Pinochet:
quem foi e como sua ditadura marcou o Chile
Poucas
figuras da história latino-americana concentram tamanha carga simbólica quanto
Augusto Pinochet. Responsável por governar o Chile entre 1973 e 1990, Pinochet
liderou um regime marcado pela repressão sistemática, pela supressão das
liberdades democráticas e pela implementação de um modelo econômico neoliberal
radical. Sua trajetória pessoal e política confunde-se com um dos períodos mais
traumáticos da história chilena.
Nascido
em 1915, em Valparaíso, Augusto Pinochet construiu toda sua vida profissional
dentro do Exército chileno. De perfil discreto e pouco conhecido do grande
público até o início dos anos 1970, era visto como um militar técnico,
legalista e sem projeção política. Essa imagem contribuiu para que fosse
nomeado comandante-em-chefe do Exército em agosto de 1973 pelo então presidente
Salvador Allende, poucas semanas antes do golpe.
A
escolha revelou-se um erro fatal. Pinochet aderiu à conspiração militar em
curso e rapidamente assumiu a liderança do movimento golpista.
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O golpe e a ascensão ao poder
Em 11
de setembro de 1973, Pinochet comandou o golpe de Estado que derrubou Allende.
Após o bombardeio do Palácio de La Moneda e a morte do presidente, formou-se
uma junta militar com os chefes das Forças Armadas. Em pouco tempo, Pinochet
concentrou o poder em suas mãos, tornando-se chefe supremo do regime.
O
Congresso Nacional foi dissolvido, a Constituição suspensa e toda atividade
política proibida. O Chile entrava em um regime de exceção que duraria 17 anos.
Pinochet
governou por meio da força e do medo. Seu regime baseou-se na Doutrina de
Segurança Nacional, que redefinia opositores políticos como “inimigos
internos”. Para operacionalizar essa repressão, criou-se um aparato de
inteligência e terror de Estado.
O
principal órgão repressivo foi a DINA, comandada pelo coronel Manuel Contreras.
A DINA atuava com poderes absolutos: sequestrava, torturava, assassinava e
fazia desaparecer opositores do regime. Posteriormente, foi substituída pela
CNI, que manteve a mesma lógica repressiva.
Centros
clandestinos de detenção, como Villa Grimaldi, o Estádio Nacional e a Colônia
Dignidade, tornaram-se símbolos da brutalidade do regime. Relatórios oficiais
posteriores apontaram mais de 3 mil mortos e desaparecidos e mais de 38 mil
vítimas de tortura e prisão política. Apesar dos dados oficiais, é difícil
dizer com certeza a quantidade de mortos e desaparecidos.
A
repressão comandada por Pinochet não se limitou às fronteiras chilenas. O
ditador foi um dos principais articuladores da Operação Condor, aliança entre
ditaduras do Cone Sul destinada a perseguir e eliminar opositores no exterior.
O caso
mais emblemático foi o assassinato do ex-ministro Orlando Letelier, em 1976, em
Washington, por meio de um carro-bomba — um atentado que expôs ao mundo o
alcance internacional do terrorismo de Estado chileno.
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O experimento neoliberal
Paralelamente
à repressão política, Pinochet promoveu uma transformação profunda na economia
chilena. Sob sua autorização direta, um grupo de economistas conhecidos como
“Chicago Boys” implementou um modelo neoliberal radical, baseado em
privatizações, abertura comercial, desregulamentação financeira e redução do
papel do Estado.
Embora
o modelo tenha gerado estabilidade macroeconômica e crescimento exportador,
também provocou desemprego, precarização do trabalho e aumento significativo da
desigualdade social. Um dos pilares desse sistema foi a privatização da
previdência em 1981, cujos efeitos negativos se tornariam evidentes décadas
depois.
Para
garantir a continuidade de seu projeto mesmo após o fim do regime, Pinochet
promulgou a Constituição de 1980. O texto criou mecanismos de tutela militar
sobre a democracia, como senadores indicados, limitações à soberania popular e
proteção institucional às Forças Armadas.
Essa
Constituição permitiu que Pinochet permanecesse como comandante do Exército
mesmo após deixar a presidência e influenciasse a política chilena por anos.
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O fim do regime e o julgamento da história
Em
1988, pressionado por protestos internos e mudanças no cenário internacional,
Pinochet aceitou um plebiscito para decidir sua permanência no poder. Derrotado
nas urnas, deixou a presidência em 1990, mas jamais foi plenamente
responsabilizado judicialmente pelos crimes cometidos durante a ditadura.
Sua
prisão em Londres, em 1998, por crimes contra a humanidade, representou um
marco simbólico, ainda que ele tenha retornado ao Chile sem condenação
definitiva.
Augusto
Pinochet deixou um legado profundamente controverso. Para alguns setores
conservadores, é lembrado como o responsável pela estabilidade econômica do
Chile. Para a maioria da sociedade chilena e da comunidade internacional,
permanece como símbolo de repressão, violência estatal e ruptura democrática.
Mais de
cinquenta anos após o golpe, o Chile ainda convive com as marcas deixadas por
Pinochet — na política, na economia e, sobretudo, na memória de milhares de
vítimas que seguem exigindo verdade, justiça e reparação que nunca chegam.
Fonte:
Por Penelope Nogueira, para Fórum

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