Como
uma parede de tijolos levou policiais a salvar menina que sofreu anos de abuso
sexual
O
investigador especializado em crimes online Greg Squire havia esbarrado em um
beco sem saída no seu esforço para resgatar uma menina vítima de abusos sexuais
— apelidada por sua equipe de "Lucy".
Imagens
perturbadoras dela estavam sendo compartilhadas na dark web — uma parte
criptografada da internet acessível apenas por meio de softwares especiais
projetados para tornar seus usuários digitalmente impossíveis de serem
rastreados.
Mesmo
com esse nível de sigilo, o abusador fazia questão de tentar apagar seus
rastros, cortando ou alterando quaisquer características que pudessem levar até
ele, diz Squire. Era impossível descobrir quem era Lucy ou onde ela estava.
Mas
Squire logo percebeu que a maior pista para localizar a menina de 12 anos
estava ali, diante de seus olhos.
Squire
trabalha para o Departamento de Segurança Interna dos EUA em uma unidade de
elite que tenta identificar crianças que aparecem em material de abuso sexual.
Uma
equipe da BBC — incluindo o repórter João Fellet da BBC News Brasil — passou
cinco anos registrando o trabalho de Squire e de outras unidades de
investigação no Brasil, Portugal e Rússia.
Os
jornalistas filmaram os investigadores resolvendo casos como o de uma menina de
7 anos sequestrada na Rússia e que era dada como morta.
Outro
caso é o de um brasileiro responsável por cinco dos maiores fóruns de abuso
infantil na dark web. Ele foi capturado e condenado a 266 anos de prisão.
Essas
histórias são narradas em Infiltrados na dark web, um documentário da BBC News
Brasil com a BBC Eye, equipe de investigações da BBC. Assista aqui.
O
acesso inédito da BBC mostra como esses casos são solucionados muitas vezes não
por meio de tecnologia de ponta, mas por detalhes reveladores em imagens ou
fóruns de bate-papo.
Squire
cita o caso de Lucy, que ele abordou no início de sua carreira, como a
inspiração para sua dedicação ao trabalho de vários anos.
Ele
achou especialmente perturbador que Lucy tivesse quase a mesma idade que sua
própria filha. Novas fotos dela sendo agredida, aparentemente em seu quarto,
apareciam constantemente.
Squire
e sua equipe puderam ver, pelo tipo de interruptores e tomadas elétricas
visíveis nas imagens, que Lucy estava na América do Norte. Mas era só isso que
eles sabiam.
Eles
entraram em contato com o Facebook, que na época dominava as mídias sociais,
pedindo ajuda para vasculhar fotos de usuários na plataforma e ver se Lucy
estava em alguma delas. Mas a empresa, apesar de ter tecnologia de
reconhecimento facial, disse que "não tinha as ferramentas" para
ajudar.
Squire
e seus colegas analisaram então tudo o que conseguiam ver no quarto de Lucy: a
colcha, suas roupas, seus bichos de pelúcia. Sempre procurando por qualquer
elemento que pudesse ajuda a encontrá-la.
Até que
finalmente tiveram um pequeno avanço. A equipe descobriu que um sofá visto em
algumas das imagens era vendido apenas em uma região dos Estados Unidos e não
nacionalmente e que, portanto, tinha uma base de clientes mais limitada. Mas
isso ainda representava cerca de 40 mil pessoas.
"Naquele
ponto da investigação, ainda estávamos analisando 29 Estados aqui nos Estados
Unidos. Quer dizer, estamos falando de dezenas de milhares de endereços, e essa
é uma tarefa muito, muito difícil", diz Squire.
A
equipe ainda procurava mais pistas. E foi então que perceberam que uma parede
de tijolos aparentes no quarto de Lucy poderia ser uma pista.
"Comecei
a pesquisar tijolos no Google e não demorou muito para encontrar a Associação
da Indústria de Tijolos", diz Squire.
"E
a mulher ao telefone foi incrível. Ela perguntou: 'Como a indústria de tijolos
pode ajudar?'."
Ela se
ofereceu para compartilhar a foto com especialistas em tijolos de todo o país.
A resposta foi quase imediata, diz o agente.
Uma das
pessoas que entrou em contato foi John Harp, que trabalhava com vendas de
tijolos desde 1981.
"Notei
que o tijolo era de um tom rosado intenso e tinha uma leve camada de cor
carvão. Era um tijolo modular de 20 cm e tinha bordas quadradas", diz
Squire. "Quando vi isso, soube exatamente qual era o tijolo."
Era um
"Flaming Alamo", disse o especialista: "[Nossa empresa] fabricou
esse tijolo do final dos anos 1960 até meados dos anos 1980, e eu vendi milhões
de tijolos dessa fábrica".
Inicialmente,
Squire ficou entusiasmado, esperando que os investigadores pudessem acessar uma
lista de clientes digitalizada. Mas Harp revelou que os registros de vendas
eram apenas uma "pilha de anotações" que remontavam a décadas.
No
entanto, ele revelou um detalhe crucial sobre os tijolos, conta Squire.
"Ele disse: 'Tijolos são pesados.' E acrescentou: 'E tijolos pesados não
vão muito longe.'"
Isso
mudou tudo. A equipe voltou à lista de clientes do sofá e a restringiu apenas
aos clientes que moravam em um raio de 160 km da fábrica de tijolos de Harp, no
sudoeste dos Estados Unidos.
A
partir dessa lista de algo entre 40 e 50 pessoas, foi fácil encontrar e
vasculhar suas redes sociais. E foi então que encontraram uma foto de Lucy no
Facebook com uma mulher adulta que parecia próxima da menina — possivelmente,
uma parente.
Eles
descobriram o endereço da mulher e, em seguida, usaram essa informação para
encontrar todos os outros endereços ligados a essa pessoa e todos os outros com
quem ela já havia morado.
Isso
restringiu ainda mais o possível endereço de Lucy, mas eles não queriam ir de
porta em porta fazendo perguntas. Se errassem o endereço, corriam o risco de o
suspeito ser alertado de que estava no radar das autoridades.
Então,
Squire e seus colegas começaram a enviar fotos dessas casas para John Harp, o
especialista em tijolos.
Os
tijolos Flaming Alamo não eram visíveis na parte externa de nenhuma das casas,
porque as propriedades eram revestidas com outros materiais. Mas a equipe pediu
a Harp que avaliasse — observando o estilo e o exterior — se essas propriedades
haviam sido construídas durante um período em que os tijolos Flaming Alamo
estavam à venda.
"Basicamente,
fazíamos uma captura de tela de uma casa e enviávamos para John, perguntando:
'Esta casa teria esses tijolos por dentro?'", diz Squire.
Finalmente,
eles fizeram uma descoberta: encontraram um endereço que Harp acreditava
provavelmente ter uma parede de tijolos Flaming Alamo e que constava na lista
de clientes do sofá.
"Então,
restringimos a busca a esse endereço e começamos o processo de confirmação de
quem morava lá por meio de registros estaduais, carteira de motorista,
informações sobre escolas", diz Squire.
A
equipe percebeu que Lucy havia morado na mesma casa que o namorado de sua mãe —
um criminoso sexual que já havia sido condenado no passado.
Em
poucas horas, agentes locais da Segurança Interna dos Estados Unidos prenderam
o criminoso, que vinha estuprando Lucy havia seis anos. Ele foi posteriormente
condenado a mais de 70 anos de prisão.
Harp, o
especialista em construção civil, ficou muito feliz em saber que Lucy estava
segura, especialmente considerando sua própria experiência como pai adotivo.
"Já
acolhemos mais de 150 crianças diferentes em nossa casa. Adotamos três. Então,
ao longo desses anos, tivemos muitas crianças em casa que sofreram abusos
[anteriormente]", disse ele.
"O
que [a equipe de Squire] faz diariamente e o que eles veem é algo muito maior
do que já vi ou tive que enfrentar."
Há
alguns anos, a pressão que Squire sofreu em seu trabalho começou a afetar
seriamente sua saúde mental. Ele próprio admite que, quando não estava
trabalhando, "o álcool era uma parte maior da minha vida do que deveria
ser".
"Naquela
época, meus filhos já eram um pouco mais velhos... E, sabe, isso quase te
permite se envolver mais. Tipo... 'Aposto que se eu levantar às 3h, posso pegar
[um criminoso] online.'", diz o agente.
"Mas,
enquanto isso, na minha vida pessoal... 'Quem é Greg?' Eu nem sei o que ele
gosta de fazer.'"
Pouco
tempo depois, seu casamento acabou, e ele diz que começou a ter pensamentos
suicidas. Foi seu colega Pete Manning quem o encorajou a procurar ajuda.
"É
difícil quando aquilo que lhe dá tanta energia e motivação é também aquilo que
o está destruindo lentamente", diz Manning.
Squire
afirma que expor suas vulnerabilidades foi o primeiro passo para melhorar e
continuar fazendo um trabalho do qual se orgulha.
"Me
sinto honrado por fazer parte da equipe que conseguiu fazer a diferença, em vez
de assistir pela TV ou só ouvir falar sobre o assunto... Prefiro estar lá na
luta, tentando impedir que isso aconteça."
No ano
passado, Greg conheceu Lucy, agora uma mulher de 20 e poucos anos, pela
primeira vez.
Ela
disse que ser capaz de finalmente falar sobre o que aconteceu é uma prova do
apoio que tem ao seu redor.
"Tenho
mais estabilidade. Consigo ter energia para conversar com as pessoas [sobre o
abuso], o que eu não conseguiria fazer... Nem mesmo há alguns anos."
Ela
conta que, na época em que o Departamento de Segurança Interna prendeu o
criminoso, ela "rezava para que tudo terminasse". "Sem querer
soar clichê, mas foi uma oração atendida."
Squire
disse a ela que gostaria de ter podido avisar que estava a caminho. "A
gente queria ter telepatia e poder entrar em contato e dizer: 'Escuta, estamos
chegando'."
A BBC
perguntou ao Facebook por que não usou sua tecnologia de reconhecimento facial
para ajudar na busca por Lucy. A resposta foi: "Para proteger a
privacidade do usuário, é importante que sigamos o processo legal apropriado,
mas trabalhamos para apoiar as autoridades policiais o máximo possível".
Fonte:
BBC Eye Investigations

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