Luto
prolongado: por que alguns cérebros não conseguem seguir em frente
O luto,
aquela dor intensa e profunda que nasce da perda de alguém querido, é uma
experiência universal, mas nem sempre segue o caminho de “cura natural” que
muitas culturas e tradições imaginam. Enquanto a maioria das pessoas
gradualmente consegue incorporar a ausência, há uma parcela significativa da
população cuja dor persiste, incapacitante, por meses ou até anos.
Segundo
uma pesquisa publicada nesta semana na revista Trends in Neurosciences,
cientistas analisaram o que se sabe até agora sobre a neurobiologia do chamado
Transtorno de Luto Prolongado (Prolonged Grief Disorder, PGD), uma condição
formalmente reconhecida como diagnóstico psiquiátrico desde 2018 e agora
incluída em manuais como o DSM-5-TR e a CID-11.
“O
transtorno do luto prolongado é uma espécie de ‘novato’ nos diagnósticos
psiquiátricos”, afirma Richard Bryant, autor principal do trabalho e
pesquisador especializado em traumas da Universidade de New South Wales, na
Austrália.
A
experiência de PGD não é apenas tristeza intensa. Trata-se de um padrão
persistente de sofrimento que ultrapassa os seis meses após a perda e interfere
significativamente na capacidade de funcionar no trabalho, nos relacionamentos
e nas atividades diárias. Os sintomas podem incluir saudade arrebatadora,
incapacidade de aceitar a morte, sentimento de que a vida perdeu significado,
exaustão emocional, isolamento social e até pensamentos suicidas.
“Não é
que seja um tipo diferente de luto”, diz Bryant. “É apenas que a pessoa está
presa ao luto.”
Estudos
epidemiológicos indicam que aproximadamente 1 em cada 20 pessoas enlutadas pode
desenvolver PGD. Essa proporção, embora minoritária, representa milhões de
indivíduos ao redor do mundo que sofrem de forma crônica após uma perda
significativa.
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O cérebro em luto
O que
diferencia um luto que suaviza com o tempo de um que se torna prolongado está
ligado, segundo a pesquisa, a mudanças nas redes neurais associadas ao sistema
de recompensa e ao processamento emocional.
Elementos
fundamentais desse sistema, como o núcleo accumbens (envolvido no desejo e
motivação), o córtex orbitofrontal (que avalia valores e expectativas) e o
sistema límbico (centro das emoções), podem se comportar de maneira atípica em
pessoas com PGD.
Esse
conjunto de regiões normalmente exerce papel no que nos faz buscar prazer,
aprender com experiências positivas e “seguir em frente”. Porém, quando a perda
ativa esses circuitos de maneira persistente, como se o cérebro continuasse
ansiando pelo retorno do ente perdido. A pessoa pode experimentar um estado
semelhante a um “circuito de recompensa travado”, que reforça a fixação na
ausência em vez de permitir a reorganização emocional.
Uma
questão importante para médicos e familiares é distinguir PGD de outras
condições tais como depressão maior ou ansiedade generalizada, que também podem
acompanhar o luto.
Embora
os sintomas possam se sobrepor, PGD é desencadeado especificamente pela perda e
caracteriza-se por ruminação persistente sobre o falecido e uma resposta
emocional voltada para essa memória, enquanto na depressão, a tristeza e a
anedonia (perda de interesse em atividades) tendem a ser mais amplas e não
necessariamente centradas em um objeto ou pessoa específica.
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O papel da plasticidade neural
Do
ponto de vista biológico, o cérebro é plástico. Ou seja, ele é capaz de
reorganizar suas redes ao longo da vida em resposta a experiências e
aprendizagens. No entanto, essa capacidade não é imediata nem uniforme. A
persistência da dor em alguns indivíduos pode refletir uma dificuldade maior de
neuroplasticidade nos circuitos que regulam emoção e recompensa, combinada com
fatores psicológicos, sociais e contextuais.
Além
disso, fatores como a intensidade do vínculo com a pessoa perdida,
circunstâncias traumáticas da morte, suporte social insuficiente e história
prévia de transtornos mentais podem aumentar as chances de que o cérebro “não
consiga concluir o processo de luto”.
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Implicações para tratamento
Segundo
os pesquisadores, o reconhecimento de PGD como um transtorno distinto abriu
caminho para abordagens terapêuticas mais específicas, incluindo terapias
psicológicas focadas em ajudar o enlutado a reestruturar suas memórias, emoções
e expectativas.
Algumas
pesquisas exploratórias também estão investigando se intervenções que modulam o
sistema de recompensa (por exemplo, certas formas de terapia comportamental ou
farmacológica) podem ser eficazes.
Nesse
contexto, o avanço das neurociências oferece não apenas explicações sobre os
mecanismos cerebrais envolvidos, mas também uma perspectiva de esperança:
compreender por que e como o cérebro pode ficar “preso” no luto é o primeiro
passo para fornecer intervenções que ajudem pessoas que carregam essa dor por
tempo prolongado.
Em
síntese, a ciência mostra que, embora o luto seja uma resposta humana natural,
em uma parcela significativa das pessoas ele pode se cristalizar em um
transtorno com bases neurobiológicas distintas. Identificar e tratar esse
quadro com sensibilidade e embasamento clínico é essencial para proporcionar
alívio e recuperação.
Fonte:
Correio Braziliense

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