Carmen
Navas Reyes: Venezuela e Irã - petróleo e sobrevivência
A
Venezuela, sob ameaça após os ataques de 3 de janeiro, e em perspectiva ao lado
do reflexo histórico que é o Irã, nos permite estudar os modelos do
nacionalismo petrolífero clássico e da resistência pragmática. Mas, além da
economia, alguns analistas apresentaram a teoria de que o petróleo venezuelano
e iraniano não é apenas um negócio, mas munição vital no cenário de guerra
proposto pelos Estados Unidos.
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A reforma de 2026: privatização ou tábua de salvação tática?
Para
entender a atual reforma, devemos olhar para
os números vermelhos. Em 2014, a Venezuela tinha receitas anuais de petróleo de
quase 40 bilhões de dólares. Após as sanções dos EUA e o bloqueio financeiro,
esse número caiu para apenas 740 milhões de dólares em 2020. O Estado, proprietário
do recurso, ficou sem capacidade para extraí-lo e sem bancos para receber o
pagamento.
A
resposta foi a Lei Anti-Bloqueio de 2020, que
deu origem aos Contratos de Participação Petrolífera (CPP). De acordo com as
contribuições da recente reunião de alto nível, os CPPs não são concessões
tradicionais. São contratos de serviços em que o setor privado investe e opera,
cobrando seu investimento diretamente através da produção física (barris),
eliminando a transação financeira que os EUA poderiam bloquear.
O
governo defende o sucesso do modelo: as receitas em cinco anos aumentaram para
um recorde de 14 bilhões de dólares em 2025, o que, embora longe das receitas
históricas, foi consideravelmente superior aos 740 milhões de dólares no pior
momento de 2019. A reforma agora busca dar
status legal a esse mecanismo, retirando-o do âmbito da excepcionalidade, que
muitas vezes colocava o Estado venezuelano em desvantagem. Jorge Rodríguez,
presidente da Assembleia Nacional, resume isso como uma “flexibilização das tarifas”,
na qual o setor privado fornece o capital e o Estado mantém a soberania sobre o
campo petrolífero. Enquanto Caracas discute a nova base jurídica para se
adaptar às novas condições das relações energéticas com os EUA, Donald Trump
enviou uma mensagem de Washington no dia 23 de janeiro confirmando a mudança de
postura do presidente dos EUA sobre a geopolítica do petróleo: “A Venezuela tem
as maiores reservas de petróleo do mundo… maiores que as da Arábia Saudita”,
sugerindo que os EUA poderiam ganhar “muito dinheiro” com essa relação
pragmática.
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O choque de visões e as críticas internas
A
reforma gerou algumas críticas. O ex-ministro do Petróleo Rafael Ramírez, que
enfrenta acusações de corrupção na Venezuela, descreveu a medida em 27 de
janeiro como uma “revogação da nacionalização de 1976”. Para aqueles que
historicamente defenderam o nacionalismo petrolífero, os CPPs, no âmbito da
reforma da Lei de Hidrocarbonetos, entregam o controle operacional (que
consideram ser o valor real) às empresas transnacionais.
O
governo rebate com “pragmatismo de guerra”: o modelo de 2006 (com 90% da
receita indo para o Estado) era ideal em tempos de paz, mas inviável sob cerco.
O novo esquema garante entre 65% e 70% da receita e, mais importante, mantém a
indústria viva. Isso representa uma retirada forçada devido às circunstâncias,
a fim de evitar o sufocamento total.
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A Nova Guerra Fria: o fator China
É aqui
que a dimensão global entra em jogo. Por que Donald Trump e Washington agora
mostram tolerância tácita a esse modelo venezuelano (como visto pelas licenças
concedidas à Chevron), mantendo sua retórica dura? A resposta pode estar no
objetivo de conter a China.
Várias análises, incluindo as de
conservadores como Tucker Carlson, apresentaram uma tese que ressoa na
mídia e nos think tanks geopolíticos: os Estados Unidos estão se preparando
para um conflito cinético ou comercial em grande escala com a China. Nesse
cenário, o controle das reservas de petróleo
venezuelanas deixa
de ser uma questão de mercado e se torna uma questão de pura segurança
nacional.
Carlson
adverte que o governo Trump considera inaceitável que as maiores reservas do
mundo (Venezuela) e uma das chaves do Golfo Pérsico (Irã) estejam abastecendo a China. “O petróleo está indo para
a China… deveria estar vindo para nós”, é a interpretação subjacente à nova
doutrina de Washington.
Dessa
perspectiva:
Cortar
recursos ao inimigo: o objetivo não é mais apenas “mudar o regime” em Caracas
por razões “democráticas”, mas desvincular a Venezuela da China. Se os CPPs e
as licenças permitirem que o petróleo venezuelano flua para o Golfo do México
(EUA) em vez de Xangai, Washington ganha uma batalha estratégica sem disparar
um tiro.
O caso
iraniano: com o Irã, a situação é mais volátil. Carlson
sugere que a hostilidade em relação a Teerã visa cortar a principal artéria de
energia segura da China no Oriente Médio. Controlar ou neutralizar o petróleo
iraniano deixa a maquinaria industrial e militar da China vulnerável a um
bloqueio naval. E, ao mesmo tempo, controlar as rotas de abastecimento.
Essa
“Nova Guerra Fria” explica o paradoxo atual: os EUA, ao mesmo tempo em que
transformam o Caribe em uma grande base militar, estão permitindo que a
Venezuela respire economicamente (por meio da Chevron e, no futuro, da
participação de outras grandes empresas americanas), porque preferem uma
Venezuela pragmática que venda para o Norte, em vez de uma Venezuela não
alinhada que seja um fornecedor seguro de energia para a China e,
financeiramente, contribua para colocar o prego no caixão do dólar como moeda
global.
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O espelho histórico: Irã e Venezuela (O “Petroleumscape”)
Essa
dinâmica não é nova. A Venezuela e o Irã
compartilham uma “paisagem petrolífera” histórica. Ambos sofreram golpes
orquestrados pelo Ocidente quando tentaram nacionalizar seus recursos (1948 e
1953). Ambos fundaram a OPEP em 1960 para se defenderem.
Nos
últimos anos, a aliança Caracas-Teerã tem sido existencial. O Irã ensinou a
Venezuela como lidar com sanções (frotas secretas, reparos em refinarias, entre
outros). Agora, ambos os países se encontram no centro da disputa entre os EUA
e a China. A reforma legal na Venezuela é, em sua essência, uma manobra para
sobreviver neste tabuleiro de xadrez: garantir seu próprio fluxo de caixa para
aliviar a ameaça dos EUA, mesmo que a gravidade geopolítica inevitavelmente
pressione Washington a exercer maior pressão sobre ambos os países.
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Essa história vem se repetindo há mais de 100 anos
A
reforma parcial da Lei de Hidrocarbonetos é muito mais do que um ajuste
técnico; é um ato de sobrevivência às vésperas de um grande conflito global. A
Venezuela está sacrificando parte de sua receita e controle operacional (o que
já fazia por meio do CPP com a Lei Anti-Bloqueio) para se reinserir no mercado
ocidental e tentar contornar o bloqueio.
Em
última análise, na guerra pela hegemonia global travada por Washington, que vê
Pequim como seu principal concorrente, o petróleo venezuelano e iraniano são os
troféus estratégicos definitivos. A Venezuela e sua história centenária do
petróleo, como começamos a estudar, é um dos campos de
batalha.
Pragmatismo
chavista em condições de cerco e guerra multifatorial
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Como o chavismo concilia princípios ideológicos e cálculo
político em meio a ameaças e sanções internacionais. Por Francisco Ameliach
O
pragmatismo absoluto ou neoliberal constitui a concepção do pragmatismo como
motor da despolitização e da desideologização, um dos fenômenos sociopolíticos
globais mais relevantes das últimas décadas.
Quando
a política se desloca para o pragmatismo absoluto, deixa de ser uma luta de
valores para se tornar uma administração de recursos. Isso traz como
consequência o fim das grandes narrativas: seguindo a lógica de autores
como Daniel Bell (O fim das ideologias), presume-se que as
grandes disputas históricas terminaram e que resta apenas otimizar o sistema
global predominante atual.
Hugo
Chávez se opõe à tese do pragmatismo absoluto e do “fim das ideologias”.
Em O Livro Azul, ele afirma o seguinte:
“Vivemos
efetivamente uma era em que as ideologias parecem estar se extinguindo. ‘O fim
das ideologias’, assim o chamaram muitos estudiosos da época… E é precisamente
neste quadro desideologizado e com o objetivo de encontrar recursos válidos
para que nosso povo avance pelo mapa intrincado e complexo do futuro que nos
atrevemos a invocar um modelo ideológico autóctone e enraizado no mais profundo
de nossa origem e no subconsciente histórico do ser nacional.”
Autores
contemporâneos como Slavoj Žižek argumentam que o pragmatismo
absoluto é, em si mesmo, a “ideologia invisível”. Ao dizer “não sou ideológico,
não sou político, sou prático”, aceita-se de forma acrítica o statu quo (geralmente
o neoliberalismo) como se fosse uma lei natural e não uma escolha política.
O
perigo do pragmatismo absoluto é que ele pode transformar a política em uma
simples “manutenção do sistema imperialista”, perdendo a capacidade de imaginar
futuros distintos ou mudanças estruturais profundas.
Quando
o pragmatismo absoluto colide com a mística revolucionária, ocorre uma ruptura
que afeta tanto a identidade do movimento quanto seu vínculo com o eleitorado.
Para um movimento baseado na luta heroica (Revolução Bolivariana), a memória
histórica e ideológica é seu principal ativo; é o que legitima sua existência.
A
fidelidade do núcleo duro dos eleitores em movimentos épicos não é
racional-econômica; é majoritariamente emocional e moral. O pragmatismo
absoluto rompe essa fórmula, causando desmobilização: a luta heroica requer
militância ativa. Com o desaparecimento da “mística”, desaparece também a
vontade de defender o projeto em momentos de crise.
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Pragmatismo chavista
Hugo
Chávez, sem abandonar sua forte carga ideológica, propôs o pragmatismo como
método ou tática de resistência ativa para alcançar princípios ideológicos e
objetivos históricos; por isso, combateu duramente o dogmatismo, especialmente
quando percebia que a teoria afastava seus seguidores da realidade ou da
eficiência necessária para governar.
Chávez
costumava criticar aqueles que pretendiam governar seguindo os livros ao pé da
letra, sem interpretar corretamente os diferentes contextos que prefiguram a
realidade existente. Em certa ocasião, expressou:
“Não
nos deixemos encaixotar em dogmas. O dogmatismo é o pior inimigo da criação
revolucionária.”
Sobre a
unidade acima da “pureza ideológica”, Chávez era um grande estrategista da
unidade. Criticava os grupos de esquerda radical que se fragmentavam por
“purismos”.
“Unidade,
unidade, unidade. Devemos ser capazes de trabalhar com aqueles que não pensam
exatamente como nós em prol de um objetivo superior.”
A
influência do pensamento antidogmático de Hugo Chávez na Lei
Antibloqueio — que inspirou a reforma da Lei de Hidrocarbonetos —, ambas
propostas pela atual presidente (E) Delcy Rodríguez, constitui uma linha
direta que o governo de Nicolás Maduro utilizou para legitimar uma
virada necessária a fim de enfrentar o bloqueio econômico imposto pelos Estados
Unidos. A lei não é uma traição à Revolução Bolivariana, mas uma aplicação do
pragmatismo chavista em condições de cerco e guerra multifatorial.
Quando
um governo realiza reformas sociais, econômicas ou políticas para evitar uma
guerra, está aplicando um cálculo de custo-benefício. O pragmatismo aqui reside
em reconhecer que o custo da reforma é menor do que o custo total de uma
invasão, de uma guerra civil, da destruição da infraestrutura e da possível
perda do poder. Cede-se no secundário — uma lei, uma política econômica — para
salvar o principal: a existência da República Bolivariana da Venezuela.
Não
tenho a menor dúvida de que a presidente (E) Delcy Rodríguez está
fazendo o que é correto segundo a lógica do pragmatismo chavista. Se Chávez
estivesse vivo diante de uma ameaça de ocupação ou colapso total, não se
agarraria a uma lei que asfixiasse o povo, mas “romperia as amarras” para
salvar a República.
O
pragmatismo chavista aplicado pela presidente (E) Delcy
Rodríguez permite que a República Bolivariana da Venezuela sobreviva
enquanto mantém sua identidade histórico-ideológica. É precisamente essa
identidade histórico-ideológica o principal elemento dissuasivo diante de
ameaças externas e internas.
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Venezuela e EUA firmam cooperação para combater tráfico
de drogas
A Venezuela e os Estados
Unidos concordaram em trabalhar na elaboração de uma agenda bilateral de
cooperação para o combate ao tráfico de drogas, durante uma reunião realizada
em Caracas nesta quarta-feira (18/02).
A
reunião contou, do lado norte-americano, com a presença do chefe do Comando Sul
dos Estados Unidos, general Francis L. Donovan; do alto funcionário do
Pentágono, Joseph Humire e da embaixadora norte-americana Laura Dogu.
Eles
foram recebidos pela presidente interina Delcy Rodríguez e pelos
ministros da Defesa, Vladimir Padrino López, e do Interior, Justiça e Paz,
Diosdado Cabello.
Durante
a conversa, eles acordaram a construção de uma agenda conjunta para o combate
ao tráfico de drogas e, também, temas relacionados ao terrorismo na
região e à migração.
Em
postagem nas redes sociais, o Ministro da Comunicação e Informação da
Venezuela, Miguel Pirela, disse que a “reunião ratifica que o caminho
diplomático deve ser o mecanismo para resolver divergências e tratar de
questões de interesse binacional e regional, de interesse de todas as partes.”
O Comando Sul, por sua vez, postou
uma mensagem na plataforma X dizendo que “construir confiança e fortalecer os
relacionamentos com as nações parceiras é a maneira mais eficaz de
combater ameaças comuns e garantir a
estabilidade e a segurança regional”.
Esta
foi a primeira visita de uma delegação militar dos Estados Unidos desde que as
forças norte-americanas sequestraram o presidente venezuelano Nicolás Maduro e
a primeira-dama Cilia Flores, em 3 de janeiro, ocasionando a morte de 100
pessoas.
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EUA sancionam autoridades do Chile por promoverem projeto
com a China
O
governo dos Estados Unidos impôs sanções nesta sexta-feira (20/02) contra três
autoridades do governo chileno, acusadas de “prejudicar a segurança regional em
nosso hemisfério”.
A
medida foi anunciada pelo Secretário Marco Rubio, chefe do Departamento de
Estado norte-americano, e não menciona os nomes das autoridades sancionadas,
alegando apenas que elas supostamente “dirigiram, autorizaram, financiaram,
forneceram apoio significativo e/ou realizaram atividades que comprometeram a
infraestrutura crítica de telecomunicações”.
Também
segundo a declaração divulgada pelo secretário, os sancionados e seus
familiares imediatos “não terão permissão para entrar nos Estados Unidos, e
quaisquer vistos norte-americanos que possuam serão revogados”.
Reportagem
da chilena Rádio Bío-Bío apurou que dois dos funcionários
sancionados são o ministro dos Transportes e Telecomunicações, Juan Carlos
Muñoz, e o subsecretário de Telecomunicações, Claudio Araya.
Ademais,
informou que a medida adotada pelos Estados Unidos seria uma retaliação
pelo projeto Chile-China Express, que envolve um cabo
submarino de fibra óptica conectando Hong Kong e Valparaíso, no litoral central
chileno.
A
matéria acrescenta, a partir dessa informação, que a terceira pessoa sancionada
seria um funcionário da Subsecretaria de Telecomunicações envolvido nesse
projeto.
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Reação de Boric
A
decisão do governo dos Estados Unidos foi rechaçada pelo presidente chileno Gabriel Boric, que abordou a
questão nesta mesma sexta.
Em
coletiva de imprensa durante visita à Ilha de Páscoa, o mandatário afirmou que
“nosso governo jamais realizou qualquer tipo de atividade que prejudique a
segurança do Chile ou de qualquer outro país”.
Sem
citar diretamente o projeto Chile-China Express, Boric ressaltou que “não
aceitamos imposições de nenhum outro país em relação às decisões soberanas
tomadas pelo Chile”.
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EUA esperam apoio de Kast
Curiosamente,
a declaração de Rubio sobre as sanções impostas aos funcionários chilenos faz
alusões tanto o atual presidente do país, de centro-esquerda, quanto o
presidente eleito José Antonio Kast, de extrema direita – que assumirá o cargo
no próximo dia 11 de março.
Segundo
Rubio, “em seu ocaso, o legado do governo Boric será ainda mais manchado por
ações que prejudicam a segurança regional, em detrimento, em última instância,
do povo chileno”.
“Esperamos
avançar em prioridades compartilhadas, incluindo aquelas que fortalecem a
segurança do nosso hemisfério, com o futuro governo Kast”, adicionou o
Secretário de Estado norte-americano, insinuando que espera contar com o apoio
do futuro presidente para reverter o projeto do cabo submarino entre Chile e
China.
Fonte:
Opera Mundi

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