IA
e Saúde: Brasil abre as portas às Big Techs?
Quais
impactos uma ferramenta de Inteligência Artificial (IA) com uma vastíssima
capacidade de cruzamento de informações, pensada e orientada para o mercado do
Norte Global, pode gerar na percepção de saúde dos usuários do SUS e na saúde
pública brasileira? Esta questão não se limita apenas ao setor saúde; e engloba
toda a gestão pública e a soberania das nações. O Brasil está preparado para
esse desafio?
A força
e a velocidade com que a IA chegou e foi assimilada em nossa sociedade, seus
modos de uso no país e seus impactos na economia política da tecnologia e da
comunicação foram tema do artigo ChatGPT Health: IA e saúde aos olhos da mídia,
publicado nesta coluna em janeiro. Agora, este artigo propõe um passo além.
Antes,
é importante sempre e mais uma vez reafirmar: o exercício crítico aqui
trabalhado não é um neoludismo ou negação dos avanços tecnológicos em prol do
desenvolvimento científico e social do país. É um olhar que quer justamente
refletir sobre a importância desses avanços e o que eles podem de fato
contribuir com a nossa soberania e, acima de tudo, não deixar de apontar
capturas que são ou minoradas ou mesmo desprezadas em seu nome.
No
entanto, como mostra o levantamento de 2024 feito pelo site Drauzio Varella, o
processo de assimilação das IAs pelo SUS tem se dado de forma acelerada. Há
investimentos públicos diretos do governo federal, como indica o lançamento da
Rede Nacional de Hospitais e Serviços Inteligentes do SUS, realizada na
primeira semana do ano, em 7/1. Outra frente de aplicação de recursos diretos
da União em IA é o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que
elenca a Saúde como uma das nove áreas estratégicas de investimento para
desenvolvimento de inteligência artificial.
O setor
privado também tem feito investimentos em IA com objetivo de aumentar a
eficiência dos serviços prestados ao SUS. O Programa de Apoio ao
Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS) tem direcionado parte dos
recursos oriundos das isenções fiscais de entidades filantrópicas para
inovações com IA, assim como muitos governos estaduais também têm investido
nesses segmentos da tecnologia.
São
iniciativas que se propõem a apoiar o desenvolvimento do SUS, porém
concentradas na dimensão médico-hospitalar. O nosso sistema público,
entretanto, tem como princípio integrar ações e serviços de assistência e
reabilitação com a vigilância e a promoção da saúde; sendo necessário que o
desenvolvimento da IA abarque questões estruturais para um amplo provimento de
serviços voltados ao conjunto do SUS, e não só uma parte do sistema.
É o
caso da Atenção Primária à Saúde (APS), que hoje reúne mais de 50 mil
estabelecimentos em todo o território nacional. Pensar em tecnologia para o SUS
requer que se leve em conta a APS como política de estruturação do sistema.
Ações de proteção à saúde como as vigilâncias ambiental, epidemiológica e
sanitária também devem utilizar tecnologias de aprendizagem pelas máquinas e
modelos avançados de linguagem para compreender melhor a dinâmica das doenças e
dos riscos associados à saúde das populações.
Contudo,
quanto maior uso de dados estruturados e não estruturados gerados de
contingentes maiores de situações a partir das populações – sejam a partir de
prontuários eletrônicos ou de exames e informações de teleconsulta – maior
também deve ser a preocupação sobre como e com quem essas informações são
compartilhadas.
O que
era há dois anos a expectativa de uma corrida por esses dados, como apontado no
artigo “Os riscos do Big Data e do compartilhamento de dados na saúde”,
confirmou-se como realidade. Essa porteira vem sendo aberta por quem mais
deveria se preocupar com ela: o Estado.
Saindo
da esfera da saúde e adentrando uma visão maior sobre a gestão pública, não
faltam problemas e denúncias. Parcerias e contratos de grandes áreas de dados
estratégicos têm sido questionados, como as ações do Serviço Federal de
Processamento de Dados (Serpro) e do Fundo Nacional de Desenvolvimento da
Educação (FNDE) com a Palantir, empresa de “mineração de dados” que é alvo de
diversas ações judiciais nos Estados Unidos por seus serviços de espionagem e
contrabando de informações (1, 2).
Essa
proximidade da gestão pública com as Big Techs é cotidiana em quase todas as
áreas do Estado, já que as ferramentas de IA e suas capacidades de mineração de
dados compõem todo o tipo de solução digital, de nuvens de armazenamento de
dados a programas de videoconferência; de plataformas de gestão de projetos de
equipes a serviços de correio eletrônico. São contratos bilionários com a
Microsoft, Google e Amazon, empresas comprometidas com o Cloud Act e outras
legislações norte-americanas que as obrigam, se for uma exigência das
autoridades daquele país, à cessão de todo e qualquer tipo de dado.
Essa
dependência tecnológica vai além da captura da nossa capacidade soberana de
gerir rotas de transporte, conteúdos programáticos nas universidades,
prontuários eletrônicos e interoperabilidade de dados. Ela atinge em cheio,
tanto no campo objetivo como na subjetividade, a nossa capacidade autônoma de
produção de conhecimento.
O
Brasil reúne iniciativas capazes de desenvolver tecnologias baseadas nos
princípios do SUS. O Programa de Computação Científica (Procc/Fiocruz), a
Plataforma de Ciência de Dados Aplicada à Saúde (Pcdas, Icict/Fiocruz), O
Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz), e o
Laboratório de Análise Preditiva em Saúde (Labdaps, FSP/USP) são exemplos de
centros de pesquisa que têm empregado tecnologias inovadoras para análise de
dados.
Essas
iniciativas, que muitas vezes são desenvolvidas em rede com outras
instituições, realizam pesquisas e serviços de análise de dados e inteligência
artificial. Além disso, integram dados de diferentes fontes – entre elas sistemas de informação do SUS,
prontuários eletrônicos da APS, informações sociais e ambientais. Isso mostra
que é possível desenvolver tecnologias em conjunto com SUS fortalecendo seus princípios e práticas.
Para tanto, é necessário investir cada vez mais para fortalecer nossa capacidade
de prover tecnologias a partir da nossa realidade.
Nesta
semana, o presidente Lula acompanha diretamente a India AI Impact Summit 2026,
cúpula global sobre a inteligência artificial que acontece até sexta-feira em
Nova Déli, Índia. Lá, devem estar postos no debate internacional não apenas os
riscos de manipulação da realidade e a profusão em massa de desinformação
científica, sanitária e política, mas com igual importância o desafio de se
pensar como estruturar a IA como coisa pública, na qual suas capacidades
alavanquem o bem viver planetário; e não entendê-la apenas como um produto que
enriquece uma casta de trilionários.
Enquanto
pensadores da saúde comprometidos com a construção dos nossos próprios destinos
como nação, precisamos encarar o debate da Inteligência Artificial com postura
crítica. Que não negue a realidade de nossa necessidade e dos avanços da
tecnologia, mas que parta de princípios soberanos e busque as alternativas
necessárias. Que tome como ponto de partida nossa já existente capacidade de
gerar e produzir conhecimento a partir das estruturas do Estado e pela
sociedade brasileira.
Fonte:
Por Bruno Cesar Dias e Marcelo Fornazin, em Outra Saúde

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