Cecília
Olliveira: O carnaval mostra que bicheiro é o bandido que deu certo
“Eu não
sou miliciano. Sou bicheiro”. A frase atribuída a Adriano da Nóbrega não
expressa confusão nem bravata. É uma declaração de posição. Ao recusar o rótulo
de miliciano e reivindicar o de bicheiro, Adriano aponta para uma hierarquia
clara dentro do crime organizado: bicheiro é o bandido que deu certo. Não
apenas porque veio antes, mas porque soube se institucionalizar, operar com o
Estado e transformar ilegalidade em poder durável. A frase expõe o vínculo
profundo entre duas estruturas que costumam ser tratadas como distintas: o
crime em torno do jogo do bicho e a milícia, que hoje controla parcelas
significativas da vida urbana do Rio de Janeiro.
Essa
distinção importa porque desmonta uma das mentiras mais persistentes sobre o
crime no Rio, que exploro ao longo de Como nasce um miliciano: a ideia de que a
milícia seria uma anomalia recente, um desvio extremo de policiais corrompidos,
algo corrigível com operações pontuais ou trocas de comando. O livro mostra o
oposto. A milícia não rompe com o passado. Ela dá continuidade a ele. O jogo do
bicho funciona como uma escola, ou, mais precisamente, como um curso avançado
de gestão criminosa.
Ao
longo de décadas, o bicho construiu um modelo de poder ilegal altamente
funcional e, arrisco dizer, a esta altura do campeonato, indestrutível. Não se
limitou à exploração do jogo – hoje legal e operado online. Organizou uma
estrutura estável de governança criminosa, com controle territorial e
eleitoral, hierarquia, regras internas, gestão de conflitos e, sobretudo,
relações orgânicas com agentes do Estado. O bicho não sobreviveu apesar da
polícia, do Judiciário ou da política. Sobreviveu porque soube capturá-los
seletiva e eficientemente.
É nesse
ponto que entra Ailton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães. Ex-oficial do
Exército, agente da repressão política e apontado como torturador do DOI-Codi
pela Comissão Nacional da Verdade, Guimarães atravessa da violência oficial à
contravenção sem ruptura ética ou institucional. Ele não rompe com o Estado ao
ingressar no jogo do bicho; apenas muda de posição dentro dele, mantendo a
mesma lógica de operação.
Guimarães
usou por anos suas credenciais como agente da repressão para extorquir
contrabandistas na Zona Portuária do Rio, apreendendo mercadorias irregulares
para revendê-las aos próprios donos ou a concorrentes. Pressionado, deixou o
Exército em 1981, sem que isso representasse queda real. Preso pouco depois,
aproximou-se de Ângelo Maria Longa, o Tio Patinhas, um dos bicheiros mais
poderosos da época, de quem recebeu o direito de explorar o jogo. A ascensão
foi rápida e acompanhada por acusações de homicídio, corrupção, formação de
quadrilha e tortura – nenhuma delas capaz de produzir consequências reais, numa
trajetória sustentada pela certeza de que, com bons advogados, quase tudo é
negociável.
Capitão
Guimarães encarna o que o jogo do bicho produziu de mais sofisticado: crime com
respeitabilidade, protegido por um verniz de institucionalidade. Não se limitou
a comandar bancas e redes ilegais. Tornou-se dirigente de escolas de samba,
presidente da Liga das Escolas de Samba, a Liesa, patrono do carnaval. Nas mãos
de figuras como esta, o carnaval deixa de ser expressão cultural e passa a
funcionar como estratégia de legitimação, capaz de converter dinheiro ilegal em
prestígio social, influência política e blindagem simbólica.
Esse
arranjo permitiu que a violência ficasse nos bastidores enquanto
pessoas-que-todo-mundo-sabe-quem-são se exibissem como investidores da cultura.
Essa é uma das lições centrais do bicho e ajuda a entender por que Adriano da
Nóbrega se inspirava em Guimarães. Para durar, o crime precisa ser aceito,
naturalizado, integrado à vida social. Isso lhe permite desfrutar legalmente do
que foi conquistado ilegalmente. A milícia tentou herdar essa lógica, mas o fez
tarde e mal ao não sustentar o verniz da legalidade que conseguiu ter até a
década de 1990 e anos 2000, quando eram apoiados abertamente por políticos e
chamadas de “autodefesas comunitárias” – até então, heróis.
O
sequestro e a tortura de jornalistas de O Dia, em 2008, e a CPI das Milícias,
no fim do mesmo ano, encerraram de vez essa possibilidade. Ali acabou o projeto
de Adriano. No livro mostro que sua admiração por Capitão Guimarães era um
plano de carreira que incluía envelhecer no crime, atravessando governos e
mantendo a influência – sem ser descartável.
Quando
Adriano diz “eu sou bicheiro”, ele reivindica pertencimento a essa tradição e o
“direito” de viver do que construiu, como alguém que deu certo porque entendeu
que o problema nunca foi a ilegalidade em si, e sim quem tem autorização social
e institucional para exercê-la.
Separar
jogo do bicho, carnaval e milícia é um erro conveniente, pois permite tratar o
bicho como folclore carioca, o carnaval como tradição cultural e a milícia como
uma aberração violenta. O livro desmonta essa narrativa. A milícia, assim como
o bicho, não nasce do fracasso do Estado. Nasce do seu funcionamento normal e
exatamente por isso, não pode e não deve ser chamado de poder paralelo. O
bicheiro é o bandido que deu certo porque aprendeu a operar exatamente onde
ilegalidade, Estado e cultura deixam de ser opostos e passam a trabalhar
juntos.
• Como a negociação com o jogo do bicho
garantiu a sobrevivência das escolas de samba do Rio. Por Luiz Antonio Simas
As
primeiras escolas de samba do Rio de Janeiro nascem na década de 1920. Na
ocasião, as comunidades afro-cariocas buscavam pavimentar caminhos de ascensão
social, fortalecer sociabilidades e criar redes de proteção após a abolição da
escravidão. O estado brasileiro, por sua vez, lidava com as manifestações
culturais dos descendentes de africanos com ações que incluíam a
criminalização, a repressão e tentativas de cooptação e controle.
As
escolas de samba surgem na encruzilhada em que o desejo repressivo e regulador
da República e a busca dos negros cariocas por legitimidade se encontram. Nesse
sentido, as agremiações lidam o tempo todo com o conflito entre a vontade de
expressar tradições e bens simbólicos e a necessidade de se relacionar com
instâncias externas ao ambiente do samba: o poder instituído, o turismo, as
mídias, o mercado, a contravenção, o crime.
As
escolas de samba, portanto, nunca foram entidades de resistência inflexível às
circunstâncias e elementos externos. Elas se inscrevem em um contexto mais
complexo, cheio de sutilezas, marcado por episódios de resistência, adequação,
confronto e negociação. As relações com o jogo do bicho não escapam disso.
O
primeiro contraventor a ter ligação mais profunda com uma escola de samba foi
Natal da Portela, um funcionário da Estrada de Ferro da Central do Brasil que,
após perder um braço em um acidente, ficou desempregado. Sem conseguir um
emprego formal, Natal foi trabalhar com o bicheiro Capitão Amorim e se
transformou em um dos mais conhecidos bicheiros e sambistas da cidade. Oriundo
de uma família envolvida com a Portela desde a fundação da escola, Natal não
chega ao samba por causa do bicho; é o jogo que chega à Portela por causa dele.
A
relação de domínio da atual cúpula do jogo do bicho com as escolas de samba se
desenvolve a partir da década de 1970. A formação de um núcleo duro da
contravenção ocorre em um momento em que a rentabilidade do jogo começa a cair;
atingida pela expansão de loterias controladas pelo estado durante a ditadura
instaurada com o golpe civil-militar de 1964.
A
criação da loteria esportiva, especialmente, atingiu em cheio o jogo do bicho.
Ancorada no coroamento da época de ouro do futebol brasileiro, com a conquista
da Copa do Mundo de 1970, a esportiva gingava no campo simbólico da relação
entre o povo brasileiro e o futebol, mexia com o imaginário da sorte e do azar
e abria a possibilidade da realização de apostas baratas, como as do bicho,
acessíveis aos mais pobres.
Há
suspeitas, expressas em diversas investigações e inquéritos policiais, de que a
queda de faturamento do jogo do bicho teria sido um dos fatores que levaram a
cúpula que se formava naquele momento a apostar em uma virada estratégica: o
capital precisava circular em atividades
diversificadas, como contrabando, lavagem de dinheiro, comércio ilegal
de armas, extorsão etc. Para piorar a situação, disputas pelos territórios
envolvendo o espólio de velhos bicheiros traziam mais instabilidade para a
empresa do jogo.
Nesse
processo, foram costurados acordos que envolveram a demarcação de territórios,
com o intuito de promover uma pacificação favorável aos negócios. Ocorre aí
também o aprofundamento da relação entre os contraventores e algumas escolas de
samba, num contexto em que a ausência de políticas públicas de apoio efetivo ao
carnaval deixavam, muitas vezes, escolas menores à míngua e sob risco concreto
de acabar.
Os
casos mais notáveis dessa nova ordem envolvem três bicheiros e escolas de samba
que, até então, eram consideradas de pequeno e médio porte: Anísio Abraão David
e a Beija-Flor (a ligação afetiva de Anísio com a escola de Nilópolis era mais
antiga que os interesses do jogo); Luiz Pacheco Drummond e a Imperatriz
Leopoldinense, e Castor de Andrade e a Mocidade Independente de Padre Miguel.
Um pouco depois, Miro Garcia se tornou o mecenas do Salgueiro e o Capitão
Guimarães se aproximou da Vila Isabel.
Patrocinar
escolas de samba abriria para os contraventores ao menos duas frentes para os
negócios: o maior controle do território em que a agremiação está situada e uma
espécie de lavagem de imagem capaz de transformar os bicheiros em personagens
midiáticos, com círculos de amizades que envolvem agentes públicos, artistas,
barões da imprensa, empresários e similares.
O
cenário atual aponta para indefinições em relação ao que vem por aí. As
milícias que avançam no controle de territórios da cidade buscam controlar as
escolas de samba fincadas nesses territórios; da mesma forma que o tráfico já
tentou e, eventualmente, conseguiu. Como essa equação entre o bicho, a milícia
e tráfico vai se encaminhar, e de que forma isso repercutirá no carnaval, é uma
questão em aberto. Da conciliação ao confronto, as hipóteses são variadas.
As
escolas de samba, por sua vez, continuam exercendo um papel de vanguarda na
cultura carioca, com a realização de um espetáculo simultâneo de manifestações
artísticas raras no mundo. Ressaltar o protagonismo daqueles que as criaram –
os afro-cariocas e seus descendentes – e reconhecê-las, inclusive do ponto de
vista das políticas públicas, no que elas têm de arte, força, legitimidade,
potencial educativo, relevância cultural, talvez seja o caminho mais firme para
que elas adquiram autonomia e possam, soberanas, continuar dando sentido à vida
de milhares de cariocas historicamente reprimidos por projetos de poder que,
mesmo que delas se aproximem, parecem não ser capazes de perceber toda a sua
grandeza ancestral.
Cem
anos depois da criação da Portela, todas as nuances, complexidades e
contradições que marcam as relações entre as agremiações e as circunstâncias em
que elas se estruturam, escancaram algo que grita desde os idos de 1923: as
escolas de samba nunca foram problemas para a cidade e sua gente, mas solução.
Por
isso tantas instâncias – da contravenção ao mercado, passando pelas esferas
legais do poder – tentam cooptá-las. Que no futuro elas possam ser conduzidas
pelos herdeiros dos que as criaram como forma sofisticada e soberana de
inventar o mundo.
• Milícia avançou 387% no domínio de áreas
no Rio em 16 anos
Cecilia
Olliveira explica o que são e como operam as milícias no Rio, quais são suas
diferenças em relação à máfia e como esses grupos têm poder político suficiente
para influenciar uma eleição.
Os
milicianos ganharam um forte impulso no estado em meados dos anos 2000, quando
cresceram exponencialmente, chegando ao ponto de dominar conjuntos
habitacionais inteiros do programa Minha Casa, Minha Vida. Um processo onde
adversários políticos foram eliminados e quem mais estivesse pela frente, um a
um.
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Entenda a atuação das milícias no Rio
No Rio,
áreas dominadas pelas milícias cresceram 387% nos últimos 16 anos, revela
estudo feito pelo Instituto Fogo Cruzado e o Grupo de Estudos dos Novos
Ilegalismos, da Universidade Federal Fluminense, o GENI-UFF.
Milicianos
dominam mais da metade das áreas controladas por grupos armados no Grande Rio.
A área controlada cresceu de 52,6 km² para 256,28 km². Exatos 10% do território
da região metropolitana estão sob o jugo de grupos paramilitares. Eles exploram
um modelo de negócios baseado em extorsão e exploração clandestina de serviços
como gás, luz, televisão a cabo e as vans do transporte alternativo.
A
conclusão da pesquisa é inequívoca: “as milícias são as principais responsáveis
por esse aumento de áreas sob domínio de grupos armados, razão pela qual se
tornaram a principal ameaça à segurança pública no Grande Rio”.
Desde
2006, houve uma CPI das Milícias, duas CPIs das Armas e uma única política de
segurança pública no Rio, as Unidades de Polícia Pacificadora. Muito pouco das
recomendações das CPIs saiu do papel, e as UPPs faliram.
Os
milicianos agradecem.
Fonte:
The Intercept

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