terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Pinochet: quem foi e como sua ditadura marcou o Chile

Poucas figuras da história latino-americana concentram tamanha carga simbólica quanto Augusto Pinochet. Responsável por governar o Chile entre 1973 e 1990, Pinochet liderou um regime marcado pela repressão sistemática, pela supressão das liberdades democráticas e pela implementação de um modelo econômico neoliberal radical. Sua trajetória pessoal e política confunde-se com um dos períodos mais traumáticos da história chilena.

Nascido em 1915, em Valparaíso, Augusto Pinochet construiu toda sua vida profissional dentro do Exército chileno. De perfil discreto e pouco conhecido do grande público até o início dos anos 1970, era visto como um militar técnico, legalista e sem projeção política. Essa imagem contribuiu para que fosse nomeado comandante-em-chefe do Exército em agosto de 1973 pelo então presidente Salvador Allende, poucas semanas antes do golpe.

A escolha revelou-se um erro fatal. Pinochet aderiu à conspiração militar em curso e rapidamente assumiu a liderança do movimento golpista.

<><> O golpe e a ascensão ao poder

Em 11 de setembro de 1973, Pinochet comandou o golpe de Estado que derrubou Allende. Após o bombardeio do Palácio de La Moneda e a morte do presidente, formou-se uma junta militar com os chefes das Forças Armadas. Em pouco tempo, Pinochet concentrou o poder em suas mãos, tornando-se chefe supremo do regime.

O Congresso Nacional foi dissolvido, a Constituição suspensa e toda atividade política proibida. O Chile entrava em um regime de exceção que duraria 17 anos.

Pinochet governou por meio da força e do medo. Seu regime baseou-se na Doutrina de Segurança Nacional, que redefinia opositores políticos como “inimigos internos”. Para operacionalizar essa repressão, criou-se um aparato de inteligência e terror de Estado.

O principal órgão repressivo foi a DINA, comandada pelo coronel Manuel Contreras. A DINA atuava com poderes absolutos: sequestrava, torturava, assassinava e fazia desaparecer opositores do regime. Posteriormente, foi substituída pela CNI, que manteve a mesma lógica repressiva.

Centros clandestinos de detenção, como Villa Grimaldi, o Estádio Nacional e a Colônia Dignidade, tornaram-se símbolos da brutalidade do regime. Relatórios oficiais posteriores apontaram mais de 3 mil mortos e desaparecidos e mais de 38 mil vítimas de tortura e prisão política. Apesar dos dados oficiais, é difícil dizer com certeza a quantidade de mortos e desaparecidos.

A repressão comandada por Pinochet não se limitou às fronteiras chilenas. O ditador foi um dos principais articuladores da Operação Condor, aliança entre ditaduras do Cone Sul destinada a perseguir e eliminar opositores no exterior.

O caso mais emblemático foi o assassinato do ex-ministro Orlando Letelier, em 1976, em Washington, por meio de um carro-bomba — um atentado que expôs ao mundo o alcance internacional do terrorismo de Estado chileno.

<><> O experimento neoliberal

Paralelamente à repressão política, Pinochet promoveu uma transformação profunda na economia chilena. Sob sua autorização direta, um grupo de economistas conhecidos como “Chicago Boys” implementou um modelo neoliberal radical, baseado em privatizações, abertura comercial, desregulamentação financeira e redução do papel do Estado.

Embora o modelo tenha gerado estabilidade macroeconômica e crescimento exportador, também provocou desemprego, precarização do trabalho e aumento significativo da desigualdade social. Um dos pilares desse sistema foi a privatização da previdência em 1981, cujos efeitos negativos se tornariam evidentes décadas depois.

Para garantir a continuidade de seu projeto mesmo após o fim do regime, Pinochet promulgou a Constituição de 1980. O texto criou mecanismos de tutela militar sobre a democracia, como senadores indicados, limitações à soberania popular e proteção institucional às Forças Armadas.

Essa Constituição permitiu que Pinochet permanecesse como comandante do Exército mesmo após deixar a presidência e influenciasse a política chilena por anos.

<><> O fim do regime e o julgamento da história

Em 1988, pressionado por protestos internos e mudanças no cenário internacional, Pinochet aceitou um plebiscito para decidir sua permanência no poder. Derrotado nas urnas, deixou a presidência em 1990, mas jamais foi plenamente responsabilizado judicialmente pelos crimes cometidos durante a ditadura.

Sua prisão em Londres, em 1998, por crimes contra a humanidade, representou um marco simbólico, ainda que ele tenha retornado ao Chile sem condenação definitiva.

Augusto Pinochet deixou um legado profundamente controverso. Para alguns setores conservadores, é lembrado como o responsável pela estabilidade econômica do Chile. Para a maioria da sociedade chilena e da comunidade internacional, permanece como símbolo de repressão, violência estatal e ruptura democrática.

Mais de cinquenta anos após o golpe, o Chile ainda convive com as marcas deixadas por Pinochet — na política, na economia e, sobretudo, na memória de milhares de vítimas que seguem exigindo verdade, justiça e reparação que nunca chegam.

 

Fonte: Por Penelope Nogueira, para Fórum

 

Nenhum comentário: