Glifosato,
condenado nos EUA por relação com câncer, é o agrotóxico mais presente em
ultraprocessados no Brasil
A Bayer
apresentou nos Estados Unidos uma proposta de acordo que pode chegar a US$ 7,25
bilhões (cerca de R$ 37 bilhões) para encerrar processos judiciais relacionados
ao herbicida Roundup. O produto é alvo de milhares de ações movidas por pessoas
e é considerado um provável carcinógeno pela Agência Internacional para
Pesquisa sobre Câncer, da Organização Mundial da Saúde (OMS).
O plano
foi protocolado em um tribunal estadual do Missouri e prevê a criação de um
fundo de indenização, com pagamentos distribuídos ao longo de até 21 anos. Para
que o acordo seja validado, é necessária a adesão de um número mínimo de
autores das ações. Caso a participação seja considerada insuficiente, a empresa
poderá retirar a proposta.
A
empresa adquiriu a Monsanto em 2018 por US$ 63 bilhões, empresa responsável por
produzir o glifosato. A Bayer mantém a posição de que a substância é segura e
afirma que o acordo não representa admissão de culpa. Segundo a companhia, a
iniciativa busca reduzir a insegurança jurídica gerada pelo volume de processos
em curso. Desde 2015, cerca de 200 mil ações foram movidas contra a empresa. A
Bayer já desembolsou aproximadamente US$ 10 bilhões para resolver parte dos
casos anteriores.
No
Brasil, o glifosato se tornou ao longo dos anos o herbicida mais usado nas
lavouras, principalmente em cultivos de soja transgênica, e o consumo de
herbicidas no país mais que dobrou na última década, impulsionado pela expansão
agrícola e pela resistência de plantas daninhas, o que consolidou a substância
como base da agricultura química nacional.
Entre
os anos de 2010 e 2020, o volume de herbicidas ativos comercializados saltou de
157,5 mil para 329,7 mil toneladas por ano, um crescimento de 128%, segundo um
estudo realizado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa),
realizado em parceria com a Universidade de Rio Verde e publicado na revista
científica Agriculture.
Estudos
indicam o surgimento de impactos ambientais e potenciais riscos à saúde em
áreas de aplicação intensiva, como aumento de mortalidade infantil em
localidades próximas a lavouras, e debates sobre limites mais permissivos de
resíduos em água potável em comparação com países europeus. No governo de Jair
Bolsonaro, a política agrícola foi marcada pela aprovação acelerada de
agrotóxicos, e também do glifosato, favorável a sua base eleitoral, o
agronegócio, com autoridades defendendo a liberação técnica do uso desses
químicos e registrando recordes de novos pesticidas autorizados em poucos anos,
muitos dos quais são proibidos ou restritos em outras regiões.
<><>
Glifosato em ultraprocessados e água
Resíduos
de glifosato foram identificados em alimentos ultraprocessados no Brasil pelo
Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Foi identificada na pesquisa “Tem Veneno
Nesse Pacote” a presença de agrotóxicos em metade das amostras: das 24
avaliadas, 12 apresentaram resíduos dessas substâncias, sendo o glifosato o
mais recorrente, detectado em 7 produtos.
O
estudo também apontou que a farinha de trigo, ingrediente comum em itens como
empanados, biscoitos e macarrão instantâneo. continua sendo uma das principais
fontes de contaminação. Entre as categorias analisadas, apenas os produtos do
tipo petit suisse não apresentaram resíduos de agrotóxicos em nenhuma das
amostras testadas.
Além
disso, o Brasil detém a maior reserva de água doce superficial do mundo,
representando aproximadamente 12% do total global. Além disso, abriga a maior
floresta úmida, a Amazônia, e vastas extensões de áreas continentais alagadas,
como o Pantanal e o Araguaia, e extensas bacias hidrográficas espalhadas pelo
território. O país figura entre os principais consumidores globais de
agrotóxicos.
Isso
aponta para o risco de contaminação das principais reservas hídricas do país e
um impacto significativo na diversidade biológica. Segundo estatísticas mais
recentes, a agricultura irrigada responde por 66,1% do total de águas
superficiais e subterrâneas utilizadas no Brasil, totalizando 83 bilhões de
litros diários. Considerando também o consumo voltado para a pecuária, a
proporção se eleva para 77,7%.
De
acordo com um estudo publicado pelo Atlas dos Agrotóxicos em dezembro de 2023,
na contaminação das águas, “as substâncias tóxicas podem impactar tanto as
águas superficiais quanto as subterrâneas por meio da lixiviação, um processo
de ‘lavagem’ do solo no qual nutrientes e elementos químicos são transportados
para os corpos hídricos. Além disso, a percolação, que é o movimento da água
através do solo, contribui para o fluxo dessas substâncias em direção aos
reservatórios subterrâneos”, destaca estudo.
A
presença de contaminação é influenciada também por características como o tipo
de solo, clima, padrões de uso e ocupação do solo, e as propriedades
físico-químicas dos compostos utilizados. Os agrotóxicos podem percorrer extensas distâncias por meio de processos
como a evapotranspiração, que é a conversão da água em vapor da superfície
terrestre para a atmosfera, e pela ação dos ventos. A água evaporada é
transportada pelos ventos, alimentando as precipitações em diversas regiões,
fenômeno conhecido como “rios voadores”.
Apesar
do Brasil dispor do Programa Nacional de Vigilância da Qualidade da Água para
Consumo Humano (Vigiágua), responsável por investigar a presença de agrotóxicos
e outros parâmetros nos municípios do país, a pesquisa ressalta que há uma
escassez de estudos analíticos sobre a presença de contaminantes agrotóxicos
nas águas, principalmente por dificuldades financeiras e logísticas.
Combinações
de agrotóxicos são comumente detectadas em pesquisas científicas e análises do
Vigiágua, mas os efeitos da exposição a essas misturas ainda são pouco
explorados e inadequadamente incorporados às legislações que estabelecem os
parâmetros para o monitoramento de agrotóxicos na água no país. “Além disso, há
limitações normativas quanto ao monitoramento de agrotóxicos em água. Uma delas
refere-se ao baixo número de parâmetros de agrotóxicos previstos para serem
monitorados pelos Ministérios da Saúde (MS) e do Meio Ambiente”, diz trecho do
documento.
Entre
2018 e 2021, a análise de 41.780 amostras revelou que em menos de 10% das
detecções os resultados ultrapassaram o limite de quantificação. A atrazina,
metolacloro, glifosato e 2,4-D foram os agrotóxicos mais frequentemente
quantificados. Contudo, um percentual significativamente maior de agrotóxicos
foi identificado em níveis não quantificáveis, sugerindo a possibilidade de
limitações nas técnicas analíticas em uso, sem necessariamente indicar a
ausência de riscos.
Outra
pesquisa, realizada pelo Pesticide Atlas em 2022, fez uma comparação da
concentração de glifosato em águas potáveis brasileiras e europeias. A
substância da Bayer defendida pelos agricultores é de alto risco e foi liberada
pelo governo Bolsonaro ainda na pandemia, em 2020, permanecendo em uso por
quatro anos.
No
estudo, foi constatado que o Brasil permite quantidades de glifosato maiores na
água em relação à União Europeia. Enquanto aqui são permitidos 500 microgramas
por litro, nos países europeus, por litro, é liberado apenas 0,1 micrograma, o
que revela uma quantidade 5 mil vezes maior de autorização da substância tóxica
no Brasil.
<><>
Quando surgiu o glifosato?
O
herbicida foi desenvolvido na década de 1970 pela Monsanto, multinacional
norte-americana que se tornou uma das principais referências globais na
produção de insumos agrícolas. Antes, a substância foi descoberta em 1950 pelo
químico suíço Henri Martin e, inicialmente, era usada como produto de limpeza
de metais. A empresa também esteve envolvida na fabricação de produtos químicos
militares décadas antes, como na Guerra do Vietña, o que contribuiu para os
impactos da indústria química. Com o sucesso comercial do glifosato após sua
associação a sementes geneticamente modificadas, o produto se tornou o
herbicida mais utilizado no mundo, tamanho que a empresa lançou o produto
Roundup.
Em
2018, a Bayer, conglomerado alemão do setor farmacêutico e químico, concluiu a
compra da Monsanto por US$ 63 bilhões. Desde então, o glifosato passou a
integrar o portfólio da Bayer, que mantém a comercialização do herbicida em
diversos países. Ao mesmo tempo, a empresa enfrenta disputas judiciais e
pressão de organizações de saúde e ambientais. Parte dessas preocupações
decorre de estudos científicos que apontam associação entre a exposição
prolongada ao glifosato e maior risco de determinados tipos de câncer, embora o
debate científico não seja unânime e haja divergências entre agências
regulatórias sobre o grau de risco e a relação causal direta. Além do setor
agrícola, o grupo Bayer também atua na produção de medicamentos, incluindo
tratamentos oncológicos, fato citado por críticos como exemplo das contradições
presentes no modelo de negócios de grandes conglomerados químicos e
farmacêuticos.
Fonte:
Fórum

Nenhum comentário:
Postar um comentário