segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Washington Araújo: E se a neutralidade econômica for a maior fraude do nosso tempo?

Eu aprendi, ao longo dos anos escrevendo sobre sociologia, ética, política e poder, que toda neutralidade proclamada merece desconfiança. Foi com esse espírito que, em 2026, recebi Escape from Capitalism (Fuga do Capitalismo), lançado no Reino Unido pela Penguin Books. Não se trata de mais um título acadêmico a ocupar prateleiras especializadas. Desde a sua chegada às livrarias, o livro circula com tração incomum no debate público, atravessando universidades, think tanks e redações. Ao abri-lo, percebi rapidamente que não estava diante de um manual técnico, mas de uma acusação estruturada contra a própria ideia de que a economia seja uma ciência neutra, separada da disputa política. E é justamente a partir dessa suspeita inicial que o livro começa a ganhar densidade e urgência.

Mattei, professora da The University of Tulsa e presidente do Forum for Real Economic Emancipation, sustenta algo que me fez interromper a leitura: “A economia não é neutra; é uma tecnologia de governo". Se aceito essa premissa, todo o edifício muda de lugar. De repente, debates sobre autonomia dos bancos centrais, metas de inflação e tetos fiscais deixam de ser meras escolhas técnicas. Passam a ser dispositivos que moldam previamente o campo do possível. Quando um ministro afirma que “não há alternativa”, talvez esteja apenas reproduzindo a gramática dessa tecnologia de governo.

E é nesse ponto que a autora aprofunda o argumento, deslocando-o do plano conceitual para o terreno concreto das políticas públicas. Ela escreve: “A austeridade não é um erro. É um imperativo estrutural do lucro". A frase exige pausa. Durante anos, ouvimos que ajustes fiscais eram necessários para restaurar confiança e estabilidade.

Mattei me obriga a inverter a lógica: e se o corte de direitos sociais não for remédio, mas sintoma? Se o sistema precisa constantemente garantir margens de rentabilidade, então a compressão de gastos sociais torna-se um mecanismo previsível. O que parecia contingência revela-se engrenagem.

Essa engrenagem, porém, não funciona apenas no plano macroeconômico. Ela se infiltra no cotidiano. É nesse encadeamento que surge outra afirmação perturbadora: “O desemprego funciona como mecanismo de disciplina". Não se trata de metáfora exagerada.

Num mundo de trabalho intermitente, aplicativos, contratos frágeis e terceirizações sucessivas, o medo da exclusão molda comportamentos. A fila invisível de substituição é permanente. Quando conecto essa ideia às estatísticas globais de precarização, percebo que o desemprego não é apenas um número trimestral; é uma mensagem política contínua: aceite menos, questione menos.

A crítica avança, então, para um dos dogmas mais repetidos da modernidade econômica. Mattei afirma: “Crescimento, tal como medido pelo PIB, mensura acumulação, não bem-estar". Aqui o nexo se completa. Se a austeridade disciplina e o desemprego controla, o crescimento legitima. Festejamos índices positivos mesmo quando florestas são devastadas, cidades se tornam inabitáveis e desigualdades se aprofundam. O PIB sobe; a qualidade de vida nem sempre acompanha. A métrica transforma expansão de capital em sinônimo de progresso humano.

E, ao chegar a esse ponto, a autora formula talvez a síntese mais desconfortável do livro: “Não há soberania democrática sob dependência de mercado.” Essa frase conecta todas as anteriores. Se políticas são limitadas por expectativas financeiras, se orçamentos são definidos pela reação de investidores, se reformas sociais precisam antes agradar mercados, então a democracia opera sob tutela. Governos eleitos tornam-se administradores de constrangimentos globais. A soberania popular passa a existir dentro de margens estreitas.

Não por acaso, o historiador Adam Tooze observou que o livro ilumina como o poder político está codificado na própria teoria econômica. Ao dialogar com análises publicadas na Jacobin por Steven Mather e Scott Aquanno, percebo que o debate ultrapassa a denúncia e entra no campo das alternativas.

Se a dependência do mercado limita a democracia, escapar dela exigiria planejamento macroeconômico coordenado e fortalecimento de capacidades estatais — sobretudo diante da urgência da transição ecológica, que o capital privado não financia na escala necessária.

Esse encadeamento de ideias já estava anunciado em The Capital Order (A Ordem do Capital), mas aqui ganha contornos mais explícitos e propositivos. Ao fechar Escape from Capitalism (Fuga do Capitalismo), não sinto que li um tratado técnico. Sinto que fui conduzido por um raciocínio que começa desmontando a neutralidade da economia, passa pela anatomia da austeridade e do desemprego, questiona o fetiche do crescimento e termina desafiando a própria arquitetura da soberania contemporânea.

O livro não oferece conforto. Ele exige reposicionamento. E talvez seja essa sua maior virtude: lembrar-me de que aquilo que aprendemos a tratar como inevitável pode, sob exame rigoroso, revelar-se apenas construção histórica — e, portanto, passível de transformação.

•        Inflação converge, economia desacelera: o Brasil caminha para um Soft Landing? Por Paulo Gala

O principal destaque do relatório Focus de hoje é que a expectativa de inflação continua recuando. A projeção para o IPCA deste ano caiu para 3,95%, reforçando um processo de convergência gradual para a meta. Já as expectativas de crescimento permanecem estáveis: o mercado projeta expansão de 1,8% tanto para este ano quanto para o próximo.

Em relação à taxa Selic, as estimativas indicam encerramento do ano em 12,25% e queda para 10,5% no próximo ano. Ou seja, não houve mudanças relevantes no cenário-base do mercado. O ponto mais positivo, portanto, segue sendo a melhora nas expectativas inflacionárias.

Nos próximos dias teremos a divulgação do IBC-Br, que pode indicar uma possível retração do PIB em dezembro. Isso reforça a leitura de que a economia brasileira entrou em um processo de desaceleração no final do ano. Quando ampliamos a janela de análise, o quadro fica mais claro.

O comércio varejista restrito, por exemplo, cresceu apenas 1,6% no ano, contra 4,1% em 2024 — uma desaceleração bastante evidente. Vale lembrar que a diferença entre o varejo restrito e o ampliado é basicamente a inclusão de veículos e material de construção.

O setor de serviços também mostra perda de dinamismo. No último trimestre, o crescimento foi próximo de zero. No acumulado do ano, a expansão foi de 2,8%, abaixo dos 3,1% de 2024, dos 2,9% de 2023 e muito distante dos 8% observados em 2022. Há, portanto, uma desaceleração clara também nos serviços.

A indústria, por sua vez, apresenta crescimento próximo de zero. Embora ainda ajude a sustentar o nível de atividade, o setor industrial — especialmente a indústria de transformação — permanece muito distante do seu pico histórico. A produção industrial está cerca de 16% abaixo do pico da série.

Quando comparamos os níveis atuais com fevereiro de 2020 (pré-pandemia), a assimetria fica evidente: a indústria cresceu apenas 0,6% desde então, enquanto o comércio avançou cerca de 10% e os serviços aproximadamente 19%. Ou seja, a recuperação pós-pandemia foi bastante desigual, concentrada sobretudo em serviços e varejo.

A indústria extrativa teve desempenho melhor, puxada principalmente pelo petróleo — mais do que pelo minério de ferro — além do bom desempenho do agronegócio.

Por outro lado, há fundamentos importantes sustentando a economia: o rendimento médio real subiu de cerca de R$ 3.100 para R$ 3.500 nos últimos anos, o desemprego está em níveis historicamente baixos e a inflação vem convergindo para abaixo de 4%. Esses são elementos positivos e relevantes.

O ponto central é que a economia brasileira está desacelerando após um período de forte expansão, mas sem sinais claros de recessão. O cenário mais provável neste momento parece ser o de um “soft landing”: crescimento menor, inflação convergindo e ausência de crise aguda.

Teremos em breve os dados consolidados do PIB de 2025 e o resultado do quarto trimestre, que devem confirmar esse retrato: uma economia que perde fôlego, mas com inflação em trajetória benigna. A grande questão agora passa a ser a intensidade desse desaquecimento.

•        O déficit é o problema real ou a cortina de fumaça? Por Pedro Benedito Maciel Neto

Eu estou realmente cansado do pessoal da extrema-direita que, na falta de informações e de cultura, replicam posts completamente mentirosos ou parcialmente falsos pelo whatsapp. Lula que se prepare, assim como nosso pessoal, pois, o debate econômico nas eleições vai girar em torno de uma palavra quase mágica: déficit.

Repete-se, com insistência, que o grande entrave ao desenvolvimento nacional é o desequilíbrio das contas públicas. A narrativa é simples e poderosa: o Estado gasta demais, arrecada de menos e, por isso, precisa cortar despesas. No entanto, essa explicação, embora sedutora, pode estar invertendo causa e efeito.

Ladislau Dowbor, a quem eu admiro cada vez mais, em seus estudos sobre contas públicas e sistema financeiro, sustenta que o foco obsessivo no déficit fiscal funciona como uma cortina de fumaça. Em vez de discutir como dinamizar a economia, gerar emprego e ampliar o investimento produtivo, o debate se concentra quase exclusivamente na contenção de gastos. O resultado é uma política econômica que, ao tentar “economizar”, termina por encolher a própria base de arrecadação.

O primeiro equívoco está na comparação entre o Estado e uma família.

Diferentemente de um orçamento doméstico, o governo possui instrumentos macroeconômicos: arrecada tributos, regula o crédito, emite moeda e pode induzir investimentos. Quando o Estado reduz drasticamente seus gastos em momentos de estagnação, a economia desacelera. Menos atividade significa menos empregos, menos renda e, consequentemente, menor arrecadação tributária, há natural redução inicial da inflação e redução do déficit público, contudo, déficit, que se pretendia combater, tende a persistir ou até aumentar no médio prazo, é o que se vê na Argentina, que comemora superávits, mas vê seu povo mergulhar na mais absoluta miséria.

Mas há outro tema pouco discutido: aquilo que Dowbor chama de “drenos financeiros”. Uma parcela significativa dos recursos nacionais é transferida ao sistema financeiro por meio de juros elevados, tanto da dívida pública quanto do crédito privado. O país paga valores expressivos em juros, beneficiando sobretudo detentores de grandes aplicações financeiras. Esse fluxo de recursos não se converte automaticamente em investimento produtivo. Ao contrário, frequentemente alimenta a lógica do rentismo, que remunera o capital sem necessariamente gerar produção ou emprego.

Além disso, a estrutura tributária brasileira apresenta historicamente distorções conhecidas: isenções relevantes, renúncias fiscais pouco avaliadas e mecanismos que favorecem rendimentos de capital em detrimento da renda do trabalho.

Quando se somam juros elevados, evasão fiscal e benefícios tributários concentrados, o volume de recursos drenados da economia real supera, com folga, o déficit primário que domina o noticiário.

Isso não significa que o equilíbrio fiscal seja irrelevante, afinal, contas públicas sustentáveis são importantes para a estabilidade econômica. O ponto central é outro: o equilíbrio fiscal não é um fim em si mesmo, mas consequência de uma economia saudável. Países que crescem, investem e geram empregos ampliam sua base tributária. Com mais produção e renda, a relação dívida/PIB tende a se estabilizar ou cair, mesmo que haja investimentos públicos estratégicos.

Em termos didáticos, a diferença é clara. Indicadores fiscais - como déficit e dívida - retratam o resultado das contas do governo. Indicadores macroeconômicos - como crescimento do PIB, nível de emprego e volume de investimento - mostram a vitalidade da economia. Se a economia cresce de forma consistente, o próprio quadro fiscal melhora. Se ela estagna, nenhum corte isolado será suficiente para resolver o problema estrutural.

O Brasil enfrenta, há anos, um dilema de baixo crescimento. Tratar o déficit como causa principal pode significar negligenciar fatores mais determinantes: o custo do crédito, a concentração financeira, a baixa taxa de investimento e as distorções tributárias. Ao priorizar exclusivamente a austeridade, corre-se o risco de aprofundar a paralisia econômica.

Talvez seja hora de inverter a pergunta. Em vez de indagar apenas como cortar gastos, deveríamos perguntar como reorientar recursos para fortalecer a economia real. O verdadeiro desafio não é apenas fechar contas, mas abrir caminhos para o crescimento sustentável. Sem crescimento, o equilíbrio fiscal será sempre uma promessa adiada.

Essas são reflexões que compartilho e que aprendi lendo o mestre Dowbor.

 

Fonte: Brasil 247

 

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