O
silêncio como vocação: o testemunho de monges e carmelitas em um mundo marcado
pelo ruído
O Papa
Leão XIV recorda, nesta Quaresma, a importância de cultivar a escuta e moderar
as palavras, destacando que “a disponibilidade para escutar é o primeiro sinal
com que se manifesta o desejo de entrar em relação com o outro”. O convite do
Pontífice toca uma dimensão cada vez mais desafiadora na vida contemporânea: o
silêncio.
Em uma
sociedade marcada pelo excesso de estímulos, notificações constantes e
hiperconectividade, permanecer em silêncio tornou-se incomum. No entanto, para
comunidades religiosas como os carmelitas e os cistercienses, o silêncio não é
apenas uma prática ocasional, mas um verdadeiro estilo de vida: um caminho
cotidiano de encontro com Deus e de amadurecimento interior.
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O silêncio como caminho de união com Deus no Carmelo
Na
espiritualidade carmelitana, o silêncio é parte essencial da vocação. Mais do
que ausência de sons, ele é compreendido como uma atitude interior que permite
viver continuamente na presença de Deus.
“O
silêncio e a oração na vida dos carmelitas não são apenas a ausência de
barulho, mas um estilo de vida e um caminho interior de união com Deus”,
explica Frei Emerson, da Ordem dos Carmelitas Descalços. Inspirados por santos
como Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz, os carmelitas buscam cultivar
uma vida interior profunda, onde a escuta se torna fundamental.
Essa
vivência nasce da oração e da contemplação, que formam o núcleo da
espiritualidade do Carmelo. Frei Higor Fernandes de Oliveira, O.Carm, explica
que a própria identidade carmelitana está ligada a esse movimento interior:
“Somos chamados a subir ao monte da oração, contemplar Jesus e depois descer
para testemunhar no mundo aquilo que vimos e ouvimos na intimidade com Ele”.
Segundo
o religioso, o silêncio carmelitano é antes de tudo interior. “Trata-se de
fazer silenciar o barulho dentro de nós, para que a realidade possa aparecer
como ela é, e para que possamos escutar a voz de Deus”, afirma.
Essa
experiência, no entanto, contrasta com o ritmo da sociedade atual. Frei Emerson
observa que o excesso de ruído e a necessidade constante de conexão dificultam
esse encontro interior. “Se não estou conectado, parece que não existo. Por
medo, muitas vezes fugimos da nossa própria interioridade”, diz. Como
consequência, surgem ansiedade, vazio e dificuldade de experimentar a presença
de Deus.
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O silêncio vivido no coração da vida monástica cisterciense
Entre
os monges cistercienses, o silêncio também ocupa um lugar central, estruturando
a própria rotina do mosteiro.
Na
Abadia da Santa Cruz, em Itaporanga (SP), os monges organizam o dia em torno de
momentos de oração comunitária, oração pessoal, trabalho e estudo, sempre
permeados pelo silêncio. Essa prática encontra suas raízes na Regra de São
Bento, que orienta a vida monástica há séculos.
“O
silêncio é uma dimensão essencial da nossa vida, pois nos ajuda a dar sentido à
oração e àquilo que vivemos. Ele é uma oferta de amor a Deus e aos irmãos”,
explica Ir Elredo, monge cisterciense.
Monges
da Ordem Cisterciense vivem o silêncio como parte essencial da rotina de
oração, trabalho e vida comunitária.
Nesse
contexto, o silêncio não é isolamento, mas uma forma de comunhão. Ao silenciar,
o monge se torna mais disponível à escuta de Deus e mais atento à realidade.
“O
silêncio permite que acessemos aquilo que é essencial, a voz de Deus que nos
chama no hoje da nossa vida”, afirma.
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Um testemunho contracultural em meio ao ruído do mundo
A
escolha pelo silêncio nas tradições monásticas revela um contraste com a
realidade contemporânea, marcada pelo excesso de palavras e pela dificuldade de
escutar.
Frei
Higor, O. Carm, observa que o barulho exterior reflete um coração inquieto.
“Muitas pessoas deixam-se hipnotizar pelo ruído do mundo e pela busca de uma
felicidade superficial. Isso impede o encontro consigo mesmas, com o outro e
com Deus”, afirma.
Ir
Elredo também aponta para uma crise mais profunda. “Vivemos em uma sociedade em
que as pessoas estão cada vez mais voltadas para si mesmas. O silêncio e a
escuta se tornam desafiadores porque nos obrigam a enfrentar quem realmente
somos.”
Essa
reflexão ecoa o ensinamento do Papa Bento XVI, que destacou a importância do
silêncio como parte essencial da comunicação: “O silêncio é parte integrante da
comunicação e, sem ele, não há palavras densas de conteúdo. No silêncio,
escutamo-nos melhor e compreendemos com maior clareza.”
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A Quaresma como um convite a redescobrir o silêncio
Neste
contexto, a Quaresma surge como um tempo privilegiado para redescobrir o valor
do silêncio e da escuta.
Frei
Emerson, OCD, descreve esse período como uma oportunidade concreta de
recolhimento: “A Quaresma pode ser vivida como um grande retiro, um tempo de
conversão e de escuta de Deus no silêncio.”
Também
para os monges cistercienses, esse tempo tem um significado especial. “A
Quaresma nos convida a reencontrar o Deus que nos chama à comunhão. O silêncio
nos ajuda a corresponder a esse chamado com um coração aberto”, explica Ir
Elredo.
Mais do
que uma prática reservada aos mosteiros, o silêncio pode ser cultivado na vida
cotidiana. “Mesmo em meio ao trânsito ou às atividades diárias, é possível
viver o silêncio interior quando o coração está em paz”, afirma o monge.
Frei
Emerson, OCD, sugere passos concretos: reservar momentos de silêncio, reduzir o
uso de redes sociais, cultivar a oração e aprender a escutar antes de falar.
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O silêncio que abre espaço para Deus e para o outro
O
testemunho das comunidades carmelitas e cistercienses revela que o silêncio não
é vazio, mas um espaço de encontro. É nele que o ser humano reencontra a si
mesmo, redescobre o outro e se abre à presença de Deus.
Bento
XVI sintetiza essa realidade: “Temos necessidade daquele silêncio que se torna
contemplação e nos faz entrar no silêncio de Deus e assim chegar ao ponto onde
nasce a Palavra, a Palavra redentora.”
Neste
tempo de Quaresma, o convite da Igreja é também um convite à escuta. Em meio ao
ruído do mundo, o silêncio permanece como um caminho possível — e necessário —
para redescobrir aquilo que é essencial.
Fonte:
Vatican News

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