Elisabeth
Lopes: Quando o samba incomoda - cultura popular, poder e a disputa política no
Brasil
Enquanto
o povo vibrava na alegria dos dias de Carnaval, em blocos e escolas de samba
que mergulharam com profundidade na historicidade do povo brasileiro,
celebrando raízes, dores e conquistas, consolidava-se um contraste eloquente
entre a potência cultural das ruas e a atuação seletiva da mídia corporativa.
A
exemplo da Acadêmicos de Niterói, que levou para a avenida a saga dos
nordestinos e, em especial, a trajetória de Dona Lindu, mãe de Luiz Inácio Lula
da Silva retirante que migrou para São Paulo com os filhos em busca de
dignidade e trabalho, o carnaval expôs a força simbólica de um Brasil real,
forjado na desigualdade, mas também na resistência.
Contudo,
ao mesmo tempo em que a avenida celebrava essa memória coletiva, a Globo,
concessionária de um serviço público, sonegava imagens do desfile da escola. Ao
iniciar a cobertura destacando ações judiciais movidas por opositores para
impedir a apresentação, a emissora rompeu com a tradição de priorizar o
espetáculo artístico e deslocou o foco da celebração cultural para a disputa
política. Ainda que tenha tentado deliberadamente minimizar a dimensão
simbólica do enredo, não conseguiu sufocar o eco do refrão popular que ecoava
na Sapucaí e nas arquibancadas.
Importa
destacar que a escola não levou à avenida apenas um enredo, mas a representação
de uma história real que conta a trajetória de milhões de brasileiros, a
caminhada de Luiz Inácio Lula da Silva, o menino retirante que mais tarde como
presidente da República transformou a própria história e a de milhões de
brasileiros.
Ao som
de um samba enredo primoroso, exaltou-se a força de quem saiu da fome e da
migração forçada para se tornar líder nacional e referência mundial, governando
o país com políticas que impactaram estruturalmente a realidade econômica e
social. Foi sob sua liderança que o Brasil expandiu universidades públicas e
institutos federais, ampliou o acesso ao ensino superior por meio de políticas
de inclusão, reduziu desigualdades históricas e permitiu que filhos de
trabalhadores, e de retirantes como ele ocupassem as salas das universidades e
alcançassem o título de doutores. Um presidente sem diploma universitário que,
paradoxalmente, valorizou a educação como instrumento de emancipação social,
que fortaleceu programas de acesso à moradia, possibilitando às camadas
populares a conquista da casa própria, que enfrentou o debate fiscal, aprovando
a isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais, com taxação
dos super ricos, que se posiciona pelo fim da escala 6x1, por melhores
condições de trabalho e por uma economia inclusiva.
Entretanto,
ao longo dos 79 minutos de apresentação da Acadêmicos de Niterói, os
comentaristas da emissora permaneceram visivelmente contidos diante da
eloquência provocadora da performance dos componentes da escola. Não se tratou
de mero critério técnico de edição, mas de escolha editorial que acabou por
invisibilizar a ousadia artística e o alcance simbólico do enredo. Ao celebrar
o filho de Dona Lindu, a escola reafirmou a legitimidade social de um governo
que emerge do povo e dialoga com suas aspirações. Ainda assim, setores
políticos opositores ao governo Lula trataram a manifestação artística como
afronta ideológica.
As
polêmicas extrapolaram o campo cultural. Antes mesmo do desfile, proliferaram
nas redes sociais manifestações de repúdio, pedidos de investigação e
tentativas de judicialização sob a alegação de propaganda eleitoral antecipada.
Parlamentares da da extrema direita,
além de segmentos conservadores da sociedade, enquadraram o enredo como
provocação partidária. Parte da mídia amplificou o conflito em detrimento da
análise artística, contribuindo para um ambiente de tensão previamente
construído.
Nesse
cenário, uma das alas mais atacadas foi a Família em Conserva. Contudo, a
crítica ali encenada não se dirigia à instituição familiar, mas à
instrumentalização política da expressão família tradicional como dispositivo
retórico mobilizado por setores ligados ao bolsonarismo para demarcar
fronteiras morais e eleitorais. Ainda assim, representantes das bancadas
evangélica e católica reagiram como se houvesse afronta direta à fé ou à moral
cristã. O que verdadeiramente estava em cena não era um ataque à família, mas a
problematização de sua instrumentalização no debate público, distinção que foi
propositalmente ignorada por críticos interessados em transformar manifestação
artística em palanque ideológico.
Superado
o Carnaval, o embate deslocou-se para o plano institucional. No horizonte do
ano eleitoral, os diversos enredos políticos subjacentes passaram a desfilar
nas múltiplas Sapucaís da República.
Ao
mesmo tempo em que parte da mídia corporativa evita aprofundar as alas centrais
do enredo do maior escândalo financeiro envolvendo o Banco Master e omite
menções a figuras como a do senador Ciro Nogueira (PP-PI), dos governadores
Ibaneis Rocha (MDB-DF) e Cláudio Castro
(PL-RJ), do presidente do partido União Brasil, Antônio Rueda, atores
coadjuvantes na trama produzida por Daniel Vorcaro, intensifica argumentos que
buscam fragilizar o Supremo Tribunal Federal.
Esse
movimento se intensifica após o fortalecimento institucional do STF, que
condenou os envolvidos na tentativa de golpe contra o Estado Democrático de
Direito e passou a enfrentar abusos no uso do orçamento público, entre outros
enfrentamentos de constitucionalidade. Ressalta-se a atuação da Corte na
imposição de freios à chamada farra das emendas, ao exigir transparência e
rastreabilidade na aplicação dos recursos públicos, por meio da postura firme
do ministro Flávio Dino na fiscalização dessas verbas, o que tem tensionado
prerrogativas consolidadas no Legislativo durante as gestões Michel Temer e
Jair Bolsonaro. Recorde-se, ainda, a hostilidade recorrente da família Jair
Bolsonaro contra a Suprema Corte, cuja retórica chegou a sustentar que “um cabo
e um soldado seriam suficientes para fechá-la”. Firmado como barreira a
investidas autoritárias, o Supremo tornou-se alvo prioritário dos que se veem
contrariados por suas decisões.
Nesse
ambiente de crescente tensionamento institucional, cumpre ressaltar que, a
partir do caso Master, consolidou-se um ambiente de suspeição permanente em
torno do STF. Nesta semana, no programa Estúdio i, comentaristas dirigiram
críticas contundentes à decisão do ministro Alexandre de Moraes de determinar a
investigação de quatro servidores da Receita Federal suspeitos de acessarem,
sem autorização, dados fiscais de ministros e de seus familiares. Trata-se de
ocorrência gravíssima, pelo uso de informações fiscais sensíveis como
instrumento de pressão ou constrangimento político.
Para
sustentar a crítica, a produção do Estúdio i, da GloboNews, convidou o
presidente da Associação Nacional dos Fiscais da Receita Federal (Unafisco),
Kléber Cabral, que no exercício natural de sua função associativa (não sindical
como erroneamente identificada pelos jornalistas), saiu em defesa dos
funcionários da Receita investigados. No decorrer da entrevista, Kléber referiu
que a Receita não teria como “vazar contrato” da esposa do ministro Moraes com
Daniel Vorcaro, o que é evidente. A questão, porém, não se restringe a
contratos, mas ao eventual acesso e cruzamento de dados fiscais que poderiam
alimentar insinuações sobre evolução patrimonial após contratos de prestação de
serviços jurídicos firmados com o Banco Master.
Ao
final, o eixo da discussão foi deslocado. A gravidade do possível vazamento de
dados cedeu espaço à construção de suspeição sobre o próprio ministro Alexandre
de Moraes, responsável por determinar a investigação no âmbito do Inquérito
4.781, o chamado inquérito das fake news. Assim, o foco deixou de recair sobre
a integridade das informações fiscais e passou a incidir sobre a legitimidade
de quem ordenou a apuração, invertendo-se, de modo sutil, a lógica da
responsabilidade institucional.
Informações
da jornalista Heloísa Vilela acrescentam novos elementos ao quadro. Conforme
relatado, o auditor fiscal Ricardo Manzano de Moraes, que se tornou alvo de
medidas cautelares determinada por Moraes pela suspeita de consultar
informações protegidas vinculadas a ministros do STF, apresentou à corregedoria
uma justificativa inusitada, ao afirmar que teria acessado dados de uma nora do
ministro Gilmar Mendes ao tentar localizar o telefone de um conhecido de mesmo
sobrenome: Feitosa. Essa explicação acabou tangenciando outra investigação
sensível a da chamada “Abin paralela”, estrutura clandestina de monitoramento
que teria operado na Agência Brasileira de Inteligência durante o governo de
Jair Bolsonaro.
O
referido conhecido, Ricardo Pereira Feitosa, foi exonerado do cargo de
coordenador geral de Pesquisa e Investigação da Receita Federal, área de
inteligência do órgão, após ser identificado o uso da função para consultar
informações fiscais de ao menos quatro desafetos da família Bolsonaro. Entre
eles, o procurador José Eduardo Gussem, responsável por denunciar o esquema das
“rachadinhas” envolvendo Flávio Bolsonaro.
Ainda
segundo a jornalista, o então presidente da Unafisco, Kléber Cabral, desde o
governo Jair Bolsonaro, teria tentado dissuadir Guilherme Bibiani de assumir a
Corregedoria da Receita Federal, cargo estratégico que contrariava interesses
de grupos vinculados à chamada “Abin paralela” e do senador Flávio Bolsonaro,
que preferiria alguém de sua estrita confiança na função. Esses achados da
jornalista nos auxiliam a compreender o empenho de Kléber em criticar o
ministro Moraes e suas decisões no inquérito que investiga os vazamentos feitos
pelos funcionários da Receita.
Vis à
vis, a exploração midiática desses episódios busca caracterizar uma crise
institucional. No entanto, o vazamento de dados fiscais de ministros e de seus
familiares compõe, na verdade, um quadro mais amplo de ofensiva coordenada. A
estratégia parece evidente, enfraquecer o STF justamente no momento em que sua
autoridade se encontrava reafirmada. Observa-se um padrão recorrente, pois
conexões indiretas são amplificadas quando envolvem figuras associadas ao campo
progressista, enquanto episódios similares em setores conservadores recebem
tratamento mais cauteloso. Assim, constrói-se um ambiente difuso de
desconfiança que, em período eleitoral, cumpre papel estratégico.
Enquanto
a mídia corporativa intensifica coberturas que, na prática, operam como
pré-campanha antilulista, o governo atua em múltiplas frentes para impulsionar
o crescimento econômico, científico e social do país. A recente missão oficial
à Índia ilustra uma política externa ativa e soberana.
No
encontro entre Lula e o primeiro-ministro Narendra Modi, discutiram-se
comércio, investimentos, defesa, aviação, tecnologias digitais, inteligência
artificial, transição energética, minerais críticos, saúde, acesso a
medicamentos, indústria farmacêutica e cooperação espacial. A pauta incluiu
ainda a defesa da reforma do Conselho de Segurança da ONU e a revitalização do
multilateralismo. A comitiva, composta por ministros e empresários, evidencia a
articulação entre Estado e setor produtivo para ampliar mercados, atrair
investimentos e fortalecer cadeias estratégicas. No plano interno, observa-se a
retomada de investimentos em ciência e tecnologia, o incentivo à pesquisa, a
ampliação de políticas industriais, o fortalecimento do complexo econômico da
saúde e o de programas sociais que dinamizam o consumo e a economia.
O
contraste é nítido. De um lado, um projeto que aposta na inclusão social, na
ciência, na inovação, na saúde pública fortalecida e na inserção soberana do
Brasil no cenário internacional. De outro, uma articulação entre direita
tradicional, extrema direita e segmentos da mídia corporativa que,
inconformados com o fortalecimento institucional do STF e com a legitimidade
popular do governo, investem no desgaste contínuo, na associação insinuante e
na amplificação seletiva de crises.
Em ano
eleitoral, essa disputa se intensifica e explicita alinhamentos. A mídia que
deveria exercer função pública atua, reiteradamente, em sintonia com interesses
da elite financeira que resiste a governos populares e progressistas. A
sociedade brasileira precisa compreender que a disputa não se trava apenas nas
urnas, mas na construção cotidiana da narrativa pública: entre o Brasil que
trabalha para crescer com justiça social e aqueles que apostam na
desestabilização como método de conquista de poder.
Mais do
que uma controvérsia carnavalesca ou um embate jurídico, o que está em jogo é a
definição do rumo do país. De um lado, o Brasil que valoriza sua história e
busca crescimento com inclusão e justiça social, de outro, forças liberais que
investem na fabricação de crises para desgastar instituições e deslegitimar a
política. A disputa central não se trava apenas nas urnas, mas também no plano
simbólico, onde se consolida, ou se corrói a legitimidade democrática, abrindo
espaço para a reedição de uma agenda ultra liberal, afinada aos interesses do
mercado financeiro, mediante a retração das políticas públicas, como se viu nos
governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro. No horizonte eleitoral, despontam
nomes da direita e da extrema direita: Flávio Bolsonaro, Ratinho Júnior, Romeu
Zema Novo e Ronaldo Caiado que se apresentam como alternativa ao presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, recolocando em confronto projetos antagônicos de
Estado, um orientado pela centralidade do capital e pela mínima intervenção estatal,
outro ancorado na soberania, no desenvolvimento e na proteção social.
• A esquerda que copia a direita da lata
para dar conselhos de prudência a Lula. Por Moisés Mendes
Tenta
ser divertida, mas é muito chata uma das alas do debate sobre a homenagem da
Acadêmicos de Niterói a Lula. Dizem o que Lula deveria ter feito, não como
opinião, mas como um alerta que não foi ouvido.
Tem
gente nas redes sociais dizendo que Lula, o mais intuitivo de todos os
políticos desde Getúlio Vargas, deveria ouvir o seu Mércio, o mais famoso
morador da Aberta dos Morros, em Porto Alegre, e suas advertências infalíveis.
Gente
que sabe tudo e saberia mais do que Lula, que não prestou atenção nos seus
avisos. Dizem que dona Eulália, da fruteira Nossa Senhora de Lourdes de
Cacequi, mandou um sinal amarelo pelo whats para o Planalto.
Que o
seu Bento, capataz de fazenda em Sorocaba, avisou um amigo que conhece alguém
em Brasília. Vozes conhecidas das esquerdas influenciam seu Bento.
Não vá,
Lula, que é fria. Cuidado, Lula, que as arapucas estão onde a gente menos
espera. Você experimentou e venceu todas as crueldades da direita, mas não se
deu conta de que a homenagem era uma armadilha.
Você,
Lula, que eles encarceraram por 580 dias para sair da prisão caindo aos
pedaços, você saiu inteiro e conseguiu se reeleger pela terceira vez. Mas agora
você foi amador, Lula. É o que dizem os alarmistas profissionais.
Você,
que sabia que sairia da prisão mais forte do que entrou, não sabe tudo, Lula. É
o que a direita diz e parte da esquerda, inclusive com mandato, repete no mesmo
ritmo.
É uma
ladainha. A mesma conversinha que contagia parte das esquerdas com os ataques
dos jornalões, do centrão e do bolsonarismo ao STF. As esquerdas viraram
papagaios da direita.
A
direita pauta a esquerda em quase tudo e até nessa história da arapuca da
Sapucaí. É cansativo, mas dirão durante muito tempo que Lula caiu numa tocaia.
A
escola de Niterói apenas o atraiu para um roteiro bem urdido, sabendo que o TSE
logo estará sob o controle de Nunes Marques e André Mendonça.
Lula
não se deu conta disso. Nem o pessoal do seu entorno. Ninguém em Brasília
percebeu que, ao invés da bravura e da imaginação dos negros de Niterói, o que
havia era uma trama.
Lula
enfrenta o jogo sujo de Trump. Avisa ao mundo que irá encarar as big techs. Dá
dribles no fascismo nacional e mundial. Mas é ingênuo quando o assunto é
Carnaval.
É o que
eles repetem. Que Lula caiu na conversa do sambinha de Niterói. Que a homenagem
subiu à cabeça dele e de Janja. Que Lula precisa ser mais esperto e não se
aliar aos que colocam a tradicional família brasileira dentro de latas de
conserva.
Essa é
a parte aparentemente divertida da guerra do fascismo contra a Acadêmicos de
Niterói, contra os negros e a arte do povo e contra as alegorias que
denunciaram a extrema direita enlatada.
Caíram
no conto das pautas das Malus Gaspares e nas conversas dos Mervais para dar
conselhos a Lula. Alertaram Lula como se fizessem parte da batucada dos
jornalões. Recomendaram que Lula se recolhesse a um retiro no Pico dos Marins,
na Serra da Mantiqueira.
Curem o
porre moralista e parem com isso. Sejam menos influenciáveis pelas homilias da
Globo News. Evitem comentários deselegantes sobre um homem com pós-doutorado em
como lidar com as pedras, os podres e as latas no seu caminho.
Lula
foi empurrado pelo sentimento de que merecia a homenagem, como faz desde o dia
em que peitou os ditadores. Lula é sentimento. Olhou para Janja e disse: nóis
vai. E foram.
E
venceram, porque a racionalidade mais básica e rasa não pode vencer o poder da
intuição e dos movimentos genuínos da arte e da política que ainda resiste ao
lavajatismo e à tentativa de ressurreição do bolsonarismo.
Lula e
Janja foram tão bravos quanto a Acadêmicos de Niterói. Ah, sim, dizem que Lula
foi personalista. Assim é na política, meus amigos não foliões. A política não
existe sem personalidades e celebridades.
Nem o
futebol, nem a Igreja e muito menos uma escola de samba. Lula foi homenageado
porque merece até continuar correndo riscos que só ele corre como líder
vencedor.
A
direita não gostou? Por que a esquerda precisa se incomodar com esse incômodo
deles? Se Lula fosse ouvir tudo o que dizem no Natal, na Páscoa e no Carnaval,
seria um Tarcísio vacilante qualquer, não seria o Lula.
Fonte:
Brasil 247

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