presentes caros.
A
satisfação no relacionamento, segundo os dados, não estava ligada
principalmente a dinheiro ou a romantismo, mas ao que a pesquisadora chama de
"conhecimento íntimo do casal" e à forma como ele se manifesta no
cotidiano.
No
diário de um casal jovem que participou do projeto, Sumaira descreve o parceiro
chegando em casa, o jantar que ela preparou, o abraço no corredor, os dois
comendo juntos à mesa.
"É
perfeito", escreve em seu diário de pesquisa. "Só nós e a comida. O
que mais eu poderia querer?"
Há
também uma dança espontânea na sala de estar, uma caminhada na grama alta em
que ela sente medo do escuro, e uma foto de que o parceiro gosta tanto que a
transforma em plano de fundo do celular.
O
relato se assemelha a uma história bonita do dia a dia, não a um conto de
fadas: não há sapatinhos de cristal, mas galochas.
Mas
Gabb ressalta que, no meio da doçura da relação, estão as preocupações
financeiras, as obrigações familiares e um histórico de depressão que o casal
aprende a enfrentar junto.
"A
sensação de alma gêmea aqui não paira acima da vida; ela é construída,
centímetro a centímetro, pela própria vida, na forma como o casal enfrenta
essas pressões", afirma.
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Jantar de Dia dos Namorados
Para
Carroll, da Brigham Young University, a ciência não elimina o romantismo, mas
ajuda a fazê-lo florescer, nos bons e nos maus momentos.
"Me
sinto confortável com a aspiração de estar em um relacionamento único e
especial, desde que nos lembremos de que ele precisa ser construído", diz.
Pavitt,
coach de relacionamentos em Londres, avalia que "é válido, até útil,
acreditar que existe alguém para você, desde que se reconheça que há muitas
pessoas com quem é possível criar uma conexão profunda e se abandone a
expectativa de perfeição".
Quanto
às almas gêmeas, a ciência aponta um paradoxo: quem acaba vivendo relações que
parecem "destinadas a acontecer" costuma ser quem deixou de esperar
pelo destino, se voltou para a pessoa imperfeita à sua frente e, na prática,
perguntou: vamos construir algo juntos?
Fonte:
BBC News

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