terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Deputado argentino denuncia que reforma trabalhista de Milei vai provocar um ‘industrialício’

Argentina caminha a passos largos para aprovar, na próxima sexta-feira (27), a reforma trabalhista proposta pelo governo de Javier Milei, um pacote de 217 artigos que, segundo críticos, representa o maior retrocesso social desde o século 19. Apesar da forte rejeição popular e das manifestações que tomaram as ruas, o texto avançou no parlamento com apoio de setores da oposição peronista e deve ser votado no Senado nos próximos dias.

Em entrevista ao programa Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o deputado Christian Castillo, do Partido de los Trabajadores Socialistas (PTS), analisou os impactos da reforma, a estratégia do governo e o cenário de crise que já levou ao fechamento de 22 mil empresas no país.

“É muito difícil reverter a votação no Senado, que já tem uma votação favorável inicial”, admite Castillo. O governo conseguiu avançar na Câmara dos Deputados “graças à adesão de setores da oposição peronista que deram quórum e alguns inclusive votaram. Eles que haviam sido eleitos para fazer oposição”.

A reforma, detalha o deputado, é um ataque frontal aos direitos trabalhistas. “Tem 217 artigos. Nenhum é a favor dos trabalhadores. A totalidade dos artigos é favorável às patronais.”

Entre os pontos mais graves, Castillo destaca:

  • O alargamento da jornada laboral com o chamado “banco de horas”, que permite jornadas de até 12 horas compensadas com outros dias, eliminando o pagamento de horas extras
  • A criação de um fundo de assistência laboral que desvia dinheiro das pensões para financiar demissões, administrado por setores financeiros
  • A limitação do direito de greve, com cerca de 60 atividades declaradas “essenciais”
  • A proibição de assembleias de trabalhadores sem autorização patronal
  • A exclusão explícita de trabalhadores de aplicativos como Uber e delivery de qualquer direito trabalhista

“É uma ditadura patronal plena, a negação da relação de dependência do trabalhador em relação às plataformas”, resume o deputado.

A greve geral da quinta-feira (19) teve “muita adesão de trabalhadores”, segundo Castillo. A revogação do artigo 44, que diminuía o pagamento de licenças por doença, é apontada por Castillo como exemplo da pressão popular: “A população cresceu fortemente a rejeição à reforma depois que se publicou o artigo 44. Isso elevou o número de setores da população que repudiaram a reforma, a tal ponto que esse artigo foi retirado do texto”, pontuou.

<><> Peronismo dividido, esquerda unificada

Questionado sobre o cenário da oposição, Castillo faz uma distinção importante. “A esquerda não está fragmentada. Temos uma frente, a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidade, com quatro deputados nacionais e vários estaduais, que atuou unitariamente e teve muita presença na oposição à reforma.”

O deputado fez duras críticas ao peronismo, que, na visão dele, é o bloco de oposição mais importante no Congresso, e que “efetivamente tem uma divisão entre deputados e senadores que respondem a governadores que negociaram adesão à reforma de Milei, dando quórum e alguns votando favoravelmente”.

Mas Castillo diferencia dois grupos: “Setores que apoiam a agenda de Milei a partir de negociações, e outro setor que se opõe, mas não tem mobilizado nem tem encarado uma luta séria contra a reforma. A grande maioria do peronismo se limitou a dizer ‘não ao acordo’, sem impulsionar a luta de classes contra a reforma”.

A condução da CGT, segundo ele, faz parte desse quadro. “Negociaram a partir de simplesmente garantir o financiamento dos sindicatos, entregando tudo”, afirmou.

<><> ‘Industrialício’: o colapso da economia argentina

A economia argentina vive um fenômeno de dois ritmos, descreve Castillo. “Um ritmo do setor financeiro e extrativista ligado a mineração, hidrocarbonetos, petróleo em particular, e o agro – há grandes negócios dos setores capitalistas nesses segmentos. Mas o resto da economia está afundada.”

A produção industrial voltada ao mercado interno está totalmente paralisada por uma combinação dos seguintes fatores: abertura indiscriminada da economia com entrada de produtos baratos, particularmente da China; queda do poder de compra do salário, que diminuiu forçadamente o consumo popular; e dólar barato em relação ao que estava, que encarece os custos da produção argentina

O exemplo mais recente é o fechamento da Fate, principal planta produtora de pneus para automóveis e caminhões, deixando 1 mil trabalhadores na rua. “A empresa é de um dos capitais nacionais mais ricos do país, Manuel Madanes Quintanilla, 12º mais rico da Argentina, com fortuna de US$ 1,5 bilhão. Ele anunciou o fechamento.”

Castillo conta que, desde que Milei assumiu, “22 mil empresas fecharam. Um liberal pró-mercado que provoca o fechamento massivo de empresas. Essa é a realidade”.

O setor têxtil opera com apenas 30% da capacidade instalada. No setor de pneus, as vendas caíram 40%, e 70% do total são de importação chinesa. Há dois anos, a proporção era inversa.

¨      ‘A essência é o ataque aos trabalhadores’, diz analista sobre reforma trabalhista na Argentina e a resistência nas ruas

A reforma trabalhista promovida pelo governo de Javier Milei na Argentina, já aprovada no Senado e em tramitação na Câmara, segue como um dos principais focos de tensão social no país. Apesar de recuos pontuais — como a retirada de um artigo que retirava garantias de trabalhadores doentes —, a essência da proposta permanece inalterada: um ataque profundo aos direitos dos trabalhadores e às negociações coletivas.

Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, a analista internacional Ana Prestes avaliou o cenário e as perspectivas de resistência. “A essência da reforma é o ataque aos trabalhadores. É aquela típica reforma neoliberal que muitos países da América Latina enfrentaram nos anos 1990 e depois com a onda conservadora”, afirmou.

Ela destacou que a Argentina tem uma tradição histórica de organização sindical e de lutas populares. “É um país de trabalhadores e trabalhadoras muito organizados, com sindicatos fortes. A reforma ataca justamente os direitos coletivos e as negociações, deixando os trabalhadores mais vulneráveis, especialmente no momento da demissão.”

Prestes apontou que, enquanto o mundo debate a redução da jornada de trabalho — como a proposta de fim da escala 6×1 no Brasil —, a reforma argentina mantém uma carga horária elevada, na contramão das discussões globais. “Isso explica por que, mesmo com negociações pontuais, a oposição e os protestos não vão arrefecer.”

A Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), uma das mais importantes organizações populares da Argentina e da América Latina, convocou uma greve nacional, com foco no setor de transportes, para paralisar o cotidiano do país e mostrar ao governo a força da classe trabalhadora.

Para Prestes, a decisão também reflete a violência com que as manifestações têm sido reprimidas. “Para evitar que a população seja vítima dessa violência, optou-se pela paralisação. Mas a Argentina tem uma tradição histórica de ocupação das ruas — os panelaços, os cacerolaços. Isso vem de décadas.”

Ela lembra que o país exportou para a América Latina formas de protesto, como o bater de panelas, e que essa cultura de resistência deve se manter. “Mesmo com a repressão, a sociedade argentina, seus sindicatos e movimentos sociais têm uma tradição de ir às ruas. Minha impressão é que isso vai se aprofundar.”

O governo Milei, segundo a analista, aproveita a nova correlação de forças no parlamento — conquistada nas eleições de outubro de 2025, que lhe renderam quase 100 cadeiras na Câmara — para avançar em uma agenda ampla de retrocessos. “Além da reforma trabalhista, há pautas como a destruição de empresas estatais, a regressão de direitos setoriais, especialmente das mulheres, e a redução da idade penal. Tudo isso integra a cartilha conservadora e neoliberal do governo.”

Prestes também lembrou o alinhamento de Milei com o governo Trump, nos Estados Unidos, que facilita negociações de empréstimos e o pagamento da dívida com o FMI. “Essa conjunção de fatores faz com que o governo tente impor sua agenda a todo custo. A votação de hoje será um teste de até onde eles vão aprofundar essa regressão.”

A analista concluiu com um alerta sobre as condições concretas da população argentina. “Não está fácil viver na Argentina. Não está fácil comer, pagar o transporte público, nem trabalhar. Isso justifica, e muito, a reação nas ruas. Vamos acompanhar de perto os próximos capítulos.”

¨      Argentina: inflação em queda, economia em retração. Por Pedro Benedito Maciel Neto

A recente queda da inflação na Argentina, comemorada pela imprensa liberal, é consequência direta de uma forte contração econômica. Sob o governo de Javier Milei, o país implementou um programa de ajuste fiscal severo: cortes profundos de gastos públicos, redução de subsídios e compressão da demanda interna.

Do ponto de vista técnico, a lógica é simples: quando o Estado reduz drasticamente suas despesas, a renda circulante diminui. Com menos consumo e menos crédito, empresas vendem menos, reduzem a produção e seguram preços. A inflação cede — mas à custa de retração do PIB, aumento do desemprego e queda da renda real.

A história econômica argentina ajuda a contextualizar esse fenômeno.

Nos anos 1990, durante o regime de conversibilidade, a inflação foi domada com âncora cambial e disciplina fiscal, mas o modelo culminou na crise de 2001, marcada por recessão profunda e explosão da pobreza. Já entre 2003 e 2011, com políticas mais expansionistas e crescimento puxado por commodities, houve redução significativa da pobreza, ainda que com pressões inflacionárias persistentes. O país oscila, há décadas, entre estabilizações recessivas e ciclos de crescimento com tensões de preços.

O momento atual parece repetir um padrão: estabilização via compressão da demanda. O que pretendo propor à reflexão é o custo sentido, nos médio e longo prazos, pelos países que adotam a austeridade fiscal como solução.

<><> O FMI e a revisão da austeridade

Em 2020, reportagem do EL PAÍS destacou uma inflexão relevante no discurso do Fundo Monetário Internacional (FMI). Após décadas defendendo ajustes fiscais rígidos como condição para estabilidade, o organismo passou a reconhecer que austeridade excessiva pode agravar desigualdades, comprometer o crescimento e estimular instabilidade social.

Essa mudança não foi trivial. Estudos internos do próprio FMI passaram a admitir que multiplicadores fiscais — isto é, o impacto do gasto público sobre o PIB — podem ser elevados em períodos de crise. Em termos didáticos: quando o governo corta 1 unidade de gasto, o PIB pode cair mais de 1 unidade, ampliando o desemprego e reduzindo a arrecadação, o que paradoxalmente dificulta o próprio ajuste fiscal.

<><> Como a austeridade afeta inflação, PIB e pobreza?

Inflação — A inflação resulta do desequilíbrio entre oferta e demanda, expectativas e política monetária. A austeridade reduz a demanda agregada. Com menos consumo e investimento, os preços tendem a desacelerar. Porém, essa desinflação não decorre de ganho de produtividade ou expansão da oferta, mas da compressão da atividade econômica.

PIB — O gasto público compõe a demanda agregada (PIB = consumo + investimento + gasto público + exportações líquidas). Quando o Estado corta investimentos, salários e transferências, o impacto se espalha pela economia. Empresas reduzem a produção, o desemprego aumenta e o crescimento encolhe.

Pobreza — A redução de políticas sociais e o aumento do desemprego elevam a vulnerabilidade. Em economias já fragilizadas, como é o caso da Argentina, o ajuste tende a recair desproporcionalmente sobre os mais pobres. Foi o que ocorreu na Argentina em diferentes momentos históricos — e o que o FMI passou a reconhecer como risco sistêmico.

O paralelo estrutural — O caso argentino recente funciona como laboratório empírico do debate teórico apresentado pelo FMI anos antes. A inflação cai, mas o custo social cresce. O indicador melhora; a realidade social piora.

Isso revela um ponto crucial: estabilidade nominal não é sinônimo de prosperidade. Uma economia pode exibir inflação menor e, simultaneamente, registrar retração produtiva e deterioração do tecido social.

A experiência histórica argentina mostra que programas de estabilização bem-sucedidos no longo prazo combinaram disciplina macroeconômica com políticas de proteção social e estímulos ao crescimento. Ajustes exclusivamente contracionistas tendem a produzir alívio temporário, seguido de tensões estruturais.

<><> Conclusão

Sempre ressalvo: não sou economista, mas aqui o debate proposto não é entre responsabilidade fiscal e irresponsabilidade, e sim entre modelos de ajuste.

A lição que emerge do paralelo entre a Argentina contemporânea e a revisão conceitual do FMI é que políticas econômicas eficazes precisam equilibrar estabilidade de preços, crescimento e coesão social.

Inflação baixa obtida por recessão é um remédio que cura o sintoma, mas pode enfraquecer o paciente. A história argentina sugere que o verdadeiro desafio não é apenas derrubar índices inflacionários, mas construir um ciclo sustentável de desenvolvimento — com estabilidade e inclusão.

Essas são as reflexões.

<><> 90% de adesão à greve e violência policial marcam maior protesto contra governo Milei

Enquanto a Câmara dos Deputados da Argentina avançava na votação da reforma trabalhista proposta pelo governo de Javier Milei, as ruas do país davam sua resposta. Nesta quinta-feira (19), a quarta greve geral desde a posse do ultraliberal paralisou a Argentina com mais de 90% de adesão, indicador do descontentamento popular diante das medidas que retiram direitos históricos dos trabalhadores.

Mas os números impressionantes da paralisação não contam toda a história. Por trás deles, há uma estratégia sistemática de violência estatal, uma reforma que avança no Congresso e uma população cada vez mais sufocada pela carestia. Para entender o que está em jogo, o Conexão BdF entrevistou Erika Gimenez, jornalista e coordenadora internacional da ARG Medios, que acompanhou de perto as mobilizações.

A greve geral convocada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) paralisou transportes, comércios e serviços em todo o país. A adesão maciça, no entanto, teve uma exceção reveladora: a empresa vinculada ao pai de Javier Milei, alinhada ao governo, foi a única que não paralisou suas atividades, e ainda tentou obrigar trabalhadores a comparecerem.

“O transporte parou, é importante destacar isso”, afirma Gimenez. “Só que tem uma coisa para falar: a empresa relacionada com o governo, é a única que não fez parte da greve. Eles obrigavam os trabalhadores a chegar.”

A jornalista ressalta que, apesar da adesão impressionante, a sensação que fica é de que “não é suficiente”. E explica por quê: “A sociedade está sendo pressionada em várias frentes ao mesmo tempo. Tem aumento da tarifa do transporte, eletricidade, gás, os aluguéis, a dificuldade de pagar dívidas familiares. Mobilizar também é muito difícil.”

O Congresso avançou com a reforma trabalhista e um item, em particular, passou quase despercebido, mas tem enorme significado: a retirada do estatuto profissional dos jornalistas. “Ontem [quinta-feira] eles tiraram o artigo dos jornalistas profissionais”, denuncia Gimenez. “A gente não tem mais o estatuto profissional do trabalho que garanta nossos direitos.”

A medida é mais um capítulo na guerra declarada por Milei contra a imprensa crítica. “Os jornalistas são alvo da violência do Milei. Os fotojornalistas nas mobilizações, os jornalistas nos discursos, nas redes sociais”, destaca. “Esse artigo marca um retrocesso e marca o ataque ao jornalismo. O jornalismo não vai ter direitos. É um dia muito triste para nós.”

As imagens dos protestos em Buenos Aires impressionaram: ruas laterais tomadas por policiais, caminhões de água em cada esquina, uma desproporção evidente entre manifestantes e forças de repressão.

“Tinha mais polícia que pessoas”, descreve Gimenez. “Se vocês olham as imagens depois das cinco da tarde de ontem, é uma imagem de muita violência desproporcionada. É impossível de compreender, mas é a imagem lamentavelmente de ditadura.”

A jornalista explica que a estratégia do governo vai mudando a cada protesto, mas a essência é sempre a mesma: repressão. “Ontem foi pelas ruas laterais. Tinham mais caminhões que atiram água nas pessoas. Muita polícia. Eles vão mudando, mas cada vez tem mais polícia e mais violência. A estratégia deles é a mesma, sempre a repressão.”

Para Gimenez, há uma mensagem clara por trás da truculência: “Eles procuram que a gente não se mobilize”. A violência, no entanto, pode ter o efeito oposto. “A gente sempre espera a violência deles. Vai ter um momento que a gente não vai se importar pela repressão. Essa raiva vai virar uma resistência organizada.”

Enquanto o governo Milei comemora seus primeiros resultados como “sucesso”, a realidade nas ruas é outra. A Argentina tem hoje 40% de trabalhadores informais, um contingente enorme que governos anteriores, mesmo progressistas, não conseguiram incorporar ao mercado formal.

“Outros governos não conseguiram responder a essas demandas das pessoas, a esses trabalhadores informais. Hoje, na Argentina, para ter uma vida digna, tem pessoas que têm três trabalhos. Isso não é possível. Isso não pode ser imagem de sucesso do Milei”, critica.

A reforma trabalhista segue avançando no Congresso, o artigo 44 foi aprovado, e a perspectiva para os próximos meses é de mais enfrentamento.

A jornalista aposta na organização popular como caminho. “Pode ser pela oposição, pode ser uma organização nova. Acho que ainda não vai ser possível uma resposta imediata, mas no ano que vem a gente tem eleições”, finaliza.

 

Fonte: Brasil de Fato/ICL Notícias/Brasil 247

 

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