Washington
Araújo: A engenharia do poder - por que a China escolheu engenheiros para
governar
Às
vésperas do Ano Novo chinês, quando milhões de famílias atravessam o país no
maior movimento migratório anual do planeta e lanternas vermelhas passam a
iluminar ruas e arranha-céus, a China não celebra apenas a troca de calendário:
celebra a continuidade de uma civilização milenar. O calendário tradicional, de
matriz lunissolar, remonta simbolicamente ao reinado do Imperador Amarelo, há
mais de quatro milênios, e já atravessou mais de vinte dinastias, dos Zhou aos
Qing, sobrevivendo a impérios, invasões, guerras civis e revoluções políticas
profundas.
Cada
ano é regido por um dos doze animais do zodíaco — Rato, Dragão, Tigre, Coelho,
Serpente — alguns reais, outros mitológicos, todos associados a traços de
caráter, ciclos de energia e expectativas coletivas. O mundo ocidental observa
e, cada vez mais, participa: assim como reconhece o Ano Novo judaico, cristão,
muçulmano ou bahá’í, incorpora também essa virada oriental ao seu calendário
simbólico e econômico. Não se trata apenas de exotismo cultural, mas de
reconhecimento geopolítico. E é justamente essa longa consciência histórica,
essa percepção de tempo acumulativo e planejamento cíclico, que ajuda a
compreender por que, na China contemporânea, até a política parece obedecer a
um desenho estratégico que atravessa gerações.
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Há
países em que a política é um palco. Na China, ela se parece mais com uma
usina. Se alguém deseja alcançar o topo do poder em Pequim, já sabe que o
caminho não começa nos cursos de retórica, mas nos laboratórios, nos canteiros
de obras, nos centros de cálculo estrutural.
A
senha é clara: Engenharia.
E,
se possível, com currículo de entregas monumentais — liderar o programa
espacial, erguer a maior hidrelétrica do planeta ou comandar a universidade que
muitos chamam de “MIT chinês”.
Desde
1993, a sequência é quase didática. Jiang Zemin, engenheiro elétrico. Hu
Jintao, engenheiro hidráulico associado à monumental Barragem das Três
Gargantas. E o atual presidente, Xi Jinping, formado em Engenharia Química.
Três décadas consecutivas com engenheiros ocupando o cargo mais alto da segunda
maior economia do planeta.
Não
é acaso estatístico. É método institucionalizado.
Esse
padrão não se limita ao topo do sistema. Ele desce a escada do poder e
estrutura o funcionamento do Estado. Em Xangai, a maior cidade chinesa em
população urbana, o comando partidário está nas mãos de Chen Jining, engenheiro
civil, doutor pela Imperial College London e ex-reitor da Universidade Tsinghua
— frequentemente apelidada de “MIT chinês”. O detalhe institucional importa:
ser chefe do Partido na cidade pesa mais do que o título de prefeito. Na China,
a política real corre pelos trilhos partidários e pela lógica de resultados.
Em
Xinjiang, a maior região administrativa do país, governa Ma Xingrui, engenheiro
aeroespacial, doutor pelo Harbin Institute of Technology, ex-diretor do
programa lunar chinês. Em Chongqing, metrópole colossal em território e
influência industrial, o comando está com Yuan Jiajun, também engenheiro
aeroespacial, doutor pela Beihang University, projetista da nave Shenzhou e
ex-vice-presidente da China Aerospace Science and Technology Corporation.
Mas,
atenção: eles não são burocratas convencionais. São dirigentes formados na
resolução de problemas complexos, acostumados a metas, cronogramas e métricas.
O
Congresso Nacional do Povo segue a mesma lógica. Mais de 600 deputados possuem
formação em STEM — ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Entre eles,
Zhang Qingwei, engenheiro de foguetes e ex-presidente da COMAC, a fabricante
aeronáutica vista como a Embraer chinesa. Ou Qian Zhengying, engenheira civil,
ex-reitora da Hohai University e ministra em posições estratégicas. A formação
técnica não é exceção decorativa. É eixo estruturante.
O
que esse mosaico revela, portanto, é que a “fábrica” de líderes na China está
ancorada na cultura da entrega concreta.
Antes
de administrar narrativas, é preciso administrar obras, sistemas, cadeias
produtivas. O poder, ali, não é legitimado pelo brilho midiático, mas pela
capacidade de expandir infraestrutura, acelerar inovação, sustentar crescimento
industrial e consolidar autonomia tecnológica.
Enquanto
muitas democracias contemporâneas premiam o desempenho comunicacional — a frase
viral, o embate televisivo, o algoritmo favorável — a China aposta
deliberadamente em outra métrica: PIB sustentado por aço, energia,
semicondutores, inteligência artificial, logística integrada e planejamento
industrial. A política como extensão da engenharia; o Estado como coordenador
técnico de um projeto de longo prazo.
É
possível criticar o modelo por sua baixa pluralidade ideológica ou por seus
limites democráticos. Mas ignorar sua racionalidade estratégica seria
ingenuidade histórica e miopia analítica.
Quando
um país decide que governar é, antes de tudo, projetar, calcular e executar,
ele transforma a formação técnica em credencial de poder e converte
planejamento em destino nacional. Na China, ser engenheiro não é detalhe
curricular. É linguagem do Estado, método de seleção, critério de ascensão e
instrumento de continuidade histórica.
E
os resultados não são abstratos: são portos automatizados, trens de alta
velocidade que cruzam o país em poucas horas, satélites em órbita, cadeias
produtivas digitalizadas, parques industriais interligados por inteligência
artificial.
Década
após década, a colheita não é episódica nem fruto de arroubos momentâneos. Ela
é cumulativa, planejada, medida, revisada e aprimorada com disciplina quase
científica. Cada plano quinquenal dialoga com o anterior e prepara o seguinte.
Cada investimento em infraestrutura prepara a expansão industrial. Cada avanço
tecnológico reforça soberania produtiva.
Pode-se
discordar do sistema político chinês. Pode-se questionar seus limites
institucionais. Mas é intelectualmente desonesto negar a consistência
estratégica que transformou planejamento em prosperidade concreta e influência
global. A China não colhe por acaso. Colhe porque semeou com método, irrigou
com investimento maciço e protegeu seu projeto nacional com constância rara na
história contemporânea. Passo a passo. Fase a fase. Ciclo a ciclo.
Há,
gostemos ou não, algo de profundamente admirável na disciplina histórica com
que um país define seu rumo e o executa com precisão — como se cada ciclo do
calendário lunar fosse também uma engrenagem a mais em uma máquina estatal
movida por cálculo, continuidade e propósito.
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Por que a inovação tecnológica é fundamental para o 15º
Plano Quinquenal da China. Por He Zhang
Enquanto
Pequim se prepara para realizar as “Duas Sessões” anuais, um documento se
destaca no centro das atenções nacionais e globais: o 15º Plano Quinquenal da
China. Prestes a ser formalmente aprovado pelo Congresso Nacional do Povo, o
plano traçará o rumo da segunda maior economia do mundo nos próximos cinco
anos. Da estratégia industrial às prioridades econômicas, decifrar este texto
histórico é essencial, pois cada palavra carrega implicações de longo alcance
para a China e para o mundo em geral.
As
recomendações do 15º Plano Quinquenal, adotado em outubro de 2025, apontam para
prioridades ambiciosas: crescimento de maior qualidade, um sistema financeiro
mais robusto e expansão da demanda interna. Mas é evidente que a inovação
tecnológica está no cerne da estratégia da China. As frequentes referências à
autossuficiência tecnológica indicam que Pequim a vê não apenas como uma meta,
mas como o motor do crescimento futuro.
A China
sempre se apoiou em um planejamento estratégico de longo prazo para impulsionar
o crescimento econômico. De 2021 a 2024, apesar da pandemia e da volatilidade
da economia global, o país registrou um crescimento médio de 5,5%, contribuindo
com cerca de 30% para a expansão global. O desafio agora é manter esse ritmo em
meio à crescente concorrência e aos gargalos tecnológicos. Tecnologias
essenciais ainda dependem de fontes estrangeiras, e o risco de ficar presa em
setores de tecnologia de ponta persiste.
No
entanto, o progresso é evidente. O setor de alta tecnologia do país cresceu
rapidamente, fortalecendo suas “novas forças produtivas de qualidade” e
demonstrando que é possível modernizar indústrias internamente. Das missões
lunares da Chang'e às explorações de Marte pela Tianwen, a China está
consolidando sua posição no espaço profundo. Veículos de nova energia chineses
dominam a produção e as vendas globais. O HarmonyOS da Huawei representa um
esforço para reduzir a dependência de softwares estrangeiros, enquanto empresas
nacionais desafiam cada vez mais as líderes globais em chips de IA e
semicondutores. Se a China deseja manter sua competitividade, a ênfase na
inovação tecnológica do 15º Plano Quinquenal não é apenas ambiciosa — é
essencial.
No
âmbito interno, a expansão da demanda interna é fundamental para a
reestruturação econômica da China. O plano prevê uma transição de um modelo
impulsionado por investimentos para uma economia liderada pelo consumo. A
inovação tecnológica é essencial para essa transição, remodelando a oferta e a
demanda, dinamizando o ciclo econômico interno e criando novos motores de
crescimento de alta qualidade.
Internacionalmente,
o estímulo à demanda interna ajuda a China a proteger sua economia contra
choques globais, garantir um crescimento mais estável e fortalecer sua
influência no cenário mundial. Da exploração espacial à inteligência
artificial, dos semicondutores à energia limpa, o Plano Quinquenal sinaliza que
Pequim pretende ditar o ritmo na próxima era da competição tecnológica
global.
A
mensagem é clara: a inovação tecnológica deixou de ser opcional. A China está
determinada a investir em indústrias de alta tecnologia, fomentando capacidades
nacionais e reduzindo a dependência externa, fatores essenciais para a
resiliência econômica e a competitividade global. O 15º Plano Quinquenal visa
tanto moldar o futuro quanto sustentar o crescimento.
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China rechaça denúncia dos EUA sobre testes nucleares
secretos: ‘mentira descarada’
Através
de um comunicado lido pela porta-voz Mao Ning, o Ministério de Relações
Exteriores da China repudiou as acusações de que estaria realizando testes
nucleares secretos.
A
denúncia foi feita pelo subsecretário de Estado norte-americano para Controle
de Armas, Thomas DiNanno, durante a Conferência das Nações Unidas sobre o
Desarmamento, evento ocorrido em Genebra, na última sexta-feira (06/02). O
funcionário estadunidense afirmou que Pequim tem “detonações experimentais”
desde 2020 e que estaria preparando “testes de alto rendimento”
A
resposta chinesa qualificou as declarações do subsecretário como “completamente
infundadas” e como uma “mentira descarada”. Ademais, instou as autoridades
norte-americanas a “cessarem imediatamente suas ações e declarações
irresponsáveis”.
Em
outro ponto da nota, a chancelaria chinesa afirma que a narrativa dos Estados
Unidos seriam uma estratégia para justificar “seu próprio projeto de retomar
testes nucleares”.
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Necessidade de novo tratado
As
acusações cruzadas ocorrem em um contexto no qual China, Estados Unidos e
também a Rússia estariam negociando a possibilidade de estabelecer um novo
tratado sobre armamentos nucleares, que venha a substituir o Tratado de Redução de Armas
Estratégicas (Novo START), que perdeu vigência na última quinta-feira (05/02) –
justamente um dia antes do evento na ONU, em Genebra.
O Novo
START foi o último de uma série de acordos sobre controle de armas estratégicas
que se manteve durante meio século, desde o período da Guerra Fria entre os
Estados Unidos e a União Soviética, até os compromissos mais recentes, entre
Estados Unidos e Rússia.
Essa
arquitetura de controle de armas foi sustentada por documentos como o Acordo
Interino sobre Certas Medidas Relativas à Limitação de Armas Ofensivas
Estratégicas (SALT I), e o Tratado de Mísseis Antibalísticos (Tratado ABM). O
Novo START, tratado mais recente sobre o tema, foi assinado em 2010, pelos
então presidentes da Rússia, Dmitry Medvedev, e dos Estados Unidos, Barack
Obama.
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Inclusão da China em novo tratado
Com a
expiração do Novo START, o ministro das Relações Exteriores da
Rússia, Sergei Lavrov,
enfatizou que ambas as partes “não estão mais vinculadas a nenhuma obrigação”,
e que Moscou “está preparada para qualquer consequência, embora prefira o
diálogo e esteja pronta para retomá-lo, quando a posição de Washington se
tornar mais clara”.
Por sua
vez, os Estados Unidos têm mudado sua estratégia com o objetivo de fazer com
que um novo tratado de controle de armas estratégicas inclua também a China, e
não somente a Rússia.
Além
das declarações do subsecretário DiNanno, o secretário de Estado americano,
Marco Rubio, afirmou que a “expansão rápida e opaca” do arsenal chinês tornou
os modelos bilaterais de controle de armas “obsoletos”.
O
governo da China instou os Estados Unidos a retomarem o diálogo estratégico com
a Rússia e indicou que essa também é “a expectativa comum da comunidade
internacional”. Contudo, não fez qualquer alusão sobre se o país estaria ou não
disposto a participar das negociações sobre um novo tratado de controle de
armas.
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Putin e Xi Jinping descrevem aliança como ‘fator de
estabilidade’ e anunciam ‘nova fase de desenvolvimento’
Os
presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, reforçaram a cooperação estratégica bilateral e declararam
que ambos os países estão entrando em uma “nova fase de desenvolvimento”, com
destaque para a parceria no campo energético. Durante uma reunião por
videoconferência, o líder do Kremlin informou que ambas as nações estão
dialogando sobre avanços mútuos em pautas como “energia nuclear pacífica” e
“projetos de alta tecnologia”.
“Moscou
é o principal fornecedor de energia para Pequim. Nossa parceria energética é
mutuamente benéfica e totalmente estratégica”, frisou a autoridade russa.
Acrescentou que os países mantém “um diálogo ativo sobre energia nuclear
pacífica e avançando em projetos de alta tecnologia, inclusive na indústria e
na exploração espacial”.
O líder
russo também admitiu que houve “uma ligeira queda” no valor do comércio entre a
China e a Rússia em 2025, mas que, apesar disso, “ultrapassou US$ 200 bilhões
[aproximadamente um trilhão de reais] pelo terceiro ano consecutivo”.
No
quesito da política externa, para Putin, a parceria entre Moscou e Pequim é “um
fator de estabilidade vital” a nível mundial. De acordo com ele, as nações
seguirão com as relações bilaterais “independentemente do cenário
internacional”.
“[Em
meio à desestabilização global] a dupla russo-chinesa desempenha um papel
fundamental em muitas áreas”, inclusive em locais multilaterais, observou o
presidente russo, acrescentando que independentemente da situação internacional
os laços bilaterais estarão se desenvolvendo de forma sustentável, conforme
relatou a agência estatal TASS.
Os
presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, reforçaram por
videoconferência a cooperação estratégica bilateral e desenvolvimento de laços
Vyacheslav Prokofyev/Escritório de Imprensa e Informação Presidencial
Russo/TASS
Por sua
vez, o presidente da China, Xi Jinping, também destacou o sucesso dos dois
países no comércio bilateral e na coordenação em novas áreas de cooperação. O
líder asiático apontou que Pequim e Moscou estão determinadas a defender a
“justiça internacional” e que “devem aprofundar, constantemente, sua cooperação
estratégica”.
Segundo
o conselheiro presidencial russo para a política externa, Yuri Ushakov, Putin
aceitou o convite de Xi de visitar a China no primeiro
semestre deste ano. De acordo com o funcionário, os dois chefes de Estado
também discutiram na reunião questões relativas ao Irã, à Venezuela e a Cuba,
assim como as relações da Rússia e da China com os Estados Unidos, ressaltando
que suas abordagens estão “em grande parte alinhadas”.
A
parceria entre Moscou e Pequim está “em um nível sem precedentes”, enfatizou o
assessor russo, afirmando ainda que “não é dirigida contra ninguém”. De acordo
com a agência Xinhua, os dois países intensificaram seus laços nos
âmbitos econômico, diplomático e militar desde a operação russa da Ucrânia, em
2022.
Fonte:
Brasil 247/Opera Mundi

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