Washington
Araújo: E se a neutralidade econômica for a maior fraude do nosso tempo?
Eu
aprendi, ao longo dos anos escrevendo sobre sociologia, ética, política e
poder, que toda neutralidade proclamada merece desconfiança. Foi com esse
espírito que, em 2026, recebi Escape from Capitalism (Fuga do Capitalismo),
lançado no Reino Unido pela Penguin Books. Não se trata de mais um título
acadêmico a ocupar prateleiras especializadas. Desde a sua chegada às
livrarias, o livro circula com tração incomum no debate público, atravessando
universidades, think tanks e redações. Ao abri-lo, percebi rapidamente que não
estava diante de um manual técnico, mas de uma acusação estruturada contra a
própria ideia de que a economia seja uma ciência neutra, separada da disputa
política. E é justamente a partir dessa suspeita inicial que o livro começa a
ganhar densidade e urgência.
Mattei,
professora da The University of Tulsa e presidente do Forum for Real Economic
Emancipation, sustenta algo que me fez interromper a leitura: “A economia não é
neutra; é uma tecnologia de governo". Se aceito essa premissa, todo o
edifício muda de lugar. De repente, debates sobre autonomia dos bancos
centrais, metas de inflação e tetos fiscais deixam de ser meras escolhas
técnicas. Passam a ser dispositivos que moldam previamente o campo do possível.
Quando um ministro afirma que “não há alternativa”, talvez esteja apenas
reproduzindo a gramática dessa tecnologia de governo.
E é
nesse ponto que a autora aprofunda o argumento, deslocando-o do plano
conceitual para o terreno concreto das políticas públicas. Ela escreve: “A
austeridade não é um erro. É um imperativo estrutural do lucro". A frase
exige pausa. Durante anos, ouvimos que ajustes fiscais eram necessários para
restaurar confiança e estabilidade.
Mattei
me obriga a inverter a lógica: e se o corte de direitos sociais não for
remédio, mas sintoma? Se o sistema precisa constantemente garantir margens de
rentabilidade, então a compressão de gastos sociais torna-se um mecanismo
previsível. O que parecia contingência revela-se engrenagem.
Essa
engrenagem, porém, não funciona apenas no plano macroeconômico. Ela se infiltra
no cotidiano. É nesse encadeamento que surge outra afirmação perturbadora: “O
desemprego funciona como mecanismo de disciplina". Não se trata de
metáfora exagerada.
Num
mundo de trabalho intermitente, aplicativos, contratos frágeis e terceirizações
sucessivas, o medo da exclusão molda comportamentos. A fila invisível de
substituição é permanente. Quando conecto essa ideia às estatísticas globais de
precarização, percebo que o desemprego não é apenas um número trimestral; é uma
mensagem política contínua: aceite menos, questione menos.
A
crítica avança, então, para um dos dogmas mais repetidos da modernidade
econômica. Mattei afirma: “Crescimento, tal como medido pelo PIB, mensura
acumulação, não bem-estar". Aqui o nexo se completa. Se a austeridade
disciplina e o desemprego controla, o crescimento legitima. Festejamos índices
positivos mesmo quando florestas são devastadas, cidades se tornam inabitáveis
e desigualdades se aprofundam. O PIB sobe; a qualidade de vida nem sempre
acompanha. A métrica transforma expansão de capital em sinônimo de progresso
humano.
E, ao
chegar a esse ponto, a autora formula talvez a síntese mais desconfortável do
livro: “Não há soberania democrática sob dependência de mercado.” Essa frase
conecta todas as anteriores. Se políticas são limitadas por expectativas
financeiras, se orçamentos são definidos pela reação de investidores, se
reformas sociais precisam antes agradar mercados, então a democracia opera sob
tutela. Governos eleitos tornam-se administradores de constrangimentos globais.
A soberania popular passa a existir dentro de margens estreitas.
Não por
acaso, o historiador Adam Tooze observou que o livro ilumina como o poder
político está codificado na própria teoria econômica. Ao dialogar com análises
publicadas na Jacobin por Steven Mather e Scott Aquanno, percebo que o debate
ultrapassa a denúncia e entra no campo das alternativas.
Se a
dependência do mercado limita a democracia, escapar dela exigiria planejamento
macroeconômico coordenado e fortalecimento de capacidades estatais — sobretudo
diante da urgência da transição ecológica, que o capital privado não financia
na escala necessária.
Esse
encadeamento de ideias já estava anunciado em The Capital Order (A Ordem do
Capital), mas aqui ganha contornos mais explícitos e propositivos. Ao fechar
Escape from Capitalism (Fuga do Capitalismo), não sinto que li um tratado
técnico. Sinto que fui conduzido por um raciocínio que começa desmontando a
neutralidade da economia, passa pela anatomia da austeridade e do desemprego,
questiona o fetiche do crescimento e termina desafiando a própria arquitetura
da soberania contemporânea.
O livro
não oferece conforto. Ele exige reposicionamento. E talvez seja essa sua maior
virtude: lembrar-me de que aquilo que aprendemos a tratar como inevitável pode,
sob exame rigoroso, revelar-se apenas construção histórica — e, portanto,
passível de transformação.
• Inflação converge, economia desacelera:
o Brasil caminha para um Soft Landing? Por Paulo Gala
O
principal destaque do relatório Focus de hoje é que a expectativa de inflação
continua recuando. A projeção para o IPCA deste ano caiu para 3,95%, reforçando
um processo de convergência gradual para a meta. Já as expectativas de
crescimento permanecem estáveis: o mercado projeta expansão de 1,8% tanto para
este ano quanto para o próximo.
Em
relação à taxa Selic, as estimativas indicam encerramento do ano em 12,25% e
queda para 10,5% no próximo ano. Ou seja, não houve mudanças relevantes no
cenário-base do mercado. O ponto mais positivo, portanto, segue sendo a melhora
nas expectativas inflacionárias.
Nos
próximos dias teremos a divulgação do IBC-Br, que pode indicar uma possível
retração do PIB em dezembro. Isso reforça a leitura de que a economia
brasileira entrou em um processo de desaceleração no final do ano. Quando
ampliamos a janela de análise, o quadro fica mais claro.
O
comércio varejista restrito, por exemplo, cresceu apenas 1,6% no ano, contra
4,1% em 2024 — uma desaceleração bastante evidente. Vale lembrar que a
diferença entre o varejo restrito e o ampliado é basicamente a inclusão de
veículos e material de construção.
O setor
de serviços também mostra perda de dinamismo. No último trimestre, o
crescimento foi próximo de zero. No acumulado do ano, a expansão foi de 2,8%,
abaixo dos 3,1% de 2024, dos 2,9% de 2023 e muito distante dos 8% observados em
2022. Há, portanto, uma desaceleração clara também nos serviços.
A
indústria, por sua vez, apresenta crescimento próximo de zero. Embora ainda
ajude a sustentar o nível de atividade, o setor industrial — especialmente a
indústria de transformação — permanece muito distante do seu pico histórico. A
produção industrial está cerca de 16% abaixo do pico da série.
Quando
comparamos os níveis atuais com fevereiro de 2020 (pré-pandemia), a assimetria
fica evidente: a indústria cresceu apenas 0,6% desde então, enquanto o comércio
avançou cerca de 10% e os serviços aproximadamente 19%. Ou seja, a recuperação
pós-pandemia foi bastante desigual, concentrada sobretudo em serviços e varejo.
A
indústria extrativa teve desempenho melhor, puxada principalmente pelo petróleo
— mais do que pelo minério de ferro — além do bom desempenho do agronegócio.
Por
outro lado, há fundamentos importantes sustentando a economia: o rendimento
médio real subiu de cerca de R$ 3.100 para R$ 3.500 nos últimos anos, o
desemprego está em níveis historicamente baixos e a inflação vem convergindo
para abaixo de 4%. Esses são elementos positivos e relevantes.
O ponto
central é que a economia brasileira está desacelerando após um período de forte
expansão, mas sem sinais claros de recessão. O cenário mais provável neste
momento parece ser o de um “soft landing”: crescimento menor, inflação
convergindo e ausência de crise aguda.
Teremos
em breve os dados consolidados do PIB de 2025 e o resultado do quarto
trimestre, que devem confirmar esse retrato: uma economia que perde fôlego, mas
com inflação em trajetória benigna. A grande questão agora passa a ser a
intensidade desse desaquecimento.
• O déficit é o problema real ou a cortina
de fumaça? Por Pedro Benedito Maciel Neto
Eu
estou realmente cansado do pessoal da extrema-direita que, na falta de
informações e de cultura, replicam posts completamente mentirosos ou
parcialmente falsos pelo whatsapp. Lula que se prepare, assim como nosso
pessoal, pois, o debate econômico nas eleições vai girar em torno de uma
palavra quase mágica: déficit.
Repete-se,
com insistência, que o grande entrave ao desenvolvimento nacional é o
desequilíbrio das contas públicas. A narrativa é simples e poderosa: o Estado
gasta demais, arrecada de menos e, por isso, precisa cortar despesas. No
entanto, essa explicação, embora sedutora, pode estar invertendo causa e
efeito.
Ladislau
Dowbor, a quem eu admiro cada vez mais, em seus estudos sobre contas públicas e
sistema financeiro, sustenta que o foco obsessivo no déficit fiscal funciona
como uma cortina de fumaça. Em vez de discutir como dinamizar a economia, gerar
emprego e ampliar o investimento produtivo, o debate se concentra quase
exclusivamente na contenção de gastos. O resultado é uma política econômica
que, ao tentar “economizar”, termina por encolher a própria base de
arrecadação.
O
primeiro equívoco está na comparação entre o Estado e uma família.
Diferentemente
de um orçamento doméstico, o governo possui instrumentos macroeconômicos:
arrecada tributos, regula o crédito, emite moeda e pode induzir investimentos.
Quando o Estado reduz drasticamente seus gastos em momentos de estagnação, a
economia desacelera. Menos atividade significa menos empregos, menos renda e,
consequentemente, menor arrecadação tributária, há natural redução inicial da
inflação e redução do déficit público, contudo, déficit, que se pretendia
combater, tende a persistir ou até aumentar no médio prazo, é o que se vê na
Argentina, que comemora superávits, mas vê seu povo mergulhar na mais absoluta
miséria.
Mas há
outro tema pouco discutido: aquilo que Dowbor chama de “drenos financeiros”.
Uma parcela significativa dos recursos nacionais é transferida ao sistema
financeiro por meio de juros elevados, tanto da dívida pública quanto do
crédito privado. O país paga valores expressivos em juros, beneficiando
sobretudo detentores de grandes aplicações financeiras. Esse fluxo de recursos
não se converte automaticamente em investimento produtivo. Ao contrário,
frequentemente alimenta a lógica do rentismo, que remunera o capital sem
necessariamente gerar produção ou emprego.
Além
disso, a estrutura tributária brasileira apresenta historicamente distorções
conhecidas: isenções relevantes, renúncias fiscais pouco avaliadas e mecanismos
que favorecem rendimentos de capital em detrimento da renda do trabalho.
Quando
se somam juros elevados, evasão fiscal e benefícios tributários concentrados, o
volume de recursos drenados da economia real supera, com folga, o déficit
primário que domina o noticiário.
Isso
não significa que o equilíbrio fiscal seja irrelevante, afinal, contas públicas
sustentáveis são importantes para a estabilidade econômica. O ponto central é
outro: o equilíbrio fiscal não é um fim em si mesmo, mas consequência de uma
economia saudável. Países que crescem, investem e geram empregos ampliam sua
base tributária. Com mais produção e renda, a relação dívida/PIB tende a se
estabilizar ou cair, mesmo que haja investimentos públicos estratégicos.
Em
termos didáticos, a diferença é clara. Indicadores fiscais - como déficit e
dívida - retratam o resultado das contas do governo. Indicadores
macroeconômicos - como crescimento do PIB, nível de emprego e volume de
investimento - mostram a vitalidade da economia. Se a economia cresce de forma
consistente, o próprio quadro fiscal melhora. Se ela estagna, nenhum corte
isolado será suficiente para resolver o problema estrutural.
O
Brasil enfrenta, há anos, um dilema de baixo crescimento. Tratar o déficit como
causa principal pode significar negligenciar fatores mais determinantes: o
custo do crédito, a concentração financeira, a baixa taxa de investimento e as
distorções tributárias. Ao priorizar exclusivamente a austeridade, corre-se o
risco de aprofundar a paralisia econômica.
Talvez
seja hora de inverter a pergunta. Em vez de indagar apenas como cortar gastos,
deveríamos perguntar como reorientar recursos para fortalecer a economia real.
O verdadeiro desafio não é apenas fechar contas, mas abrir caminhos para o
crescimento sustentável. Sem crescimento, o equilíbrio fiscal será sempre uma
promessa adiada.
Essas
são reflexões que compartilho e que aprendi lendo o mestre Dowbor.
Fonte:
Brasil 247

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