Michel
Goulart: O conhecimento na era da reprodutibilidade infinita
Nos
últimos anos, a divulgação científica ganhou um grande impulso por meio da
tecnologia. Contudo, de forma contraditória, parece que esse processo também
significou uma espécie de crise nas revistas acadêmicas, afinal não apenas o
acesso a essas publicações como a difusão de qualquer texto em qualquer parte
do mundo passaram a ser mais fáceis. Observa-se, com isso, um processo
semelhante ao analisado por Walter Benjamin em relação à arte, em que esta –
ou, agora, a difusão do conhecimento – veem a reprodutibilidade técnica e a
massificação enfraquecendo sua autenticidade.
Em
outro momento, as publicações acadêmicas estavam limitadas à impressão em papel
de um número reduzido de exemplares. Por conta disso, acabavam por ter uma
abrangência limitada, circulando apenas nos grandes centros ou chegando a
lugares mais remotos apenas no caso de algum pesquisador conseguir carregar
exemplares dessa publicação. Contudo, essa dificuldade também perpassava o
próprio processo de construção das edições, se for levado em conta, entre
outros fatores, um processo de avaliação realizado pela circulação de
manuscritos impressos ou mesmo as dificuldades objetivas para a realização de
reuniões das respectivas equipes editoriais se não fossem da mesma região.
Cada
edição de cada revista passava por um processo cuidadoso e demorado, em que os
artigos a serem publicados deveriam ser avaliados com todo o rigor necessário,
tendo o cuidado de difundir aqueles materiais que de fato poderiam ter um
grande impacto para a sua área de conhecimento. O custo de impressão exigia
esse rigor. Diante de todo esse esforço necessário, havia um número reduzido de
publicações e, as que existiam, eram aquelas que conseguiam dispor de uma
melhor estrutura, garantida por universidades ou por centros de pesquisa. O
financiamento dessas publicações poderia ser garantido tanto como parte dos
recursos de pesquisas dos laboratórios ou centros aos quais a publicação estava
vinculada ou pela assinatura de seus leitores.
Estamos
falando de um processo que tinha muitos aspectos artesanais e que davam origem
a um número reduzido de exemplares de uma pequena quantidade de publicações.
Esse processo fazia com que essas publicações tivessem uma certa aura, na
medida em que grandes intelectuais das diversas áreas do conhecimento
contribuíam, fosse escrevendo artigos e ensaios, fosse participando do processo
de editoração da revista. Com isso se atribuía uma valoração simbólica, em que
certas publicações ou mesmo edições de determinadas publicações se mostravam
quase como relíquias dignas de estarem expostas publicamente em destaque.
Na
realidade atual, o processo ocorre de forma totalmente diferenciada. Existe a
possibilidade de maior difusão, por meio de plataformas digitais que permitem a
qualquer pessoa do mundo acessar as edições das revistas publicadas. Outro
elemento passa pela ampliação na possibilidade de publicação aos pesquisadores,
em diversos países. Ou seja, há uma possibilidade de democratização da difusão
do conhecimento e no acesso aos leitores, em especial por meio das publicações
de acesso livre.
Contudo,
esses aspectos, que certamente carregam elementos positivos, guardam também seu
contrário. Não importa a relevância do artigo publicado ou de seu autor para a
área do conhecimento. Esse grande autor estará entre centenas ou mesmo milhares
de outros textos, se perdendo em meio à ampla produção de artigos. Os autores,
por sua vez, podem publicar quase que livremente, independente da qualidade de
sua pesquisa, alcançando números e não necessariamente relevância científica,
sendo impulsionados pela pressão por produtividade que emana da avaliação
acadêmica.
Um dos
elementos que aproxima essa questão da discussão proposta para a arte por
Walter Benjamin passa pelo que o filósofo chama de esfera da autenticidade,
que, “como um todo, escapa à reprodutibilidade, e naturalmente não apenas a
técnica”. Benjamin afirma:
“A
autenticidade de uma coisa é a quintessência de tudo o que foi transmitido pela
tradição, a partir de sua origem, desde sua duração material até o seu
testemunho histórico. Como este depende da materialidade da obra, quando ela se
esquiva do homem através da reprodução, também o testemunho se perde”.
Essa
autenticidade somente poderia ser identificada no modelo antigo de publicações.
Os artigos publicados no modelo recente de difusão do conhecimento são uma peça
digital, disponibilizada em um espaço aberto e desprovido de raízes. Por mais
que possua uma identificação, o Digital Object Identifier (DOI), no final das
contas torna-se um arquivo virtual, em PDF ou em ePUB, que circula entre
e-mails e sites sem que seja possível apontar uma origem material ou mesmo uma
identidade acadêmica própria. Seguindo a analogia a partir de Benjamin, pode-se
afirmar
“[…]
que a técnica de reprodução retira do domínio da tradição o objeto reproduzido.
Na medida em que ela multiplica a reprodução, substituiu a existência única da
obra por uma existência massiva. E, na medida em que essa técnica permite à
reprodução vir ao encontro do espectador, em todas as situações, ela atualiza o
objeto reproduzido”.
Esse
processo, associado à reprodutibilidade da arte, leva ao que Benjamin chama de
destruição da aura, entendida como “uma teia singular, composta de elementos
espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais perto
que ela esteja”. Esses PDFs circulando livremente não possuem elementos
espaciais ou temporais, sendo uma cópia reproduzida indistintamente sempre que
se faz um download. Benjamin chama de “declínio da aura” deriva de
circunstâncias “estreitamente ligadas à crescente difusão e intensidade dos
movimentos de massas”.
O
desenvolvimento tecnológico relacionado à difusão científica mostra um grande
impacto na vida social. Esse processo torna possível ampliar a circulação da
produção do conhecimento, democratizando seu acesso e permitindo uma rápida
difusão das pesquisas concluídas ou mesmo em andamento. Essa possibilidade
tornou-se vital em situações como a da recente pandemia, em que as pessoas
tiveram que se isolar o máximo possível, mas era necessária uma ampla e rápida
difusão das pesquisas realizadas de tal forma a desenvolver mecanismos para
barrar a proliferação da doença.
Contudo,
isso também significa maior facilidade para a criação de periódicos que não
necessariamente carregam a preocupação com a seriedade acadêmica. Com a
facilidade da informática, não é difícil conseguir o uso de plataformas como o
OJS, obter um ISSN e garantir que todos os artigos tenham o DOI. Essa
facilidade leva a uma mercantilização da produção acadêmica, em que a
necessidade de publicar, principalmente por pressão de programas de
pós-graduação, faz com que seja possível a proliferação de periódicos que,
mesmo sendo de qualidade duvidosa, conseguem mostrar uma feição atraente para
quem deseja publicar.
Estamos,
portanto, diante de um processo no qual a reprodutibilidade técnica faz com que
a produção acadêmica perca sua aura. Por um lado, permitindo a sua
democratização, evitando que sejam criados cânones quase inatingíveis para os
pesquisadores, em especial aqueles que atuam em países dominados pelo
imperialismo. Por outro lado, contudo, ao se colocar a pressão por publicação e
produtividade, permite-se a criação de veículos despreocupados com a difusão do
conhecimento e que não visam outra coisa que não seu próprio lucro.
• Janethe Fontes: Do “eu” ao “nós”
Em um
país marcado por profundas desigualdades sociais, raciais e regionais, a
cultura tem sido frequentemente tratada como setor periférico, subordinado a
lógicas de mercado ou a iniciativas pontuais, em vez de ser compreendida como
dimensão estratégica da soberania nacional e da formação cidadã.
A
ausência de um projeto nacional consistente compromete não apenas o acesso à
cultura, mas também a capacidade da sociedade de produzir sentidos coletivos,
preservar a memória histórica e fortalecer identidades sociais. Nesse cenário,
a produção cultural tende a refletir a lógica individualizante do
neoliberalismo, em detrimento de uma perspectiva coletiva, crítica e
verdadeiramente emancipadora.
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Cultura, educação e a lógica neoliberal
A
relação entre cultura, educação e desenvolvimento nacional está diretamente
vinculada ao papel do Estado. Em contextos marcados pela hegemonia neoliberal,
observa-se o deslocamento da responsabilidade pública para o indivíduo,
inclusive no campo educacional e cultural. A educação passa a ser orientada por
discursos individualizantes e meritocráticos, voltados à adaptação ao mercado,
enfraquecendo sua função formadora e crítica.
Paulo
Freire já alertava que, quando a educação não promove consciência crítica,
tende a reforçar a internalização da lógica do opressor, dificultando a
construção de sujeitos históricos capazes de compreender e transformar a
realidade. De modo convergente, bell hooks analisa como essa pedagogia da
responsabilização individual pode assumir a forma de opressão pedagógica, ao
ocultar as condições estruturais que limitam as possibilidades reais de
escolha.
No
campo cultural, esse processo manifesta-se na valorização de trajetórias
individuais de sucesso e na despolitização da produção cultural, frequentemente
reduzida à condição de mercadoria. Karl Marx demonstrou que essa inversão — na
qual desigualdades estruturais são apresentadas como falhas individuais —
constitui o funcionamento da ideologia, pois oculta as condições materiais que
produzem a desigualdade. Achille Mbembe, por sua vez, analisa como o
neoliberalismo fabrica sujeitos obrigados a administrarem a própria
precariedade, como se cada indivíduo fosse uma unidade autogerida. Portanto,
sem um projeto nacional que articule cultura e educação de maneira integrada, a
produção cultural tende a se fragmentar, reproduzindo desigualdades e limitando
seu potencial transformador.
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A experiência chinesa como contraponto analítico
A
experiência chinesa, particularmente a partir da Revolução Cultural e das
transformações educacionais subsequentes, oferece um contraponto analítico
relevante para compreender a relação entre cultura e projeto nacional de
desenvolvimento. Conforme analisa Elias Jabbour, a China incorporou cultura e
educação como elementos estratégicos de construção de soberania, identidade
coletiva e mobilização social. E ainda que a Revolução Cultural chinesa
apresente contradições amplamente debatidas, não se pode ignorar, nem
menosprezar, seu papel na tentativa de romper com o elitismo cultural e ampliar
o acesso à educação e à produção simbólica. As reformas educacionais chinesas
mantiveram a centralidade do planejamento estatal de longo prazo, articulando
cultura, ciência e desenvolvimento econômico.
O ponto
central, conforme destaca Jabbour, não reside na reprodução mecânica desse
modelo, mas na constatação de que projetos nacionais de desenvolvimento
bem-sucedidos tendem a tratar a cultura como eixo estruturante, e não como
política secundária. A cultura, nesse contexto, atua como instrumento de coesão
social, formação crítica e fortalecimento da identidade nacional.
<><>
Escola, juventude e a necessidade de um projeto social
No caso
brasileiro, a ausência de um projeto nacional de desenvolvimento integrado
reflete-se diretamente nos desafios enfrentados pela produção
cultural.
A descontinuidade das políticas públicas, a dependência de mecanismos de
mercado e a fragilidade do financiamento estatal dificultam a consolidação de
um sistema cultural inclusivo e sustentável. Nesse contexto, a escola assume
papel estratégico. A centralidade atribuída, nos currículos recentes, à
disciplina denominada Projeto de Vida expressa uma concepção individualizante
de futuro, na qual o sucesso é compreendido como resultado exclusivo do esforço
pessoal, dissociado das condições sociais, históricas e culturais que moldam as
possibilidades concretas de existência.
Como
contraponto a essa lógica, torna-se relevante analisar propostas que defendem o
deslocamento do foco do Projeto de Vida — enquanto disciplina obrigatória
prevista na BNCC — para um projeto pedagógico de natureza distinta, orientado à
formação de sujeitos capazes de compreender sua inserção coletiva na sociedade.
Esse deslocamento é aqui compreendido como a substituição do componente
curricular Projeto de Vida por um componente denominado Projeto Social, cuja
centralidade deixa de ser o planejamento individual e passa a ser a reflexão
sobre problemas sociais concretos.
A
adoção do Projeto Social como componente curricular implica abandonar a ênfase
no sonho individual isolado e estimular o engajamento crítico dos jovens com
questões relacionadas à desigualdade, à cultura, ao território e às políticas
públicas. Nessa perspectiva, a escola pode contribuir de forma decisiva para a
formação de uma juventude capaz de participar ativamente da elaboração de um
projeto nacional de desenvolvimento que reconheça a cultura como direito e como
prática social fundamental.
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Projeto nacional, cultura e limite planetário
Além
disso, qualquer reflexão contemporânea sobre projeto nacional de
desenvolvimento precisa incorporar, de forma central, a dimensão ambiental. Não
há futuro possível — nem econômico, nem cultural, nem social — dissociado das
condições materiais de existência do próprio planeta. A crise ecológica impõe
limites concretos aos modelos de desenvolvimento baseados na exploração
predatória dos recursos naturais e na lógica individualista de consumo.
Pensar
a cultura como eixo estratégico de um projeto nacional implica, portanto,
promover também uma consciência ecológica coletiva. Nesse sentido, torna-se
evidente a importância de uma inflexão no campo educacional, capaz de articular
formação cultural, engajamento social e responsabilidade ambiental. A
valorização do Projeto Social como componente curricular insere-se nessa
perspectiva, ao favorecer a compreensão das interdependências entre sociedade,
cultura e natureza.
A
formação cultural e educacional desempenha papel fundamental na construção de
valores, práticas e imaginários capazes de questionar a relação historicamente
estabelecida entre sociedade e natureza. Sem essa inflexão, projetos de
desenvolvimento tendem a reproduzir desigualdades, aprofundar a degradação
ambiental e comprometer as possibilidades de vida das próximas gerações. Assim,
não há projeto nacional de desenvolvimento sem um projeto de planeta. A
sustentabilidade deixa de ser um complemento e passa a constituir fundamento
indispensável de qualquer proposta que pretenda articular cultura, educação e
futuro coletivo.
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Conclusão
No
contexto brasileiro, superar a fragmentação cultural exige abandonar a lógica
estritamente individualista e recuperar a capacidade de imaginar transformações
coletivas. Isso implica repensar o papel da escola, fortalecer propostas
pedagógicas orientadas para o Projeto Social enquanto componente curricular, e
compreender a cultura como direito, como prática social e como elemento
fundamental da democracia.
Por
fim, qualquer projeto nacional que se pretenda consistente deve reconhecer os
limites ecológicos do desenvolvimento. Sem planeta, não há projeto de
desenvolvimento possível. Com cultura, educação crítica e consciência
ecológica, abre-se a possibilidade de construir uma sociedade mais justa,
solidária e capaz de pensar coletivamente o seu futuro.
Fonte:
Outras Palavras

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