O
Vale do Silício quer transformar a Groenlândia em uma distopia “libertária”
Desde o
início do ano, as tensões sobre o futuro da Groenlândia aumentaram o risco de
um confronto militar entre os Estados Unidos e seus aliados da OTAN, embora
todas as partes afirmem querer evitar a guerra. Em janeiro, vários membros
europeus da OTAN enviaram pequenos contingentes militares ao território
semiautônomo dinamarquês para o que descreveram como uma missão de
reconhecimento e exercício conjunto, que o diplomata francês Olivier Poivre
d’Arvor caracterizou como um
“primeiro exercício” com o intuito de sinalizar que “a OTAN está presente”,
frente as ameaças de tomada de controle por parte dos EUA.
Essas
movimentações de destacamentos europeus para Nuuk, capital da Groenlândia (com
uma população de aproximadamente 20.000 habitantes), e seus arredores,
ocorreram após uma reunião na Casa Branca em 14 de janeiro entre o
vice-presidente dos EUA, JD Vance, e os ministros das Relações Exteriores da
Groenlândia e da Dinamarca. Depois disso, o ministro das Relações Exteriores da
Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, afirmou que ainda havia um “desacordo
fundamental” com o governo Trump sobre o status do território e rejeitou
qualquer aquisição da Groenlândia pelos EUA como sendo algo “totalmente
inaceitável”.
Poder-se-ia
imaginar que o governo Trump — já ocupado com a supervisão da invasão das
Cidades Gêmeas (Minneapolis e St. Paul) pelo Serviço de Imigração e Alfândega
(ICE), apertando o cerco às reservas de petróleo da Venezuela e
ameaçando o Irã —tivesse problemas mais do que suficientes no início de 2026.
No entanto, mesmo após recuar na discussão aberta sobre o uso da força militar
para tomar a Groenlândia, o governo continuou a insistir em sua campanha para
colocar a ilha sob controle dos EUA, apesar das objeções de aliados ocidentais
de longa data, de alguns senadores
republicanos,
da grande maioria dos
estadunidenses e de uma parcela ainda maior dos
groenlandeses.
Mas
isso não significa que Donald Trump não tenha aliados nessa questão. Nos
bastidores, uma coalizão de bilionários do Vale do Silício apoia a tomada de
poder. Sua motivação é que eles veem a Groenlândia como um local potencial para
uma “cidade libertária” praticamente sem regulamentação, que serviria como um
laboratório para sua visão de governança sem democracia.
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Bilionários de olho na Groenlândia
Aaquisição
da Groenlândia é um dos projetos preferidos de Trump há muito tempo, ideia que
ele cogitou pela primeira vez em 2019. Naquela época, apesar da insistência de Trump de que
adquirir a ilha seria tão simples quanto fazer “um grande negócio imobiliário”,
a proposta foi amplamente ridicularizada como absurda e não prosperou. Dessa
vez, no entanto, Trump parece estar falando sério — e os líderes europeus estão
soando o alarme. O primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, um conservador cujo
país não aderiu ao destacamento de tropas europeias no início deste mês, afirmou que qualquer
tentativa estadunidense de anexar a Groenlândia “seria o fim do mundo como o
conhecemos”.
As
raízes da aparente obsessão de Trump com a aquisição da Groenlândia não são, à
primeira vista, totalmente claras. É provável que Trump esteja ciente de que,
caso os Estados Unidos incorporem a Groenlândia ao seu império, essa seria a
maior aquisição territorial da história estadunidense — uma perspectiva que
pode apelar para seus impulsos imperialistas. Ele também enquadrou a potencial
aquisição da Groenlândia como uma questão de segurança nacional, e não está
sozinho nessa análise: a posição da ilha entre a Europa e a América do Norte há
muito mexe com os EUA, e, à medida
que a Groenlândia aquece rapidamente devido aos efeitos das mudanças
climáticas, torna-se cada vez mais capaz de acomodar o tráfego marítimo
internacional e, consequentemente, um alvo crescente para a mineração em terras
raras.
É essa
última possibilidade que talvez seja a mais tentadora para os membros do
círculo íntimo de Trump e para os oligarcas da tecnologia que ocuparam lugares
de destaque em sua posse no ano passado. Membros desse grupo de elite já têm os
olhos voltados para a Groenlândia há algum tempo. Jeff Bezos, Sam Altman e Bill
Gates investiram na KoBold Metals, uma empresa que usa inteligência artificial
para buscar minerais raros, um projeto de 2022 para procurar minerais para
baterias no oeste da Groenlândia. A Forbes identificou
outros aliados de Trump, incluindo o herdeiro da Estée
Lauder, Ronald
Lauder, e o secretário de comércio, Howard Lutnick, que têm ou tiveram extensos
laços comerciais com a ilha.
“A
visão de Brown para a Groenlândia inclui chuva artificial no verão, dias de
inverno artificialmente prolongados pela reflexão da luz solar no terreno
congelado e ‘propriedade’ baseada em um ‘Estado de carta privada’ representado
por meio de símbolos.”
De
fato, segundo o ex-conselheiro de segurança nacional John Bolton, foi Lauder
quem primeiro despertou o
interesse de Trump em adquirir a Groenlândia em 2018. Lauder, que estudou
administração com Trump, tem aumentado seus investimentos na ilha: o jornal
dinamarquês Politiken noticiou no final do ano
passado que Lauder adquiriu participação em duas empresas groenlandesas, uma
que vende água mineral extraída de uma ilha na costa oeste da Groenlândia e
outra que tenta gerar energia hidrelétrica no maior lago da ilha.
Em
fevereiro passado, pouco depois de Trump assumir o cargo pela segunda vez,
Lauder usou as páginas do New York Post para defender o
interesse de Trump na Groenlândia como friamente “estratégico” — escrevendo que sob o “gelo
e as rochas” da ilha jaz “um tesouro de elementos de terras raras essenciais
para IA, armamento avançado e tecnologia moderna”. Lauder também observou no
artigo que os groenlandeses poderiam realizar um referendo de independência “a
qualquer momento”, o que significa que os Estados Unidos têm uma “janela
estreita para fortalecer os laços antes que outras potências entrem em cena”.
Lauder
poderia se beneficiar enormemente se os EUA adquirissem a Groenlândia, assim
como Bezos. Mas talvez os maiores defensores do esforço estadunidense para
assumir o controle da Groenlândia sejam os proponentes do movimento de Estados
em rede, uma iniciativa que visa criar uma série de zonas econômicas não
regulamentadas que possam ser administradas sem a interferência da governança
de um Estado-nação.
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O movimento do Estado em rede
Em
agosto do ano passado, a Reuters noticiou que um grupo de
elite do Vale do Silício estava pressionando o governo Trump para que
considerasse a Groenlândia como possível sede de um Estado em rede ou cidade
“libertária” — um centro praticamente não regulamentado para “inteligência
artificial, veículos autônomos, lançamentos espaciais, microreatores nucleares
e trens de alta velocidade”.
Os
detalhes sobre como esse centro seria construído ou onde exatamente ele seria
localizado ainda são escassos, mas os principais atores do movimento do Estado
em rede estão bem posicionados em relação ao governo Trump para torná-lo
realidade.
Peter
Thiel, o bilionário cofundador do PayPal e da Palantir, tem sido um dos
principais defensores do modelo de Estado em rede por quase duas décadas. Há
cinco anos, a Pronomos Capital, uma empresa de desenvolvimento urbano apoiada
por Thiel, investiu na Praxis, fundada por Dryden Brown, um ex-analista de
fundos de hedge e ex-aluno da Universidade de Nova York. O objetivo da Praxis
era construir uma nova cidade-modelo do zero, atraindo capital de risco e
figuras importantes dos mundos da tecnologia e das finanças. Brown, para dar
uma breve ideia das tendências políticas do movimento, teria dito a um
redator de discursos que teve a ideia para a Praxis depois de ver manifestantes
quebrando vitrines no SoHo após o assassinato de George Floyd pela polícia e,
posteriormente, teria incentivado sua
equipe a ler a obra do escritor italiano fascista Julius Evola.
Inicialmente,
a Praxis tinha como objetivo construir sua reluzente cidade no Mediterrâneo,
mas rapidamente voltou seus olhos para o norte. Uma semana após a reeleição de
Trump para a presidência em 2024, Brown publicou na plataforma de mídia social
X que acabara de voltar da Groenlândia em uma viagem de reconhecimento para a
Praxis — que se autodenomina, sem qualquer traço de ironia, como “o futuro da
civilização ocidental”.
“A
Groenlândia é uma verdadeira fronteira”, escreveu Brown. “É um
lugar inóspito. Se a humanidade pretende construir a Estação Espacial
Internacional em Marte, deveríamos treinar na Groenlândia. Ela pode servir como
um campo de testes para experimentos de terraformação, financiados pela
exploração de seu potencial como um polo industrial e de mineração.”
A visão
fantástica de Brown para o futuro da Groenlândia inclui chuva artificial no
verão, dias de inverno artificialmente prolongados pela reflexão da luz solar
no terreno congelado, um novo fundo soberano e a “propriedade” baseada em um
“Estado de carta privada” representado por fichas. Brown sugeriu que seria do
interesse dos Estados Unidos apoiar a criação desse Estado em rede como parte
de uma “Nova Doutrina Monroe”, que projetaria o “poder cultural, econômico e
político” estadunidense.
“O
ceticismo ou a hostilidade declarada em relação à democracia é uma das
características mais marcantes do movimento das cidades da liberdade.”
Thiel é
apenas um dos apoiadores notáveis de Brown. A Praxis também
conta com o apoio de empresas ligadas a Altman, Marc Andreessen e ao pioneiro
das criptomoedas, Sam Bankman-Fried, que caiu em desgraça,
e pode até ter um aliado dentro do governo: Ken Howery, cofundador
do PayPal e de uma empresa de capital de risco com Thiel, que atua desde
outubro do ano passado como embaixador dos EUA na Dinamarca. Segundo relatos,
sua nomeação foi motivada pela expectativa de que ele
liderasse as negociações para a
aquisição da Groenlândia. Elon Musk, outra figura-chave na fundação do PayPal e
outro defensor do Estado em rede, compartilha do mesmo entusiasmo.
A
beligerância imperial de Trump não pode ser subestimada. Mas seria um erro
ignorar como essas aspirações pessoais se alinham aos interesses da direita
tecnológica que entrou em sua órbita em 2024 e o ajudou a chegar à presidência.
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“Liberdade” contra a democracia
Ainfluência
do movimento dos Estados em rede na abordagem da administração Trump à sua
política externa cada vez mais belicosa não se limita à Groenlândia. Não é
coincidência que essa visão, impulsionada pela Praxis, de uma cidade libertária
na Groenlândia se assemelhe tanto ao plano da administração Trump para Gaza. Ambos os espaços
existem no imaginário da administração trumpista e de seus aliados do Vale do
Silício como uma espécie de terra nullius — Gaza porque foi
tão convenientemente arrasada pelos militares israelenses após o 7 de outubro,
e a Groenlândia porque é tão pouco povoada.
O
primeiro grande plano da administração Trump para o futuro pós-genocídio de
Gaza propôs transformar a Faixa em “um centro mediterrâneo para manufatura,
comércio, dados e turismo, beneficiando-se de sua localização estratégica,
acesso a mercados (Europa, Conselho de Cooperação do Golfo [CCG], Ásia),
recursos e uma força de trabalho jovem, tudo isso apoiado por investimentos
israelenses em tecnologia e do CCG”. Gaza não está sendo reimaginada como um
Estado totalmente livre e privado, mas a visão da administração Trump para o
seu futuro foi claramente moldada pelo movimento das cidades libertárias: não
inclui o direito à autodeterminação nem a democracia para o povo palestino,
apenas a extração de recursos sem regulamentação, o livre comércio e a
submissão aos interesses dos Estados Unidos, de Israel e dos países do Golfo.
O
ceticismo ou a hostilidade declarada em relação à democracia é uma das
características mais marcantes do movimento das cidades libertárias. Já em
2009, Thiel escrevia sobre sua crença de
que liberdade e democracia não são “compatíveis”. O objetivo, escreveu Thiel
naquele ensaio para a revista Cato Unbound, não era conquistar
apoio popular para sua visão libertária, mas sim escapar completamente do
processo político: “Como não existem mais lugares verdadeiramente livres em
nosso mundo, suspeito que a maneira de escapar deva envolver algum tipo de
processo novo e até então inédito que nos leve a algum país desconhecido”,
escreveu Thiel, “e por essa razão tenho concentrado meus esforços em novas
tecnologias que possam criar um novo espaço para a liberdade”.
Thiel
cumpriu sua palavra. Ele investiu bem mais de US$ 1 milhão em um instituto que
acabou fracassando em sua tentativa de construir uma “utopia libertária” nas
ilhas da Polinésia Francesa, antes de sua empresa investir pesado na Praxis. A
Pronomos também investe na Próspera, um
Estado-rede na ilha de Roatán, em Honduras, e na Itana, um Estado-rede em
desenvolvimento na Nigéria.
Há uma
certa ironia no fato de o governo Trump parecer tão favorável a um projeto que,
em última análise, visa abandonar completamente os Estados-nação. O governo
parece disposto a usar todo o peso do Estado estadunidense para servir aos
objetivos econômicos e às fantasias coloniais dos super-ricos do Vale do
Silício, mesmo que esses objetivos e fantasias estejam apenas parcialmente
alinhados com os objetivos e ambições dos próprios Estados Unidos. Van
Jackson escreveu que a geopolítica
do movimento dos Estados em rede se preocupa em “instrumentalizar o poder
estatal para desafiar a forma estatal”, uma formulação útil para entender por
que Trump prometeu construir
cidades libertárias em terras federais dentro dos EUA durante sua campanha de
2024.
O
objetivo do governo Trump, apoiado por seus aliados no Vale do Silício, é
confiscar terras e recursos e distribuir os lucros diretamente ao capital
privado. Vestígios dessa abordagem são evidentes na incursão contínua do
governo na Venezuela, onde os Estados Unidos confiscaram e começaram a vender
as reservas de petróleo do país, depositando os lucros em uma série de contas
bancárias controladas pelos EUA, incluindo uma conta principal localizada no
Catar. Trump também firmou um acordo com a Ucrânia
para ter acesso preferencial à extração mineral no país e a uma série de outros
recursos naturais em troca do apoio contínuo dos Estados Unidos em seu conflito
com a Rússia.
Agora,
mais de sete anos depois de Lauder ter despertado o interesse de Trump, a
Groenlândia tornou-se o foco do presidente. Os groenlandeses, que nunca
desfrutaram de plena independência política, encontram-se numa posição difícil:
à medida que a intensificação das alterações climáticas põe em risco a sua indústria
pesqueira e os seus modos de vida, torna também a extração dos minerais de
terras raras e da água potável da Groenlândia uma possibilidade sedutora. Para
os bilionários dentro e fora dos altos cargos eletivos, a Groenlândia é imaginada
como uma fronteira, um espaço que, nas palavras de Quinn Slobodian, existe para ser
“cercado e convertido em propriedade privada” e servir de laboratório para
experiências distópicas de governança libertária.
O
destino dos habitantes da Groenlândia, dos estadunidenses, da ordem
internacional liberal em ruínas ou da saúde futura do planeta não é uma grande
preocupação para Trump e seus apoiadores do Vale do Silício. Eles parecem se
importar pouco com a ordem internacional vigente ou com a soberania de outras
nações em geral, e não se interessam pelo destino de quem não possui milhões de
dólares em patrimônio pessoal ou capital inicial. Acreditam apenas em
enriquecer a si mesmos e, ao que parece, em estabelecer um novo tipo de
infraestrutura estatal para eliminar até mesmo as menores restrições ao seu
poder. Se tudo der errado, não há motivo para temer — os líderes do movimento
sempre podem se refugiar em seus abrigos antiaéreos.
Fonte:
Por Abe Asher - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

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