terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

João Antonio da Silva Filho: A centro-esquerda e a disputa da narrativa antissistema

Vivemos um paradoxo histórico. Em pleno capitalismo globalizado, a esquerda socialista — tradicional crítica do modelo econômico excludente e concentrador de riquezas — vê a bandeira da luta “antissistema” ser apropriada por setores da direita. Como explicar que aqueles que historicamente denunciaram as contradições do capital tenham perdido a centralidade dessa narrativa?

A resposta não é simples. Ela exige revisitar as transformações políticas ocorridas após a queda da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e o fim da Guerra Fria. No pós-Segunda Guerra Mundial, o mundo se organizou em torno de uma polarização clara: de um lado, os Estados Unidos, símbolo do capitalismo liberal; de outro, a URSS, que se apresentava como herdeira da experiência socialista inspirada por Karl Marx e implementada politicamente por Vladimir Lenin após a Revolução de 1917.

Durante décadas, o trauma do nazifascismo enfraqueceu a extrema-direita europeia. No interior do bloco capitalista, quem consolidou hegemonia foram os defensores da democracia liberal e do Estado de bem-estar social. A estratégia era clara: “entregar os anéis para não perder os dedos”. Reformas sociais, ampliação de direitos trabalhistas e políticas de redistribuição de renda funcionaram como mecanismos de contenção do avanço comunista. A social-democracia assumiu, assim, o papel de harmonizar capitalismo e proteção social.

Com o colapso soviético — simbolizado pela queda do Muro de Berlim — desapareceu o principal contraponto sistêmico ao capitalismo. Sem a ameaça do socialismo real, as elites econômicas já não precisavam fazer concessões estruturais. O discurso mudou de eixo. A disputa deixou de ser predominantemente econômica e passou a ser cultural.

É nesse contexto que emerge o que se pode chamar de “individualismo competitivo” como núcleo ideológico do novo conservadorismo. A lógica é simples: cada indivíduo é responsabilizado exclusivamente por seu destino. O sucesso é atribuído ao mérito pessoal; o fracasso, à culpa individual. A solidariedade deixa de ser princípio organizador da vida coletiva e passa a ser vista como obstáculo à eficiência.

Multiplicam-se os slogans: “seja empreendedor”, “vença por seus próprios méritos”, “o Estado atrapalha”, “direitos trabalhistas geram desemprego”. A meritocracia é apresentada como valor absoluto — como se todos largassem da mesma linha de partida. É como imaginar um corredor amador competindo em igualdade com um atleta profissional, mesmo iniciando vinte metros atrás.

Nesse modelo, os excluídos tornam-se invisíveis ou culpabilizados. O sistema não é questionado em suas bases estruturais; a crítica é redirecionada contra o Estado, a política tradicional ou as instituições democráticas. A retórica “antissistema” da nova direita não se volta contra o capitalismo financeiro ou contra a concentração de renda, mas contra as mediações institucionais que limitam a atuação irrestrita do mercado ou impõem compromissos redistributivos.

Aqui reside um dos equívocos estratégicos da centro-esquerda nas últimas décadas: ao buscar ampliar sua base eleitoral, passou a assimilar parcialmente o vocabulário e os pressupostos do adversário. Ao aceitar como inevitável a lógica do mercado desregulado e do individualismo competitivo, abriu mão de disputar o sentido profundo da organização social.

Não se trata de negar a importância da responsabilidade individual, da inovação ou da eficiência econômica. Trata-se de recolocar a solidariedade no centro do debate político. Uma sociedade democrática não se sustenta apenas pela competição; ela exige cooperação, reconhecimento das desigualdades estruturais e compromisso com a dignidade humana.

•        Roberto Amaral: A política externa brasileira e os resmungos do jornalão

Na Colônia, seria impensável qualquer norte de política externa, e este quadro de inapetência ideológica e impotência material se preserva no Império, quando o novo Estado, formalmente soberano, se depara com a preeminência britânica, capitis diminutiocom que conviverá o país até a República que se inaugurará já sob os auspícios econômicos, militares, políticos, estratégicos e ideológicos dos EUA (a nova preeminência) que se afirmavam, então, como potência hemisférica e de quem o Brasil procurará aproximar-se, elegendo-o como parceiro econômico-político preferencial.

São os anos da “Doutrina Monroe”, da “América para os americanos” (uma América supostamente ameaçada pelo colonialismo europeu decadente), os tempos da ideologia do big stick, que, de uma forma ou de outra, com as nuanças impostas pelo processo histórico, volta à cena e chega até nós sob o nome fantasia de “trumpismo”.

Joaquim Nabuco, embaixador em Washington (1905–1910), é o primeiro formulador do americanismo brasileiro, doutrina que terá no Barão do Rio Branco, nosso mais aclamado chanceler (1902-1912), seu grande e bem-sucedido operador. Paranhos consolida a autonomia jurídica e diplomática e a associa com o alinhamento político-estratégico aos EUA; afirma-se tanto como arquiteto quanto como operador da política externa brasileira que, para além dele,  dominará a Primeira República, com ênfase na consolidação de nossas fronteiras.

O americanismo deixa de ser uma teoria. Faz-se doutrina e fato. E chega aos dias de hoje.

A formulação original de Nabuco – que servirá de base ao americanismo, longe de revelar uma opção ideológica, deve ser vista, mais do que tudo, como uma concessão ao pragmatismo político que necessariamente rege as decisões e as ações do estadista. Pela voz de seus biógrafos, o autor de Minha formação simplesmente estaria, com sua inflexão, cedendo ao peso da realidade objetiva: o declínio europeu vis-à-vis a emergência dos EUA como potência que perseguia a hegemonia regional: seu crescente peso no comércio de café e seu papel político-militar no hemisfério.

Para o grande tribuno da monarquia, se não podíamos mudar os fatos, nem enfrentar a grande potência emergente, a única alternativa considerável seria nos conciliarmos com ela: “Não podemos ficar fora da órbita do novo Império; é melhor estar no quintal do que na rua”.

E neste quintal permanecemos, uns forcejando dele sair, outros por nele permanecer. É este último o caso da quatrocentona família Mesquita, dona do Estadão, ainda com os pés e os corações, as mentes e as contas bancárias dependentes do Brasil arcaico, o Brasil da plantation, do monopólio da terra destinada a fornecer os produtos primários cobrados pela metrópole.

Os primeiros ensaios de autonomia, negociada, ou mesmo de projeto nacional, só emergem a partir de 1930 e já sob a égide do getulismo, pari passu com a preeminência – econômica, militar, política e ideológica – dos EUA que se aprofunda a partir da Segunda Guerra Mundial e conhecerá atritos crescentes nos anos 1950, principalmente no governo constitucional de Getúlio Vargas, até o desfecho consabido.

O discurso de uma política externa independente, a rigor, só veio à balha em 1961, na presidência de Jânio Quadros, por iniciativa sua, e seria operado, de início, pelo então senador e ministro das Relações Exteriores Afonso Arinos de Melo Franco. É, a rigor, a primeira formulação explícita e doutrinária de autonomia no século XX. Encerrada, como se sabe, a aventura janista de pouco mais de sete meses, a política externa independente é retomada como projeto de Estado e reordenada como doutrina por San Tiago Dantas, já no governo João Goulart (1961-1964).

A geopolítica, no curto período janista, está condicionada pela Guerra Fria (com a qual está comprometida a classe dominante brasileira e, por via de consequência, a grande imprensa aqui atuante); o governo perde o apoio de parte de sua base conservadora, como o lacerdismo e as correntes conservadoras que se reúnem em torno do então ainda influente O Estado de S. Paulo.

A renúncia de Jânio Quadros e seus desdobramentos, tanto quanto o governo e a deposição de João Goulart, pertencem à História. Patrocinada pelo Estadão e demais veículos da chamada grande imprensa de então, é posta por terra a tratativa de uma política externa independente. São os anos da ditadura militar, uma projeção, no Brasil, dos interesses dos EUA na Guerra Fria.

Envelhecido e envilecido, o diário dos Mesquita resmunga até hoje contra qualquer ensaio de política externa independente, como se vê na leitura penosa de seu malcozinhado editorial do último 1º de fevereiro (“O mundo sob as regras do PT”), repleto de diatribes contra Celso Amorim, sem dúvida um dos mais importantes chanceleres brasileiros no século XXI, reconhecido como um dos mais destacados em todo o mundo. Por sem dúvida, não gratuitamente.

O Brasil do atraso, de que o Estadão  é incontestável e orgulhoso porta-voz, não perdoa ao antigo chanceler a formulação – e, ainda mais, a execução – de uma política “altiva e ativa”, assim como Amorim consolidou, sob a presidência de Lula, as formulações de Quadros, Afonso Arinos e San Tiago Dantas, postas ao rés do chão pela ditadura militar, de cuja construção o diário paulista – que ainda agora nos fala em democracia! – participou direta e ativamente, inclusive como articulador financeiro, funções que Júlio Mesquita, o chefe do clã, desempenhou de mãos dadas com Adhemar de Barros (vide Diálogo com Cordeiro de Farias. Camargo, Aspásia & Góes, Walder, Nova Fronteira.), aquele político paulista que se notabilizou pelo infame slogan “rouba, mas faz”.

Embaixador do Brasil em Washington (1964-1967), o general Juracy Magalhães declarará (em nome do regime de 1º de abril) que “o que é bom para os EUA é bom para o Brasil”: abdicando de qualquer sorte de dignidade, o país anunciava sua subordinação plena aos interesses de uma potência estrangeira. Renunciava, como nação e Estado, ao papel de sujeito, a fonte de sua legitimidade. Esse quadro de renúncia ao dever de ser só seria interrompido a partir da reconstitucionalização em 1988, mas a retomada do pleito da independência como política de Estado só se transformaria em intento com a posse de Lula, em 2003, e a retomada, por ele, do projeto de política externa independente, nos termos concedidos pela geopolítica.

É a política “ativa e altiva” de Celso Amorim, Samuel Pinheiro Guimarães e Marco Aurélio Garcia.

Nada obstante a história presente, nada obstante os rumos da política dos EUA – dos tarifaços ao expansionismo bélico, no mundo e, de forma especial, na América do Sul, seu quintal redivivo –, a direita brasileira, e ela se expressa nos editoriais do jornalão paulista (ainda jornalão, em que pese sua visível decadência), reclama de nossa impertinência: essa teimosia de querer andar com os próprios pés e pensar com a própria cabeça, considerando nossos interesses,  próprios de povo, nação e Estado.

Os Mesquita, com os pés na plantation e na cafeicultura, com suas promissórias penduradas na Faria Lima, são saudosistas da Guerra Fria. Reclamam nossa incondicionalidade aos interesses do império norte-americano, em guerra contra o mundo, e, nesses termos, não podem entender que ainda defendamos o multilateralismo e uma ordem internacional fincada em regras que obrigam todos os Estados.

Para a direita brasileira, atrasada desde sempre, os princípios e as regras do direito internacional não valem por si: dependem dos interesses de poder que expressam. O papel de sua imprensa é construir a falsa leitura da realidade.

<><> Adeus ao companheiro Renato Rabelo

Vínhamos da mesma luta, caminhando em espaços distintos: em comum, para além do combate tout court à ditadura (consideradas as mais variadas artes), unia-nos o projeto de construir uma sociedade sem classes. Avançávamos sobre os liberais, e sobre os que entendiam que a luta deveria travar-se nos limites da institucionalidade ditada pelos militares.

Na verdade, o projeto socialista era o leitmotiv de quase todas as correntes que então se batiam contra o regime militar; nossa “guerra” era, assim, uma etapa necessária e imprescindível – tudo isso, mas apenas isso – a serviço da revolução socialista.

A via revolucionária foi derrotada pelos fatos e o socialismo voltava a ser uma utopia que se afastava de nossos horizontes, mas é certo que muito contribuímos, com muitos erros e alguns acertos, para o fim do regime envilecido e a recuperação do espaço democrático das lutas sociais. Se o sonho socialista se distanciava do horizonte de então, conseguíramos, com o povo nas ruas – na vanguarda de um movimento nacional-popular amplíssimo –, apear a ditadura, com a implosão do colégio eleitoral, a eleição de Tancredo Neves, a posse de Sarney e a Constituinte de 1987, abrindo caminho para as eleições diretas para presidente da República em 1989, a primeira desde o distante ano de 1960.

Estamos em 1988. Vencida a ditadura, impunha-se a organização partidária legal. Davam-se os primeiros passos visando à candidatura de Lula – uma audácia sob todos os títulos! –, e eu chegava junto a setores do então arredio PT com a proposta da Frente Brasil Popular, uma tese do congresso do PSB, que então renascia pela esquerda sob o comando de Jamil Haddad. O primeiro ponto de apoio foi o PCdoB, e é preciso destacar o papel de João Amazonas, Haroldo Lima e Renato Rabelo. Foi então que Renato e eu apertamos as mãos pela primeira vez para seguirmos amigos pelo resto da vida, e guardo dele a imagem de dirigente firme e leal. Estivemos juntos em todas as frentes de luta desses tempos comuns e, em quase todos os casos, conseguimos conciliar os passos de nossas organizações.

Embora de há muito esperada, a notícia de sua morte chega cortando fundo. Não é só a perda de um amigo. Sinto desaparecer mais um quadro do que ainda se poderia denominar de resistência socialista, quando mais crescem entre nós, inclusive no campo popular, as forças reacionárias, e ainda quando mais se fragilizam aquelas organizações que se justificavam como portadoras do projeto socialista.

Meus abraços para Conchita, Luciana Santos, Aldo Arantes, Walter Sorrentino, Luís Fernandes, Osvaldo Bertolino e todos os amigos e amigas do PCdoB.

 

Fonte: Brasil 247

 

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