Alysson
Mascaro: "o desafio da esquerda é oferecer um novo horizonte de
esperança"
Alysson
Leandro Mascaro afirmou que a política brasileira vive um momento de
esgotamento e transição, com sinais de encerramento de um ciclo histórico
marcado pela centralidade de Luiz Inácio Lula da Silva, ao mesmo tempo em que a
disputa pública passa a ser cada vez mais moldada pela lógica do espetáculo e
da captura de atenção.
A
avaliação foi feita em entrevista à TV 247, na qual Mascaro discutiu com o
jornalista Leonardo Attuch, editor-responsável pelo Brasil 247, os dilemas do
campo progressista, a reorganização da direita e a necessidade de que a
esquerda ofereça “um novo horizonte de esperança” para além de respostas
imediatistas e de comunicação performática.
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Um ciclo histórico que se encerra com troca de gerações
Mascaro
enquadrou o presente como parte de movimentos largos da história brasileira.
Ele argumentou que períodos políticos não se explicam por “fatos isolados”, mas
por eras e inflexões que atravessam gerações. Nesse sentido, sugeriu que o
ciclo aberto com a redemocratização, em 1985, pode estar chegando ao seu
limite, inclusive por mudança geracional.
Para o
filósofo, Lula foi o “elemento simbólico chave” desse período. A possibilidade
de uma última eleição presidencial do líder petista, mencionada pelo
entrevistador, surge então como marco de encerramento. Mascaro também vinculou
esse processo a uma transformação global: junto ao “fim de um ciclo do Brasil”,
haveria o esgotamento de “uma velha forma de fazer política” no mundo inteiro.
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Redes, algoritmo e política como performance
Um dos
eixos centrais da conversa foi a crítica à forma contemporânea de fazer
política, atravessada pelo imediatismo das redes e pela competição por atenção.
Mascaro observou que a política atual assume “outra forma de espetáculo”, mais
dependente de mídia digital e menos conectada a um sentido de futuro.
Ele
resumiu esse deslocamento ao enfatizar a lógica performática: “É uma
característica do capitalismo contemporâneo que as estruturas sociais e
políticas se esgotem em performance.” Na leitura do filósofo, isso também
explica por que lideranças tendem a ser mais descartáveis: “Não há nesse
espectro das performances praticamente nenhuma liderança política do mundo
performática que fique por 20, 30 anos.”
A
discussão avançou para a transição dos antigos filtros — partidos e grandes
meios — para uma centralização global nas plataformas. Mascaro citou a passagem
de um modelo em que “bastava uma edição do Jornal Nacional” para produzir
consensos, para outro em que a atenção é “customizada”, disputada no celular,
sob influência direta dos algoritmos das big techs.
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Direita com discurso “realista” e esquerda com fala “adoçada”
Ao
analisar a disputa ideológica, Mascaro rejeitou uma leitura moralista segundo a
qual “o povo piorou”. Pelo contrário, disse ver maior politização social em
comparação ao início dos anos 1990: “O nosso povo de hoje é mais politizado do
que o povo do tempo do Collor.” Ele apontou que influenciadores e correntes da
direita operam com jargões e referências políticas mais presentes no cotidiano,
ainda que, em sua avaliação, isso venha acompanhado de ideias frágeis e
simplificações.
Na
outra ponta, criticou o que chamou de despolitização do discurso de esquerda ao
longo das últimas décadas. Para ele, a direita busca organizar afetos e
indignação com mais força narrativa, enquanto a esquerda frequentemente recua
para um discurso de gestão e melhora incremental. Esse contraste aparece quando
Mascaro compara a contundência de uma direita que “fala grosso” com uma
esquerda que fala de forma “educada”, em termos como “vamos todos nos unir” e
“respeito ao próximo”, num mundo social estruturado pela competição.
Ele
também formulou uma oposição central da entrevista: “O modelo de fala
ideológica da direita tem mais impregnação na realidade, ainda que
estruturalmente falseado. O da esquerda… está impregnado na falsidade.” A
crítica se dirige ao modo como promessas de proteção e solidariedade entram em
choque com experiências comuns de precariedade e abandono.
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Pós-Lula, medo do vazio e “melancia na cabeça”
Provocado
por Attuch sobre a ansiedade em relação ao pós-Lula, Mascaro afirmou que o
horizonte futuro pode ser ainda mais dominado pela disputa performática. Em tom
irônico, discutiu a ideia de que vencerá quem conseguir chamar mais atenção —
metáfora que atravessa a conversa com a imagem da “melancia na cabeça”.
Ao
avaliar um eventual quarto mandato de Lula, Mascaro argumentou que o governo
atual teria sido organizado por uma bandeira “em negativo”, centrada na
oposição ao bolsonarismo e na reconstrução institucional. Mas sustentou que um
próximo ciclo exigiria algo “em positivo”, uma marca capaz de articular sentido
histórico e não apenas contraste com o adversário.
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A crise como nó do capitalismo e o poder do mercado financeiro
No
trecho mais estrutural da entrevista, Mascaro insistiu que a crise do
capitalismo contemporâneo tem um núcleo decisivo: a finança. Ele defendeu que,
quando eclodem crises profundas, o Estado costuma agir para salvar bancos e o
mercado financeiro — e que a disputa política fundamental está em quem controla
esse processo.
O
filósofo citou exemplos históricos para sustentar que momentos críticos podem
abrir janelas de transformação, mas apenas se houver preparação ideológica e
mobilização social. Evocou inclusive a frase atribuída ao papa Francisco —
“Acabou o carnaval” — como imagem de uma ruptura simbólica: a possibilidade de
um governo, em contexto de colapso financeiro, recusar o salvamento privado e
reorganizar o sistema sob controle público.
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Trump, extrema direita e o risco da “solução fascista” na crise
Ao
discutir a dinâmica internacional, Mascaro mencionou Donald Trump, o presidente
dos Estados Unidos, como exemplo de política contemporânea marcada por
espetáculo e radicalização. O filósofo argumentou que, em crises severas, a
extrema direita tende a oferecer uma saída baseada em violência social,
repressão e privatização.
Ele
descreveu esse caminho como “solução fascista”, associando-o a políticas que
empurram o custo da crise para os mais vulneráveis. No debate, Mascaro também
indicou que uma esquerda sem capacidade de enfrentamento econômico pode se
limitar a respostas redistributivas estreitas, incapazes de alterar o eixo de
poder do sistema financeiro.
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Quem pode construir a esperança: massa, linguagem e horizonte
O ponto
de chegada da entrevista foi a ideia de esperança como tarefa política concreta
— e não como slogan. Mascaro disse que a reconstrução de horizonte depende de
organização, disputa de linguagem e conexão real com os setores populares que
hoje são capturados pela extrema direita.
Ele
argumentou que a transformação não virá automaticamente das estruturas já
acomodadas, criticando uma esquerda que se prende ao “presente melhorado” e
tende a ser conservadora em momentos-limite. Ao contrário, afirmou que a
energia social para agir muitas vezes está justamente nas periferias e no
trabalho precarizado — “motoboy”, “entregador de aplicativo” — grupos que
carregam urgência e disposição, mas podem ser canalizados para projetos
regressivos.
A
síntese proposta por Mascaro, ao final, mira o coração do problema: disputar a
vontade de agir e transformá-la em projeto coletivo. É nesse ponto que, para
ele, se coloca o desafio central do campo progressista — oferecer um novo
horizonte de esperança que não se esgote em performance, nem em remendos, mas
que seja capaz de reorganizar forças sociais diante da crise e do risco de
barbárie política.
• Brasil 2050: Mascaro defende “palavra
positiva” para mobilizar contra o imperialismo
A
entrevista do professor Alysson Leandro Mascaro à TV 247 saiu do terreno
estritamente geopolítico para mirar um ponto que ele considera decisivo para o
futuro do Brasil: a batalha ideológica e a falta de um projeto afirmativo capaz
de mobilizar a sociedade. No diálogo, Mascaro sustentou que, sem um horizonte
claro de longo prazo, o país tende a permanecer preso a soluções curtas e a
“migalhas”, mesmo diante de um cenário internacional cada vez mais tenso.
A
conversa, exibida na TV 247, foi conduzida por Leonardo Attuch e percorreu a
relação do Brasil com o imperialismo, os dilemas de industrialização e o papel
das narrativas na organização política. Ao comentar o momento global, Mascaro
também citou Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, como expressão de
um ciclo de conflito e instabilidade, mas insistiu que o centro do debate
precisa ir além de personagens e governos.
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“O ideológico é o imediato”, diz professor
Ao
longo da entrevista, Mascaro defendeu que transformações profundas não se
produzem apenas por alternância eleitoral, e que o primeiro bloqueio para
qualquer mudança é a forma como a sociedade enxerga — ou deixa de enxergar —
sua própria posição no mundo.
Em um
dos trechos centrais, ele afirmou: “Antes disso tem um problema imediato e o
problema imediato é o ideológico.” Na mesma linha, completou que a disputa de
ideias não seria “o centro final” das contradições sociais, mas o ponto sem o
qual não se começa sequer a formular hipóteses sobre o que fazer.
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A pergunta que antecede todas as outras
Na
avaliação do professor, debates sobre parcerias internacionais e rotas
econômicas esbarram numa questão anterior, que raramente é colocada com
franqueza. “A pergunta básica é: o Brasil quer se industrializar?”, disse, ao
sustentar que só depois dessa decisão é que entrariam os cálculos e as
estratégias.
Mascaro
criticou a trajetória de desindustrialização associada ao neoliberalismo e
apontou que o país teria acumulado estrutura e mercado consumidor suficientes
para ser “um peso no mundo”, mas sem um arranjo político voltado a esse
objetivo.
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“Não” não mobiliza: a defesa de uma narrativa afirmativa
O
professor argumentou que campanhas e discursos baseados principalmente em
negações têm baixa capacidade de mobilização social. Ele foi direto: “A
mobilização de uma sociedade em termos de transformação ideológica deve ser
algum sim.”Na sequência, Mascaro explicou por que, segundo sua leitura, o apelo
ao “não” tende a fracassar: “Toda vez que nós operamos simplesmente para dizer,
nós não devemos ser neoliberais, nós enxugamos gelo.” Para ele, a construção de
um projeto nacional exige uma identidade política positiva — algo que “dê
orgulho” e organize um rumo de futuro.
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Plano de décadas, não de quatro anos
O
debate avançou para a necessidade de horizonte temporal mais longo do que o
ciclo eleitoral. Mascaro defendeu que a disputa presidencial não deveria se
limitar a promessas imediatas: “O grande elemento organizador da eleição
presidencial de 2026 não deveria ser um plano pros próximos 4 anos, deveria ser
um plano pelo menos para os próximos 20 ou 30 anos.”Ele sintetizou essa
exigência com uma fórmula: “É um Brasil 2050.” A ideia, segundo o professor, é
oferecer uma visão que atravesse gerações e funcione como eixo de mobilização
coletiva.
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Direita fala “prosperidade”; esquerda fala em negativo
Na
parte final, Mascaro fez uma comparação sobre quais palavras hoje conseguem
ativar afetos sociais e mover pessoas. Ele observou que “por enquanto” quem tem
falado com mais eficácia ao desejo popular é a direita, ainda que, na sua
avaliação, com conteúdos equivocados. “Somente algo que nos dê orgulho” e
apresente uma possibilidade concreta de futuro poderia reorganizar o campo
progressista, disse, ao defender que a disputa não é apenas de diagnóstico, mas
de capacidade de produzir esperança e sentido.
Sem
encerrar com previsões, o professor deixou uma orientação de método: decompor
as peças do jogo global e, ao mesmo tempo, construir no plano interno uma
linguagem afirmativa capaz de sustentar mudanças estruturais — porque, como
insistiu, sem esse “sim” mobilizador, o país tende a continuar preso à lógica
do curto prazo.
• Crise do império e novo eixo global:
Mascaro analisa cenário mundial
Em
entrevista concedida à TV 247, o professor Alysson Leandro Mascaro traçou um
amplo panorama sobre as transformações da geopolítica mundial, abordando o que
considera ser um processo de declínio relativo dos Estados Unidos e a
consolidação da China como novo polo de acumulação econômica global. A
conversa, conduzida pelo jornalista Leonardo Attuch, editor-responsável pelo
Brasil 247, partiu dos acontecimentos recentes no cenário internacional para
discutir tendências estruturais do capitalismo nos últimos dois séculos.
Ao
longo da entrevista, Mascaro defendeu que o momento atual não pode ser
compreendido apenas por eventos isolados ou lideranças específicas, mas sim por
mudanças profundas no eixo da acumulação capitalista.
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Capitalismo, acumulação e mudança de hegemonia
Para
Mascaro, o capitalismo moderno tem cerca de 200 anos e nasce com a Revolução
Industrial. Desde então, afirma, a lógica da acumulação é o elemento
estruturante da política e da geopolítica global. “Quem acumula mais ganha mais
poder”, resumiu.
No
século XIX, segundo ele, o centro da acumulação esteve concentrado na
Inglaterra e, em menor medida, na França. Esse poder econômico sustentou a
expansão colonial europeia. Já no século XX, a liderança foi transferida para
os Estados Unidos, que, após as duas guerras mundiais, assumiram a posição de
potência hegemônica.
Mascaro
observa que essa transição foi relativamente suave porque se deu dentro de um
mesmo universo cultural e linguístico. “O capitalismo falava inglês”, afirmou,
destacando que a hegemonia apenas mudou de polo dentro do mundo anglófono.
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China e a aposta na produção
A
novidade das últimas décadas, segundo o professor, está na ascensão chinesa.
Ele argumenta que, ao contrário dos Estados Unidos, que desde os anos 1970
aprofundaram um modelo de financeirização, a China optou por reinvestir na
produção industrial.
“A
estratégia de acumulação da China é capitalista: produzir por X, vender por
mais que X e entesourar a partir daí”, explicou. No entanto, a diferença
estaria no foco estrutural: enquanto os EUA teriam privilegiado a
hiperacumulação financeira, baseada em títulos e ativos, a China consolidou sua
base industrial e tecnológica.
Mascaro
critica a leitura que reduz a disputa a produtos específicos, como
semicondutores. “Não se trata de ter um chip melhor. Trata-se de uma estratégia
geral de sustentação da produção e da acumulação”, afirmou, rejeitando o que
chamou de “fetichismo do objeto”.
Ele
sintetizou a diferença com uma imagem provocativa: de um lado, uma sociedade
voltada às engenharias e às ciências exatas; de outro, um ambiente dominado por
financeirização e cultura de celebridades.
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Declínio relativo e poder militar
Na
avaliação do professor, os Estados Unidos mantêm enorme capacidade econômica,
mas enfrentam declínio relativo diante do crescimento chinês. Esse cenário
produziria tensões crescentes.
“Quanto
mais declina, mais redundará em violência, em exército, em guerra”, disse, ao
analisar o peso do poder militar norte-americano. Para ele, a sustentação da
hegemonia estadunidense tem recorrido com maior intensidade à dimensão militar,
enquanto a China priorizaria expansão econômica e influência comercial.
Mascaro
sustenta que o modelo estadunidense, baseado na financeirização, carrega
fragilidades estruturais. Em uma crise de liquidez mais profunda, argumenta, a
desconexão entre ativos financeiros e base produtiva poderia gerar
instabilidade sistêmica.
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Brasil entre dependência e potencial
Ao
abordar o Brasil, Mascaro diferenciou o enfrentamento a governos específicos do
enfrentamento a uma estrutura geopolítica mais ampla. Ele considera que o país
possui base produtiva, mercado interno e recursos estratégicos suficientes para
desempenhar papel relevante no cenário internacional.
Contudo,
avalia que há um entrave ideológico e estrutural. “A pergunta básica é: o
Brasil quer se industrializar?”, questionou. Para ele, sem uma decisão
estratégica de longo prazo, qualquer debate sobre alinhamentos internacionais
torna-se superficial.
Mascaro
também criticou o que considera submissão ideológica ao imperialismo e ao
neoliberalismo, defendendo que transformações estruturais não ocorrem apenas
por alternância eleitoral. “Uma sociedade muda quando altera sua estrutura
produtiva e de acumulação”, afirmou.
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A disputa ideológica e a “palavra positiva”
Na
parte final da entrevista, o professor concentrou-se na dimensão ideológica.
Segundo ele, projetos políticos que se organizam apenas em torno de negações —
“não ao imperialismo”, “não ao neoliberalismo” — têm pouca capacidade
mobilizadora.
“A
mobilização de uma sociedade deve ser um ‘sim’”, afirmou. Ele argumenta que as
transformações exigem um horizonte positivo, capaz de gerar identificação
coletiva e perspectiva de futuro.
Mascaro
defendeu que um projeto nacional precisa oferecer uma visão concreta de
prosperidade, soberania e desenvolvimento de longo prazo. “Somente algo que nos
dê orgulho, que nos dê vontade de poder ser um país no mundo positivo,
soberano, com pujança, consegue mobilizar”, declarou.
Ao
concluir, destacou que o desafio brasileiro não é apenas resistir a pressões
externas, mas formular um projeto afirmativo capaz de reorganizar a estrutura
produtiva e ideológica do país diante da reconfiguração do poder global.
Fonte:
Brasil 247

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