Investimento
‘verde’ na Caramuru cita fornecedores autuados por desmate
NA
OFERTA PÚBLICA de um título financeiro “verde” disponibilizado a investidores
do mercado de capitais, a fabricante de alimentos e biodiesel Caramuru listou
três fornecedores com embargos ambientais aplicados pelo Ibama (Instituto
Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis) entre os potenciais
destinatários de recursos obtidos através da operação. Juntos, eles foram
responsabilizados pelo desmate ilegal de uma área equivalente a cerca de 350
campos de futebol.
O
título em questão é um CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio),
instrumento utilizado para financiar atividades da agropecuária. Ao ser
rotulado como “verde”, a companhia aponta que a operação segue princípios
sustentáveis. O CRA da Caramuru foi emitido em setembro de 2021. Com vencimento
em setembro de 2027, o título ainda é
ofertado no mercado.
Os
informes públicos sobre a operação não listam com quais fazendas dos produtores
autuados a Caramuru mantém negócios. Em resposta à Repórter Brasil, a companhia
também não esclareceu este ponto, mas afirmou que as propriedades das quais
origina grãos não possuíam qualquer embargo do Ibama no momento em que o CRA
foi emitido.
A
empresa, que compra soja, milho e outras matérias-primas agropecuárias, também
disse realizar o monitoramento contínuo de seus fornecedores com base em
critérios socioambientais, e informou, ainda, que “qualquer inconformidade
acarreta no bloqueio da propriedade em questão”.
Para
Maria Eduarda Senna Mury, diretora de estratégia do Instituto Dados e
especialista em títulos financeiros, mesmo que os embargos estejam em fazendas
com as quais a Caramuru não mantém negócios diretos, mas se o produtor tem
restrição ambiental durante a oferta do título acende um alerta. “A ocorrência
sugere fragilidade de diligência e de critérios de elegibilidade ‘verde’ pelo
beneficiário econômico [Caramuru Alimentos], indicando risco reputacional e
potencial questionamento do enquadramento ambiental da operação”, avalia.
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Fornecedores embargados
José
Roberto Marques teve 71,6 hectares embargados pelo Ibama em setembro de 2020
por desmatamento ilegal realizado na Fazenda Goiatuba, em Canarana (MT). Nesse
caso, o produtor já tinha restrição ambiental registrada em uma de suas
fazendas no momento da emissão do CRA “verde”.
Clairton
Machado Negrão teve 275,2 hectares embargados pelo Ibama em julho de 2023 na
Fazenda Manicorezinho, em Nova Aripuanã (AM). Já Arnaldo Paganelli Junqueira,
outro produtor listado no prospecto do CRA, teve 6,9 hectares embargados em
dezembro de 2024 em propriedades localizadas em Santa Cruz de Goiás (GO). Ambos
foram autuados após a emissão do título “verde” da Caramuru.
A
reportagem não conseguiu contato com os três produtores mencionados, nem
retorno de seus advogados até a publicação. O espaço segue disponível para
futuras manifestações.
A
Repórter Brasil também procurou a securitizadora Ecoagro, responsável por
estruturar a emissão do CRA da Caramuru, mas não houve resposta até a publicação da reportagem. O texto será
atualizado em caso de manifestação futura.
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O que faz um título financeiro ser rotulado como ‘verde’?
O
título financeiro da Caramuru Alimentos foi caracterizado como “verde” (“green
bond”, no termo em inglês). Nessa categoria, os recursos captados devem ser
destinados para projetos com benefícios ao meio ambiente e obedecer diretrizes
internacionais, como a do Green Bonds Principles (Princípios para Títulos
Verde, na tradução para o português), definidas pela ICMA (Associação
Internacional do Mercado de Capitais, na tradução para português), e seguidas
por investidores no mundo todo.
Segundo
a oferta pública, o CRA se alinha aos princípios por “benefícios ambientais e
climáticos gerados pela compra de soja para produção de biodiesel, fomento à
produção agrícola sustentável, processamento primário e armazenamento e
contratação de serviços logísticos com baixa emissão de gases de efeito estufa
(GEE)”.
Como
boa prática, as empresas que emitem seus títulos verdes buscam consultorias
para analisarem a operação. Em 2021, a Caramuru contratou a consultoria
Resultante para produzir o parecer de segunda opinião que classificou o CRA
como “verde”. No documento, a consultoria afirmou que a operação atende aos
critérios porque a Caramuru “apresenta um modelo de avaliação e monitoramento
de fornecedores/produtores” que inclui aspectos socioambientais, como
desmatamento, embargos, sobreposição de áreas protegidas e ocorrência de
trabalho escravo e/ou infantil.
O
parecer, porém, ressalta que a avaliação “se baseia em informações públicas
e/ou autodeclaradas” e que “não possui caráter de auditoria” — ou seja, não
atesta a veracidade das informações apresentadas pela contratante.
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Presença de desmatadores pode representar risco reputacional
Especialistas
que analisaram o título afirmam que a presença de fornecedores com embargos por
desmatamento pode representar um risco reputacional para as empresas envolvidas
na operação, incluindo os bancos que distribuem os papéis no mercado — neste
caso, BTG Pactual e UBS BB.
“Vejo
com muito ceticismo os CRAs ditos verdes. Há um conflito de interesses, pois o
contratante é quem tem interesse na certificação e um eventual endurecimento
nos critérios poderia significar a não contratação mais da certificadora [do
parecer independente]”, opina João Pacífico, CEO do Grupo Gaia, securitizadora
que estrutura investimentos com impacto socioambiental positivo.
“É
apenas um greenwashing para tentar limpar a consciência e usar no marketing.
Não haver regras facilita isso. Se houver regras, como deveria, acho que o
resultado seriam menos operações verdes”, avalia Pacífico.
A
Resultante foi comprada em 2022 pela consultoria KPMG. Consultada, a KPMG disse
que “não tem qualquer responsabilidade” sobre os trabalhos executados pela
Resultante no período anterior a 2022. A Repórter Brasil também procurou o
antigo dono da Resultante que produziu o parecer do CRA da Caramuru, mas ele
não respondeu até a publicação desta reportagem. O texto será atualizado em
caso de futuras manifestações.
Procurado
pela reportagem, o BTG Pactual não quis comentar.
A UBS
BB disse que não oferece “serviços financeiros ou de consultoria para empresas
cuja principal atividade comercial está associada ao desmatamento ilegal ou à
floresta de alto valor de conservação”. Também afirmou que aplica “diretrizes
globais do UBS para os riscos de sustentabilidade e riscos climáticos”. O banco
não respondeu se consultou bases públicas, como as informações de embargos do
Ibama ou órgãos fiscalizadores, nem se vê risco reputacional com existência de
produtores listados no CRA terem restrição ambiental. A resposta completa pode
ser lida aqui.
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Novo parecer classificou como ‘excelente’ políticas de compras da empresa
A
oferta do CRA prevê a produção de um parecer independente até dois anos após a
emissão do título para verificar se a operação segue alinhada aos Green Bond
Principles. No site da companhia de grãos estão disponíveis pareceres de
segunda opinião realizados pela AttestESG, consultoria sobre finanças
sustentáveis da revista Exame, adquirida pelo BTG Pactual em 2019.
Os
relatórios da AttestESG de 2023 e 2025 afirmam que a estrutura de
financiamentos verdes da Caramuru está alinhada aos princípios da ICMA. Os
pareceres da consultoria classificam como “excelentes” e “positivas” as
políticas de compras da empresa.
A
reportagem procurou a AttestESG para obter esclarecimentos sobre a operação e
sobre eventual conflito de interesses nos pareceres, já que a consultoria
pertence ao BTG Pactual, responsável pela distribuição do CRA “verde” ao
mercado. A AttestESG afirmou que “não
emitiu pareceres sobre dívidas verdes emitidas pela Caramuru na referida data”
e que a “auditoria de toda a cadeia de fornecedores não faz parte do escopo
deste tipo de parecer”.
A
Repórter Brasil voltou a questionar a consultoria para esclarecer a que data
ela se refere, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem. O
texto será atualizado em caso de respostas futuras.
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Fornecedora das fabricantes de chocolate Lindt e Ferrero
A
Caramuru é apontada como uma das maiores processadoras de grãos do país. Em
2025, a companhia figurou na 47ª posição entre as 100 maiores empresas do
agronegócio brasileiro, segundo ranking da revista Forbes.
No
mesmo ano, a Caramuru forneceu lecitina de soja para as fabricantes
multinacionais de chocolate Lindt, da Suíça, e Ferrero, da Itália, de acordo
com dados alfandegários acessados pela Repórter Brasil.
Procurada,
a Ferrero confirmou que a Caramuru é fornecedora da empresa e que está sujeita
ao seu processo de devida diligência, que inclui avaliação de riscos ESG (sigla
para Ambiental, Social e Governança) e auditorias. A companhia italiana também
disse que tem “forte compromisso com cadeias de fornecimento responsáveis e
livres de desmatamento, utilizando sistemas robustos de rastreabilidade e
monitoramento, além de auditorias independentes para garantir conformidade
socioambiental”.
Já a
Lindt respondeu que não comenta relações com fornecedores, mas que está
comprometida em combater o desmatamento causado pela produção de commodities em
suas cadeias de suprimentos. “Nossa Política de Não Desmatamento e nossas
Diretrizes de Não Desmatamento, válidas para todo o Grupo, abrangem cacau, óleo
de palma, soja e papel/celulose e estabelecem uma abordagem de due diligence
que inclui rastreabilidade e transparência, avaliação de riscos e ações de
mitigação de riscos”, afirmou a companhia.
• Confira as manifestações da Caramuru, do
UBS BB, da AttestESG, da Lindt & Sprüngli e da Ferrero
>>>>
Caramuru
# 19 de
dezembro de 2025
A
Caramuru Alimentos esclarece que nenhuma propriedade pertencente aos produtores
citados possuía qualquer embargo no Ibama no momento da emissão do CRA, em
conformidade com o Decreto nº 6.514/2008. A empresa realiza o monitoramento
contínuo de sua cadeia de fornecimento com base em critérios socioambientais,
em conformidade com a legislação vigente e sua política interna de compliance,
e qualquer inconformidade acarreta no bloqueio da propriedade em questão.
#16 de
janeiro
Todas
as informações referentes aos SPOs da emissão desse CRA estão arquivadas na
CVM, bem como no site de RI da companhia.
# 9 de
fevereiro
A
Caramuru Alimentos esclarece que as propriedades das quais originamos grãos dos
produtores citados não possuíam qualquer embargo no Ibama no momento da emissão
do CRA, em conformidade com o Decreto nº 6.514/2008. A empresa realiza o
monitoramento contínuo de sua cadeia de fornecimento com base em critérios
socioambientais, em conformidade com a legislação vigente e sua política
interna de compliance, e qualquer inconformidade acarreta no bloqueio da
propriedade em questão.
¬¬¬¬
Pergunta da Repórter Brasil: O município indicado na lista (Anexo XIV) é onde o
produtor comercializa ou tem a fazenda produtora que origina os grãos usados
pela Caramuru?
# 20 de
fevereiro
O Anexo
XIV do documento compartilhado refere-se a informações obrigatórias exigidas
pela regulamentação aplicável à oferta pública de Certificados de Recebíveis do
Agronegócio (CRA), nos termos da Instrução CVM vigente à época e das normas da
ANBIMA.
A
Caramuru Alimentos S.A. cumpre integralmente a legislação brasileira vigente,
incluindo normas ambientais, trabalhistas e de rastreabilidade. Para mais
informações sobre nossas práticas de sustentabilidade, origem responsável e
políticas relacionadas, consulte a seção dedicada em nosso site oficial:
https://www.caramuru.com/?page_id=3990.
>>>>
UBS BB
Aplicamos
diretrizes globais do UBS para os riscos de sustentabilidade e riscos
climáticos. Essas diretrizes nos ajudam a identificar e endereçar possíveis
efeitos adversos sobre o clima, o meio ambiente e os direitos humanos, bem como
os riscos associados a eles para nossos clientes e para o UBS.
Apoiamos
nossos clientes na transição para um futuro de baixo carbono e não oferecemos
serviços financeiros ou de consultoria para empresas cuja principal atividade
comercial está associada ao desmatamento ilegal ou à floresta de alto valor de
conservação.
Nosso
framework da política de riscos de sustentabilidade e riscos climáticos é
divulgado de forma transparente no site www.ubs.com/sustainability-reporting.
Embora
não possamos comentar sobre supostos relacionamentos ou transações com
clientes, exemplos concretos de como aplicamos nossos padrões no setor agrícola
e desempenhamos um papel ativo na transição, fornecemos vários estudos de caso
no Suplemento do Relatório de Sustentabilidade 2024 (veja as páginas 41-43;
também disponível em www.ubs.com/sustainability-reporting ).
>>>>
AttestESG
A
AttestESG não emitiu pareceres sobre dívidas verdes emitidas pela Caramuru na
referida data. Além disso, a auditoria de toda a cadeia de fornecedores não faz
parte do escopo deste tipo de parecer.
>>> Lindt & Sprüngli
Lindt & Sprüngli is committed to addressing
commodity-led deforestation in our supply chains. Our Group-wide
No-Deforestation Policy and No-Deforestation Guidelines cover cocoa, palm oil,
soy, and paper/pulp and set out a due diligence approach that includes
traceability and transparency, risk assessment, risk mitigation actions (e.g.,
certified sourcing and supplier engagement), ongoing monitoring, access to
grievance mechanisms, and regular reporting. For the sourcing of soy, we rely
on the ProTerra Standard. For further information on ProTerra, please refer to
their website: https://www.proterrafoundation.org/.
Where non-compliance with our policy or applicable
laws in our supply chain is confirmed, we engage with suppliers and third
parties to take appropriate action. That said, we take the issues you raise
very seriously and are investigating the mentioned cases together with our
supply chain partners.
Lindt
& Sprüngli spokesperson
>>>>
Ferrero
A
Ferrero mantém um forte compromisso com cadeias de fornecimento responsáveis e
livres de desmatamento, utilizando sistemas robustos de rastreabilidade e
monitoramento, além de auditorias independentes para garantir conformidade
socioambiental. A Caramuru Alimentos é atualmente fornecedora de lecitina de
soja e, portanto, está sujeita ao processo de due diligence da empresa, que
inclui avaliação de riscos ESG, auditorias contínuas e verificações.
Ferrero maintains a strong commitment to responsible,
deforestation-free supply chains, using robust traceability and monitoring
systems and independent audits to ensure socio-environmental compliance.
Caramuru Alimentos is currently a supplier of soy lecithin and, therefore, is
subject to the company’s due diligence process, which includes ESG risk
assessment, continuous audits, and verifications.
Fonte:
Reporter Brasil

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