Marcos
Pivetta: Pantanal é o bioma brasileiro que mais aqueceu e perdeu chuvas em 40
anos
A maior
planície alagável do mundo está secando e ficando mais quente a um ritmo
acelerado. Em quatro décadas, o Pantanal, o menor bioma brasileiro, foi o que
mais aqueceu e teve a maior redução na quantidade de chuvas. Essa dupla
tendência, de mais calor e de menos pluviosidade, é visível em todos os
ecossistemas nacionais – da Amazônia, no Norte, que engloba quase metade da
área do país, ao Pampa, no Rio Grande do Sul, ainda que nesse bioma de forma
bem menos perceptível. Mas ela é mais acentuada no Pantanal, que se estende por
aproximadamente 150 mil quilômetros quadrados (km²), 1,8% do território
nacional.
Entre
1985 e 2024, a temperatura média no bioma subiu 0,47 grau Celsius (ºC) por
década, segundo dados da primeira edição do “MapBiomas atmosfera”, levantamento
lançado em novembro do ano passado por uma plataforma colaborativa de mais de
70 organizações não governamentais (ONG), universidades e startups de
tecnologia. Em quatro décadas, o aumento acumulado no Pantanal chega a quase
1,9 ºC. Não é por acaso que os dois estados que mais esquentaram durante o
período de 40 anos coberto pelo trabalho foram Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. A temperatura média anual subiu
0,40 ºC por década no primeiro e 0,35 ºC no segundo.
O ritmo
de crescimento do aquecimento no Pantanal é 60% superior ao calculado no mesmo
período para o Brasil como um todo (de 0,29 ºC por década) e os biomas Amazônia
(0,29 ºC) e Cerrado (0,31 ºC), que abrangem quase três quartos da área
nacional. A velocidade de subida dos termômetros no Pantanal é ainda cerca do
dobro da apresentada na Caatinga e na Mata Atlântica e mais do que o triplo da
do Pampa nos 40 anos analisados (ver quadro abaixo). O Pantanal abrange 25% das
áreas sul-mato-grossenses e 7% das mato-grossenses. A principal atividade
econômica em suas terras é a pecuária, presente na região há 200 anos. As
pastagens ocupam aproximadamente 15% de seu território.
“Os
biomas próximos do centro do continente, como o Pantanal e o Cerrado, estão
longe da influência moderadora do oceano e aquecem mais rapidamente do que os
ecossistemas mais perto da costa atlântica”, comenta Luciana Rizzo, do
Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) e coordenadora do
“MapBiomas atmosfera”. De acordo com o relatório, a temperatura média no
Pantanal foi de 26,2 ºC entre 1985 e 2024, maior do que a do Brasil (24,6ºC) e
a dos demais biomas. Os dados de
temperatura usados no trabalho derivaram da base europeia ERA5, do Serviço de
Mudança Climática Copernicus. O sistema reúne e valida uma série de informações
meteorológicas monitoradas na superfície e na atmosfera por diferentes fontes
(satélites, balões, aeronaves, sensores) e gera uma reanálise da evolução
histórica do clima. O Copernicus é um dos serviços internacionais que
acompanham a evolução do aquecimento global e divulgou em janeiro de 2026 que o
ano passado foi o terceiro mais quente da história recente.
Um
artigo de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e
da Universidade Estadual Paulista (Unesp), publicado no final de novembro de
2025 na revista científica Atmosphere, chegou a resultados muito parecidos com
os divulgados pelo MapBiomas. Feito também a partir de dados da ERA5, o estudo
abrangeu um período ligeiramente maior, de 1979 a 2024, e apontou igualmente o
Pantanal como o bioma brasileiro que mais sofre os efeitos da elevação de
temperatura e da redução de precipitação.
A
questão da rarefação de chuvas é particularmente preocupante no bioma, onde a
água é um elemento definidor de uma paisagem única e das condições de vida
locais. Composto por terras baixas e planas, que periodicamente são inundadas
pelas cheias do rio Paraguai e seus afluentes, o Pantanal vive no ritmo de seus
corpos-d’água.
Segundo
o trabalho na Atmosphere, houve uma redução média de 10,45 milímetros (mm) na
quantidade de chuva que caiu a cada década no bioma ao longo dos 45 anos
analisados. No Cerrado, o segundo ecossistema mais afetado por essa tendência,
a queda foi de 7,92 mm por década. Nos demais biomas, a diminuição de
precipitação variou de 2,75 mm a 5,60 mm. Com frequência, o Pantanal já aparece
como o segundo bioma com menor índice de pluviosidade anual, com chuvas totais
entre 800 e 1.200 mm, menos seco apenas do que a Caatinga. É uma ironia, e um
sinal de alerta, para um ecossistema tão associado à dança das águas em seus
rios e lagoas.
O
artigo científico ainda mostrou que tanto o valor médio das temperaturas
máximas como o das mínimas crescem nos biomas brasileiros. Mas a velocidade de
subida da média das máximas é geralmente o dobro da média das mínimas. Ou seja,
os dias estão esquentando mais rapidamente do que as noites. “O artigo sugere
que o aquecimento climático não é decorrente de uma causa natural e só pode ser
causado por uma ação antropogênica”, comenta o meteorologista José Roberto
Rozante, do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Inpe,
autor principal do estudo. “Não se trata apenas de variações cíclicas que
naturalmente ocorrem de tempos em tempos.”
Dois
períodos recentes foram marcados por secas e grandes incêndios no Pantanal. Em
2020, mais de um quarto de sua área foi consumido por extensas queimadas.
Estima-se que 17 milhões de animais vertebrados tenham morrido na ocasião. Em
2024, houve uma nova temporada de forte estiagem, considerada a maior dos
últimos 40 anos, agravada por mais focos de incêndio. “A maioria das queimadas
não tem origem natural, é causada pelo homem”, afirma o meteorologista Gilvan
Sampaio, do CPTEC-Inpe. “É intencional e pode ser obra de criminosos.” Estudos
recentes feitos pelo Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais do
Departamento de Meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(Lasa-UFRJ) indicam que 99% das queimadas no bioma foram causadas por atividades
humanas. Apenas 1% tem origem natural.
O
Pantanal é frequentemente apontado como o bioma mais bem protegido do país, com
cerca de 85% de sua paisagem original preservada. O dado é correto, mas esconde
pressões crescentes e uma vulnerabilidade climática que se tornou evidente nos
últimos anos. Além da questão do aquecimento global, que empurra os termômetros
para cima em todas as latitudes do planeta, alterações dentro de seus limites
geográficos e nos dois grandes biomas vizinhos, a Amazônia e o Cerrado,
contribuem para esquentar e tornar mais seca a região.
Um dos
primeiros lugares que se beneficiam da umidade amazônica transportada pelos
chamados rios voadores é a planície alagada no centro da América do Sul.
Quando, em razão do desmatamento e da degradação de sua vegetação, a floresta
tropical reduz sua capacidade de reciclar água e redistribuí-la pelos ares para
outras partes do continente, o Pantanal sente rapidamente seus efeitos. “É um
bioma muito sensível”, diz o meteorologista Luiz Machado, do IF-USP, que
trabalhou no levantamento “MapBiomas atmosfera”. “Se chove menos na Amazônia e
menos umidade vai para o Pantanal, a vazão de água em seus rios é menor.”
A
pluviosidade na região costuma se concentrar entre outubro e abril. Em anos
úmidos, até 80% de suas terras podem permanecer inundadas por alguns meses. Boa
parte da água que alaga a área vem de rios que se originam em áreas mais altas
do Cerrado e da Amazônia, dois biomas que são os alvos preferenciais do
desmatamento. Segundo estudo publicado em setembro de 2025 na revista
científica Nature Communications, o desflorestamento é a alteração que mais
reduz a pluviosidade na Amazônia durante a estação seca, entre maio e setembro,
enquanto o aquecimento global é o fator que mais eleva sua temperatura. “Quase
75% da diminuição da pluviosidade está ligada à supressão da vegetação da
floresta”, explica Machado, um dos autores do trabalho.
As
alterações climáticas estão apagando, aos poucos, portanto, o traço mais
definidor do Pantanal: o chamado pulso de inundação, o ciclo de cheias e secas
que faz seus rios e lagoas avançarem e recuarem sobre a terra ao longo do ano.
Entre 1985 e 1994, a área anual que alagava no bioma chegava a 16 mil km²,
segundo dados do MapBiomas. Entre 2014 e 2024, essa fatia caiu para 4,6 mil
km², uma redução de quase de 75%. Em 2024, ano mais seco da história do bioma,
a área que normalmente permanece inundada retrocedeu em 73% em relação à média
histórica. O balé das águas é o que torna o Pantanal único e possibilita a
sobrevivência de suas formas de vida mais típicas, como jacarés e tuiuiús. Ave
símbolo do bioma, o tuiuiú vive sempre perto de corpos de água doce limpos.
Em meio
ao aquecimento global, com um clima, em geral, mais seco e quente e suscetível
a eventos extremos, e a pressões locais e regionais, como o crescimento da
agropecuária no vizinho Cerrado e mesmo em suas terras, o Pantanal tem sofrido
com estiagens prolongadas. A sucessão de abalos dificulta a recomposição plena
de seu cenário. “O Pantanal não se recuperou das grandes secas e ondas de calor
recentes”, comenta o climatologista José Marengo, do Centro Nacional de
Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). “É uma região muito
vulnerável, de transição entre a Amazônia e a bacia do rio da Prata.”
Quando
dois fenômenos climáticos extremos ocorrem simultaneamente em um lugar, os
pesquisadores denominam essas manifestações que se sobrepõem de “eventos
compostos”. O Painel Intergovenamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e uma
série de estudos indicam que os eventos compostos estão cada vez mais
frequentes no mundo. O Pantanal, onde a seca prolongada costuma se associar às
altas temperaturas, não é exceção. O dramático é que, ao não se refazer por
completo dos impactos de um evento composto de grande magnitude, uma área se
torna progressivamente mais propensa a ser alvo de novas anomalias climáticas
severas. Esse mecanismo de retroalimentação cria uma espiral de
vulnerabilidades. “Atualmente o centro e o norte do Pantanal são as partes mais
afetadas pela redução do ciclo das águas no bioma”, diz Marengo.
Em uma
nota técnica do final de 2023 produzida pelo Inpe e Cemaden, que tratava do
surgimento da primeira área com clima árido no Brasil, na divisa da Bahia e de
Pernambuco, foi também mencionado o aparecimento no país de duas zonas
subúmidas secas, a partir de 1990 (ver Pesquisa FAPESP nº 338). Até então, esse
tipo de clima, que é um estágio que antecede o semiárido, não se manifestava no
território nacional. Um dos lugares em que o subúmido seco, onde raramente
chove mais do que 800 mm por ano, despontava era o norte do Rio de Janeiro. O
outro era no oeste de Mato Grosso do Sul, em pleno Pantanal. Não é de hoje que
a maior planície alagada do planeta vem secando e esquentando – muitas vezes de
forma silenciosa, quase despercebida; em outras ocasiões, como nas recorrentes
temporadas de incêndios, de maneira mais ruidosa.
• Marcelo Rosinski: Pesquisa revela como a
vegetação reagiu a mudanças climáticas extremas há 300 milhões de anos
Muito
antes da presença humana no planeta, a Terra já enfrentava profundas
transformações climáticas, com impactos diretos sobre os ecossistemas e a
vegetação. Entre cerca de 310 e 290 milhões de anos atrás, o supercontinente
Gondwana passou por uma transição decisiva: o fim de uma longa era glacial e o
início de condições progressivamente mais quentes e secas. É esse
intervalo-chave da história do planeta que está no centro da tese de doutorado
do geólogo e palinólogo Rafael Reis Bender, defendida em agosto no Programa de
Pós-graduação em Geociências da UFRGS, e que resultou na publicação de três
artigos em revistas científicas internacionais.
Ao
analisar sucessões de microfósseis preservados nas rochas da Bacia do Paraná,
como grãos de pólen, esporos e algas microscópicas, o pesquisador reconstruiu,
com alto nível de detalhe, as mudanças na vegetação, nos ambientes sedimentares
e no clima durante o Paleozoico Superior. “Descrevendo essas associações de
microfósseis, conseguimos não apenas datar os estratos rochosos com mais
precisão, mas também obter informações sobre os ambientes sedimentares, os
ecossistemas associados e até mesmo sobre as condições climáticas da época”,
explica Rafael.
O
interesse pela palinologia da Bacia do Paraná acompanha o pesquisador desde a
graduação e o mestrado, o que tornou o doutorado um aprofundamento natural
dessa trajetória. Além disso, a disponibilidade de testemunhos de sondagem bem
preservados, cobrindo um intervalo estratigráfico de grande relevância
científica, foi decisiva para a escolha do tema. “As rochas funcionam como uma
espécie de janela para esse período da história do planeta”, resume.
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Informações detalhadas sobre as mudanças climáticas
Durante
o intervalo estudado, a configuração dos continentes era radicalmente diferente
da atual. No hemisfério sul, América do Sul, África, Índia, Austrália,
Antártida e partes do Oriente Médio formavam o supercontinente Gondwana. Por
milhões de anos, sua porção meridional esteve posicionada sobre o polo sul, sob
influência da chamada Era Glacial do Paleozoico Superior. A partir do fim do
Carbonífero e início do Permiano, esse cenário começou a mudar.
“O
Gondwana migrou gradualmente para latitudes mais baixas, e o clima global
começou a aquecer”, explica Rafael. Essa transição, marcada pelo recuo das
geleiras e pela instalação de condições pós-glaciais, está excepcionalmente bem
registrada nas rochas da Bacia do Paraná, tornando a região um laboratório
natural para investigar como o clima e a biosfera respondem a mudanças de longo
prazo.
A chave
para essa reconstrução está nos palinomorfos, microfósseis de parede orgânica
que incluem grãos de pólen, esporos e diferentes tipos de algas. Extremamente
resistentes, essas estruturas permanecem preservadas por centenas de milhões de
anos e carregam informações valiosas sobre os ambientes em que se formaram.
“Cada
organismo reflete as características do ambiente em que viveu. Ao analisar as
associações de pólen e esporos, conseguimos reconstruir comunidades vegetais do
passado e inferir condições como temperatura, umidade e até o grau de
influência marinha ou continental de um ambiente” – Rafael Reis Bender
No
Laboratório de Palinologia Marleni Marques-Toigo, da UFRGS, onde a pesquisa foi
desenvolvida, também são estudados fungos, algas marinhas e de água doce e até
estruturas fósseis de anelídeos, animais invertebrados com corpo mole, de
aparência semelhante a minhocas. Ainda assim, as plantas têm papel central,
especialmente na reconstrução dos ambientes continentais.
O
primeiro artigo da tese apresenta uma análise palinológica de alta resolução da
porção superior do Grupo Itararé, no leste da Bacia do Paraná. Nesse contexto,
“alta resolução” significa um espaçamento reduzido entre as amostras ao longo
dos testemunhos de sondagem, permitindo acompanhar mudanças graduais ao longo
do tempo geológico.
“Foi
possível descrever a evolução das associações de grãos de pólen e esporos com
muito mais detalhe”, explica Rafael. Esse nível de refinamento permitiu
identificar com precisão a transição entre zonas palinológicas associadas a
fases glaciais e glaciais terminais, mostrando que a mudança climática não
ocorreu de forma abrupta, mas sim lenta e progressiva.
O
segundo artigo amplia o olhar para os microrganismos aquáticos, como algas e
acritarcos, que ajudam a caracterizar ambientes marinhos, costeiros e de água
doce. A presença ou ausência desses organismos indica fatores como salinidade,
profundidade, influência glacial e flutuações do nível do mar.
“Identificamos,
por exemplo, que certos grupos de algas são muito mais frequentes em ambientes
glaciais”, diz o pesquisador. Um desses grupos, as prasinofíceas, pode ter
preferência por águas frias, levantando a possibilidade de seu uso futuro como
indicador de temperatura em estudos paleoclimáticos.
Já o
terceiro artigo integra dados palinológicos e sedimentológicos para entender
como mudanças no nível de base, avanço e recuo de geleiras e variações na
vegetação estão interligadas. Ao comparar as associações de microfósseis com as
características sedimentares descritas em estudos anteriores, o trabalho mostra
que superfícies estratigráficas importantes costumam coincidir com mudanças
abruptas nas assembleias de pólen e esporos.
“Ambientes
sedimentares distintos têm assinaturas palinoflorísticas próprias”, explica.
Mesmo considerando fatores como transporte e preservação dos fósseis, os dados
indicam que ciclos glaciais sucessivos deixaram marcas claras tanto nas rochas
quanto na vegetação registrada.
Em
conjunto, os três trabalhos revelam como clima, vegetação e ambientes
sedimentares evoluíram de forma integrada ao longo do Paleozoico Superior. O
período marca a transição de floras dominadas por esporos, típicas de plantas
que dependem de ambientes úmidos, para associações cada vez mais ricas em grãos
de pólen de gimnospermas, adaptadas a condições mais secas.
Esse
processo culminou no surgimento de ecossistemas mais complexos e exuberantes,
responsáveis, por exemplo, pela formação de camadas de carvão na região sul do
Brasil. “Um recurso energético importante hoje é diretamente derivado dessas
mudanças ecológicas ocorridas há centenas de milhões de anos”, destaca o
pesquisador.
Embora
cauteloso ao traçar paralelos com o presente, Rafael ressalta uma constatação
fundamental: “O planeta funciona como um sistema. Quando o clima muda, toda a
biosfera sente as consequências”. Para ele, tornar esse tipo de conhecimento
acessível é essencial, especialmente em um contexto de desinformação. “É
importante que as pessoas entendam não apenas o que sabemos sobre o planeta,
mas como sabemos.”
Ao
revelar, em detalhes microscópicos, a história de grandes transformações
globais, a pesquisa reafirma o papel da universidade pública na produção de
conhecimento científico capaz de conectar passado profundo, presente e futuro.
Fonte:
Revista de Pesquisa Fapesp/Jornal da UFRGS

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