terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Carmen Navas Reyes: Venezuela e Irã - petróleo e sobrevivência

A Venezuela, sob ameaça após os ataques de 3 de janeiro, e em perspectiva ao lado do reflexo histórico que é o Irã, nos permite estudar os modelos do nacionalismo petrolífero clássico e da resistência pragmática. Mas, além da economia, alguns analistas apresentaram a teoria de que o petróleo venezuelano e iraniano não é apenas um negócio, mas munição vital no cenário de guerra proposto pelos Estados Unidos.

<><> A reforma de 2026: privatização ou tábua de salvação tática?

Para entender a atual reforma, devemos olhar para os números vermelhos. Em 2014, a Venezuela tinha receitas anuais de petróleo de quase 40 bilhões de dólares. Após as sanções dos EUA e o bloqueio financeiro, esse número caiu para apenas 740 milhões de dólares em 2020. O Estado, proprietário do recurso, ficou sem capacidade para extraí-lo e sem bancos para receber o pagamento.

A resposta foi a Lei Anti-Bloqueio de 2020, que deu origem aos Contratos de Participação Petrolífera (CPP). De acordo com as contribuições da recente reunião de alto nível, os CPPs não são concessões tradicionais. São contratos de serviços em que o setor privado investe e opera, cobrando seu investimento diretamente através da produção física (barris), eliminando a transação financeira que os EUA poderiam bloquear.

O governo defende o sucesso do modelo: as receitas em cinco anos aumentaram para um recorde de 14 bilhões de dólares em 2025, o que, embora longe das receitas históricas, foi consideravelmente superior aos 740 milhões de dólares no pior momento de 2019. A reforma agora busca dar status legal a esse mecanismo, retirando-o do âmbito da excepcionalidade, que muitas vezes colocava o Estado venezuelano em desvantagem. Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, resume isso como uma “flexibilização das tarifas”, na qual o setor privado fornece o capital e o Estado mantém a soberania sobre o campo petrolífero. Enquanto Caracas discute a nova base jurídica para se adaptar às novas condições das relações energéticas com os EUA, Donald Trump enviou uma mensagem de Washington no dia 23 de janeiro confirmando a mudança de postura do presidente dos EUA sobre a geopolítica do petróleo: “A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo… maiores que as da Arábia Saudita”, sugerindo que os EUA poderiam ganhar “muito dinheiro” com essa relação pragmática.

<><> O choque de visões e as críticas internas

A reforma gerou algumas críticas. O ex-ministro do Petróleo Rafael Ramírez, que enfrenta acusações de corrupção na Venezuela, descreveu a medida em 27 de janeiro como uma “revogação da nacionalização de 1976”. Para aqueles que historicamente defenderam o nacionalismo petrolífero, os CPPs, no âmbito da reforma da Lei de Hidrocarbonetos, entregam o controle operacional (que consideram ser o valor real) às empresas transnacionais.

O governo rebate com “pragmatismo de guerra”: o modelo de 2006 (com 90% da receita indo para o Estado) era ideal em tempos de paz, mas inviável sob cerco. O novo esquema garante entre 65% e 70% da receita e, mais importante, mantém a indústria viva. Isso representa uma retirada forçada devido às circunstâncias, a fim de evitar o sufocamento total.

<><> A Nova Guerra Fria: o fator China

É aqui que a dimensão global entra em jogo. Por que Donald Trump e Washington agora mostram tolerância tácita a esse modelo venezuelano (como visto pelas licenças concedidas à Chevron), mantendo sua retórica dura? A resposta pode estar no objetivo de conter a China.

Várias análises, incluindo as de conservadores como Tucker Carlson, apresentaram uma tese que ressoa na mídia e nos think tanks geopolíticos: os Estados Unidos estão se preparando para um conflito cinético ou comercial em grande escala com a China. Nesse cenário, o controle das reservas de petróleo venezuelanas deixa de ser uma questão de mercado e se torna uma questão de pura segurança nacional.

Carlson adverte que o governo Trump considera inaceitável que as maiores reservas do mundo (Venezuela) e uma das chaves do Golfo Pérsico (Irã) estejam abastecendo a China. “O petróleo está indo para a China… deveria estar vindo para nós”, é a interpretação subjacente à nova doutrina de Washington.

Dessa perspectiva:

Cortar recursos ao inimigo: o objetivo não é mais apenas “mudar o regime” em Caracas por razões “democráticas”, mas desvincular a Venezuela da China. Se os CPPs e as licenças permitirem que o petróleo venezuelano flua para o Golfo do México (EUA) em vez de Xangai, Washington ganha uma batalha estratégica sem disparar um tiro.

O caso iraniano: com o Irã, a situação é mais volátil. Carlson sugere que a hostilidade em relação a Teerã visa cortar a principal artéria de energia segura da China no Oriente Médio. Controlar ou neutralizar o petróleo iraniano deixa a maquinaria industrial e militar da China vulnerável a um bloqueio naval. E, ao mesmo tempo, controlar as rotas de abastecimento.

Essa “Nova Guerra Fria” explica o paradoxo atual: os EUA, ao mesmo tempo em que transformam o Caribe em uma grande base militar, estão permitindo que a Venezuela respire economicamente (por meio da Chevron e, no futuro, da participação de outras grandes empresas americanas), porque preferem uma Venezuela pragmática que venda para o Norte, em vez de uma Venezuela não alinhada que seja um fornecedor seguro de energia para a China e, financeiramente, contribua para colocar o prego no caixão do dólar como moeda global.

<><> O espelho histórico: Irã e Venezuela (O “Petroleumscape”)

Essa dinâmica não é nova. A Venezuela e o Irã compartilham uma “paisagem petrolífera” histórica. Ambos sofreram golpes orquestrados pelo Ocidente quando tentaram nacionalizar seus recursos (1948 e 1953). Ambos fundaram a OPEP em 1960 para se defenderem.

Nos últimos anos, a aliança Caracas-Teerã tem sido existencial. O Irã ensinou a Venezuela como lidar com sanções (frotas secretas, reparos em refinarias, entre outros). Agora, ambos os países se encontram no centro da disputa entre os EUA e a China. A reforma legal na Venezuela é, em sua essência, uma manobra para sobreviver neste tabuleiro de xadrez: garantir seu próprio fluxo de caixa para aliviar a ameaça dos EUA, mesmo que a gravidade geopolítica inevitavelmente pressione Washington a exercer maior pressão sobre ambos os países.

<><> Essa história vem se repetindo há mais de 100 anos

A reforma parcial da Lei de Hidrocarbonetos é muito mais do que um ajuste técnico; é um ato de sobrevivência às vésperas de um grande conflito global. A Venezuela está sacrificando parte de sua receita e controle operacional (o que já fazia por meio do CPP com a Lei Anti-Bloqueio) para se reinserir no mercado ocidental e tentar contornar o bloqueio.

Em última análise, na guerra pela hegemonia global travada por Washington, que vê Pequim como seu principal concorrente, o petróleo venezuelano e iraniano são os troféus estratégicos definitivos. A Venezuela e sua história centenária do petróleo, como começamos a estudar, é um dos campos de batalha.

Pragmatismo chavista em condições de cerco e guerra multifatorial

¨      Como o chavismo concilia princípios ideológicos e cálculo político em meio a ameaças e sanções internacionais. Por Francisco Ameliach

O pragmatismo absoluto ou neoliberal constitui a concepção do pragmatismo como motor da despolitização e da desideologização, um dos fenômenos sociopolíticos globais mais relevantes das últimas décadas.

Quando a política se desloca para o pragmatismo absoluto, deixa de ser uma luta de valores para se tornar uma administração de recursos. Isso traz como consequência o fim das grandes narrativas: seguindo a lógica de autores como Daniel Bell (O fim das ideologias), presume-se que as grandes disputas históricas terminaram e que resta apenas otimizar o sistema global predominante atual.

Hugo Chávez se opõe à tese do pragmatismo absoluto e do “fim das ideologias”. Em O Livro Azul, ele afirma o seguinte:

“Vivemos efetivamente uma era em que as ideologias parecem estar se extinguindo. ‘O fim das ideologias’, assim o chamaram muitos estudiosos da época… E é precisamente neste quadro desideologizado e com o objetivo de encontrar recursos válidos para que nosso povo avance pelo mapa intrincado e complexo do futuro que nos atrevemos a invocar um modelo ideológico autóctone e enraizado no mais profundo de nossa origem e no subconsciente histórico do ser nacional.”

Autores contemporâneos como Slavoj Žižek argumentam que o pragmatismo absoluto é, em si mesmo, a “ideologia invisível”. Ao dizer “não sou ideológico, não sou político, sou prático”, aceita-se de forma acrítica o statu quo (geralmente o neoliberalismo) como se fosse uma lei natural e não uma escolha política.

O perigo do pragmatismo absoluto é que ele pode transformar a política em uma simples “manutenção do sistema imperialista”, perdendo a capacidade de imaginar futuros distintos ou mudanças estruturais profundas.

Quando o pragmatismo absoluto colide com a mística revolucionária, ocorre uma ruptura que afeta tanto a identidade do movimento quanto seu vínculo com o eleitorado. Para um movimento baseado na luta heroica (Revolução Bolivariana), a memória histórica e ideológica é seu principal ativo; é o que legitima sua existência.

A fidelidade do núcleo duro dos eleitores em movimentos épicos não é racional-econômica; é majoritariamente emocional e moral. O pragmatismo absoluto rompe essa fórmula, causando desmobilização: a luta heroica requer militância ativa. Com o desaparecimento da “mística”, desaparece também a vontade de defender o projeto em momentos de crise.

<><> Pragmatismo chavista

Hugo Chávez, sem abandonar sua forte carga ideológica, propôs o pragmatismo como método ou tática de resistência ativa para alcançar princípios ideológicos e objetivos históricos; por isso, combateu duramente o dogmatismo, especialmente quando percebia que a teoria afastava seus seguidores da realidade ou da eficiência necessária para governar.

Chávez costumava criticar aqueles que pretendiam governar seguindo os livros ao pé da letra, sem interpretar corretamente os diferentes contextos que prefiguram a realidade existente. Em certa ocasião, expressou:

“Não nos deixemos encaixotar em dogmas. O dogmatismo é o pior inimigo da criação revolucionária.”

Sobre a unidade acima da “pureza ideológica”, Chávez era um grande estrategista da unidade. Criticava os grupos de esquerda radical que se fragmentavam por “purismos”.

“Unidade, unidade, unidade. Devemos ser capazes de trabalhar com aqueles que não pensam exatamente como nós em prol de um objetivo superior.”

A influência do pensamento antidogmático de Hugo Chávez na Lei Antibloqueio — que inspirou a reforma da Lei de Hidrocarbonetos —, ambas propostas pela atual presidente (E) Delcy Rodríguez, constitui uma linha direta que o governo de Nicolás Maduro utilizou para legitimar uma virada necessária a fim de enfrentar o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos. A lei não é uma traição à Revolução Bolivariana, mas uma aplicação do pragmatismo chavista em condições de cerco e guerra multifatorial.

Quando um governo realiza reformas sociais, econômicas ou políticas para evitar uma guerra, está aplicando um cálculo de custo-benefício. O pragmatismo aqui reside em reconhecer que o custo da reforma é menor do que o custo total de uma invasão, de uma guerra civil, da destruição da infraestrutura e da possível perda do poder. Cede-se no secundário — uma lei, uma política econômica — para salvar o principal: a existência da República Bolivariana da Venezuela.

Não tenho a menor dúvida de que a presidente (E) Delcy Rodríguez está fazendo o que é correto segundo a lógica do pragmatismo chavista. Se Chávez estivesse vivo diante de uma ameaça de ocupação ou colapso total, não se agarraria a uma lei que asfixiasse o povo, mas “romperia as amarras” para salvar a República.

O pragmatismo chavista aplicado pela presidente (E) Delcy Rodríguez permite que a República Bolivariana da Venezuela sobreviva enquanto mantém sua identidade histórico-ideológica. É precisamente essa identidade histórico-ideológica o principal elemento dissuasivo diante de ameaças externas e internas.

¨      Venezuela e EUA firmam cooperação para combater tráfico de drogas

A Venezuela e os Estados Unidos concordaram em trabalhar na elaboração de uma agenda bilateral de cooperação para o combate ao tráfico de drogas, durante uma reunião realizada em Caracas nesta quarta-feira (18/02).

A reunião contou, do lado norte-americano, com a presença do chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, general Francis L. Donovan; do alto funcionário do Pentágono, Joseph Humire e da embaixadora norte-americana Laura Dogu.

Eles foram recebidos pela presidente interina Delcy Rodríguez e pelos ministros da Defesa, Vladimir Padrino López, e do Interior, Justiça e Paz, Diosdado Cabello.

Durante a conversa, eles acordaram a construção de uma agenda conjunta para o combate ao tráfico de  drogas e, também, temas relacionados ao terrorismo na região e à migração.

Em postagem nas redes sociais, o Ministro da Comunicação e Informação da Venezuela, Miguel Pirela, disse que a “reunião ratifica que o caminho diplomático deve ser o mecanismo para resolver divergências e tratar de questões de interesse binacional e regional, de interesse de todas as partes.”

O Comando Sul, por sua vez, postou uma mensagem na plataforma X dizendo que “construir confiança e fortalecer os relacionamentos com as nações parceiras é a maneira mais eficaz de combater ameaças comuns e garantir a estabilidade e a segurança regional”.

Esta foi a primeira visita de uma delegação militar dos Estados Unidos desde que as forças norte-americanas sequestraram o presidente venezuelano Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores, em 3 de janeiro, ocasionando a morte de 100 pessoas.

¨      EUA sancionam autoridades do Chile por promoverem projeto com a China

O governo dos Estados Unidos impôs sanções nesta sexta-feira (20/02) contra três autoridades do governo chileno, acusadas de “prejudicar a segurança regional em nosso hemisfério”.

A medida foi anunciada pelo Secretário Marco Rubio, chefe do Departamento de Estado norte-americano, e não menciona os nomes das autoridades sancionadas, alegando apenas que elas supostamente “dirigiram, autorizaram, financiaram, forneceram apoio significativo e/ou realizaram atividades que comprometeram a infraestrutura crítica de telecomunicações”.

Também segundo a declaração divulgada pelo secretário, os sancionados e seus familiares imediatos “não terão permissão para entrar nos Estados Unidos, e quaisquer vistos norte-americanos que possuam serão revogados”.

Reportagem da chilena Rádio Bío-Bío apurou que dois dos funcionários sancionados são o ministro dos Transportes e Telecomunicações, Juan Carlos Muñoz, e o subsecretário de Telecomunicações, Claudio Araya.

Ademais, informou que a medida adotada pelos Estados Unidos seria uma retaliação pelo projeto Chile-China Express, que envolve um cabo submarino de fibra óptica conectando Hong Kong e Valparaíso, no litoral central chileno.

A matéria acrescenta, a partir dessa informação, que a terceira pessoa sancionada seria um funcionário da Subsecretaria de Telecomunicações envolvido nesse projeto.

<><> Reação de Boric

A decisão do governo dos Estados Unidos foi rechaçada pelo presidente chileno Gabriel Boric, que abordou a questão nesta mesma sexta.

Em coletiva de imprensa durante visita à Ilha de Páscoa, o mandatário afirmou que “nosso governo jamais realizou qualquer tipo de atividade que prejudique a segurança do Chile ou de qualquer outro país”.

Sem citar diretamente o projeto Chile-China Express, Boric ressaltou que “não aceitamos imposições de nenhum outro país em relação às decisões soberanas tomadas pelo Chile”.

<><> EUA esperam apoio de Kast

Curiosamente, a declaração de Rubio sobre as sanções impostas aos funcionários chilenos faz alusões tanto o atual presidente do país, de centro-esquerda, quanto o presidente eleito José Antonio Kast, de extrema direita – que assumirá o cargo no próximo dia 11 de março.

Segundo Rubio, “em seu ocaso, o legado do governo Boric será ainda mais manchado por ações que prejudicam a segurança regional, em detrimento, em última instância, do povo chileno”.

“Esperamos avançar em prioridades compartilhadas, incluindo aquelas que fortalecem a segurança do nosso hemisfério, com o futuro governo Kast”, adicionou o Secretário de Estado norte-americano, insinuando que espera contar com o apoio do futuro presidente para reverter o projeto do cabo submarino entre Chile e China.

 

Fonte: Opera Mundi

 

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