quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Putin já iniciou a 3ª Guerra Mundial e precisa ser parado, diz Zelensky

O presidente da UcrâniaVolodymyr Zelensky, em uma postura firme de desafio, disse que, longe de estar perdendo, seu país encerrará a guerra vitoriosa. Quando nos encontramos neste fim de semana na sede do governo, em Kiev, ele afirmou ser totalmente contrário a pagar o preço por um acordo de cessar-fogo exigido pelo presidente Vladimir Putin, que implicaria a retirada de áreas estratégicas que a Rússia não conseguiu capturar, apesar de sacrificar dezenas de milhares de soldados.

Putin, disse Zelensky, já iniciou a Terceira Guerra Mundial, e a única resposta seria uma pressão militar e econômica intensa para forçá-lo a recuar. "Acredito que Putin já a começou. A questão é quanto território ele conseguirá tomar e como detê-lo... A Rússia quer impor ao mundo um modo de vida diferente e mudar as vidas que as pessoas escolheram para si."

E quanto à exigência russa de que a Ucrânia entregue os 20% da região oriental de Donetsk que ainda controla — uma linha de cidades que a Ucrânia chama de "cidades-fortaleza" — além de mais territórios nas regiões meridionais de Kherson e Zaporizhzhia? Não seria, perguntei, um pedido razoável se resultasse em cessar-fogo? "Vejo de outra forma. Não encaro isso simplesmente como terra. Vejo como abandono — enfraquecendo nossas posições, abandonando centenas de milhares de nossos cidadãos que vivem ali. É assim que vejo. E tenho certeza de que essa 'retirada' dividiria nossa sociedade."

Mas não seria um preço aceitável se isso satisfizesse o presidente Putin? O senhor acha que o satisfaria?

"Provavelmente o satisfaria por um tempo... Ele precisa de uma pausa... Mas, uma vez recuperado, nossos parceiros europeus dizem que isso poderia levar de três a cinco anos. Na minha opinião, ele poderia se recuperar em não mais do que um ou dois anos. Para onde iria depois? Não sabemos, mas que ele desejaria continuar [a guerra] é um fato."

Encontrei Volodymyr Zelensky em uma sala de conferências dentro do complexo governamental fortemente protegido, em uma área abastada do centro de Kiev. Na entrevista, ele falou principalmente em ucraniano. É notável o peso da liderança que Zelensky carrega pela diligência de seus agentes de segurança. Visitar qualquer chefe de Estado exige verificações rigorosas. Mas entrar nos prédios presidenciais em Kiev eleva o processo a um nível que raramente experimentei.

Não surpreende em um país em guerra, com um presidente que já foi alvo da Rússia.

Apesar de tudo isso, o homem que começou como artista — que venceu a versão ucraniana do Strictly Come Dancing [programa de televisão britânico de competição de dança] em 2006 e interpretou o papel de um presidente inesperado da Ucrânia em uma comédia de TV antes de se tornar presidente na vida real — parece notavelmente resiliente.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou na véspera das mais recentes negociações de cessar-fogo, em Genebra, que "a Ucrânia precisa se sentar à mesa rapidamente". Ele continua a exercer mais pressão sobre a Ucrânia do que sobre a Rússia. Diplomatas ocidentais indicam, desde o verão passado, que Trump concorda com Putin que concessões territoriais da Ucrânia à Rússia são a chave para o cessar-fogo que ele deseja — idealmente antes do próximo verão. Muitos analistas fora da Casa Branca também avaliam que a Ucrânia não pode vencer a guerra e que, sem fazer concessões a Moscou, acabará derrotada.

Perguntei a Zelensky se Trump e os demais tinham razão.

"Onde você está agora?", retrucou Zelensky. "Hoje você está em Kiev, está na capital da nossa pátria, está na Ucrânia. Sou muito grato por isso. Vamos perder? Claro que não, porque estamos lutando pela independência da Ucrânia."

Zelensky costuma dizer que a Ucrânia pode vencer, mas como seria essa vitória?

Ele afirmou que vitória significaria restaurar a vida normal dos ucranianos e pôr fim às mortes. Mas a visão mais ampla que apresentou foi sobre a ameaça global que, segundo ele, emana de Putin. "Acredito que deter Putin hoje e impedir que ele ocupe a Ucrânia é uma vitória para o mundo inteiro. Porque Putin não vai parar na Ucrânia."

O senhor não está dizendo que vitória é recuperar todo o território, está?

"Vamos fazê-lo. Isso é absolutamente claro. É apenas uma questão de tempo. Fazer isso hoje significaria perder um número enorme de pessoas — milhões — porque o Exército [russo] é grande e entendemos o custo de tais medidas. Não haveria pessoas suficientes, estaríamos perdendo-as. E o que é terra sem pessoas? Honestamente, nada. Também não temos armas suficientes. Isso depende não apenas de nós, mas de nossos parceiros. Portanto, no momento isso não é possível, mas retornar às fronteiras justas de 1991 [ano em que a Ucrânia declarou sua independência, precipitando o colapso final da União Soviética], sem dúvida, não é apenas uma vitória, é justiça. A vitória da Ucrânia é a preservação da nossa independência, e uma vitória da justiça para o mundo inteiro é a devolução de todas as nossas terras."

Há um ano, Zelensky visitou a Casa Branca e recebeu o que um diplomata ocidental graduado descreveu como um "linchamento diplomático" público previamente planejado por Donald Trump e seu vice-presidente, J.D. Vance. O confronto, diante da mídia mundial, foi assistido por milhões.

Trump, recém-empossado para seu segundo mandato, enviava o sinal mais forte possível de que a era de apoio à Ucrânia sob o presidente Joe Biden havia terminado. Os membros da Otan já haviam sido alertados pela nova administração. Vance retornara recentemente de uma viagem em que abalou ilusões da Europa Ocidental sobre a solidez da aliança transatlântica. Desde então, segundo relatos, orientado entre outros pelo assessor de segurança nacional do Reino Unido, Jonathan Powell, Zelensky evitou confrontos públicos com Trump. O presidente americano suspendeu quase todos os envios de ajuda militar à Ucrânia. Ainda assim, os EUA continuam a fornecer informações de inteligência vitais, e países europeus gastam bilhões comprando armas dos americanos para repassá-las à Ucrânia.

Perguntei ao presidente ucraniano sobre as declarações frequentemente contraditórias de Trump, lembrando que, entre as inverdades que ele proferiu, está a acusação de que Zelensky é um ditador que iniciou a guerra — um eco preciso das alegações feitas por Vladimir Putin.

Zelensky riu.

"Eu não sou um ditador e não comecei a guerra, é isso."

Mas é possível confiar no presidente Trump? Se o senhor obtiver uma garantia de segurança dele, perguntei, ele manterá sua palavra? Afinal, é um homem que muda de posição.

"Não se trata apenas do presidente Trump, estamos falando da América. Todos nós somos presidentes por mandatos determinados. Queremos garantias por 30 anos, por exemplo. As elites políticas mudarão, os líderes mudarão."

Ele quis dizer que garantias de segurança dos EUA precisariam ser aprovadas pelo Congresso, em Washington, para se tornarem juridicamente sólidas. "Serão votadas no Congresso por um motivo. Não se trata apenas de presidentes. O Congresso é necessário. Porque presidentes mudam, mas instituições permanecem."

Em outras palavras, Donald Trump pode ser imprevisível, mas não estará lá para sempre. Zelensky afirma que essas garantias de segurança precisariam estar asseguradas antes que pudesse considerar outra exigência americana — a de que a Ucrânia realize eleições gerais até o verão, ecoando outro argumento russo de que ele seria um presidente ilegítimo. Trump não exigiu eleições na Rússia, onde Putin assumiu a liderança pela primeira vez no último dia do século 20.

Zelensky disse não ter decidido se voltará a concorrer, quando houver eleição: "Posso concorrer ou não." As eleições estavam previstas para 2024, mas não puderam ser realizadas sob a lei marcial introduzida após a invasão em larga escala da Rússia.

Realizar eleições adiadas, afirmou Zelensky, seria tecnicamente possível se houvesse tempo para alterar a lei e permitir sua realização. Mas ele precisa primeiro de garantias de segurança para a Ucrânia.

Ele listou tantos problemas potenciais para realizar uma eleição com milhões de ucranianos no exterior como refugiados e partes significativas do país ocupadas pela Rússia que sugeri que, na prática, ele era contrário à ideia. "Se essa for uma condição para acabar com a guerra, vamos fazê-lo. Eu disse: 'honestamente, vocês levantam constantemente a questão das eleições'. Eu disse aos parceiros: 'vocês precisam decidir uma coisa: querem se livrar de mim ou querem realizar eleições? Se querem realizar eleições (mesmo que não estejam prontos para me dizer isso honestamente agora), então realizem essas eleições de forma honesta. Realizem-nas de maneira que o povo ucraniano as reconheça, antes de tudo. E vocês mesmos devem reconhecer que são eleições legítimas'."

Volodymyr Zelensky tem opositores e críticos severos na Ucrânia. Seu governo foi abalado no outono passado por um escândalo de corrupção que levou à saída de seu conselheiro mais próximo. Ainda assim, com uma nova equipe, Zelensky mantém índices de aprovação que a maioria dos líderes da Europa Ocidental só poderia desejar. Ele irritou aliados em alguns momentos com demandas constantes por mais e melhores equipamentos. Uma das acusações feitas contra ele no Salão Oval por Trump e Vance, há um ano, foi a de que não demonstrava gratidão suficiente.

O item mais recente de sua lista é autorização para fabricar armas americanas sob licença, incluindo mísseis de defesa aérea Patriot. "Hoje a questão é a defesa aérea. Este é o problema mais difícil. Infelizmente, nossos parceiros ainda não nos concedem licenças para produzir sistemas por conta própria, por exemplo, sistemas Patriot, ou mesmo mísseis para os sistemas que já temos. Até agora, não obtivemos sucesso nisso."

Por que eles não fazem isso?

"Não sei. Não tenho resposta."

Ao final da entrevista, ele passou do ucraniano para o inglês.

Diante de tudo o que havia dito, perguntei se deveríamos nos preparar para uma guerra ainda mais longa na Ucrânia.

"Não, não, não, são duas trilhas paralelas... você está jogando xadrez com muitos líderes, não com a Rússia. Não há um único caminho certo. É preciso escolher muitos passos paralelos, muitas direções paralelas. E uma dessas vias paralelas, acredito, trará sucesso. Para nós, sucesso é deter Putin."

Mas Vladimir Putin não vai encerrar esta guerra, vai? A menos que esteja sob pressão massiva — e ele não parece estar. "Sim e não. Veremos. Sim e não. Ele não quer, mas não querer não significa que não fará. Deus abençoe. Deus abençoe, teremos sucesso. Obrigado." E, com isso, posou para fotos, apertou as mãos da equipe da BBC e saiu da sala a passos largos.

¨      A cidade russa que perdeu quase todos seus homens para a guerra

Na vila de pescadores de Sedanka, no extremo leste da Rússia, a vida é difícil. A maioria das casas não tem serviços básicos, como água encanada, banheiro interno e aquecimento central, mesmo com temperaturas que costumam chegar a -10°C nos meses de inverno. Cercada por floresta-tundra e áreas pantanosas, o centro da vila só é acessível de maio a outubro por barcos ou veículos de tração por esteiras e, no inverno, exclusivamente por moto de neve (snowmobile) ou helicóptero.

Há poucos empregos locais, e a maior parte da população vive da pesca e do cultivo do próprio alimento. Os lixões atraem visitantes perigosos, como o urso-pardo-de-Kamchatka, que está entre os maiores do mundo. Ainda assim, Sedanka enfrenta um desafio mais recente.Segundo os próprios moradores, quase todos os homens de Sedanka com idades entre 18 e 55 anos deixaram o local após se juntarem à guerra da Rússia na Ucrânia.

<><> 'Não há ninguém para cortar lenha'

"É de partir o coração — muitas das nossas pessoas foram mortas", declara Natalia, moradora cujo nome foi alterado por razões de segurança, em entrevista ao Serviço Mundial da BBC. "O marido da minha irmã e meus primos estão na linha de frente. Em quase todas as famílias, há alguém lutando."

Localizada no extremo noroeste da Península de Kamchatka, próxima ao Mar de Okhotsk, Sedanka fica a mais de 7.000 km das linhas de frente na Ucrânia. A cidade americana de Anchorage, do outro lado do oceano, está a cerca de metade dessa distância.

De um total de 258 habitantes, 39 homens da vila assinaram contratos com a Rússia para lutar na guerra. Destes, 12 morreram e outros sete estão desaparecidos. "Todos os nossos homens partiram para a operação militar especial", afirmou um grupo de mulheres ao governador da região, durante visita em março de 2024, utilizando a expressão adotada pelo governo russo para se referir à guerra na Ucrânia. "Não há ninguém para cortar lenha para o inverno e aquecer nossos fogões", acrescentaram, em diálogo exibido pela televisão estatal.

A BBC, em conjunto com o site russo Mediazona e pesquisadores voluntários, verificou até agora que 40.201 soldados russos morreram em 2025. Segundo a nossa análise, estimamos que o total de mortos confirmados em 2025 chegará a 80 mil, o que tornaria este o ano mais letal para as perdas russas na Ucrânia desde o início da invasão em larga escala, iniciada em 24/2/2022.

Esse cálculo leva em conta obituários que indicam 2025 como o ano da morte ou do sepultamento, mas são dados que ainda não foram totalmente processados nem cruzados. As mortes confirmadas em 2024 somam agora 69.362 — número aproximadamente comparável à soma de 2022 e 2023 —, e a curva se acentuou desde o fim de 2024.

As confirmações foram feitas com base em comunicados oficiais e em um registro de inventários — cadastro oficial de processos abertos após a morte de uma pessoa —, além de reportagens de jornais, publicações em redes sociais feitas por familiares ou amigos próximos e dados de novos memoriais e túmulos. Ao todo, a BBC identificou até agora 186.102 soldados russos mortos no conflito.

O número real de mortos é geralmente considerado muito mais alto, já que muitas mortes no campo de batalha não são registradas. Especialistas militares avaliam que nossa análise pode representar entre 45% e 65% do total, o que situaria o número potencial de mortos russos entre 286 mil e 413,5 mil.

A Ucrânia também sofreu perdas significativas.

No mês passado, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse à emissora francesa France 2 que, "oficialmente", 55 mil ucranianos foram mortos no campo de batalha. Além disso, um "grande número de pessoas" é considerado oficialmente desaparecido, afirmou ele, sem apresentar um número exato.

Com base em estimativas de fontes como o site UA Losses, cujos dados foram cruzados pela BBC, estimamos que o número de ucranianos mortos possa chegar a 200 mil. A maior parte dos russos mortos na guerra tem sobrenomes de origem eslava. Mas as perdas são desproporcionalmente altas entre pequenos grupos indígenas, especialmente em áreas economicamente desfavorecidas da Sibéria e do extremo leste, como Sedanka.

Sedanka é habitada principalmente por koryaks e itelmens — povos indígenas que, pelas regras em vigor durante a guerra, podem ser isentos da mobilização.

A ativista antiguerra Maria Vyushkova afirma que a televisão estatal russa reforça estereótipos de que comunidades indígenas seriam "guerreiros natos" e atiradores habilidosos para incentivá-las a se alistar na guerra. "Muitas comunidades indígenas se orgulham dessa herança como parte de sua identidade. A Rússia usa esse orgulho para recrutar para a guerra", disse Vyushkova.

Entre os moradores de Sedanka que aderiram à guerra está Vladimir Akeev, 45, caçador e pescador, que assinou contrato com o Exército no verão de 2024. Quatro meses depois, ele foi morto em combate. No funeral, em novembro de 2024, as pessoas só conseguiram chegar ao cemitério de moto de neve, e o caixão de Akeev foi transportado em largos trenós de madeira.

Em outras regiões, as perdas confirmadas entre povos indígenas incluem 201 nenets, 96 chukchi, 77 khanty, 30 koryaks e sete inuítes. Entre homens de 18 a 60 anos, isso representa aproximadamente 2% dos chukchi, 1,4% dos inuítes russos, 1,32% dos koryaks e 0,8% dos khanty.

A análise da BBC mostra que 67% dos mortos são de áreas rurais e cidades pequenas — definidas como aquelas com menos de 100 mil habitantes —, embora 48% da população russa more nesses locais. A taxa de perdas foi menor nas grandes cidades. Moscou, capital da Rússia, registrou o menor número de mortes per capita: cinco a cada 10 mil homens, ou 0,05%.

Em regiões mais pobres, como Buryatia, no leste da Sibéria, e Tuva, no sul da Sibéria, a taxa de mortalidade é, respectivamente, de 27 e 33 vezes maior do que na capital.

O principal fator por trás dessa diferença entre centros urbanos e áreas rurais é a desigualdade em desenvolvimento econômico, renda e educação, afirma o demógrafo Alexey Raksha.

Como resultado, soldados de regiões mais pobres e de minorias étnicas representam uma parcela maior do Exército e dos mortos do que sua participação na população total, explicou Raksha.

Regiões com elevada proporção de perdas já apresentavam menor expectativa de vida antes mesmo de seus homens irem para a guerra, afirmou outro demógrafo russo à BBC. "Para muitos, o fator determinante não é apenas a pobreza, mas a falta de perspectivas — a sensação de que não há nada a perder", disse.

Em Sedanka, foi inaugurado, no outono de 2024, um monumento dedicado aos "participantes da operação militar especial".

No ano passado, o governo regional prometeu conceder o título honorário de "vila de valor militar" em reconhecimento à participação de seus homens na guerra.

Anunciou também um programa de assistência às famílias dos militares da vila.

No entanto, a vila ainda não recebeu o título honorário, nem a maior parte do apoio prometido às famílias dos soldados foi entregue.

Os telhados das casas de quatro soldados foram consertados após entrarem em estado de deterioração, mas apenas depois de ampla repercussão na imprensa.

Uma em cada cinco casas, construídas na era soviética, foi considerada insegura pelo Estado. A única escola da vila foi considerada pelas autoridades em estado de emergência, com algumas paredes sob risco de desabamento.

Tudo isso foi agravado pela perda dos homens em idade ativa para a guerra da Rússia na Ucrânia.

 

Fonte: BBC News Rússia

 

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