João
Antonio da Silva Filho: A centro-esquerda e a disputa da narrativa antissistema
Vivemos
um paradoxo histórico. Em pleno capitalismo globalizado, a esquerda socialista
— tradicional crítica do modelo econômico excludente e concentrador de riquezas
— vê a bandeira da luta “antissistema” ser apropriada por setores da direita.
Como explicar que aqueles que historicamente denunciaram as contradições do
capital tenham perdido a centralidade dessa narrativa?
A
resposta não é simples. Ela exige revisitar as transformações políticas
ocorridas após a queda da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e
o fim da Guerra Fria. No pós-Segunda Guerra Mundial, o mundo se organizou em
torno de uma polarização clara: de um lado, os Estados Unidos, símbolo do
capitalismo liberal; de outro, a URSS, que se apresentava como herdeira da
experiência socialista inspirada por Karl Marx e implementada politicamente por
Vladimir Lenin após a Revolução de 1917.
Durante
décadas, o trauma do nazifascismo enfraqueceu a extrema-direita europeia. No
interior do bloco capitalista, quem consolidou hegemonia foram os defensores da
democracia liberal e do Estado de bem-estar social. A estratégia era clara:
“entregar os anéis para não perder os dedos”. Reformas sociais, ampliação de
direitos trabalhistas e políticas de redistribuição de renda funcionaram como
mecanismos de contenção do avanço comunista. A social-democracia assumiu,
assim, o papel de harmonizar capitalismo e proteção social.
Com o
colapso soviético — simbolizado pela queda do Muro de Berlim — desapareceu o
principal contraponto sistêmico ao capitalismo. Sem a ameaça do socialismo
real, as elites econômicas já não precisavam fazer concessões estruturais. O
discurso mudou de eixo. A disputa deixou de ser predominantemente econômica e
passou a ser cultural.
É nesse
contexto que emerge o que se pode chamar de “individualismo competitivo” como
núcleo ideológico do novo conservadorismo. A lógica é simples: cada indivíduo é
responsabilizado exclusivamente por seu destino. O sucesso é atribuído ao
mérito pessoal; o fracasso, à culpa individual. A solidariedade deixa de ser
princípio organizador da vida coletiva e passa a ser vista como obstáculo à
eficiência.
Multiplicam-se
os slogans: “seja empreendedor”, “vença por seus próprios méritos”, “o Estado
atrapalha”, “direitos trabalhistas geram desemprego”. A meritocracia é
apresentada como valor absoluto — como se todos largassem da mesma linha de
partida. É como imaginar um corredor amador competindo em igualdade com um
atleta profissional, mesmo iniciando vinte metros atrás.
Nesse
modelo, os excluídos tornam-se invisíveis ou culpabilizados. O sistema não é
questionado em suas bases estruturais; a crítica é redirecionada contra o
Estado, a política tradicional ou as instituições democráticas. A retórica
“antissistema” da nova direita não se volta contra o capitalismo financeiro ou
contra a concentração de renda, mas contra as mediações institucionais que
limitam a atuação irrestrita do mercado ou impõem compromissos redistributivos.
Aqui
reside um dos equívocos estratégicos da centro-esquerda nas últimas décadas: ao
buscar ampliar sua base eleitoral, passou a assimilar parcialmente o
vocabulário e os pressupostos do adversário. Ao aceitar como inevitável a
lógica do mercado desregulado e do individualismo competitivo, abriu mão de
disputar o sentido profundo da organização social.
Não se
trata de negar a importância da responsabilidade individual, da inovação ou da
eficiência econômica. Trata-se de recolocar a solidariedade no centro do debate
político. Uma sociedade democrática não se sustenta apenas pela competição; ela
exige cooperação, reconhecimento das desigualdades estruturais e compromisso
com a dignidade humana.
• Roberto Amaral: A política externa
brasileira e os resmungos do jornalão
Na
Colônia, seria impensável qualquer norte de política externa, e este quadro de
inapetência ideológica e impotência material se preserva no Império, quando o
novo Estado, formalmente soberano, se depara com a preeminência britânica,
capitis diminutiocom que conviverá o país até a República que se inaugurará já
sob os auspícios econômicos, militares, políticos, estratégicos e ideológicos
dos EUA (a nova preeminência) que se afirmavam, então, como potência
hemisférica e de quem o Brasil procurará aproximar-se, elegendo-o como parceiro
econômico-político preferencial.
São os
anos da “Doutrina Monroe”, da “América para os americanos” (uma América
supostamente ameaçada pelo colonialismo europeu decadente), os tempos da
ideologia do big stick, que, de uma forma ou de outra, com as nuanças impostas
pelo processo histórico, volta à cena e chega até nós sob o nome fantasia de
“trumpismo”.
Joaquim
Nabuco, embaixador em Washington (1905–1910), é o primeiro formulador do
americanismo brasileiro, doutrina que terá no Barão do Rio Branco, nosso mais
aclamado chanceler (1902-1912), seu grande e bem-sucedido operador. Paranhos
consolida a autonomia jurídica e diplomática e a associa com o alinhamento
político-estratégico aos EUA; afirma-se tanto como arquiteto quanto como
operador da política externa brasileira que, para além dele, dominará a Primeira República, com ênfase na
consolidação de nossas fronteiras.
O
americanismo deixa de ser uma teoria. Faz-se doutrina e fato. E chega aos dias
de hoje.
A
formulação original de Nabuco – que servirá de base ao americanismo, longe de
revelar uma opção ideológica, deve ser vista, mais do que tudo, como uma
concessão ao pragmatismo político que necessariamente rege as decisões e as
ações do estadista. Pela voz de seus biógrafos, o autor de Minha formação
simplesmente estaria, com sua inflexão, cedendo ao peso da realidade objetiva:
o declínio europeu vis-à-vis a emergência dos EUA como potência que perseguia a
hegemonia regional: seu crescente peso no comércio de café e seu papel
político-militar no hemisfério.
Para o
grande tribuno da monarquia, se não podíamos mudar os fatos, nem enfrentar a
grande potência emergente, a única alternativa considerável seria nos
conciliarmos com ela: “Não podemos ficar fora da órbita do novo Império; é
melhor estar no quintal do que na rua”.
E neste
quintal permanecemos, uns forcejando dele sair, outros por nele permanecer. É
este último o caso da quatrocentona família Mesquita, dona do Estadão, ainda
com os pés e os corações, as mentes e as contas bancárias dependentes do Brasil
arcaico, o Brasil da plantation, do monopólio da terra destinada a fornecer os
produtos primários cobrados pela metrópole.
Os
primeiros ensaios de autonomia, negociada, ou mesmo de projeto nacional, só
emergem a partir de 1930 e já sob a égide do getulismo, pari passu com a
preeminência – econômica, militar, política e ideológica – dos EUA que se
aprofunda a partir da Segunda Guerra Mundial e conhecerá atritos crescentes nos
anos 1950, principalmente no governo constitucional de Getúlio Vargas, até o
desfecho consabido.
O
discurso de uma política externa independente, a rigor, só veio à balha em
1961, na presidência de Jânio Quadros, por iniciativa sua, e seria operado, de
início, pelo então senador e ministro das Relações Exteriores Afonso Arinos de
Melo Franco. É, a rigor, a primeira formulação explícita e doutrinária de
autonomia no século XX. Encerrada, como se sabe, a aventura janista de pouco
mais de sete meses, a política externa independente é retomada como projeto de
Estado e reordenada como doutrina por San Tiago Dantas, já no governo João
Goulart (1961-1964).
A
geopolítica, no curto período janista, está condicionada pela Guerra Fria (com
a qual está comprometida a classe dominante brasileira e, por via de
consequência, a grande imprensa aqui atuante); o governo perde o apoio de parte
de sua base conservadora, como o lacerdismo e as correntes conservadoras que se
reúnem em torno do então ainda influente O Estado de S. Paulo.
A
renúncia de Jânio Quadros e seus desdobramentos, tanto quanto o governo e a
deposição de João Goulart, pertencem à História. Patrocinada pelo Estadão e
demais veículos da chamada grande imprensa de então, é posta por terra a
tratativa de uma política externa independente. São os anos da ditadura
militar, uma projeção, no Brasil, dos interesses dos EUA na Guerra Fria.
Envelhecido
e envilecido, o diário dos Mesquita resmunga até hoje contra qualquer ensaio de
política externa independente, como se vê na leitura penosa de seu malcozinhado
editorial do último 1º de fevereiro (“O mundo sob as regras do PT”), repleto de
diatribes contra Celso Amorim, sem dúvida um dos mais importantes chanceleres
brasileiros no século XXI, reconhecido como um dos mais destacados em todo o
mundo. Por sem dúvida, não gratuitamente.
O
Brasil do atraso, de que o Estadão é
incontestável e orgulhoso porta-voz, não perdoa ao antigo chanceler a
formulação – e, ainda mais, a execução – de uma política “altiva e ativa”,
assim como Amorim consolidou, sob a presidência de Lula, as formulações de
Quadros, Afonso Arinos e San Tiago Dantas, postas ao rés do chão pela ditadura
militar, de cuja construção o diário paulista – que ainda agora nos fala em
democracia! – participou direta e ativamente, inclusive como articulador
financeiro, funções que Júlio Mesquita, o chefe do clã, desempenhou de mãos
dadas com Adhemar de Barros (vide Diálogo com Cordeiro de Farias. Camargo,
Aspásia & Góes, Walder, Nova Fronteira.), aquele político paulista que se
notabilizou pelo infame slogan “rouba, mas faz”.
Embaixador
do Brasil em Washington (1964-1967), o general Juracy Magalhães declarará (em
nome do regime de 1º de abril) que “o que é bom para os EUA é bom para o
Brasil”: abdicando de qualquer sorte de dignidade, o país anunciava sua
subordinação plena aos interesses de uma potência estrangeira. Renunciava, como
nação e Estado, ao papel de sujeito, a fonte de sua legitimidade. Esse quadro
de renúncia ao dever de ser só seria interrompido a partir da
reconstitucionalização em 1988, mas a retomada do pleito da independência como
política de Estado só se transformaria em intento com a posse de Lula, em 2003,
e a retomada, por ele, do projeto de política externa independente, nos termos
concedidos pela geopolítica.
É a
política “ativa e altiva” de Celso Amorim, Samuel Pinheiro Guimarães e Marco
Aurélio Garcia.
Nada
obstante a história presente, nada obstante os rumos da política dos EUA – dos
tarifaços ao expansionismo bélico, no mundo e, de forma especial, na América do
Sul, seu quintal redivivo –, a direita brasileira, e ela se expressa nos
editoriais do jornalão paulista (ainda jornalão, em que pese sua visível
decadência), reclama de nossa impertinência: essa teimosia de querer andar com
os próprios pés e pensar com a própria cabeça, considerando nossos
interesses, próprios de povo, nação e
Estado.
Os
Mesquita, com os pés na plantation e na cafeicultura, com suas promissórias
penduradas na Faria Lima, são saudosistas da Guerra Fria. Reclamam nossa
incondicionalidade aos interesses do império norte-americano, em guerra contra
o mundo, e, nesses termos, não podem entender que ainda defendamos o
multilateralismo e uma ordem internacional fincada em regras que obrigam todos
os Estados.
Para a
direita brasileira, atrasada desde sempre, os princípios e as regras do direito
internacional não valem por si: dependem dos interesses de poder que expressam.
O papel de sua imprensa é construir a falsa leitura da realidade.
<><>
Adeus ao companheiro Renato Rabelo
Vínhamos
da mesma luta, caminhando em espaços distintos: em comum, para além do combate
tout court à ditadura (consideradas as mais variadas artes), unia-nos o projeto
de construir uma sociedade sem classes. Avançávamos sobre os liberais, e sobre
os que entendiam que a luta deveria travar-se nos limites da institucionalidade
ditada pelos militares.
Na
verdade, o projeto socialista era o leitmotiv de quase todas as correntes que
então se batiam contra o regime militar; nossa “guerra” era, assim, uma etapa
necessária e imprescindível – tudo isso, mas apenas isso – a serviço da
revolução socialista.
A via
revolucionária foi derrotada pelos fatos e o socialismo voltava a ser uma
utopia que se afastava de nossos horizontes, mas é certo que muito
contribuímos, com muitos erros e alguns acertos, para o fim do regime
envilecido e a recuperação do espaço democrático das lutas sociais. Se o sonho
socialista se distanciava do horizonte de então, conseguíramos, com o povo nas
ruas – na vanguarda de um movimento nacional-popular amplíssimo –, apear a
ditadura, com a implosão do colégio eleitoral, a eleição de Tancredo Neves, a
posse de Sarney e a Constituinte de 1987, abrindo caminho para as eleições
diretas para presidente da República em 1989, a primeira desde o distante ano
de 1960.
Estamos
em 1988. Vencida a ditadura, impunha-se a organização partidária legal.
Davam-se os primeiros passos visando à candidatura de Lula – uma audácia sob
todos os títulos! –, e eu chegava junto a setores do então arredio PT com a
proposta da Frente Brasil Popular, uma tese do congresso do PSB, que então
renascia pela esquerda sob o comando de Jamil Haddad. O primeiro ponto de apoio
foi o PCdoB, e é preciso destacar o papel de João Amazonas, Haroldo Lima e
Renato Rabelo. Foi então que Renato e eu apertamos as mãos pela primeira vez
para seguirmos amigos pelo resto da vida, e guardo dele a imagem de dirigente
firme e leal. Estivemos juntos em todas as frentes de luta desses tempos comuns
e, em quase todos os casos, conseguimos conciliar os passos de nossas
organizações.
Embora
de há muito esperada, a notícia de sua morte chega cortando fundo. Não é só a
perda de um amigo. Sinto desaparecer mais um quadro do que ainda se poderia
denominar de resistência socialista, quando mais crescem entre nós, inclusive
no campo popular, as forças reacionárias, e ainda quando mais se fragilizam
aquelas organizações que se justificavam como portadoras do projeto socialista.
Meus
abraços para Conchita, Luciana Santos, Aldo Arantes, Walter Sorrentino, Luís
Fernandes, Osvaldo Bertolino e todos os amigos e amigas do PCdoB.
Fonte:
Brasil 247

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