segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Luís Nassif:  Como O Globo se aliou ao lavajatismo e ao bolsonarismo contra o STF

Qualquer pessoa com um discernimento razoável acharia as medidas de Moraes contra vazamentos adequadas à gravidade do crime.

Vamos a uma demonstração, ao vivo e em cores, sobre como funcionam as parcerias visando o lançamento da Lava Jato 2, conforme antecipamos no artigo “O monstro despertou: começa a Lava Jato 2“

Houve indícios claros de tentativa de quebra de sigilo de Ministros do Supremo Tribunal Federal e familiares. Se cometido contra qualquer cidadão, quebra de sigilo fiscal é crime. Contra um Ministro do Supremo, é crime gravíssimo.

A investigação foi conduzida pela Receita Federal e, depois do relatório inicial, Alexandre de Moraes ordenou colocar tornozeleira nos suspeitos e segurar os passaportes.

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Imediatamente, O Globo montou uma operação visando escandalizar a atitude de Moraes. Todas as críticas são atribuídas a auditores da Receita e a outros Ministros do STF, baseadas em um velho truque:

1.       Encontre alguém crítico à medida, na Receita e no STF.

2.       Utilize o coletivo para dar mais ênfase à declaração em off. Se for de UM Ministro do STF, use um genérico Ministros.

O Globo ouviu a diretoria da Unafisco e membros do STF. Em princípio não significa nada. Se for 1 ou 2 ou 3 membros do STF, não há a menor diferença, sabendo-se das divisões internas.

Esse jogo desmoralizante do off resultou em diversas manchetes.

Qualquer pessoa com um discernimento razoável acharia as medidas de Moraes adequadas à gravidade do crime.

Conversei com auditores fiscais, por exemplo, que estavam escandalizados com a cobertura de O Globo. Poderia manchetar: “Fiscais sentem-se incomodados com as manchetes de O Globo”, mas seria um abuso do uso do coletivo. Mas O Globo usa e abusa dos coletivos e do verbo “incomodar”.

Vamos fazer algo diferente: individualizar os críticos.

# Kleber Cabral – presidente da Unafisco, personagem central das matérias de O Globo sobre as supostas arbitrariedades de Moraes.

Em 2022 foi candidato a deputado estadual pelo Podemos, tendo como cabo eleitoral Deltan Dallagnol.

No início de 2019, mandou instalar outdoor na saída do aeroporto de Brasília dando boas vindas ao Presidente da República recém-eleito, Bolsonaro. Durante o mandato, manteve estreita relação com Flávio Bolsonaro e outros parlamentares da extrema-direita.

O Globo incluiu, nessa cobertura, um número recorde de 6 repórteres experientes. Nenhum deles levantou as raízes bolsonaristas de Kleber Cabral?

# Ricardo Mansano de Moraes

– O auditor fiscal da Receita, que recebeu as tornozeleiras, está no cargo desde 2007, e atua na Equipe de Gestão do Crédito Tributário e do Direito Creditório (Eqrat). Segundo O Globo, “em suas redes sociais, o auditor fiscal segue perfis de políticos de direita, como do ex-presidente Jair Bolsonaro, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e dos deputados federais Nikolas Ferreira (PL-MG) e Kim Kataguiri (UNIÃO-SP)”. Ele teria acessado alguém de sobrenome Feitosa. Suspeitou-se que fosse alguma parente de Guiomar Feitosa, ex-esposa de Gilmar Mendes. Ele esclareceu que era seu amigo Ricardo Feitosa, que ele pretendia reencontrar. Uma desculpa fajuta mas que esclarece outros pontos.

# Quem é Ricardo Pereira Feitosa?

Foi um fiscal afastado, depois demitido do serviço público federal, por acesso indevido a dados fiscais sigilosos de adversários de Jair Bolsonaro, especialmente Paulo Marinho, Gustavo Bebianno e Eduardo Gussen (procurador geral da Justiça do Rio de Janeiro).

Na época, Feitosa ocupava o cargo de Coordenador-Geral de Pesquisas e Investigações, do núcleo de inteligência da Receita Federal. Estava no centro da inteligência da Receita, levantando informações contra inimigos de Bolsonaro.

# Julio Cesar Vieira Gomes, ex-secretário da Receita Federal no governo Bolsonaro. Faz parte da diretoria da Unafisco.

Em dezembro de 2025 foi demitido pela Controladoria-Geral da União (CGU), por ter tentado usar o cargo para tentar liberar ilegalmente joias apreendidas no Aeroporto de Guarulhos, apresentadas pelo governo da Arábia Saudita a Jair Bolsonaro.

Todos esses bravos auditores da Receita, utilizados para atacar o Supremo, são bolsonaristas de carteirinha. Os jornalistas de O Globo, deveriam ler o Relatório Final da Policia Federal, nos autos do IPL nº 2023.0022161 – CGCINT/DIP/PF:

Diz ele:

O contexto da reunião revela uma articulação cujo objetivo era criar um fato contra servidores da Receita Federal do Brasil, utilizando alegações de existência de uma organização criminosa no órgão para deslegitimar os procedimentos da Corregedoria-Geral do órgão. Essa narrativa, baseada em acusações não comprovadas, tinha como objetivo final anular na origem, as apurações relacionadas às movimentações financeiras suspeitas envolvendo o Senador FLÁVIO BOLSONARO, deflagradas a partir de um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) emitido pelo COAF – Conselho de Controle de Atividades Financeiras.

Ou seja, a banda bolsonarista da Receita – com integrantes da Unafisco – juntou-se aos bolsonaristas para atingir auditores corretos e o corregedor do Rio de Janeiro, empenhados em uma investigação sobre as rachadinhas de Flávio Bolsonaro.

Esses são os personagens aos quais O Globo recorreu, para deslegitimizar o Supremo Tribunal Federal.

Querem mais? Segundo o IPL:

A partir das demandas das advogadas de Flávio Bolsonaro, o Diretor-Geral da ABIN, Alexandre Ramagem, mobilizou a estrutura paralela da Agência de Inteligência. Ele ordenou que servidores da ABIN (como Marcelo Bormevet e Carlos Magno) realizassem ações clandestinas para “achar podres e relações políticas” dos auditores fiscais da Receita Federal (Christiano Botelho, Cleber Silva e José Barros Neto) na tentativa de desacreditá-los e favorecer a defesa do senador

Conforme queríamos demonstrar, estão aí os primeiros movimentos para a Lava Jato 2, entre mídia e os porões do funcionalismo público. E, com a mesma falta de sutileza da cobertura da Lava Jato, O Globo expõe as vísceras de uma cobertura viciada.

E mostra o erro do governo de não ter degolado a Hidra de Lerna desde o início. Quando mais adia, mais perigoso fica.

•        A hipocrisia midiática sobre a investigação da quebra de sigilo fiscal

Um dos sintomas mais óbvios da hipocrisia, na cobertura do escândalo Master, são as críticas à atitude do Ministro Alexandre de Moraes, de ordenar uma investigação sobre o vazamento de dados da Receita.

É o mesmo lero-lero de sempre. “Ministros do STF” (quem? quando? onde?) manifestam “desconforto” com a atitude de Moraes. E o jornalista se escuda no off em um momento em que as afirmações em off foram completamente desmoralizadas. Antes, eram oficiais “incomodados” por A, B, qualquer coisa. Certamente não era um general do alto comando. Era apenas um militar sem coragem de manifestar uma opinião pública, ou até um vizinho da reserva, manifestando uma opinião individual. Ou ninguém. Mas o “incomodado” era aplicado ao conjunto de militares.

Agora, dia vai, dia vem, aparecem Ministros “incomodados”. Incomodados com o quê? Com a iniciativa de investigar vazamento de informações fiscais de Ministros do STF? Seria crime em qualquer hipótese. Contra Ministros do Supremo, e familiares, é crime gravíssimo. É evidente que não existe nenhum Ministro “incomodado” com essa atitude.

Uma coisa são as suspeitas que pesam sobre Moraes. Outra, é a quebra do sigilo fiscal, ainda mais de autoridades do Supremo. É crime, em qualquer circunstância: é crime.

Tome-se o caso do vazamento de dados fiscais de Verônica Serra, filha de José Serra, durante a campanha eleitoral de 2010. O caso levou, imediatamente, à investigação pela Polícia Federal e pela Corregedoria da Receita Federal. Houve abertura de sindicâncias e análise da responsabilidade dentro da Receita. Depois, o caso foi remetido para o Ministério Público Federal.

O resultado foi que a servidora que acessou os dados foi demitida do serviço público e denunciada por violação do sigilo funcional. O despachante tributário foi denunciado por participação na violação e uso indevido dos dados.

Ora, em uma democracia sigilo fiscal não é privilégio de político, é pilar institucional. O sigilo fiscal funciona como um freio institucional contra perseguições políticas, chantagens ou uso seletivo de informações.

Sem ele, abre-se espaço para: dossiês informais, vazamentos estratégicos, uso eleitoral de dados sigilosos. A história brasileira já mostrou como isso pode virar arma política.

Dizer que um Ministro do STF abusa do poder ao mandar investigar a quebra de sigilo fiscal dele e de outros Ministros é de uma falta de discernimento total. Atribuir a opinião a outro Ministro do Supremo é desonestidade jornalística. Ainda mais sabendo-se que, desde a Lava Jato, há uma infiltração de lava jatistas em todos os poros do Estado, especialmente na PF e na Receita.

Segundo a nota do Supremo, todas as decisões do STF foram provocados pela Procuradoria Geral da República:

Esses diversos e múltiplos acessos ilegais, conforme destacado pela Procuradoria-Geral da República, “apresentam aderência típica inicial ao delito previsto no art. 325 do Código Penal (violação de sigilo funcional)”, porém “o caso não se exaure apenas na violação individual do sigilo fiscal, uma vez que a exploração fragmentada e seletiva de informações sigilosas de autoridades públicas, divulgadas sem contexto e sem controle jurisdicional, tem sido instrumentalizada para produzir suspeitas artificiais, de difícil dissipação”.

A pedido da Procuradoria-Geral da República, o Supremo Tribunal Federal decretou as seguintes medidas cautelares em relação aos servidores da Receita Federal, ou cedidos por outros órgãos, Luiz Antônio Martins Nunes, Luciano Pery Santos Nascimento, Ruth Machado dos Santos e Ricardo Mansano de Moraes: (a) busca e apreensão domiciliar e pessoal, (b) afastamento dos sigilos bancário, fiscal e telemático, (c) proibição de se ausentar da Comarca e recolhimento domiciliar no período noturno e nos finais de semana mediante uso de tornozeleira eletrônica, (d) afastamento imediato do exercício da função pública, proibição de ingresso nas dependências do Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO) e da Receita Federal do Brasil e proibição de acesso a seus sistema e bases informatizadas, (e) proibição de se ausentar do país, cancelamento de todos os passaportes e determinação de impedimento migratório.

•        Grampo no Supremo: a volta do estilo Veja

A informação de Mário Sabino, diretor da sucursal paulista do Metrópoles, de que o jornalista Márcio Aith assessora o ministro Dias Toffoli e é, também, colunista do Poder 360, fecha o ciclo. Reforça a convicção de que a gravação da reunião reservada do Supremo Tribunal Federal — na qual se deliberou sobre a situação do próprio Toffoli — foi feita pelo próprio Toffoli e encaminhada por Aith, em artigo não assinado no jornal.

Mas é curioso como o mundo dá voltas.

Quando decidi, em 2008, enfrentar a máquina de destruição de reputações da Veja — armado apenas de um blog —, uma de minhas fontes era justamente Márcio Aith. Ele e Reinaldo Azevedo respondiam a Mário Sabino numa subordinação de caráter quase humilhante. Reinaldo chegou a publicar textos me atacando com todos os ingredientes do estilo Sabino — cujas interferências nos textos da redação equiparei, na época, a prego sobre vinil. Já Aith me trazia informações com o objetivo de queimar Eurípides Alcântara. Mário e Eurípides disputavam o comando da revista.

O estilo Veja já era conhecido: gravações clandestinas de conversas, uso de arapongas ligados a Carlinhos Cachoeira — como documentei no site O Caso Veja, que montei na época.

O fluxo de informações durou até o dia em que publiquei um artigo mostrando que Sabino havia alterado os critérios da lista de livros mais vendidos da revista para encaixar um romance de sua autoria. Aí, Aith entrou em pânico. Ligou desesperado, pedindo que eu “descesse o cacete” nele — e me forneceu alguns argumentos contra ele próprio. Fiz o que pediu. Nos comentários do artigo, leitores lamentaram o episódio: conheciam e tinham grande respeito por seu pai, advogado formado na Faculdade do Largo de São Francisco.

Pouco tempo depois, a Veja desistiu da disputa jornalística e entrou com cinco processos contra mim. No processo movido por Sabino, Aith compareceu como testemunha de acusação. Entrou tão curvado na sala do juiz, sem ousar erguer os olhos na minha direção, que preferi não humilhá-lo mais. Logo depois, Sabino foi demitido da Veja — e Aith foi junto. Passou então a atuar como informante de advogados: contratado para levantar dados em defesa de clientes e para atacar a parte contrária.

Contei essa história no artigo “Márcio Aith, minha fonte no caso Veja”.

Para fechar o ciclo, Reinaldo foi contratado pelo Metrópole – o veículo mais empenhado em atacar o Supremo. Um mês antes deu uma declaração repleta de autopiedade, pedindo para seus leitores rezarem por ele. Julguei que tivesse sido acometido de doença grave. Mas era o UOL se desfazendo dele, devido às suas qualidades. Será curioso ver como se comportará no Metrópole, o veículo mais empenhado em atacar o Supremo.

 

Fonte: Jornal GGN

 

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