quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Michel Goulart: O conhecimento na era da reprodutibilidade infinita

Nos últimos anos, a divulgação científica ganhou um grande impulso por meio da tecnologia. Contudo, de forma contraditória, parece que esse processo também significou uma espécie de crise nas revistas acadêmicas, afinal não apenas o acesso a essas publicações como a difusão de qualquer texto em qualquer parte do mundo passaram a ser mais fáceis. Observa-se, com isso, um processo semelhante ao analisado por Walter Benjamin em relação à arte, em que esta – ou, agora, a difusão do conhecimento – veem a reprodutibilidade técnica e a massificação enfraquecendo sua autenticidade.

Em outro momento, as publicações acadêmicas estavam limitadas à impressão em papel de um número reduzido de exemplares. Por conta disso, acabavam por ter uma abrangência limitada, circulando apenas nos grandes centros ou chegando a lugares mais remotos apenas no caso de algum pesquisador conseguir carregar exemplares dessa publicação. Contudo, essa dificuldade também perpassava o próprio processo de construção das edições, se for levado em conta, entre outros fatores, um processo de avaliação realizado pela circulação de manuscritos impressos ou mesmo as dificuldades objetivas para a realização de reuniões das respectivas equipes editoriais se não fossem da mesma região.

Cada edição de cada revista passava por um processo cuidadoso e demorado, em que os artigos a serem publicados deveriam ser avaliados com todo o rigor necessário, tendo o cuidado de difundir aqueles materiais que de fato poderiam ter um grande impacto para a sua área de conhecimento. O custo de impressão exigia esse rigor. Diante de todo esse esforço necessário, havia um número reduzido de publicações e, as que existiam, eram aquelas que conseguiam dispor de uma melhor estrutura, garantida por universidades ou por centros de pesquisa. O financiamento dessas publicações poderia ser garantido tanto como parte dos recursos de pesquisas dos laboratórios ou centros aos quais a publicação estava vinculada ou pela assinatura de seus leitores.

Estamos falando de um processo que tinha muitos aspectos artesanais e que davam origem a um número reduzido de exemplares de uma pequena quantidade de publicações. Esse processo fazia com que essas publicações tivessem uma certa aura, na medida em que grandes intelectuais das diversas áreas do conhecimento contribuíam, fosse escrevendo artigos e ensaios, fosse participando do processo de editoração da revista. Com isso se atribuía uma valoração simbólica, em que certas publicações ou mesmo edições de determinadas publicações se mostravam quase como relíquias dignas de estarem expostas publicamente em destaque.

Na realidade atual, o processo ocorre de forma totalmente diferenciada. Existe a possibilidade de maior difusão, por meio de plataformas digitais que permitem a qualquer pessoa do mundo acessar as edições das revistas publicadas. Outro elemento passa pela ampliação na possibilidade de publicação aos pesquisadores, em diversos países. Ou seja, há uma possibilidade de democratização da difusão do conhecimento e no acesso aos leitores, em especial por meio das publicações de acesso livre.

Contudo, esses aspectos, que certamente carregam elementos positivos, guardam também seu contrário. Não importa a relevância do artigo publicado ou de seu autor para a área do conhecimento. Esse grande autor estará entre centenas ou mesmo milhares de outros textos, se perdendo em meio à ampla produção de artigos. Os autores, por sua vez, podem publicar quase que livremente, independente da qualidade de sua pesquisa, alcançando números e não necessariamente relevância científica, sendo impulsionados pela pressão por produtividade que emana da avaliação acadêmica.

Um dos elementos que aproxima essa questão da discussão proposta para a arte por Walter Benjamin passa pelo que o filósofo chama de esfera da autenticidade, que, “como um todo, escapa à reprodutibilidade, e naturalmente não apenas a técnica”. Benjamin afirma:

“A autenticidade de uma coisa é a quintessência de tudo o que foi transmitido pela tradição, a partir de sua origem, desde sua duração material até o seu testemunho histórico. Como este depende da materialidade da obra, quando ela se esquiva do homem através da reprodução, também o testemunho se perde”.

Essa autenticidade somente poderia ser identificada no modelo antigo de publicações. Os artigos publicados no modelo recente de difusão do conhecimento são uma peça digital, disponibilizada em um espaço aberto e desprovido de raízes. Por mais que possua uma identificação, o Digital Object Identifier (DOI), no final das contas torna-se um arquivo virtual, em PDF ou em ePUB, que circula entre e-mails e sites sem que seja possível apontar uma origem material ou mesmo uma identidade acadêmica própria. Seguindo a analogia a partir de Benjamin, pode-se afirmar

“[…] que a técnica de reprodução retira do domínio da tradição o objeto reproduzido. Na medida em que ela multiplica a reprodução, substituiu a existência única da obra por uma existência massiva. E, na medida em que essa técnica permite à reprodução vir ao encontro do espectador, em todas as situações, ela atualiza o objeto reproduzido”.

Esse processo, associado à reprodutibilidade da arte, leva ao que Benjamin chama de destruição da aura, entendida como “uma teia singular, composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja”. Esses PDFs circulando livremente não possuem elementos espaciais ou temporais, sendo uma cópia reproduzida indistintamente sempre que se faz um download. Benjamin chama de “declínio da aura” deriva de circunstâncias “estreitamente ligadas à crescente difusão e intensidade dos movimentos de massas”.

O desenvolvimento tecnológico relacionado à difusão científica mostra um grande impacto na vida social. Esse processo torna possível ampliar a circulação da produção do conhecimento, democratizando seu acesso e permitindo uma rápida difusão das pesquisas concluídas ou mesmo em andamento. Essa possibilidade tornou-se vital em situações como a da recente pandemia, em que as pessoas tiveram que se isolar o máximo possível, mas era necessária uma ampla e rápida difusão das pesquisas realizadas de tal forma a desenvolver mecanismos para barrar a proliferação da doença.

Contudo, isso também significa maior facilidade para a criação de periódicos que não necessariamente carregam a preocupação com a seriedade acadêmica. Com a facilidade da informática, não é difícil conseguir o uso de plataformas como o OJS, obter um ISSN e garantir que todos os artigos tenham o DOI. Essa facilidade leva a uma mercantilização da produção acadêmica, em que a necessidade de publicar, principalmente por pressão de programas de pós-graduação, faz com que seja possível a proliferação de periódicos que, mesmo sendo de qualidade duvidosa, conseguem mostrar uma feição atraente para quem deseja publicar.

Estamos, portanto, diante de um processo no qual a reprodutibilidade técnica faz com que a produção acadêmica perca sua aura. Por um lado, permitindo a sua democratização, evitando que sejam criados cânones quase inatingíveis para os pesquisadores, em especial aqueles que atuam em países dominados pelo imperialismo. Por outro lado, contudo, ao se colocar a pressão por publicação e produtividade, permite-se a criação de veículos despreocupados com a difusão do conhecimento e que não visam outra coisa que não seu próprio lucro.

•        Janethe Fontes: Do “eu” ao “nós”

Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, raciais e regionais, a cultura tem sido frequentemente tratada como setor periférico, subordinado a lógicas de mercado ou a iniciativas pontuais, em vez de ser compreendida como dimensão estratégica da soberania nacional e da formação cidadã.

A ausência de um projeto nacional consistente compromete não apenas o acesso à cultura, mas também a capacidade da sociedade de produzir sentidos coletivos, preservar a memória histórica e fortalecer identidades sociais. Nesse cenário, a produção cultural tende a refletir a lógica individualizante do neoliberalismo, em detrimento de uma perspectiva coletiva, crítica e verdadeiramente emancipadora.

<><> Cultura, educação e a lógica neoliberal

A relação entre cultura, educação e desenvolvimento nacional está diretamente vinculada ao papel do Estado. Em contextos marcados pela hegemonia neoliberal, observa-se o deslocamento da responsabilidade pública para o indivíduo, inclusive no campo educacional e cultural. A educação passa a ser orientada por discursos individualizantes e meritocráticos, voltados à adaptação ao mercado, enfraquecendo sua função formadora e crítica.

Paulo Freire já alertava que, quando a educação não promove consciência crítica, tende a reforçar a internalização da lógica do opressor, dificultando a construção de sujeitos históricos capazes de compreender e transformar a realidade. De modo convergente, bell hooks analisa como essa pedagogia da responsabilização individual pode assumir a forma de opressão pedagógica, ao ocultar as condições estruturais que limitam as possibilidades reais de escolha.

No campo cultural, esse processo manifesta-se na valorização de trajetórias individuais de sucesso e na despolitização da produção cultural, frequentemente reduzida à condição de mercadoria. Karl Marx demonstrou que essa inversão — na qual desigualdades estruturais são apresentadas como falhas individuais — constitui o funcionamento da ideologia, pois oculta as condições materiais que produzem a desigualdade. Achille Mbembe, por sua vez, analisa como o neoliberalismo fabrica sujeitos obrigados a administrarem a própria precariedade, como se cada indivíduo fosse uma unidade autogerida. Portanto, sem um projeto nacional que articule cultura e educação de maneira integrada, a produção cultural tende a se fragmentar, reproduzindo desigualdades e limitando seu potencial transformador.

<><> A experiência chinesa como contraponto analítico

A experiência chinesa, particularmente a partir da Revolução Cultural e das transformações educacionais subsequentes, oferece um contraponto analítico relevante para compreender a relação entre cultura e projeto nacional de desenvolvimento. Conforme analisa Elias Jabbour, a China incorporou cultura e educação como elementos estratégicos de construção de soberania, identidade coletiva e mobilização social. E ainda que a Revolução Cultural chinesa apresente contradições amplamente debatidas, não se pode ignorar, nem menosprezar, seu papel na tentativa de romper com o elitismo cultural e ampliar o acesso à educação e à produção simbólica. As reformas educacionais chinesas mantiveram a centralidade do planejamento estatal de longo prazo, articulando cultura, ciência e desenvolvimento econômico.

O ponto central, conforme destaca Jabbour, não reside na reprodução mecânica desse modelo, mas na constatação de que projetos nacionais de desenvolvimento bem-sucedidos tendem a tratar a cultura como eixo estruturante, e não como política secundária. A cultura, nesse contexto, atua como instrumento de coesão social, formação crítica e fortalecimento da identidade nacional.

<><> Escola, juventude e a necessidade de um projeto social

No caso brasileiro, a ausência de um projeto nacional de desenvolvimento integrado reflete-se diretamente nos desafios enfrentados pela produção

cultural. A descontinuidade das políticas públicas, a dependência de mecanismos de mercado e a fragilidade do financiamento estatal dificultam a consolidação de um sistema cultural inclusivo e sustentável. Nesse contexto, a escola assume papel estratégico. A centralidade atribuída, nos currículos recentes, à disciplina denominada Projeto de Vida expressa uma concepção individualizante de futuro, na qual o sucesso é compreendido como resultado exclusivo do esforço pessoal, dissociado das condições sociais, históricas e culturais que moldam as possibilidades concretas de existência.

Como contraponto a essa lógica, torna-se relevante analisar propostas que defendem o deslocamento do foco do Projeto de Vida — enquanto disciplina obrigatória prevista na BNCC — para um projeto pedagógico de natureza distinta, orientado à formação de sujeitos capazes de compreender sua inserção coletiva na sociedade. Esse deslocamento é aqui compreendido como a substituição do componente curricular Projeto de Vida por um componente denominado Projeto Social, cuja centralidade deixa de ser o planejamento individual e passa a ser a reflexão sobre problemas sociais concretos.

A adoção do Projeto Social como componente curricular implica abandonar a ênfase no sonho individual isolado e estimular o engajamento crítico dos jovens com questões relacionadas à desigualdade, à cultura, ao território e às políticas públicas. Nessa perspectiva, a escola pode contribuir de forma decisiva para a formação de uma juventude capaz de participar ativamente da elaboração de um projeto nacional de desenvolvimento que reconheça a cultura como direito e como prática social fundamental.

<><> Projeto nacional, cultura e limite planetário

Além disso, qualquer reflexão contemporânea sobre projeto nacional de desenvolvimento precisa incorporar, de forma central, a dimensão ambiental. Não há futuro possível — nem econômico, nem cultural, nem social — dissociado das condições materiais de existência do próprio planeta. A crise ecológica impõe limites concretos aos modelos de desenvolvimento baseados na exploração predatória dos recursos naturais e na lógica individualista de consumo.

Pensar a cultura como eixo estratégico de um projeto nacional implica, portanto, promover também uma consciência ecológica coletiva. Nesse sentido, torna-se evidente a importância de uma inflexão no campo educacional, capaz de articular formação cultural, engajamento social e responsabilidade ambiental. A valorização do Projeto Social como componente curricular insere-se nessa perspectiva, ao favorecer a compreensão das interdependências entre sociedade, cultura e natureza.

A formação cultural e educacional desempenha papel fundamental na construção de valores, práticas e imaginários capazes de questionar a relação historicamente estabelecida entre sociedade e natureza. Sem essa inflexão, projetos de desenvolvimento tendem a reproduzir desigualdades, aprofundar a degradação ambiental e comprometer as possibilidades de vida das próximas gerações. Assim, não há projeto nacional de desenvolvimento sem um projeto de planeta. A sustentabilidade deixa de ser um complemento e passa a constituir fundamento indispensável de qualquer proposta que pretenda articular cultura, educação e futuro coletivo.

<><> Conclusão

No contexto brasileiro, superar a fragmentação cultural exige abandonar a lógica estritamente individualista e recuperar a capacidade de imaginar transformações coletivas. Isso implica repensar o papel da escola, fortalecer propostas pedagógicas orientadas para o Projeto Social enquanto componente curricular, e compreender a cultura como direito, como prática social e como elemento fundamental da democracia.

Por fim, qualquer projeto nacional que se pretenda consistente deve reconhecer os limites ecológicos do desenvolvimento. Sem planeta, não há projeto de desenvolvimento possível. Com cultura, educação crítica e consciência ecológica, abre-se a possibilidade de construir uma sociedade mais justa, solidária e capaz de pensar coletivamente o seu futuro.

 

Fonte: Outras Palavras


 

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