terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Marcos Pivetta: Pantanal é o bioma brasileiro que mais aqueceu e perdeu chuvas em 40 anos

A maior planície alagável do mundo está secando e ficando mais quente a um ritmo acelerado. Em quatro décadas, o Pantanal, o menor bioma brasileiro, foi o que mais aqueceu e teve a maior redução na quantidade de chuvas. Essa dupla tendência, de mais calor e de menos pluviosidade, é visível em todos os ecossistemas nacionais – da Amazônia, no Norte, que engloba quase metade da área do país, ao Pampa, no Rio Grande do Sul, ainda que nesse bioma de forma bem menos perceptível. Mas ela é mais acentuada no Pantanal, que se estende por aproximadamente 150 mil quilômetros quadrados (km²), 1,8% do território nacional.

Entre 1985 e 2024, a temperatura média no bioma subiu 0,47 grau Celsius (ºC) por década, segundo dados da primeira edição do “MapBiomas atmosfera”, levantamento lançado em novembro do ano passado por uma plataforma colaborativa de mais de 70 organizações não governamentais (ONG), universidades e startups de tecnologia. Em quatro décadas, o aumento acumulado no Pantanal chega a quase 1,9 ºC. Não é por acaso que os dois estados que mais esquentaram durante o período de 40 anos coberto pelo trabalho foram Mato Grosso do Sul e  Mato Grosso. A temperatura média anual subiu 0,40 ºC por década no primeiro e 0,35 ºC no segundo.

O ritmo de crescimento do aquecimento no Pantanal é 60% superior ao calculado no mesmo período para o Brasil como um todo (de 0,29 ºC por década) e os biomas Amazônia (0,29 ºC) e Cerrado (0,31 ºC), que abrangem quase três quartos da área nacional. A velocidade de subida dos termômetros no Pantanal é ainda cerca do dobro da apresentada na Caatinga e na Mata Atlântica e mais do que o triplo da do Pampa nos 40 anos analisados (ver quadro abaixo). O Pantanal abrange 25% das áreas sul-mato-grossenses e 7% das mato-grossenses. A principal atividade econômica em suas terras é a pecuária, presente na região há 200 anos. As pastagens ocupam aproximadamente 15% de seu território.

“Os biomas próximos do centro do continente, como o Pantanal e o Cerrado, estão longe da influência moderadora do oceano e aquecem mais rapidamente do que os ecossistemas mais perto da costa atlântica”, comenta Luciana Rizzo, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) e coordenadora do “MapBiomas atmosfera”. De acordo com o relatório, a temperatura média no Pantanal foi de 26,2 ºC entre 1985 e 2024, maior do que a do Brasil (24,6ºC) e a dos demais biomas.  Os dados de temperatura usados no trabalho derivaram da base europeia ERA5, do Serviço de Mudança Climática Copernicus. O sistema reúne e valida uma série de informações meteorológicas monitoradas na superfície e na atmosfera por diferentes fontes (satélites, balões, aeronaves, sensores) e gera uma reanálise da evolução histórica do clima. O Copernicus é um dos serviços internacionais que acompanham a evolução do aquecimento global e divulgou em janeiro de 2026 que o ano passado foi o terceiro mais quente da história recente.

Um artigo de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), publicado no final de novembro de 2025 na revista científica Atmosphere, chegou a resultados muito parecidos com os divulgados pelo MapBiomas. Feito também a partir de dados da ERA5, o estudo abrangeu um período ligeiramente maior, de 1979 a 2024, e apontou igualmente o Pantanal como o bioma brasileiro que mais sofre os efeitos da elevação de temperatura e da redução de precipitação.

A questão da rarefação de chuvas é particularmente preocupante no bioma, onde a água é um elemento definidor de uma paisagem única e das condições de vida locais. Composto por terras baixas e planas, que periodicamente são inundadas pelas cheias do rio Paraguai e seus afluentes, o Pantanal vive no ritmo de seus corpos-d’água.

Segundo o trabalho na Atmosphere, houve uma redução média de 10,45 milímetros (mm) na quantidade de chuva que caiu a cada década no bioma ao longo dos 45 anos analisados. No Cerrado, o segundo ecossistema mais afetado por essa tendência, a queda foi de 7,92 mm por década. Nos demais biomas, a diminuição de precipitação variou de 2,75 mm a 5,60 mm. Com frequência, o Pantanal já aparece como o segundo bioma com menor índice de pluviosidade anual, com chuvas totais entre 800 e 1.200 mm, menos seco apenas do que a Caatinga. É uma ironia, e um sinal de alerta, para um ecossistema tão associado à dança das águas em seus rios e lagoas.

O artigo científico ainda mostrou que tanto o valor médio das temperaturas máximas como o das mínimas crescem nos biomas brasileiros. Mas a velocidade de subida da média das máximas é geralmente o dobro da média das mínimas. Ou seja, os dias estão esquentando mais rapidamente do que as noites. “O artigo sugere que o aquecimento climático não é decorrente de uma causa natural e só pode ser causado por uma ação antropogênica”, comenta o meteorologista José Roberto Rozante, do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Inpe, autor principal do estudo. “Não se trata apenas de variações cíclicas que naturalmente ocorrem de tempos em tempos.”

Dois períodos recentes foram marcados por secas e grandes incêndios no Pantanal. Em 2020, mais de um quarto de sua área foi consumido por extensas queimadas. Estima-se que 17 milhões de animais vertebrados tenham morrido na ocasião. Em 2024, houve uma nova temporada de forte estiagem, considerada a maior dos últimos 40 anos, agravada por mais focos de incêndio. “A maioria das queimadas não tem origem natural, é causada pelo homem”, afirma o meteorologista Gilvan Sampaio, do CPTEC-Inpe. “É intencional e pode ser obra de criminosos.” Estudos recentes feitos pelo Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais do Departamento de Meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Lasa-UFRJ) indicam que 99% das queimadas no bioma foram causadas por atividades humanas. Apenas 1% tem origem natural.

O Pantanal é frequentemente apontado como o bioma mais bem protegido do país, com cerca de 85% de sua paisagem original preservada. O dado é correto, mas esconde pressões crescentes e uma vulnerabilidade climática que se tornou evidente nos últimos anos. Além da questão do aquecimento global, que empurra os termômetros para cima em todas as latitudes do planeta, alterações dentro de seus limites geográficos e nos dois grandes biomas vizinhos, a Amazônia e o Cerrado, contribuem para esquentar e tornar mais seca a região.

Um dos primeiros lugares que se beneficiam da umidade amazônica transportada pelos chamados rios voadores é a planície alagada no centro da América do Sul. Quando, em razão do desmatamento e da degradação de sua vegetação, a floresta tropical reduz sua capacidade de reciclar água e redistribuí-la pelos ares para outras partes do continente, o Pantanal sente rapidamente seus efeitos. “É um bioma muito sensível”, diz o meteorologista Luiz Machado, do IF-USP, que trabalhou no levantamento “MapBiomas atmosfera”. “Se chove menos na Amazônia e menos umidade vai para o Pantanal, a vazão de água em seus rios é menor.”

A pluviosidade na região costuma se concentrar entre outubro e abril. Em anos úmidos, até 80% de suas terras podem permanecer inundadas por alguns meses. Boa parte da água que alaga a área vem de rios que se originam em áreas mais altas do Cerrado e da Amazônia, dois biomas que são os alvos preferenciais do desmatamento. Segundo estudo publicado em setembro de 2025 na revista científica Nature Communications, o desflorestamento é a alteração que mais reduz a pluviosidade na Amazônia durante a estação seca, entre maio e setembro, enquanto o aquecimento global é o fator que mais eleva sua temperatura. “Quase 75% da diminuição da pluviosidade está ligada à supressão da vegetação da floresta”, explica Machado, um dos autores do trabalho.

As alterações climáticas estão apagando, aos poucos, portanto, o traço mais definidor do Pantanal: o chamado pulso de inundação, o ciclo de cheias e secas que faz seus rios e lagoas avançarem e recuarem sobre a terra ao longo do ano. Entre 1985 e 1994, a área anual que alagava no bioma chegava a 16 mil km², segundo dados do MapBiomas. Entre 2014 e 2024, essa fatia caiu para 4,6 mil km², uma redução de quase de 75%. Em 2024, ano mais seco da história do bioma, a área que normalmente permanece inundada retrocedeu em 73% em relação à média histórica. O balé das águas é o que torna o Pantanal único e possibilita a sobrevivência de suas formas de vida mais típicas, como jacarés e tuiuiús. Ave símbolo do bioma, o tuiuiú vive sempre perto de corpos de água doce limpos.

Em meio ao aquecimento global, com um clima, em geral, mais seco e quente e suscetível a eventos extremos, e a pressões locais e regionais, como o crescimento da agropecuária no vizinho Cerrado e mesmo em suas terras, o Pantanal tem sofrido com estiagens prolongadas. A sucessão de abalos dificulta a recomposição plena de seu cenário. “O Pantanal não se recuperou das grandes secas e ondas de calor recentes”, comenta o climatologista José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). “É uma região muito vulnerável, de transição entre a Amazônia e a bacia do rio da Prata.”

Quando dois fenômenos climáticos extremos ocorrem simultaneamente em um lugar, os pesquisadores denominam essas manifestações que se sobrepõem de “eventos compostos”. O Painel Intergovenamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e uma série de estudos indicam que os eventos compostos estão cada vez mais frequentes no mundo. O Pantanal, onde a seca prolongada costuma se associar às altas temperaturas, não é exceção. O dramático é que, ao não se refazer por completo dos impactos de um evento composto de grande magnitude, uma área se torna progressivamente mais propensa a ser alvo de novas anomalias climáticas severas. Esse mecanismo de retroalimentação cria uma espiral de vulnerabilidades. “Atualmente o centro e o norte do Pantanal são as partes mais afetadas pela redução do ciclo das águas no bioma”, diz Marengo.

Em uma nota técnica do final de 2023 produzida pelo Inpe e Cemaden, que tratava do surgimento da primeira área com clima árido no Brasil, na divisa da Bahia e de Pernambuco, foi também mencionado o aparecimento no país de duas zonas subúmidas secas, a partir de 1990 (ver Pesquisa FAPESP nº 338). Até então, esse tipo de clima, que é um estágio que antecede o semiárido, não se manifestava no território nacional. Um dos lugares em que o subúmido seco, onde raramente chove mais do que 800 mm por ano, despontava era o norte do Rio de Janeiro. O outro era no oeste de Mato Grosso do Sul, em pleno Pantanal. Não é de hoje que a maior planície alagada do planeta vem secando e esquentando – muitas vezes de forma silenciosa, quase despercebida; em outras ocasiões, como nas recorrentes temporadas de incêndios, de maneira mais ruidosa.

•        Marcelo Rosinski: Pesquisa revela como a vegetação reagiu a mudanças climáticas extremas há 300 milhões de anos

Muito antes da presença humana no planeta, a Terra já enfrentava profundas transformações climáticas, com impactos diretos sobre os ecossistemas e a vegetação. Entre cerca de 310 e 290 milhões de anos atrás, o supercontinente Gondwana passou por uma transição decisiva: o fim de uma longa era glacial e o início de condições progressivamente mais quentes e secas. É esse intervalo-chave da história do planeta que está no centro da tese de doutorado do geólogo e palinólogo Rafael Reis Bender, defendida em agosto no Programa de Pós-graduação em Geociências da UFRGS, e que resultou na publicação de três artigos em revistas científicas internacionais.

Ao analisar sucessões de microfósseis preservados nas rochas da Bacia do Paraná, como grãos de pólen, esporos e algas microscópicas, o pesquisador reconstruiu, com alto nível de detalhe, as mudanças na vegetação, nos ambientes sedimentares e no clima durante o Paleozoico Superior. “Descrevendo essas associações de microfósseis, conseguimos não apenas datar os estratos rochosos com mais precisão, mas também obter informações sobre os ambientes sedimentares, os ecossistemas associados e até mesmo sobre as condições climáticas da época”, explica Rafael.

O interesse pela palinologia da Bacia do Paraná acompanha o pesquisador desde a graduação e o mestrado, o que tornou o doutorado um aprofundamento natural dessa trajetória. Além disso, a disponibilidade de testemunhos de sondagem bem preservados, cobrindo um intervalo estratigráfico de grande relevância científica, foi decisiva para a escolha do tema. “As rochas funcionam como uma espécie de janela para esse período da história do planeta”, resume.

<><> Informações detalhadas sobre as mudanças climáticas

Durante o intervalo estudado, a configuração dos continentes era radicalmente diferente da atual. No hemisfério sul, América do Sul, África, Índia, Austrália, Antártida e partes do Oriente Médio formavam o supercontinente Gondwana. Por milhões de anos, sua porção meridional esteve posicionada sobre o polo sul, sob influência da chamada Era Glacial do Paleozoico Superior. A partir do fim do Carbonífero e início do Permiano, esse cenário começou a mudar.

“O Gondwana migrou gradualmente para latitudes mais baixas, e o clima global começou a aquecer”, explica Rafael. Essa transição, marcada pelo recuo das geleiras e pela instalação de condições pós-glaciais, está excepcionalmente bem registrada nas rochas da Bacia do Paraná, tornando a região um laboratório natural para investigar como o clima e a biosfera respondem a mudanças de longo prazo.

A chave para essa reconstrução está nos palinomorfos, microfósseis de parede orgânica que incluem grãos de pólen, esporos e diferentes tipos de algas. Extremamente resistentes, essas estruturas permanecem preservadas por centenas de milhões de anos e carregam informações valiosas sobre os ambientes em que se formaram.

“Cada organismo reflete as características do ambiente em que viveu. Ao analisar as associações de pólen e esporos, conseguimos reconstruir comunidades vegetais do passado e inferir condições como temperatura, umidade e até o grau de influência marinha ou continental de um ambiente” – Rafael Reis Bender

No Laboratório de Palinologia Marleni Marques-Toigo, da UFRGS, onde a pesquisa foi desenvolvida, também são estudados fungos, algas marinhas e de água doce e até estruturas fósseis de anelídeos, animais invertebrados com corpo mole, de aparência semelhante a minhocas. Ainda assim, as plantas têm papel central, especialmente na reconstrução dos ambientes continentais.

O primeiro artigo da tese apresenta uma análise palinológica de alta resolução da porção superior do Grupo Itararé, no leste da Bacia do Paraná. Nesse contexto, “alta resolução” significa um espaçamento reduzido entre as amostras ao longo dos testemunhos de sondagem, permitindo acompanhar mudanças graduais ao longo do tempo geológico.

“Foi possível descrever a evolução das associações de grãos de pólen e esporos com muito mais detalhe”, explica Rafael. Esse nível de refinamento permitiu identificar com precisão a transição entre zonas palinológicas associadas a fases glaciais e glaciais terminais, mostrando que a mudança climática não ocorreu de forma abrupta, mas sim lenta e progressiva.

O segundo artigo amplia o olhar para os microrganismos aquáticos, como algas e acritarcos, que ajudam a caracterizar ambientes marinhos, costeiros e de água doce. A presença ou ausência desses organismos indica fatores como salinidade, profundidade, influência glacial e flutuações do nível do mar.

“Identificamos, por exemplo, que certos grupos de algas são muito mais frequentes em ambientes glaciais”, diz o pesquisador. Um desses grupos, as prasinofíceas, pode ter preferência por águas frias, levantando a possibilidade de seu uso futuro como indicador de temperatura em estudos paleoclimáticos.

Já o terceiro artigo integra dados palinológicos e sedimentológicos para entender como mudanças no nível de base, avanço e recuo de geleiras e variações na vegetação estão interligadas. Ao comparar as associações de microfósseis com as características sedimentares descritas em estudos anteriores, o trabalho mostra que superfícies estratigráficas importantes costumam coincidir com mudanças abruptas nas assembleias de pólen e esporos.

“Ambientes sedimentares distintos têm assinaturas palinoflorísticas próprias”, explica. Mesmo considerando fatores como transporte e preservação dos fósseis, os dados indicam que ciclos glaciais sucessivos deixaram marcas claras tanto nas rochas quanto na vegetação registrada.

Em conjunto, os três trabalhos revelam como clima, vegetação e ambientes sedimentares evoluíram de forma integrada ao longo do Paleozoico Superior. O período marca a transição de floras dominadas por esporos, típicas de plantas que dependem de ambientes úmidos, para associações cada vez mais ricas em grãos de pólen de gimnospermas, adaptadas a condições mais secas.

Esse processo culminou no surgimento de ecossistemas mais complexos e exuberantes, responsáveis, por exemplo, pela formação de camadas de carvão na região sul do Brasil. “Um recurso energético importante hoje é diretamente derivado dessas mudanças ecológicas ocorridas há centenas de milhões de anos”, destaca o pesquisador.

Embora cauteloso ao traçar paralelos com o presente, Rafael ressalta uma constatação fundamental: “O planeta funciona como um sistema. Quando o clima muda, toda a biosfera sente as consequências”. Para ele, tornar esse tipo de conhecimento acessível é essencial, especialmente em um contexto de desinformação. “É importante que as pessoas entendam não apenas o que sabemos sobre o planeta, mas como sabemos.”

Ao revelar, em detalhes microscópicos, a história de grandes transformações globais, a pesquisa reafirma o papel da universidade pública na produção de conhecimento científico capaz de conectar passado profundo, presente e futuro.

 

Fonte: Revista de Pesquisa Fapesp/Jornal da UFRGS

 

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