terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Washington Araújo: A engenharia do poder - por que a China escolheu engenheiros para governar

Às vésperas do Ano Novo chinês, quando milhões de famílias atravessam o país no maior movimento migratório anual do planeta e lanternas vermelhas passam a iluminar ruas e arranha-céus, a China não celebra apenas a troca de calendário: celebra a continuidade de uma civilização milenar. O calendário tradicional, de matriz lunissolar, remonta simbolicamente ao reinado do Imperador Amarelo, há mais de quatro milênios, e já atravessou mais de vinte dinastias, dos Zhou aos Qing, sobrevivendo a impérios, invasões, guerras civis e revoluções políticas profundas.

 Cada ano é regido por um dos doze animais do zodíaco — Rato, Dragão, Tigre, Coelho, Serpente — alguns reais, outros mitológicos, todos associados a traços de caráter, ciclos de energia e expectativas coletivas. O mundo ocidental observa e, cada vez mais, participa: assim como reconhece o Ano Novo judaico, cristão, muçulmano ou bahá’í, incorpora também essa virada oriental ao seu calendário simbólico e econômico. Não se trata apenas de exotismo cultural, mas de reconhecimento geopolítico. E é justamente essa longa consciência histórica, essa percepção de tempo acumulativo e planejamento cíclico, que ajuda a compreender por que, na China contemporânea, até a política parece obedecer a um desenho estratégico que atravessa gerações.

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 Há países em que a política é um palco. Na China, ela se parece mais com uma usina. Se alguém deseja alcançar o topo do poder em Pequim, já sabe que o caminho não começa nos cursos de retórica, mas nos laboratórios, nos canteiros de obras, nos centros de cálculo estrutural.  

 A senha é clara: Engenharia.  

 E, se possível, com currículo de entregas monumentais — liderar o programa espacial, erguer a maior hidrelétrica do planeta ou comandar a universidade que muitos chamam de “MIT chinês”.

 Desde 1993, a sequência é quase didática. Jiang Zemin, engenheiro elétrico. Hu Jintao, engenheiro hidráulico associado à monumental Barragem das Três Gargantas. E o atual presidente, Xi Jinping, formado em Engenharia Química. Três décadas consecutivas com engenheiros ocupando o cargo mais alto da segunda maior economia do planeta.  

 Não é acaso estatístico. É método institucionalizado.

 Esse padrão não se limita ao topo do sistema. Ele desce a escada do poder e estrutura o funcionamento do Estado. Em Xangai, a maior cidade chinesa em população urbana, o comando partidário está nas mãos de Chen Jining, engenheiro civil, doutor pela Imperial College London e ex-reitor da Universidade Tsinghua — frequentemente apelidada de “MIT chinês”. O detalhe institucional importa: ser chefe do Partido na cidade pesa mais do que o título de prefeito. Na China, a política real corre pelos trilhos partidários e pela lógica de resultados.

 Em Xinjiang, a maior região administrativa do país, governa Ma Xingrui, engenheiro aeroespacial, doutor pelo Harbin Institute of Technology, ex-diretor do programa lunar chinês. Em Chongqing, metrópole colossal em território e influência industrial, o comando está com Yuan Jiajun, também engenheiro aeroespacial, doutor pela Beihang University, projetista da nave Shenzhou e ex-vice-presidente da China Aerospace Science and Technology Corporation.  

 Mas, atenção: eles não são burocratas convencionais. São dirigentes formados na resolução de problemas complexos, acostumados a metas, cronogramas e métricas.

 O Congresso Nacional do Povo segue a mesma lógica. Mais de 600 deputados possuem formação em STEM — ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Entre eles, Zhang Qingwei, engenheiro de foguetes e ex-presidente da COMAC, a fabricante aeronáutica vista como a Embraer chinesa. Ou Qian Zhengying, engenheira civil, ex-reitora da Hohai University e ministra em posições estratégicas. A formação técnica não é exceção decorativa. É eixo estruturante.

 O que esse mosaico revela, portanto, é que a “fábrica” de líderes na China está ancorada na cultura da entrega concreta.  

 Antes de administrar narrativas, é preciso administrar obras, sistemas, cadeias produtivas. O poder, ali, não é legitimado pelo brilho midiático, mas pela capacidade de expandir infraestrutura, acelerar inovação, sustentar crescimento industrial e consolidar autonomia tecnológica.

 Enquanto muitas democracias contemporâneas premiam o desempenho comunicacional — a frase viral, o embate televisivo, o algoritmo favorável — a China aposta deliberadamente em outra métrica: PIB sustentado por aço, energia, semicondutores, inteligência artificial, logística integrada e planejamento industrial. A política como extensão da engenharia; o Estado como coordenador técnico de um projeto de longo prazo.

 É possível criticar o modelo por sua baixa pluralidade ideológica ou por seus limites democráticos. Mas ignorar sua racionalidade estratégica seria ingenuidade histórica e miopia analítica.  

 Quando um país decide que governar é, antes de tudo, projetar, calcular e executar, ele transforma a formação técnica em credencial de poder e converte planejamento em destino nacional. Na China, ser engenheiro não é detalhe curricular. É linguagem do Estado, método de seleção, critério de ascensão e instrumento de continuidade histórica.

 E os resultados não são abstratos: são portos automatizados, trens de alta velocidade que cruzam o país em poucas horas, satélites em órbita, cadeias produtivas digitalizadas, parques industriais interligados por inteligência artificial.  

 Década após década, a colheita não é episódica nem fruto de arroubos momentâneos. Ela é cumulativa, planejada, medida, revisada e aprimorada com disciplina quase científica. Cada plano quinquenal dialoga com o anterior e prepara o seguinte. Cada investimento em infraestrutura prepara a expansão industrial. Cada avanço tecnológico reforça soberania produtiva.

 Pode-se discordar do sistema político chinês. Pode-se questionar seus limites institucionais. Mas é intelectualmente desonesto negar a consistência estratégica que transformou planejamento em prosperidade concreta e influência global. A China não colhe por acaso. Colhe porque semeou com método, irrigou com investimento maciço e protegeu seu projeto nacional com constância rara na história contemporânea. Passo a passo. Fase a fase. Ciclo a ciclo.  

 Há, gostemos ou não, algo de profundamente admirável na disciplina histórica com que um país define seu rumo e o executa com precisão — como se cada ciclo do calendário lunar fosse também uma engrenagem a mais em uma máquina estatal movida por cálculo, continuidade e propósito.

¨      Por que a inovação tecnológica é fundamental para o 15º Plano Quinquenal da China. Por He Zhang

Enquanto Pequim se prepara para realizar as “Duas Sessões” anuais, um documento se destaca no centro das atenções nacionais e globais: o 15º Plano Quinquenal da China. Prestes a ser formalmente aprovado pelo Congresso Nacional do Povo, o plano traçará o rumo da segunda maior economia do mundo nos próximos cinco anos. Da estratégia industrial às prioridades econômicas, decifrar este texto histórico é essencial, pois cada palavra carrega implicações de longo alcance para a China e para o mundo em geral.  

As recomendações do 15º Plano Quinquenal, adotado em outubro de 2025, apontam para prioridades ambiciosas: crescimento de maior qualidade, um sistema financeiro mais robusto e expansão da demanda interna. Mas é evidente que a inovação tecnológica está no cerne da estratégia da China. As frequentes referências à autossuficiência tecnológica indicam que Pequim a vê não apenas como uma meta, mas como o motor do crescimento futuro. 

A China sempre se apoiou em um planejamento estratégico de longo prazo para impulsionar o crescimento econômico. De 2021 a 2024, apesar da pandemia e da volatilidade da economia global, o país registrou um crescimento médio de 5,5%, contribuindo com cerca de 30% para a expansão global. O desafio agora é manter esse ritmo em meio à crescente concorrência e aos gargalos tecnológicos. Tecnologias essenciais ainda dependem de fontes estrangeiras, e o risco de ficar presa em setores de tecnologia de ponta persiste. 

No entanto, o progresso é evidente. O setor de alta tecnologia do país cresceu rapidamente, fortalecendo suas “novas forças produtivas de qualidade” e demonstrando que é possível modernizar indústrias internamente. Das missões lunares da Chang'e às explorações de Marte pela Tianwen, a China está consolidando sua posição no espaço profundo. Veículos de nova energia chineses dominam a produção e as vendas globais. O HarmonyOS da Huawei representa um esforço para reduzir a dependência de softwares estrangeiros, enquanto empresas nacionais desafiam cada vez mais as líderes globais em chips de IA e semicondutores. Se a China deseja manter sua competitividade, a ênfase na inovação tecnológica do 15º Plano Quinquenal não é apenas ambiciosa — é essencial. 

No âmbito interno, a expansão da demanda interna é fundamental para a reestruturação econômica da China. O plano prevê uma transição de um modelo impulsionado por investimentos para uma economia liderada pelo consumo. A inovação tecnológica é essencial para essa transição, remodelando a oferta e a demanda, dinamizando o ciclo econômico interno e criando novos motores de crescimento de alta qualidade. 

Internacionalmente, o estímulo à demanda interna ajuda a China a proteger sua economia contra choques globais, garantir um crescimento mais estável e fortalecer sua influência no cenário mundial. Da exploração espacial à inteligência artificial, dos semicondutores à energia limpa, o Plano Quinquenal sinaliza que Pequim pretende ditar o ritmo na próxima era da competição tecnológica global. 

A mensagem é clara: a inovação tecnológica deixou de ser opcional. A China está determinada a investir em indústrias de alta tecnologia, fomentando capacidades nacionais e reduzindo a dependência externa, fatores essenciais para a resiliência econômica e a competitividade global. O 15º Plano Quinquenal visa tanto moldar o futuro quanto sustentar o crescimento.

¨      China rechaça denúncia dos EUA sobre testes nucleares secretos: ‘mentira descarada’

Através de um comunicado lido pela porta-voz Mao Ning, o Ministério de Relações Exteriores da China repudiou as acusações de que estaria realizando testes nucleares secretos.

A denúncia foi feita pelo subsecretário de Estado norte-americano para Controle de Armas, Thomas DiNanno, durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Desarmamento, evento ocorrido em Genebra, na última sexta-feira (06/02). O funcionário estadunidense afirmou que Pequim tem “detonações experimentais” desde 2020 e que estaria preparando “testes de alto rendimento”

A resposta chinesa qualificou as declarações do subsecretário como “completamente infundadas” e como uma “mentira descarada”. Ademais, instou as autoridades norte-americanas a “cessarem imediatamente suas ações e declarações irresponsáveis”.

Em outro ponto da nota, a chancelaria chinesa afirma que a narrativa dos Estados Unidos seriam uma estratégia para justificar “seu próprio projeto de retomar testes nucleares”.

<><> Necessidade de novo tratado

As acusações cruzadas ocorrem em um contexto no qual China, Estados Unidos e também a Rússia estariam negociando a possibilidade de estabelecer um novo tratado sobre armamentos nucleares, que venha a substituir o Tratado de Redução de Armas Estratégicas (Novo START), que perdeu vigência na última quinta-feira (05/02) – justamente um dia antes do evento na ONU, em Genebra.

O Novo START foi o último de uma série de acordos sobre controle de armas estratégicas que se manteve durante meio século, desde o período da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética, até os compromissos mais recentes, entre Estados Unidos e Rússia.

Essa arquitetura de controle de armas foi sustentada por documentos como o Acordo Interino sobre Certas Medidas Relativas à Limitação de Armas Ofensivas Estratégicas (SALT I), e o Tratado de Mísseis Antibalísticos (Tratado ABM). O Novo START, tratado mais recente sobre o tema, foi assinado em 2010, pelos então presidentes da Rússia, Dmitry Medvedev, e dos Estados Unidos, Barack Obama.

<><> Inclusão da China em novo tratado

Com a expiração do Novo START, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, enfatizou que ambas as partes “não estão mais vinculadas a nenhuma obrigação”, e que Moscou “está preparada para qualquer consequência, embora prefira o diálogo e esteja pronta para retomá-lo, quando a posição de Washington se tornar mais clara”.

Por sua vez, os Estados Unidos têm mudado sua estratégia com o objetivo de fazer com que um novo tratado de controle de armas estratégicas inclua também a China, e não somente a Rússia.

Além das declarações do subsecretário DiNanno, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou que a “expansão rápida e opaca” do arsenal chinês tornou os modelos bilaterais de controle de armas “obsoletos”.

O governo da China instou os Estados Unidos a retomarem o diálogo estratégico com a Rússia e indicou que essa também é “a expectativa comum da comunidade internacional”. Contudo, não fez qualquer alusão sobre se o país estaria ou não disposto a participar das negociações sobre um novo tratado de controle de armas.

¨      Putin e Xi Jinping descrevem aliança como ‘fator de estabilidade’ e anunciam ‘nova fase de desenvolvimento’

Os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, reforçaram  a cooperação estratégica bilateral e declararam que ambos os países estão entrando em uma “nova fase de desenvolvimento”, com destaque para a parceria no campo energético. Durante uma reunião por videoconferência, o líder do Kremlin informou que ambas as nações estão dialogando sobre avanços mútuos em pautas como “energia nuclear pacífica” e “projetos de alta tecnologia”.

“Moscou é o principal fornecedor de energia para Pequim. Nossa parceria energética é mutuamente benéfica e totalmente estratégica”, frisou a autoridade russa. Acrescentou que os países mantém “um diálogo ativo sobre energia nuclear pacífica e avançando em projetos de alta tecnologia, inclusive na indústria e na exploração espacial”.

O líder russo também admitiu que houve “uma ligeira queda” no valor do comércio entre a China e a Rússia em 2025, mas que, apesar disso, “ultrapassou US$ 200 bilhões [aproximadamente um trilhão de reais] pelo terceiro ano consecutivo”.

No quesito da política externa, para Putin, a parceria entre Moscou e Pequim é “um fator de estabilidade vital” a nível mundial. De acordo com ele, as nações seguirão com as relações bilaterais “independentemente do cenário internacional”.

“[Em meio à desestabilização global] a dupla russo-chinesa desempenha um papel fundamental em muitas áreas”, inclusive em locais multilaterais, observou o presidente russo, acrescentando que independentemente da situação internacional os laços bilaterais estarão se desenvolvendo de forma sustentável, conforme relatou a agência estatal TASS

Os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, reforçaram por videoconferência a cooperação estratégica bilateral e desenvolvimento de laços
Vyacheslav Prokofyev/Escritório de Imprensa e Informação Presidencial Russo/TASS

Por sua vez, o presidente da China, Xi Jinping, também destacou o sucesso dos dois países no comércio bilateral e na coordenação em novas áreas de cooperação. O líder asiático apontou que Pequim e Moscou estão determinadas a defender a “justiça internacional” e que “devem aprofundar, constantemente, sua cooperação estratégica”. 

Segundo o conselheiro presidencial russo para a política externa, Yuri Ushakov, Putin aceitou o convite de Xi de visitar a China no primeiro semestre deste ano. De acordo com o funcionário, os dois chefes de Estado também discutiram na reunião questões relativas ao Irã, à Venezuela e a Cuba, assim como as relações da Rússia e da China com os Estados Unidos, ressaltando que suas abordagens estão “em grande parte alinhadas”.

A parceria entre Moscou e Pequim está “em um nível sem precedentes”, enfatizou o assessor russo, afirmando ainda que “não é dirigida contra ninguém”. De acordo com a agência Xinhua, os dois países intensificaram seus laços nos âmbitos econômico, diplomático e militar desde a operação russa da Ucrânia, em 2022.

 

Fonte: Brasil 247/Opera Mundi

 

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