Weslley
R. Palombarini: Trabalho e educação na evolução da espécie humana
Poderíamos
iniciar um texto sobre relações de trabalho e educação refletindo sobre o
conceito de relação dialógica de Álvaro Vieira Pinto, assim como através dos
conceitos de trabalho social de György Lukács, ou de qualquer outro autor. No
entanto, apesar desses paradigmas serem válidos e potentes do ponto de vista
teórico, a exposição textual continuaria conservando a lógica idealista, onde o
uso apenas de conceitos para refletir sobre a história material acabaria por
substancializar a ontologia humana com categorias fixas e abstratas.
O
materialismo histórico dialético nos permite analisar a ontologia humana a
partir da história natural e social do Homo sapiens sapiens, onde o
desenvolvimento tecnológico e as relações de produção mediam a espécie com o
meio natural, determinando a causa primeira do processo humanizador. E a lógica
dialética, por sua vez, nos permite compreender os movimentos de criação,
manutenção e transformação pelo qual passaram os hominídeos e a nossa espécie
ao longo da história.
Desde a
revolução produzida pelas obras de Charles Darwin – A origem das espécies e A
Origem do homem e a seleção sexual –, sabemos que o H. sapiens sapiens foi
engendrado a partir de ramificações de espécies hominídeas que evoluíram ao
longo de milhares de anos. (RAIMONDI, 2019). Atualmente, com o avanço da
paleantropologia, possuímos provas e experimentos que comprovam nossa origem,
derivada dos símios, desde sete milhões de anos atrás, com os Australopithecus,
ancestral hominídeo que começou a andar de modo mais ereto do que as espécies
anteriores.
Passados
aproximadamente quatro milhões de anos, depois de termos aperfeiçoado a
estrutura óssea menos curvada, portanto, modelando os órgãos para funções
especializadas, como a mão, os olhos e o cérebro, outra espécie surgiu como
variação do processo evolutivo, trazendo um salto qualitativo dos processos
fisiológicos acumulados do seu ancestral – o H. habilis.
É
consenso entre os paleantropólogos que essa espécie de hominídeo, surgida entre
3 e 2,5 milhões de anos a.p., foi a primeira a fabricar seus instrumentos de
trabalho – pedra lascada –, cuja necessidade engendrou relações educacionais e
o aperfeiçoamento da linguagem entre os membros do bando, habilidades
necessárias para reproduzir seu modo existencial. Ou seja, inicia-se, com o H.
habilis a primeira espécie hominídea a criar cultura, trabalho e pensamento
teleológico, isto é, ação com finalidade subjetiva e não apenas instintual.
(NEVES, 2015).
Apesar
dos Neandertais terem sido geneticamente compatível com os homo sapiens – houve
cruzamento, eles mantiveram a convivência em bando, e até agora não há certeza
sobre rituais mortuários ou produções artísticas. Eles se expandiram entre as
regiões que hoje é a Europa e a Ásia, e viveram mais em climas glaciais do que
interglaciais.
Devemos
a eles o domínio do fogo e a diversificação de ferramentas, principalmente a
confecção de agulhas, o que apresentou um avanço significativo no processo de
humanização, isto é, na ampliação da economia libidinal para graus mais
elevados de satisfação biológica, social e afetiva. Eles foram extintos em
aproximadamente 30 mil a.p., provavelmente devido a mudanças climáticas
repentinas (Laschamp – inversão dos polos magnéticos, ocorrida entre 40 mil e
30 mil anos atrás). (NEVES, 2015).
Até
onde sabemos atualmente, nossa espécie, em sua concepção biológica,
compartilhou com os Neandertais dois ancestrais comuns – o H. Erectus – ,
espécie que expandiu vertiginosamente os hominídeos para o planeta, vivendo
entre 1,8 milhões até 100 mil anos atrás, e o H. heidelbergensis, que viveu
entre 500 mil e 250 mil a.p. No entanto, enquanto os Neandertais permaneceram
no continente euroasiático, nós nos formamos fisicamente no continente
Africano, cuja origem, ainda em debate, parece proceder do H. sapiens idaltu,
isto é, H. sapiens “mais antigo”. (WHITE T.D, 2003).
A
caverna de Blombos, na África do Sul, tornou-se o principal sítio arqueológico
com materiais rupestres datados entre 120 mil e 70 mil anos. A diversidade de
conchas e artefatos decorados e espalhados em sítios próximos demonstram a
variedade produtiva daquele povo, fruto de um conjunto de tribos que mantinham
relações econômicas e sociais complexas, bem diferente do modo das espécies de
hominídeos anteriores, que viviam em bando de 30 a 50 pessoas na era glacial.
O H.
sapiens sapiens empreenderam duas ondas migratórias para a região Euroasiática,
uma há 120 mil a.p., e outra há aproximadamente 60 mil anos atrás, quando parte
da África passou a se desertificar. (NEVES, 2015). Ao chegar na Euroasiática,
região de clima temperado e rico em sua fauna e flora, criou-se condições
naturais para que a evolução hominídea produzisse um salto qualitativo na
condição material e cultural da espécie, engendrando a única espécie de
hominídeo do planeta a desenvolver comunidades racionais – trabalho associado,
e consequentemente, tempo livre, ampliando as capacidades biológicas herdadas
para capacidades psicossociais, como pensamento abstrato, linguagem e afetos
diversificados.
Entre
60 e 40 mil a.p. verifica-se a expansão e aperfeiçoamento das primeiras
expressões de arte rupestre, tendo como registro arqueológico inúmeras
cavernas, como a de Lascaux, na França, e Altamira, na Espanha. É neste momento
que ocorre o que a paleantropologia denomina de “explosão criativa”, contexto
em que o sentido da ação passa a ser orientado para o desenvolvimento de
habilidades e faculdades livres, não mais unicamente relacionadas às
necessidades de autopreservação. (NEVES, 2020)
De
aproximadamente 20 ferramentas registrados até 60 mil a.p., na Europa, a partir
de 30 mil a.p., os paleoantropólogos acharam cerca de 100 utensílios
diferentes, provavelmente pertencentes à inúmeros indivíduos que dividiam o
trabalho comunitário entre as famílias, com relativa especialização das
atividades por sexo e faixa etária. (NEVES, 2020).
Ou
seja, verifica-se, depois de uma certa quantidade de anos do processo evolutivo
– cerca de 3 milhões de anos, um aumento vertiginoso das forças produtivas e a
socialização racional das relações de produção, cujo resultado foi um salto
qualitativo nas relações existenciais da tribo, onde viver em comunidade passou
a ser não somente sobreviver – alimentar-se e abrigar-se, mas poder criar
culturalmente formas mais livres de experiência em comunidade e com a natureza
(RAIMONDI, 2019).
Assim,
a educação passa a ter a finalidade de formar personalidades segundo um projeto
de identidade tribal ideal, não mais apenas um caçador(a), mas também um(a)
possível produtor(a) criativo(a), ou “mitólogo”, ou artista, ou curandeiro
xamã, ou tudo isso junto. Em relações de comunidade indiferenciada e com boas
condições naturais e culturais, a educação acontece constantemente e se estende
para toda a tribo – pai, mãe, filhos e dezenas de primos, tias, tios e avós.
(ÁLVARO, 2005 & DARCY, 1968 & PONCE, 2008)
O modo
de produção de caçador/pescador/coletor organizado em comunidades tribais na
Europa, parte da Ásia, África e Oriente Médio, existiu entre 40 mil há
aproximadamente 10 mil anos a.p., momento em que os agrupamentos humanos
começaram a migrar em grande número, devido a mudanças climáticas, e formar
primeiramente aldeias, e depois cidades de pequenos agricultores, entre 10 e 5
mil a. p.
As
aldeias de povos Natufianos que floresceram na região do crescente fértil entre
20 mil e 10 mil anos – correspondente aos territórios da atual Jordânia,
Líbano, Síria, Egito, Israel, Palestina, Irã, Iraque e parte da Turquia –, já
possuíam aprimorado desenvolvimento tecnológico e relações de trabalho
associado entre familiares que começavam a se individualizar. Além de caçarem e
coletarem, domesticaram espécies de cães e iniciaram o processo de agricultura
rudimentar.
O grau
de especialização do trabalho e das relações psico culturais desses povos
conduziram à revolução agrária aproximadamente em 10 mil a.p. Os sítios
arqueológicos de Göbekli Tepe, Karahantepe, Mendik Tepe, todos na Turquia,
Monte Carmelo, em Israel, e Karim Shahir, no Iraque, apresentam provas valiosas
da existência dos povos Natufianos. (BAR-YOSEF, 1998).
Logo
depois, mediante a expansão do vilarejo, a diversificação do trabalho em
especializações, como o ferreiro, o marceneiro, o agricultor, o pastor, os(as)
sacerdotes e o trabalho doméstico, dinamizaram a economia e a sociedade, que
era até em tão formada por aldeias agrícolas indiferenciadas, isto é, não
estratificadas em classe e sem propriedade privada. O desenvolvimento das
forças produtivas e das relações de produção criou a necessidade de um centro
administrador, surgindo então as “Cidades-templo” – centralizadas a partir dos
templos religiosos – como Çatalhöyük e Uruque, aproximadamente entre 9 mil e 7
mil a.p.
Nessas
condições, apesar de não haver ainda dominação cruel e violenta entre as
classes, já havia a divisão entre classes sociais e a propriedade privada, cujo
processo de individuação ao mesmo tempo em que permitiu o desenvolvimento
tecnológico, produziu cisões ainda maiores entre os agrupamentos comunitários.
(REDE, 2011)
Com a
expansão das “Cidades-templo” e as guerras, a casta militar entrou em disputa
com os sacerdotes, responsáveis pela administração da cidade, conquistando a
hegemonia política. A atividade militar expansionista gerou a necessidade de
aperfeiçoamento tecnológico, promovendo a indústria dos metais, fortemente
utilizada na confecção de ferramentas militares. É neste período,
aproximadamente entre 3 mil e 2 mil a.p., que o Estado político-militar é
criado para organizar o que a literatura especializada chama de
“Cidades-estado” ou “Cidade-reino”, nas regiões do Oriente e Ásia.
O
exército e o sacerdócio de cada “Cidade-estado” se uniram para colonizar povos
alheios, utilizando-se da força e da antiga mitologia para manipular e conduzir
a “psico-antropologia” dos povos explorados. Após certo período, as
“Cidades-estados” evoluíram para impérios, e começaram a guerrear entre elas.
Suméria, Acádia, Egito, Pérsia, Babilónia, Grécia, Roma etc.; entraram num
ciclo histórico de disputas hegemônicas pela dominação imperial do comercio
internacional, a partir das regiões conhecidas na época. (REDE, 2011)
Com as
“Cidades-estado”, a guerra passa a ser a principal instituição responsável pela
acumulação de riqueza, determinada pelos interesses das classes ou castas que
dominam os meios de produção e as relações de trabalho. (ENGELS, 1981 &
DARCY, 1987 & REDE, 1996). A educação, nesse contexto, é dividida da mesma
forma que a sociedade, e passa a ter a finalidade de segregar e dominar.
Entre
as classes dominantes, a educação é orientada para as questões do Estado, onde
a formação do caráter guerreiro e o domínio da cultura religiosa e letrada era
o princípio norteador. Neste caso, os filhos dos soldados aprenderiam a arte
militar e administração do Estado, e os filhos dos sacerdotes eram educados
segundo a cultura letrada, mantendo sua posição de elite associada.
E para
os povos dominados, a educação restringia-se à obrigação de trabalhar em algum
ofício sob ordens da elite e obedecer às leis e costumes religiosos, agora
comandados pela parceria entre as castas militares com a sacerdotal, aliciada
para escrever sistemas religiosos ideológicos como maneira de se manter no
poder enquanto serve aos interesses da casta militar. Os princípios
educacionais passaram de formação livre, potente e diversa, para repressões
morais e imposições autoritárias, com objetivos alheios aos do povo dominado.
Com a
revolução dialeticamente negativa das “Cidades-estado” – pois a causa primeira
do movimento que elas iniciam contraria o metabolismo vital da espécie –, as
gerações iniciais perdem seu estatuto de humano em formação integral e as
mulheres perdem sua posição de matriarca, isto é, pela mediação da elite
econômica, militar e sacerdotal, degenera-se o princípio fundamental de
conservação da espécie, de modo que as crianças e as mulheres passam a existir
como objetos de posse e de troca pelo patriarca. (PONCE, 2008)
Segundo
Karl Marx, as múltiplas relações contraditórias entre o modo de produção e os
instrumentos jurídicos, políticos e culturais de reprodução das injustiças
criam realidades aparentes, onde o significado dos objetos e das relações
humanas são invertidos.
O
hospital que deveria tratar e curar doenças, torna-se uma empresa, onde o
paciente torna-se cliente e a finalidade da instituição passa a ser o lucro,
fazendo do paciente objeto de exploração por parte dos sócios anônimos. A
instituição escolar, que deveria cumprir a função de formar pelo menos a
psico-antropologia de cidadão burguês, no sistema capitalista ganha a
finalidade de manter a estrutura econômica, social e política desigual,
disciplinando e ideologizando as gerações para aceitarem e se adequarem às
relações contraditórias, hipócritas e reificadas. (BOURDIEU, 2011).
Nesse
caso, os códigos legais e jurídicos de países republicanos expressam a
aparência de uma realidade democrática, isto é, exercem apenas uma falsa
realidade de liberdade, igual e fraternal, enquanto a essência das relações
socio-políticas-econômicas é a reprodução da dominação de classes e opressão de
gênero. (MARX, 1984 e MARX, 2008)
De
acordo com Landislau Dawbor, 1% das pessoas do planeta terra possui mais de 50%
da riqueza produzida no globo. Portanto, a sociológica econômica crítica não
hesita em afirmar que a sociedade em que vivemos é uma continuação dos modos de
dominação de classe existentes desde a formação das cidades Estados antiga, de
modo que toda a estrutura social é separada segundo a posição de cada classe no
sistema produtivo, e que na atual fase do capitalismo, uma super burguesia
internacional comanda as forças estatais dos países associando-se às burguesias
nacionais para explorar os recursos naturais e as populações do planeta.
(DOWBOR, 2017).
No
Paleolítico Superior a espécie humana se organizou racionalmente em estrutura
econômica, política e cultural, através de relações pedagógicas integrais com
toda a tribo\aldeia, segundo um projeto de autoconstrução livre e potente em
habilidades e conhecimento. Assim como no início do processo de humanização da
nossas espécie, os indivíduos e as famílias atuais precisam se organizar
racionalmente em nível econômico, isto é, através do trabalho associado,
especialmente em atividades fundamentais ao metabolismo vital da humanidade,
como alimentação, moradia, saúde e educação e cultura, a partir de um novo
sentido de vida, voltado à formação de intelectuais orgânicos.
Sem a
conciliação entre a ontologia humana integral, isto é, não alienada, e a
conservação da natureza externa equilibrada, não há esperança para o futuro da
humanidade. (ALVARO, 2008 & ÁLVARO, 2005). O nível da neurose coletiva, da
desagregação social e a destruição do equilíbrio natural, são realidades que
comprovam essa verdade fundamental.
Ou
seja, a passagem para outro estágio evolutivo da humanidade exige uma nova
“psico-antropologia”, necessária para levar a cabo a expansão do novo modelo
produtivo e existencial – comunismo – , baseado numa força produtiva
regenerativa, e não destrutiva, e relações produtivas entre famílias e
indivíduos associados, não apenas “parentes”, e com outro sentido de vida, não
somente sobreviver ou ser reconhecido por status, mas sim realizar a totalidade
das potencias humanas possíveis atualmente em harmonia com o meio social e
natural. (MARX, 2008).
A
filosofia da praxis orienta a “ação oportuna e eficiente” para a hegemonia do
poder executivo municipal – prefeituras –, que é onde ocorre a vida
comunitária, e posteriormente a expansão para o nível nacional e internacional.
Fonte:
A Terra é Redonda

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