Gilberto
Menezes Côrtes: Carnaval e Política devem ser levados a sério?
A
imortal “Marcha da Quarta-feira de Cinzas”, composta por Carlinhos Lyra e
Vinicius de Moraes, em 1962, (e não pós-1964, como muitos acreditam) merece ser
revisitada em tempos de tanta baixaria nas músicas de Carnaval e tanto
radicalismo dos diversos blocos políticos. Carnaval é catarse. Não é para ser
levado a sério. Na história das letras das marchinhas de Carnaval que embalaram
os velhinhos que sassaricavam na porta da Colombo (na rua Gonçalves Dias), mais
da metade seria vetada pelas restrições politicamente corretas dos dias atuais.
Já nos meus critérios de julgamento (e acredito que de muita gente), as letras
chulas das músicas “funks” e de axé baiano, reproduzidas em altos decibéis nos
trios elétricos, também seriam vetadas.
Entretanto,
nunca vi um juiz de menores proibir o quadro “Dança da garrafa” exibido nas
manhãs de domingo no “Programa do Gugu”, no SBT de Silvio Santos. Meninas de
seis a dez anos dançavam por cima de garrafas de cerveja [quando o responsável
pelo “hit”, o dublê de PM-BA e cantor da Companhia do Pagode, contou no
“Programa do Jô a versão oficial da ‘música’, que envolvia humilhação de
travestis nas prisões, Jô, um homem fino e culto, não escondeu o
constrangimento. A baixaria do “funk” começou por aí.]
Também
nunca vi um pastor evangélico ou qualquer cardeal católico investir contra o
conteúdo ou as mensagens de Carnaval dos trios elétricos, dos blocos e das
escolas de samba, mesmo discordando dos enredos com apologia às religiões
de matrizes africanas, que já foram mais abraçadas pelo povo preto que
representa mais de 53% dos 213 milhões de brasileiros.
Opps,
esqueci que, em 1989, já na redemocratização, o cardeal-arcebispo do Rio de
Janeiro, D. Eugênio Salles, conseguiu que a Justiça proibisse a apresentação do
“Cristo Mendigo” da Beija-Flor, quando o carnavalesco Laíla cobriu a imagem com
plástico preto e colou uma faixa que dizia “Mesmo proibido, olhai por nós”. O
enredo era “Ratos e urubus, larguem a minha fantasia”, e a escola de Nilópolis
foi campeã.
No
governo Vargas (período ditatorial quando a Igreja Católica tinha forte
influência), é conhecido o “branqueamento” feito nos rituais da Umbanda e da
Jurema, por pressão dos cardeais. Os rituais de Salvador são exemplos do
sincretismo, que mistura entidades do candomblé com santos católicos.
Vejo
muito barulho por nada, dos dois lados do cordão por onde desfilou o enredo da
Acadêmicos de Niterói, que subiu da série Ouro para o grupo Especial e desceu
novamente na primeira apresentação. Os enredos de escolas de samba são
concebidos para "causar" na avenida, onde o que menos conta é o ritmo
da batucada e a evolução dos passistas e mestres-salas e porta-bandeiras. Na
mistura entre escolas e antigos ranchos, os carros alegóricos ganharam alturas
e engenhos de luxo para exibir artistas e personalidades do samba. A justiça
premiou outra escola de Niterói, a Viradouro, que fez o enredo em torno de um
ícone dos desfiles, o mestre Ciça.
<><> Já dizia Vinicius: 'beleza é fundamental'
Para
meu gosto (e para os jurados votantes do “Estandarte de Ouro"), a inovação
ecologicamente correta da Mocidade Independente de Padre Miguel, feita pelo
carnavalesco Renato Lage, que, em respeito ao apego de Rita Lee pela
preservação dos animais, aboliu o uso de penas e peles das fantasias, mostrou
um caminho novo.
Plasticamente,
o colorido psicodélico deu um banho de espuma na mesmice do abuso de plumas e
paetês que encobrem sambas absolutamente fracos. Seriam difíceis até para o
aposentado Neguinho da Beija-Flor empolgar o público. Os carnavalescos precisam
criar enredos que tenham fluência musical e deixar de lado temas apelativos que
transformam a passarela em um gramado e dividem as arquibancadas como num Fla X
Flu.
Por
isso, recorro (sem nostalgia, apenas com saudade do bom gosto) à letra de
"Marcha da quarta-feira de cinzas", em ritmo de marcha-rancho, da
dupla Carlinhos Lyra e Vinicius de Moraes:
"(...)
E no entanto é preciso cantar e rir / Mais que nunca é preciso cantar / É
preciso cantar e alegrar a cidade / A tristeza que a gente tem qualquer dia vai
se acabar / Todos vão sorrir / voltou a esperança, é o povo que dança /
Contente da vida, feliz a cantar / Porque são tantas coisas azuis / Há tão
grandes promessas de luz / Tanto amor para amar de que a gente nem sabe / Quem
me dera viver pra ver / E brincar outros carnavais / Com a beleza dos velhos
carnavais, que marchas tão lindas / E o povo cantando seu canto de
paz".
É ou
não é uma grande diferença?
Mas há
como fazer irreverência sem xingar a mãe ou fazer ofensas a determinadas
camadas da sociedade. É o caso do “samba-enredo” do anárquico bloco “Que Merda
é Essa?” (sic), de Ipanema, que teve eco na Suprema Corte dos Estados Unidos,
que decidiu ser o tarifaço de Donald Trump irregular, porque foi adotado sem
autorização do Congresso.
Diz o
samba, cujo enredo é “Vai taxar o olho do seu cupuaçu”:
"(...)
Agora, um pedaço de bosta; Quer tirar Nossa Senhora, A Paz; Açaí, Mandioca,
Pirarucu; Ô Seu Cara de Laranja; Vai taxar o Olho do seu Cupuaçu”.
¨
Acadêmicos de Niterói acabou criando mais problemas do
que benefícios eleitorais para Lula. Por Nuno Vasconcellos
Se a
escola de samba Acadêmicos de Niterói tivesse brilhado na Marquês de Sapucaí, a
história seguiria um rumo diferente do que vem seguindo. Se a escola tivesse
evitado os erros infantis que cometeu e tivesse feito um desfile à altura do
que normalmente se vê no Grupo Especial do Carnaval carioca, haveria neste
momento uma disputa renhida para saber de quem partiu a ideia de levar ao
Sambódromo, no Rio de Janeiro, na noite do domingo de Carnaval, a trajetória de
Luiz Inácio Lula da Silva — desde sua saída de Garanhuns, no Agreste de
Pernambuco, até seu terceiro mandato na Presidência do Brasil. A fila de
candidatos a se apresentar como o pai — ou a mãe — da criança seria
quilométrica.
Só que
tudo deu errado. No final das contas, o desfile, ao invés de aumentar a
popularidade de Lula, como temia a oposição, causou danos consideráveis à
imagem do presidente. Tão consideráveis que, para o pessoal da esquerda, a
ressaca provocada pelos excessos do Carnaval, além de não ter ido embora na
Quarta-Feira de Cinzas, ainda deve se prolongar por um bom tempo.
Embora
a ideia de cantar a vida de Lula na Avenida não tenha partido do presidente, os
danos recaíram exclusivamente sobre sua popularidade. A cada minuto, fica mais
difícil encontrar alguém disposto a assumir a paternidade — ou a maternidade —
da ideia infeliz de transformar a história do retirante que se tornou
presidente num enredo que recebeu mais vaias do que aplausos.
Uma
semana depois do desfile, a Acadêmicos de Niterói, que fez sua estreia e,
provavelmente, sua despedida do Grupo Especial do Carnaval carioca, continua
dando o que falar. O espetáculo que ela protagonizou foi patético, repleto de
provocações baratas aos adversários e recheado de clichês tão previsíveis que,
ao invés de divulgar de forma positiva, acabou provocando arranhões
desnecessários na imagem de Lula.
O
enredo foi um engodo e, entre todos os defeitos que apresentou, um dos mais
graves foi o de não estar à altura da trajetória do homenageado. Isso mesmo! Ao
contrário de outros enredos que, em carnavais passados, foram capazes de
transformar figuras controversas em heróis, o personagem retratado pelos
Acadêmicos de Niterói não tem a grandeza do Lula de carne e osso. No final, a
impressão que ficou foi a de que a intenção do enredo não era homenagear o
presidente Lula, mas descer o malho no eterno oponente — o ex-presidente Jair
Bolsonaro, retratado como o palhaço Bozo.
Isso
mesmo: as alas, adereços e alegorias com referências a Bolsonaro e a outros
adversários da esquerda, como o ex-presidente Michel Temer, tiveram mais
destaque na Avenida do que a louvação a Lula. A propósito, o desfile comprovou
que, mesmo estando preso e impedido de disputar eleições, o “Bozo”, ao invés de
gerar risos, continua a ser tratado pelos apoiadores do governo como uma ameaça
a ser combatida diuturnamente. Ou, senão, como um espírito maligno que, se não
for exorcizado a cada minuto, corre o risco de tomar conta de todos os
eleitores e acabar tirando de Lula a vitória nas eleições presidenciais deste
ano.
QUEDA
MERECIDA
No
final das contas, o desfile se resumiu a um amontoado de picuinhas expostas por
uma escola mambembe que, da Comissão de Frente até a ala que fechou o desfile,
parecia mais interessada em ofender os adversários do que em ressaltar os
méritos de Lula. No final das contas, ficou a sensação de que os bajuladores
que desenvolveram o enredo da escola, ao invés de projetar o presidente de
forma positiva, expuseram sua imagem a um risco elevado demais para os
benefícios que ele porventura poderia ter recebido em troca.
Em
outras palavras, não havia a menor necessidade de arriscar o prestígio do
presidente com um desfile que tinha tudo para criar embaraços. O resultado,
pelo que se viu na Avenida, superou as piores expectativas que os lulistas de
bom senso tinham a respeito do desfile. No final, como diz a letra do samba de
Jorge Aragão e dona Ivone Lara, citada no título deste texto, a escola caiu
“para o segundo grupo, e com razão”.
Pelo
que se viu no Sambódromo, a queda era inevitável e a responsabilidade por isso
não pode ser atribuída a Lula. Ela deve cair, isso sim, nas costas dos
bajuladores que dirigem a escola e dos carnavalescos trapalhões que executaram
a obra. Carnavalescos que, ao invés de explorar o bom-humor, que sempre foi a
marca da folia carioca, apelaram para ofensas gratuitas que, na melhor das
hipóteses, aumentaram a rejeição a Lula junto a uma parcela socialmente
expressiva e numericamente importante do eleitorado.
A
menção desrespeitosa a evangélicos, aos valores familiares conservadores, aos
empresários do agronegócio e a outros segmentos que a esquerda trata não como
adversários, mas como inimigos, dificultarão o trabalho de Lula para atrair a
simpatia desse eleitorado numa disputa polarizada em que cada voto desperdiçado
poderá fazer falta na reta final.
Do
ponto de vista técnico, a lambança foi completa. A transmissão da TV cansou-se
de mostrar componentes que, ao invés de soltar a voz e cantar o samba enredo,
preferiam se exibir para as câmeras fazendo o “L” em alusão a Lula. (Em tempo:
de acordo com o Manual do Julgador da Liga Independente das Escolas de Samba —
Liesa, o canto do samba pelos integrantes é o subitem mais valorizado no
julgamento do quesito Harmonia). E mais: a evolução dos componentes foi
preguiçosa e insuficiente para satisfazer até mesmo aos critérios simplificados
de julgamento desse quesito adotados pela Liesa desde os desfiles do ano
passado.
Os
carros alegóricos, as fantasias e os adereços foram tão chinfrins que fica
difícil acreditar que o espetáculo grotesco tenha sido capaz de consumir os R$
9,6 milhões que a escola recebeu em subsídios do Governo Federal, do Governo do
Estado do Rio de Janeiro e da Prefeitura de Niterói. Quem entende de Carnaval e
sabe calcular os custos dos carros e das fantasias acredita que, pela qualidade
sofrível do material levado à Avenida, e pela quantidade de dinheiro que
recebeu, a escola deve ter fechado sua breve passagem pelo Grupo Especial da
Liesa com uma bela sobra no caixa.
CAMPANHA ANTECIPADA
Em
resumo, a escola não se mostrou à altura do personagem que ela pretendeu
retratar. Neste ponto, as observações deixam de girar em torno dos aspectos
técnicos e do regulamento da Liesa para se concentrar nas questões políticas e
legais levantadas pelo desfile da Acadêmicos de Niterói. Sob esses aspectos, a
decisão de levar para a Avenida a história de um candidato que, dentro de
exatos 224 dias, tentará obter seu quarto mandato como presidente do Brasil,
teria sido arriscada mesmo se o enredo tivesse sido bem executado. A impressão
que ficou foi a de que, mais do que exaltar Lula, a intenção foi testar os
limites da legislação e estabelecer os marcos para a campanha deste ano.
O
problema não está, pelo que se viu até aqui, nas possíveis punições que a
Justiça Eleitoral poderá aplicar ao Partido dos Trabalhadores por antecipação
de campanha ou por propaganda fora de hora. Esse risco, que realmente existe. O
desfile, no final das contas, deverá gerar uma intensa batalha judicial que,
independentemente do desfecho que venha a ter, definirá os limites da conduta
dos candidatos durante a campanha eleitoral deste ano. As primeiras ações por
propaganda antecipada chegaram à Justiça Eleitoral antes mesmo do primeiro
passista da Acadêmicos de Niterói pisar na Marquês de Sapucaí. Encerrado o
desfile, elas se multiplicaram.
A
maioria das ações, é claro, foi movida pelos partidos de oposição, mas o PT
reagiu na mesma moeda. Apoiado por seus acólitos PCdoB e PV, o partido de Lula
tenta acusar os políticos da direita de se valeram da Inteligência Artificial
para alterar a realidade e expor Lula ao ridículo em razão do desfile. A
discussão jurídica ainda vai durar algum tempo e deve terminar sem produzir
danos significativos para a candidatura do presidente ou para seus adversários.
Ou seja: o maior problema não é jurídico, mas de natureza política.
O maior
risco que Lula poderá correr caso seus apoiadores insistam numa linha de
campanha voltada exclusivamente para a “desconstrução” dos adversários e para
as ofensas gratuitas aos que não rezam por sua cartilha não virá dos tribunais,
mas de quem realmente decidirá a disputa: o eleitor. Ao trazer Bolsonaro para
uma festa na qual sua presença era absolutamente desnecessária, os “gênios do
marketing” que elaboraram o enredo da Acadêmicos de Niterói, ao invés de
reafirmar a superioridade de Lula sobre o adversário que ele derrotou em 2022,
acabaram transformando o inimigo abatido em vítima — e, como todos sabem, a
vitimização tem força para atrair simpatias.
Um dos
motivos da vitória de Juscelino Kubitschek nas eleições de 1955 foi sua
identificação com Getúlio Vargas, que havia tirado a própria vida no ano
anterior depois de sofrer uma intensa campanha difamatória de seus
adversários).
E mais:
a inclusão nas fantasias da escola de ofensas gratuitas aos evangélicos e às
famílias confinadas em latas de conserva (numa forma de se referir aos
“conservadores” que é digna de estudantes da quinta série) desencadeou uma
reação que, na semana passada, tomou conta da internet. A onda de memes que
inundou a rede em resposta a essa imagem de mau gosto, evidentemente, ajudou a
aumentar o dano que o enredo infeliz causou e continuará causando à imagem do
pré-candidato Lula.
A
pergunta é: não teria sido preferível exaltar as qualidades do presidente sem
oferecer aos adversários a oportunidade de reagir e partir para o ataque? Este
é o xis da questão. Da forma como foi idealizado e executado, o desfile da
Acadêmicos de Niterói, ao invés de servir como peça de propaganda antecipada em
benefício da candidatura de Lula, desencadeou uma batalha que beneficiou seus
adversários. E deixou claro que a campanha deste ano tende a ser mais intensa e
polarizada do que a de 2022.
O uso
da tecnologia digital será intensivo e permitirá que os candidatos — numa
dimensão superior à que se viu nas eleições passadas — abordem diretamente o
eleitor, sem a necessidade da intermediação dos marqueteiros, num ambiente
marcado pelo uso intensivo da tecnologia. A discussão, a partir daí, se volta
para a ausência no debate daquilo que deveria ser obrigatório em qualquer
campanha eleitoral. O problema, naturalmente, não está no uso dos recursos
tecnológicos, mas naquilo que o candidato se propõe a fazer quando chegar ao
poder. E essa discussão, mais uma vez, está sendo posta de lado.
O
problema é complexo. Em 1932, na Alemanha, o nazista Adolf Hitler, que ensaiava
os passos iniciais na carreira que faria dele o ditador mais abjeto da
história, inovou como o primeiro político do mundo ao fazer uso intensivo do
avião como recurso de campanha eleitoral. Enquanto seu adversário, o veterano
Paul von Hindenburgh, dava mostras de cansaço, o jovem Hitler decolava, pousava
e fazia comícios em cinco cidades diferentes todos os dias. Parecia estar por
toda parte. Pela campanha dinâmica que fez, Hitler levou para o segundo turno
uma eleição em que entrou como azarão e assegurou as 230 cadeiras que deram ao
partido Nazista a maioria no Reichstag, o parlamento alemão.
O uso
do recurso tecnológico, naturalmente, não pode ser confundido com a conduta
adotada por Hitler depois que se tornou governante. Isso vale para ele, como
vale para qualquer outro. De um modo geral, a tecnologia está à disposição de
todos e a diferença está na habilidade de utilizá-la. Se Hitler inovou com o
uso intensivo do avião, o democrata John Kennedy foi pioneiro no uso eficiente
das transmissões ao vivo pela TV numa época em que as redes ainda engatinhavam
nos Estados Unidos. Nas eleições de 1960, antes de derrotar o republicano
Richard Nixon nas urnas, ele o superou num debate que foi transmitido em cadeia
nacional e entrou para a história.
No
Brasil, em 1989, numa época em que as campanhas eleitorais ainda pareciam
depender do discurso, do comício e do tapinha nas costas, Fernando Collor
inovou ao utilizar os recursos mais avançados de propaganda e marketing em sua
campanha à presidência. Em 2018, Jair Bolsonaro inovou com o uso intensivo e
eficiente da internet como meio de interação com os eleitores. Todas essas
situações geraram debates sobre o limite do uso das ferramentas tecnológicas e
alteraram os paradigmas das campanhas que vieram a seguir. É preciso estar
atento a elas para que o samba eleitoral não corra o risco de atravessar na
Avenida.
Fonte: JB/O
Dia

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