Como
apartamentos em São Paulo financiados pelo Minha Casa Minha Vida vão parar no
Airbnb
Por
muito tempo associado à construção de moradias em bairros periféricos, o
programa federal de habitação Minha Casa, Minha Vida passou a alcançar também
bairros centrais de São Paulo nos últimos anos.
Mas uma
investigação da BBC News Brasil aponta que, nessas regiões, muitas residências
financiadas pelo programa e construídas com incentivos fiscais da prefeitura
para moradias populares não estão servindo como habitação, e sim como
hospedagem para turistas e visitantes temporários.
A
apuração revelou ainda formas de burlar programas de moradia e brechas legais
que permitem a imóveis financiados pelo Minha Casa, Minha Vida serem anunciados
em plataformas de aluguel de curta temporada, como o Airbnb.
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Restrições ao Airbnb
Líder
global no mercado de locação temporária, o Airbnb tem sofrido restrições em
várias metrópoles globais, como Berlim, Nova York e Barcelona, onde seu uso por
donos de imóveis é acusado de reduzir a oferta de moradias e pressionar os
preços de aluguéis — algo que a plataforma nega.
Há
poucos estudos sobre o impacto do Airbnb em São Paulo, mas a investigação da
BBC detectou a forte presença de apartamentos anunciados na plataforma em
prédios construídos na cidade com incentivos de programas de habitação.
Apresentando-se
como um investidor interessado em comprar imóveis para colocá-los para alugar
no Airbnb, um repórter da BBC News Brasil visitou edifícios erguidos com
incentivos fiscais que a prefeitura concede a moradias populares e oferecem
possibilidade de financiamento pelo Minha Casa, Minha Vida para famílias
enquadradas nas faixas de renda do programa.
As
visitas foram gravadas com uma câmera escondida.
Em uma
visita, um corretor da construtora Magik JC estimou que, em alguns edifícios
erguidos por sua empregadora, até metade dos apartamentos hoje estejam
anunciados no Airbnb e não sejam usados como moradia, e sim como hospedagem
temporária.
"Esses
apartamentos foram feitos justamente para isso", disse o corretor, sem
saber que estava sendo gravado, quando questionado se seria possível anunciar
no Airbnb as unidades apresentadas na visita.
Naquele
dia, foram visitados três apartamentos classificados como Habitações de
Interesse Social (HIS), um termo legal para moradias populares.
Porém,
desde maio de 2025, um decreto da prefeitura de São Paulo proíbe que unidades
HIS sejam destinadas ao aluguel de curta temporada.
A
grande maioria dos apartamentos financiados pelo Minha Casa Minha Vida em São
Paulo é classificada como HIS ou HMP (habitação de mercado popular), outra
modalidade que teve locações temporárias proibidas pelo decreto municipal.
Questionada
pela BBC sobre esta reportagem, a prefeitura disse, por meio da Secretaria de
Habitação, que está fiscalizando a venda de quase 90 mil moradias de interesse
social na cidade — e que já aplicou 704 notificações e 38 multas por
irregularidades, em um total de R$ 39 milhões.
Questionada
sobre o conteúdo da gravação, a construtora Magik JC disse que, embora
"possam ocorrer falhas pontuais de comunicação em interações comerciais,
os procedimentos internos de validação impedem a conclusão de qualquer operação
em desacordo com a legislação".
A
empresa afirmou ainda que atua há mais de 50 anos no setor, "tem pleno
conhecimento das restrições legais" a respeito de moradias populares e
considera "relevante o debate público sobre a correta aplicação das
políticas de habitação social".
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Boom de estúdios
O Minha
Casa, Minha Vida é hoje um dos grandes motores do mercado imobiliário no
Brasil. Segundo o governo federal, na cidade de São Paulo, 70 mil apartamentos
foram comercializados pelo programa entre agosto de 2024 e julho de 2025 — o
que corresponde a 60% de todas as vendas de imóveis no município no período.
Quem
tem renda de até R$ 2.850 reais se enquadra na Faixa 1 do Minha Casa, Minha
Vida e pode financiar um imóvel pelo programa com um desconto de até 95% no
preço.
Nas
demais vertentes do programa, que hoje contempla famílias com renda mensal de
até R$ 12 mil (faixa 4), os beneficiários financiam os imóveis pagando juros
menores que os de bancos privados — algo só possível porque a gestora do
programa é a Caixa, um banco estatal.
Na
prática, os juros mais baixos permitem um desconto que pode chegar a quase R$
200 mil no preço final do imóvel.
A
arquiteta Paula Victória de Souza, que realizou pesquisas sobre programas de
moradia em São Paulo para o Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade
(LabCidade), da Faculdade de Arquitetura da USP, diz que nos últimos anos essas
políticas produziram no município um "boom de unidades de até 35 metros
quadrados".
Também
chamadas de estúdios ou microapartamentos, essas unidades são especialmente
comuns entre os lançamentos imobiliários em bairros centrais, segundo a
arquiteta.
Porém,
segundo Souza, essas características dificultam o uso das unidades por famílias
que necessitam de moradia e acabam incentivando outros tipos de ocupação, como
o aluguel de curta duração.
Segundo
o Censo de 2022, uma família no Brasil tem, em média, 2,8 pessoas.
"Que
qualidade de vida uma família de três pessoas pode ter em uma residência desse
tamanho?", questiona Souza.
"Muitos
desses imóveis não têm paredes nem divisões, todo mundo vai ter que dividir o
mesmo quarto", prossegue a arquiteta, que critica a concessão de subsídios
e incentivos públicos para esse tipo de construção.
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Problemas com HIS
Anunciado
em maio de 2025, o veto da prefeitura à locação temporária de apartamentos
classificados como HIS ocorreu após reportagens, pesquisadores e o Ministério
Público de São Paulo apontarem que muitas dessas unidades estavam sendo
adquiridas por pessoas de alta renda.
Em um
caso, um comprador chegou a adquirir 25 unidades HIS como investimento, segundo
o Ministério Público informou à BBC.
Em
estudo em 2025 sobre o impacto do Airbnb em São Paulo, a geógrafa da USP
Letícia Tsukada de Araújo detectou "um aparente processo em curso de
conversão de imóveis [de residência para unidade de locação], aumento de
aluguel e deslocamento de moradores, o que reforça a segregação socioespacial e
a periferização".
Araújo
afirma ainda que grande parte dos novos apartamentos e estúdios construídos
estão sendo comprados por "quem tem perfil de investidor, fazendo do
aluguel do imóvel um negócio".
O tema
diz respeito à prefeitura porque, desde 2014, a gestão municipal concede uma
série de incentivos para que construtoras produzam unidades HIS e ajudem a
reduzir o déficit habitacional no município.
Entre
as vantagens oferecidas às construtoras, estão isenções fiscais e a
possibilidade de construir acima do limite legal sem pagar uma taxa adicional
chamada de outorga onerosa.
Ao
mesmo tempo, quando constroem unidades HIS, muitas construtoras seguem os
parâmetros de imóveis do Minha Casa, Minha Vida para que as unidades possam ser
financiadas pelo programa, facilitando sua comercialização.
Na
prática, há uma sobreposição de programas de habitação nesses empreendimentos:
o Minha Casa, Minha Vida, na esfera federal, e os incentivos da prefeitura às
HIS, na esfera municipal.
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Por que prefeitura proibiu?
O veto
da prefeitura à locação temporária de apartamentos HIS se deve ao fato de que,
quando ofertados em plataformas como o Airbnb, é impossível garantir que as
residências sejam ocupadas por pessoas que necessitam de moradia, já que não há
como controlar o valor do aluguel nesses anúncios.
Além
disso, muitas dessas unidades deixam de servir como moradia, abrigando turistas
ou visitantes temporários, dois grandes públicos do Airbnb.
O
Ministério Público de São Paulo disse à BBC News Brasil que está investigando
8.300 possíveis fraudes em compras de habitações de interesse social ocorridas
entre março e outubro de 2025.
A
prefeitura, por sua vez, afirmou que está fiscalizando a venda de quase 90 mil
moradias de interesse social na cidade, além de ter realizado 704 notificações
e aplicado 38 multas por irregularidades, totalizando R$ 39 milhões.
Já o
Airbnb afirmou que está alinhado com as políticas de moradia social de São
Paulo, mas "busca atuar com prudência e cautela para não cercear
indevidamente a liberdade e as garantias constitucionais dos usuários da
plataforma".
A
empresa disse ainda que não tem "expediente legal" para fiscalizar os
imóveis anunciados em seu site.
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Registrar imóvel em nome de terceiros
A
reportagem também detectou outros possíveis caminhos para burlar o Minha Casa,
Minha Vida.
Ao
contatar por WhatsApp uma corretora a serviço da construtora Cury, o repórter
foi informado que não conseguiria um financiamento do Minha Casa, Minha Vida
porque sua renda estava acima dos limites do programa.
Ele
perguntou, então, se poderia fazer um financiamento pelo programa no nome de
sua esposa, transferindo o imóvel para si após quitar o financiamento.
A
corretora pediu informações sobre o casal e a renda da esposa e, com base nas
respostas, afirmou:
"Então
de repente a gente consegue fazer somente no nome dela. Que você acha da gente
marcar uma visita, fazer uma análise?"
Ela
disse ainda ao repórter que, após quitar o financiamento, ele conseguiria
transferir o imóvel para seu nome.
Segundo
o Ministério Público de São Paulo, no entanto, registrar um imóvel em nome de
terceiros para driblar as regras de um programa habitacional pode ser
considerado crime de falsidade ideológica e estelionato.
Questionada
sobre o diálogo com a corretora, a construtora Cury afirmou que divulga em
todos seus materiais e estandes as regras para aquisição de moradias populares
— e que "em março de 2025, anunciou como medida de aprimoramento de sua
política comercial que direciona integralmente suas unidades HIS às pessoas
efetivamente enquadradas nas faixas salariais do programa".
A Cury
afirmou ainda que se a negociação tivesse avançado, a checagem de documentos
impediria a concretização da venda.
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'Estão subvertendo o programa'
Em suas
pesquisas sobre programas de moradia em São Paulo, a arquiteta Paula Victória
de Souza diz ter visitado estandes de várias construtoras nos últimos anos.
"É
comum escutar nessas visitas que você pode encontrar alguém, pegar o CPF de
alguém que se enquadre nas faixas de renda estabelecidas e depois, no momento
da entrega das chaves, você troca a propriedade para o investidor", disse
a arquiteta.
Para
Souza, "estão subvertendo o objetivo dos programas [de habitação]".
"[Nossa
intenção] não é acabar com Minha Casa, Minha Vida nem com as políticas de
habitação de interesse social, muito pelo contrário, é garantir que essas
políticas de fato cheguem às famílias para quem esses programas foram
desenhados", afirma.
A BBC
News Brasil também detectou brechas no regulamento do Minha Casa, Minha Vida
que, segundo especialistas, permitem que ele seja desviado de sua finalidade.
Para
isso, foram mapeados edifícios em bairros centrais de São Paulo que tiveram
apartamentos financiados pelo Minha Casa, Minha Vida nos últimos anos. Depois,
foram procurados apartamentos nesses edifícios em anúncios de aluguel de curta
temporada no Airbnb.
Foram
localizadas várias dezenas de imóveis — muitos deles recém-inaugurados. Em
alguns, o aluguel mensal chegava a R$ 8 mil, quase R$ 6 mil a mais do que a
parcela mensal de um financiamento de um imóvel equivalente pelo Minha Casa,
Minha Vida.
A
diferença mostra como pode ser lucrativo financiar um imóvel pelo programa e
colocá-lo para alugar para curta temporada.
A BBC
questionou vários desses anunciantes se eles tinham financiado os imóveis pelo
Minha Casa, Minha Vida. Um deles confirmou, mas não quis dar entrevista. Outros
negaram ser beneficiários do programa, e houve ainda alguns que tiraram os
anúncios do ar após serem contatados.
A BBC
perguntou ao Ministério das Cidades, responsável pela formulação do Minha Casa,
Minha Vida, se é permitido que imóveis financiados pelo programa sejam
colocados para alugar para curta temporada.
Em
resposta, o órgão afirmou que somente os beneficiários na faixa 1 do programa
têm a obrigação legal de morar nas casas financiadas, conforme a Lei 14.620,
que regulamenta esta vertente do Minha Casa, Minha Vida.
Nesses
casos, diz o órgão, são "vedados o empréstimo, a locação, a venda ou
qualquer outra negociação que descaracterize o objeto social da
concessão", sob pena de multa ou perda do imóvel.
No
entanto, segundo o Ministério das Cidades, essas restrições não se aplicam às
demais faixas do programa, que hoje contemplam famílias com renda mensal de até
R$ 12 mil (faixa 4).
A BBC
News Brasil questionou, então, se nessas faixas os beneficiários são livres
para colocar apartamentos financiados pelo Minha Casa, Minha Vida em
plataformas de aluguel de curta temporada, não precisando morar neles nem por
um dia sequer.
O
ministério não respondeu diretamente à pergunta, reiterando apenas que as
restrições à venda, locação ou empréstimo das residências não se aplicam às
linhas do programa acima da faixa 1.
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'Omissão no regulamento'
Para
Raquel Rolnik, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da
Universidade de São Paulo (FAU-USP) e ex-relatora da ONU para o Direito à
Moradia Adequada, "há uma omissão" no regulamento do Minha Casa,
Minha Vida nas categorias acima da faixa 1.
"É
um problema, porque não deveria se usar financiamento federal subsidiado para
produzir unidades para locação em Airbnb", ela diz.
Para
Rolnik, nos moldes atuais do programa, "não existe um compromisso de
vincular esse crédito exclusivamente às necessidades habitacionais".
A
professora associa as falhas em políticas de habitação na cidade a um aparente
paradoxo: "Tivemos um montão de unidades residenciais produzidas com
incentivos públicos na cidade, algo que se nota em tudo quanto é lugar, mas ao
mesmo tempo nossa situação habitacional é hoje pior do que antes dessa produção
toda", afirma.
Segundo
a Fundação João Pinheiro, que realiza estudos sobre o déficit de habitação no
país, o número de pessoas na Região Metropolitana de São Paulo sem moradia
adequada passou de 570 mil, em 2016, para 605 mil em 2023, o último ano com
dados disponíveis.
Os
dados indicam que apenas construir habitações classificadas como populares não
equivale a abrigar quem precisa de moradia.
Fonte:
BBC News Brasil

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