segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Olímpio Cruz Neto: Eleições gerais de 2026 sob o império da IA (I)

Lembra da bolinha de papel que atingiu José Serra? Lembra do “gabinete do ódio” tentando comprar software de monitoramento? Aquilo era pirulito no recreio: improviso, ruído, truque de esquina. A guerra de 2026 é outra. Ela não depende de um ato que vira manchete — depende de um encanamento que roda todo dia. Não precisa que você acredite; basta que você duvide. Não precisa vencer o argumento; basta saturar a atenção.

As eleições gerais de 2026 começam assim: não com uma mentira monumental, mas com uma avalanche de pequenas certezas prontas para consumo. Na primeira hora da manhã, antes do café terminar de coar, o país já está de pé — não pelas ruas, mas pela palma da mão.

O celular vibra com a urgência de quem bate na porta. Um vídeo chega no grupo da família. Em seguida, o mesmo vídeo aparece em outro, com uma legenda diferente. Depois, numa terceira versão, alguém “explica” a cena com uma voz segura, paternal, como se estivesse revelando um segredo que só ele teve coragem de dizer em voz alta.

Dez minutos depois, o assunto vira meme. Em meia hora, vira “tendência”. Em uma hora, você já encontra gente reagindo ao vídeo que você ainda nem viu — e gente reagindo à reação do vídeo que você nem teve tempo de checar.

É isso — em escala — que já está acontecendo. Não é que a desinformação tenha nascido agora. O que mudou foi o patamar. O que antes exigia equipe, tempo, orçamento e uma estrutura quase industrial, hoje pode ser feito como se fosse um aplicativo: liga, produz, adapta, dispara. A inteligência artificial entra como quem abaixa o preço do ingresso para um estádio lotado. Ela não inventa a torcida, mas faz a multidão chegar mais rápido — e gritar em coro.

A eleição geral de 2026 deixa de ser apenas a disputa clássica das ideias. Vira algo mais frio e mais difícil de explicar em frases bonitas: uma disputa de infraestrutura. Infraestrutura de atenção, distribuição e velocidade. Quem controla o encanamento por onde as emoções passam.

<><> O método exposto

No começo do ano, uma história atravessou Brasília e as redes com um detalhe que importa mais do que o enredo: o método. Reportagens registraram relatos de influenciadores abordados no fim de 2025 com propostas para publicar conteúdos questionando decisões do Banco Central do Brasil no caso Banco Master.

A peça central, aqui, não é o valor exato nem o folclore da negociação — é a lógica: conteúdo sob encomenda, roteiro, timing, multiplicação. Quando o assunto ganhou corpo, a Polícia Federal abriu apuração para investigar uma possível campanha coordenada nas redes contra o Banco Central após a liquidação do banco, segundo noticiário.

Em paralelo, análises públicas de pesquisadores indicaram volume elevado de publicações e a tentativa de dar aparência de “onda espontânea” ao que poderia ser uma operação organizada — um traço típico do nosso tempo: não basta falar; é preciso parecer inevitável.

Esse episódio funciona como um ensaio geral por um motivo simples: ele mostra que redes capazes de operar hoje para um pagador podem operar amanhã para outro — e, num ano eleitoral, essa plasticidade deixa de ser detalhe de mercado e vira risco institucional.

A política sempre se alimentou de fatos — mas em 2026 os fatos não são mais o centro; são matéria-prima. Um recorte. Um pedaço de áudio. Uma frase fora de contexto. Um gráfico sem fonte. Um print sem link. Um “vazamento” sem origem. Um vídeo editado para caber em 30 segundos e sobrar indignação.

A IA não precisa fabricar tudo do zero. Ela pode fazer algo mais eficiente: torcer o real até que o real pareça outra coisa. O falso raramente chega com a placa “falso”. Ele chega com maquiagem, com luz boa e com uma legenda certeira. E quando o conteúdo parece testemunho, a checagem vira uma corrida injusta — porque a checagem exige o que o conteúdo não oferece: origem, contexto, cadeia. A checagem precisa de tempo; a emoção precisa de segundos.

<><> A fábrica do espontâneo

A grande operação do nosso tempo não é convencer — é parecer natural.

Parece um depoimento, mas é um roteiro. Parece indignação, mas é um pacote. Parece “voz do povo”, mas tem cronograma. Parece “achei isso por acaso”, mas há uma máquina inteira empurrando o acaso para a sua tela.

A estética é a do cotidiano. O cenário é a sala simples, o carro parado, a rua. O vocabulário imita o de quem não tem tempo para discurso: “vou falar rápido”, “não dá pra ficar calado”, “ninguém quer te contar isso”. A frase final pede um gesto que parece inofensivo — “manda pra mais alguém” — mas é o empurrão que transforma um conteúdo em corrente.

E aí entra o traço novo: em 2026, a máquina que produz essas peças não precisa mais de tanto esforço humano para variar. A IA escreve uma versão “irônica” e outra “grave”. Uma mais regional, outra mais “neutra”. Uma com cara de “análise”, outra com cara de “desabafo”. Ela faz o que o marqueteiro de ontem chamaria de segmentação — só que com uma rapidez que deixaria qualquer agência antiga com inveja.

O milagre é simples: a mesma mensagem, com roupas diferentes, entra em casas diferentes sem parecer propaganda. Ela entra como conversa.

Aqui está o coração do problema: a IA dá ao mercado da atenção duas vantagens que, juntas, viram um motor de guerra política. A primeira é velocidade. Um acontecimento do dia vira, em poucas horas, dezenas de versões. A segunda é variedade. A mesma ideia ganha cara de piada, de denúncia, de “análise”, de “confissão”, de “desabafo”.

Esse par — velocidade e variedade — cria um fenômeno clássico do nosso tempo: a sensação de que “está em todo lugar”. E quando algo está em todo lugar, o cérebro interpreta como verdade social, mesmo quando não é verdade factual. A etiqueta cola antes da prova.

A parte desconfortável começa aqui: se existe um mercado que vende atenção, e se esse mercado se organiza pela lógica de “entrega” (alcance, engajamento, viralidade), o Estado corre o risco de ser capturado pela arena que deveria administrar. Não se trata de demonizar criadores de conteúdo. Trata-se de reconhecer uma assimetria: sem padrões claros, contratar alcance é contratar poder de agenda. E poder de agenda, em ano eleitoral, não pode operar como caixa-preta.

A captura não precisa ser ideológica. Pode ser apenas mercantil. Hoje a rede serve a um pagador; amanhã serve a outro. O que está em disputa não é fidelidade; é fluxo.

<><> Três linhas vermelhas

Não adianta pedir calma à multidão quando o encanamento foi desenhado para acelerar pânico. O que ajuda é estabelecer três linhas vermelhas — simples, públicas, cobradas.

Primeira: rotulagem real. Conteúdo político com uso de IA precisa ser identificado de forma padronizada.

Segunda: trilha e rastreabilidade. Quem pagou, quem executou, quem distribuiu — sem isso, a democracia vira território de “acredita quem quer”.

Terceira: resposta rápida com devido processo. Regras claras, justificativa e possibilidade de contestação.

A eleição de 2026 talvez não seja a primeira em que a inteligência artificial aparece. Mas pode ser a primeira em que ela se torna infraestrutura de guerra de percepção: uma máquina que não precisa convencer, só precisa empurrar; uma máquina que não precisa provar, só precisa saturar.

E infraestrutura não se enfrenta com gritaria. Infraestrutura se enfrenta com transparência, auditoria e norma — e com uma sociedade que reaprende a fazer a pergunta mais simples do jornalismo: de onde vem isso?

¨      Eleições gerais de 2026 sob o império da IA (II)

Há uma cena que não rende foto e, por isso mesmo, passa batida. Ela não acontece no palanque, nem no plenário. Acontece numa sala com ar-condicionado e café morno, diante de uma tela onde não há eleitores — há números. Não se fala “povo”. Fala-se “público”. Não se diz “convencer”. Diz-se “otimizar”. Não se debate “verdade”. Debate-se “performance”.

Em 2026, com a inteligência artificial barateando a produção e acelerando a distribuição, a política descobre um atalho perigoso: comprar presença constante sem parecer propaganda. O que era campanha vira ambiente. O que era peça vira conversa. O que era slogan vira meme. E o que era persuasão vira saturação — aquela sensação de que “está em todo lugar”, antes mesmo de alguém provar de onde veio.

A pergunta que decide o ano não é “quem mentiu?”. É outra, mais seca e mais útil: quem pagou — e por qual caminho? Sem esse caminho, a democracia vira um mercado de alcance com recibos bonitos na entrada e sombra no destino final.

<><> O dinheiro como oxigênio

Comunicação pública é parte do Estado. Orientar, prestar contas, fazer campanhas de utilidade pública — tudo isso é legítimo. O problema começa quando, no mundo digital, a execução vira um corredor longo de terceirizações e subcontratações, e cada porta fechada reduz a visibilidade sobre quem faz o quê.

A dinâmica é conhecida, mas a escala mudou. Hoje, o governo contrata e a agência executa. Já o fornecedor terceiriza. E o intermediário “ativa”. Uma rede “distribui”. Um criador “posta” e o recorte circula. Outro corte viraliza. E o público, que só vê o resultado final na tela, recebe aquilo com cara de cotidiano — não de campanha.

Não é preciso demonizar agências, nem influenciadores, nem plataformas. O risco está na arquitetura: quando a cadeia tem muitas dobras, a responsabilidade se dissolve. Ninguém é autor. Todo mundo é prestador de serviço. Ninguém planejou. O pessoal só “entregou”. E, quando o problema aparece, cada elo aponta para o elo seguinte — como se o efeito político fosse um acidente sem dono.

Em ano eleitoral, isso deixa de ser detalhe administrativo. Porque, na prática, o que se compra não é apenas divulgação: é poder de agenda. E, vamos ser claros: o poder de agenda, em 2026, não pode operar como uma caixa-preta.

<><> O encanamento em cascata

O Brasil tem instrumentos formais de transparência: contratos, editais, registros públicos, trilhas administrativas. E há páginas oficiais com informações sobre publicidade e contratos no âmbito da comunicação do governo federal. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República aparece na entrada do processo, com ritos e documentos.

Só que o centro do problema não está na entrada. Está na saída. É ali que surgem rótulos genéricos (“ativação”, “conteúdo”, “relacionamento”), camadas de intermediação e ações executadas por terceiros que nem sempre aparecem com nitidez no que o público consegue auditar.

Quando o dinheiro passa por muitos filtros até virar vídeo curto, meme e corte “orgânico”, o país fica numa situação esquisita: vê o impacto político, mas não enxerga o mapa do encanamento.

E aí 2026 entra como multiplicador. Porque a IA não apenas barateia conteúdo. Agora, temos uma variação que custa muito, mas muito pouco. Uma mesma tese ganha dezenas de versões — irônica, indignada, paternal, regional, “neutra”, “técnica”, “desabafo”. A mesma mensagem entra em casas diferentes sem parecer a mesma mensagem. A máquina não precisa convencer; basta repetir com diversidade suficiente para criar clima.

Nesse cenário, rastreabilidade deixa de ser burocracia e vira fronteira democrática. O que antes era uma preocupação de controle interno vira uma necessidade de segurança institucional: se o Estado compra alcance sem conhecer o encanamento inteiro, pode financiar — sem intenção — uma infraestrutura que amanhã será alugada contra ele.

<><> Rastreabilidade ou captura

O caso do Banco Master acende o alerta não por “resolver” nada sozinho, mas porque expõe método e plasticidade: redes e formatos capazes de operar a favor de um cliente podem ser acionados contra outro, dependendo do pagador. Há apuração oficial sobre suspeita de campanha coordenada nas redes, com autorização do ministro Dias Toffoli. Também há análises do NetLab/UFRJ apontando sinais compatíveis com tentativa de fabricar “onda” a partir de volume e padrões de publicação.

A lição institucional é simples: em 2026, “quem pagou” é só metade da pergunta. A outra metade é “por onde isso correu e quem respondeu pela execução”. E a resposta não é moralismo nem censura. É contrato. É auditoria. É obrigação de prova.

Três medidas cabem em edital, cabem em contrato e cabem em fiscalização — e mudam o jogo:

  1. Mapa de destino final (obrigatório): Para cada campanha digital, é preciso ter uma lista auditável de intermediários e destinatários finais relevantes, com entregas mensuráveis e períodos definidos.
  2. Cláusula anti-inautenticidade (padrão): Proibição explícita de compra de engajamento, fazendas de cliques e distribuição por comportamento coordenado não declarado — com penalidades e gatilhos claros.
  3. Transparência em tempo útil (não decorativa): Painel com atraso curto, com critérios de alocação e trilha de execução. Transparência tardia é só arqueologia.

O Brasil atravessa 2026 com uma escolha silenciosa. Ou aceita que a política vire planilha de alcance sem mapa de destino. Ou exige que, para cada peça que chega como conversa, exista um rastro verificável por trás. Democracia, no fim, não é só voto. É a capacidade de dizer: mostre o caminho.

 

Fonte: Brasil 247

 

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