quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Muniz Sodré: O último dos bolsonaristas

Máquina neofascista intensifica coordenação psíquica dos indivíduos, liberando-os para seguir os próprios instintos por mais persecutórios e violentos que sejam. Não tem a ver com realidade econômica nem política, mas com o temor ressentido de que a identidade pessoal esteja ameaçada.

Num aprazível condomínio da região serrana do Rio vive o que me apontaram como "o último bolsonarista". Uma hipérbole, senão mero exagero; basta conferir as pesquisas eleitorais. Mas ele representa todo conjunto onde ninguém mais admite publicamente conexão com Bolsonaro, embora guarde ativo o fetiche do nome. Como um palavrão silencioso. "Último" também metaforiza aqui o inglês "ultimate", que designa atitude extrema, de ir até o fim.

O exemplo em pauta emergiu do silêncio de um adepto notório, pela violação de seu tabu condominial: o filho de 6 anos do zelador, residente no local, molhou os pés na piscina comum. Ele exige agora proibição formal, para constrangimento da maioria, pois o acesso é franqueado pela convenção. Mantidas as proporções, é fato análogo ao do ex-ministro da Fazenda bolsonarista, ultrajado por viagem de empregada doméstica à Disney. Hoje é guru do filho 01, viajante tão frequente que parece fazer campanha nos EUA pela presidência do Brasil.

O nome Bolsonaro, grife posta no mercado partidário, virou lubrificante para que a máquina neofascista persista nos corpos biopolíticos dos adeptos. Essa "máquina" não é um objeto técnico, mas um dispositivo sociopolítico que conecta fragmentos ideológicos da ultradireita contemporânea. Ela avança nos fenômenos de atração e repulsa sociais, cujos tópicos de insatisfação incidem sobre as mudanças nos costumes e a ascensão de minorias ao plano visível da sociabilidade.

Séculos antes, no "Hamlet", Shakespeare concebia genialmente uma "destilação leprosa" na consciência. E ao falar do fascismo como "mutação antropológica", o cinepoeta Pasolini enxergou verdadeira transformação "genética". O que hoje faz a máquina neofascista é intensificar a coordenação psíquica dos indivíduos, liberando-os para seguir os próprios instintos por mais persecutórios e violentos que sejam. Todas as variações de uma região do mundo para outra podem se encaixar numa lista de repulsas em que figuram o pobre, o preto, o gênero divergente.

Daí uma incongruência na atitude do citado "último": a família visada tem pele clara, escolaridade superior e fino trato. Uma explicação provável é a inerência do sujeito a uma fantasia pessoal, uma identidade guardada no fundo de si mesmo, ao modo de uma igualdade de estirpe que o impediria, por secreta hierarquia, de reconhecer um zelador como socius. É a shakespeareana "destilação leprosa" que, entre nós, conduz à rejeição antipetista. Não tem a ver com realidade econômica (desemprego baixo, inflação controlada) nem política (estabilização democrática), mas com o temor ressentido de que a identidade pessoal esteja ameaçada.

O "último bolsonarista" não é uma ficção e vale como paradigma do homúnculo moral, cuja benignidade é apenas tempo de espera de carta branca para humilhar o zelador, a doméstica, o vulnerável. Enquanto isso, nas prospecções eleitorais, contam-se em 32% os eleitores independentes, ditos "pêndulos", dos quais pouco se sabe sobre o potencial de autonomia frente à máquina neofascista, sempre ativa. Para desgosto dos "últimos", entretanto, as pesquisas indicam que o retorno da marca Bolsonaro inspira aversão popular maior do que a dirigida ao petismo.

•        Aliança entre Michelle e Nikolas irrita Eduardo e amplia racha no bolsonarismo

A disputa pelo espólio político do ex-presidente Jair Bolsonaro tornou pública uma divisão entre integrantes da própria família e aliados próximos. O impasse gira em torno do apoio à pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República e tem provocado reações cruzadas entre Michelle Bolsonaro, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

A tensão se intensificou após declarações públicas de Eduardo criticando a postura da madrasta e do parlamentar mineiro. O senador Flávio anunciou em dezembro ter sido escolhido pelo pai como sucessor na disputa presidencial, mas, até o momento, Michelle e Nikolas não demonstraram engajamento direto em sua campanha.

Nos bastidores da direita, Michelle e Nikolas avaliam que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), seria hoje o nome mais competitivo para representar o campo conservador. Como Tarcísio não está oficialmente na disputa, a dupla optou por manter distância da movimentação em torno de Flávio, decisão que tem irritado Eduardo.

Desde fevereiro do ano passado nos Estados Unidos e sem possibilidade de concorrer nas eleições deste ano, Eduardo acompanha o cenário político à distância. Aliados avaliam que a consolidação da herança política deixada pelo pai é estratégica para a manutenção de seu próprio capital eleitoral.

A crise ganhou novos contornos após Eduardo afirmar que Michelle e Nikolas estariam com “amnésia” e “jogando o mesmo jogo” em relação ao senador. A declaração foi interpretada como um ataque direto à articulação política da madrasta e do deputado.

Neste fim de semana, após visitar Bolsonaro na unidade prisional conhecida como Papudinha, Nikolas Ferreira reagiu às críticas. Ele rebateu as acusações e negou qualquer omissão.

“Discordo que eu tenho amnésia e que a Michelle tem amnésia. E diante das situações que estão acontecendo, nós temos o pai dele preso, sofrendo dificuldades de saúde. E a prioridade é nos atacar. Então isso diz muito mais sobre eles do que sobre mim”, afirmou o parlamentar.

O embate evidencia que a disputa pela liderança da direita não se restringe à escolha de um candidato, mas envolve a definição de quem comandará o legado político do ex-presidente. A divergência, antes restrita aos bastidores, tornou-se pública e passou a influenciar o posicionamento de aliados e apoiadores do campo conservador.

•        Jornalões dão um banho de loja em Flávio Bolsonaro. Por Moisés Mendes

Eduardo vem se queixando do desprezo de Michelle, Nikolas e outros líderes da direita e da extrema direita pela pré-candidatura de Flávio a presidente. Poderia se queixar até do desprezo dos chefes do centrão.

Mas sabe que não há queixas, só há elogios à postura dos jornalões. Na semana passada, enquanto as corporações de mídia batiam em Lula, ainda por causa do desfile da Acadêmicos de Niterói, Flávio era transformado em estadista.

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Nunca um bolsonarista havia conquistado o direito a tantas manchetes e chamadas de capa dos jornalões preocupados em trocar as vestes do candidato. Os jornais deram um banho de loja em Flávio.

O Estadão é o que mais se esforça. Essa manchete ficou durante sete horas e três minutos na capa do jornal na quinta-feira, dia 19, como se tivesse sido esquecida ali pelos editores: “Flávio Bolsonaro ajusta tom e faz acenos a LGBTs, negros e carnaval mirando o centro”.

Das 12h às 19h03min, os leitores ficaram sabendo que um Flávio moderado iria ajustar o tom. Mas tentar se aproximar da população LGBTQIA+, de negros e do carnaval é produzir uma reversão total do que a extrema direita prega e faz. Não é mudança de tom.

Uma manchete não fica sete horas na capa do site de jornal algum se não for sobre um fato excepcional. A manchete do Estadão era sobre o plano de uma farsa eleitoreira.

É preciso construir logo o candidato e apresentá-lo à sociedade, se Michelle, Nikolas, Ciro Nogueira, Kassab e Valdemar Costa Neto se fazem de desentendidos.

Todos se dedicaram a produzir fatos. No Globo, o colunista Fabio Graner avisou: “Flavio Bolsonaro começa a debater com PL programa econômico”. Ao lado de Vera Magalhães, que alertava: “Enquanto Lula samba, Flávio costura”.

Eliane Cantanhêde seguia no mesmo trote no Estadão: “Lula erra, Flávio cresce e pode ser o melhor candidato da direita”. Esse título do artigo da colunista virou manchete no site do grupo Brasilagro, da ultradireita ruralista, como se fosse um release distribuído pelo PL.

O mesmo Estadão manteve na capa durante todo o domingo mais este release: “Privatizações, ferrovias e presídios: o que Flávio Bolsonaro já propôs em 8 áreas”. Não há profundidade em nada. Mas há uma manchete.

A Folha, mais comedida, destacou no sábado: “Flávio atua para ter palanque com PL, candidato ao governo ou ao Senado, em todos os estados”. Enquanto continuava batendo em Lula e escondendo as notícias sobre as viagens do presidente à Índia e à Coreia do Sul.

Mais um pouco e Flávio será, como diria Eliane Cantanhêde, uma reinvenção do tucanismo cheiroso e bem alinhado, que sabia usar mocassim sem meia e, ao mesmo tempo, conversava com o povo de havaianas.

O esforço dos jornalões é para tirar do filho ungido a imagem de figura ligada ao submundo da política do dinheiro sujo, para que se pareça com uma criatura mais próxima de quem tem a imposição do suposto dinheiro limpo.

Saem as milícias de Rio das Pedras e entram os garotos da Faria Lima. Mostram que Flávio tem racionalidade e até programa de governo. Daqui a pouco terá o seu posto Ipiranga, que pode ser Paulo Guedes de novo, e aí o esquema estará fechado.

A velha direita faz curadoria para o fascismo e manda avisar pelos jornalões: fingimos exaustão na procura de uma alternativa, mas enfim nos entregamos e estamos submetidos ao destino que Flávio irá traçar para todos nós.

Não importam as questões menores para a direita, como as preocupações ambientais, a ameaça de sabotagem aos programas sociais mais básicos, a destruição do SUS e das universidades públicas. Tudo é assimilável.

O importante para a velha direita é ver Flávio hoje como a única chance de enfrentamento de Lula. O que chamavam antigamente de elite está dizendo pelos jornalões: parem de frescura, porque não há outra saída.

Esqueçam valores, abandonem discursinhos em defesa das mulheres e dos gays e encarem Flávio de roupa nova. Arranjem um Alckmin de vice e coloquem a escola de Bolsonaro na rua, com todas as latas das famílias, das fintechs, dos grileiros, das milícias e do que sobrou dos militares.

Vão mudar o penteado de Flávio, como fizeram com a franja de Tarcísio. Vão ajustar as ombreiras, livrá-lo dos cacoetes das falas do pai e prepará-lo para jantares com poderosos e até com entidades das minorias.

Flávio terá muito de Aécio e Serra, mesclado ao que já traz das suas raízes. Michelle e Nikolas irão aderir mais adiante, quando se acostumarem com o figurino, que foge um pouco do usual na extrema direita. É só ajustar o nó da gravata e a manga do paletó. Flávio é o boneco playmobil do bolsonarismo e da velha direita.

•        Flávio Bolsonaro defende mais privatização, prisões e armas no Brasil

Pré-candidato à presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem antecipado uma série de propostas que pretende colocar em prática se for eleito em outubro. O parlamentar da extrema direita tem ficado em segundo lugar nas pesquisas. O presidente Lula (PT) lidera todos os levantamentos, conforme demonstraram a pesquisa Meio Ideia, neste mês, e a AtlasIntel, em janeiro. As informações foram publicadas neste domingo (22) pelo jornal O Estado de S.Paulo.

Na área econômica, o parlamentar defendeu um “tesouraço” de gastos públicos e impostos, mas não explicou exatamente o que será feito. “Não dá para falar isso aqui agora, porque é um emaranhado de impostos, é um castelo de cartas. Se você quiser tirar um imposto, você tira uma carta, vai desabar do outro lado”, disse.

O senador defende a privatização de estatais e menciona com frequência os maus resultados dos Correios. “Sou muito favorável a privatizações. Uma gestão privada sempre tende a ser uma gestão focada no resultado, na qualidade do serviço prestado, mas também a gente não pode falar: ‘vamos privatizar tudo’. Tem que ver caso a caso”, afirmou.

“Se você pegar as nossas ferrovias brasileiras, nós temos basicamente um escoamento de toda a nossa produção para o litoral, mas não há uma interconexão da Região Centro-Oeste com os portos da Região Norte e Nordeste de uma forma direta. O presidente Bolsonaro inovou mais uma vez ao permitir a possibilidade de que projetos possam ser passados pela iniciativa privada pelo modelo de autorização”, exemplificou.

O filho de Jair Bolsonaro (PL) cita a digitalização da estrutura estatal e econômica. “Se conseguirmos concentrar tudo isso de forma moderna e digitalizada, não tenho dúvida de que vai chover investimento aqui”. O pré-candidato defendeu reformas. “Tem que fazer muitas reformas. Tem a reforma administrativa, tem a reforma eleitoral. A gente tem que revisitar a reforma tributária que foi feita.”

O senador diz que trabalhará por um Estado mais enxuto, pela redução da burocracia e para melhorar o ambiente de negócios. “São 38 ministérios. Fico imaginando uma reunião do presidente da República com todos os seus ministros. Você não consegue cobrar resultado, você não consegue cobrar meta, você não consegue discutir projetos bons para a população”.

<><> Segurança Pública e educação

O senador disse que, se for eleito, investirá na construção de presídios. “Tem que construir presídio para caramba. (Falam) ‘Tem que construir mais escola e menos presídio’. Concordo, mas o que precisa agora é presídio, porque essas pessoas precisam ficar presas, até para a molecada poder estudar em paz”, afirmou.

“Vamos botar no papel, no plano de governo, é arregaçar esses marginais. É para ficar preso, mofar na cadeia, cumprindo a Lei de Execuções Penais, mas ficar lá agarrado”, acrescentou. “No Brasil, a gente tem que começar a resgatar os territórios que hoje são dominados por organizações narcomilicianas, narcoterroristas”. O parlamentar pontuou que pretende flexibilizar o porte de armas.

Na área educacional, Flávio citou o mercado de tecnologia e de inteligência artificial como uma forma de reduzir a dependência da população de programas assistenciais. “O Brasil tem mais de 800 mil vagas ociosas para quem quer trabalhar, por exemplo, com inteligência artificial, tecnologia da informação. Por quê? Porque não tem qualificação. As pessoas não sabem trabalhar com isso. Por que, em vez de você ficar vendendo, se aproveitando da miséria das pessoas, você não usa para qualificar essas pessoas?”, questionou.

O senador sinalizou a intenção de manter programas assistenciais: “Programas como o Bolsa Família vão ser mantidos, e as pessoas que precisarem do Estado, vamos abraçar essas pessoas”.

<><> Relações Exteriores

A parlamentar afirmou que adotará uma atitude pragmática nas relações com os outros países. “Trump defende os interesses do povo americano. É o que pretendo fazer aqui mesmo. Quando for para qualquer mesa de negociação para fora, não tem subordinação, submissão, nada”.

<><> Comunicação de governo

O senador sinalizou que investirá mais em publicidade estatal do que o pai, que apostou na comunicação via redes sociais. “Sou da linha que a gente tem que investir em publicidade, porque as pessoas precisam saber o que o governo está fazendo. Eu falava isso com meu pai. Eu falava assim: ‘Pai, até a Coca-Cola, a marca mais consolidada no mundo, investe pesado em publicidade’”, disse.

 

Fonte: Folha de S. Paulo/Brasil 247

 

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