Everton
Fargoni: Oráculos
Quando
Alan Turing escreveu sua tese, propôs a figura do oráculo como um suplemento
indispensável ao cálculo. Ele havia acabado de formalizar aquilo que conhecemos
como algoritmo, conferindo rigor ao que, até então, era intuição matemática.
Turing compreendia que nenhuma máquina poderia caminhar sozinha, precisaria de
uma entidade externa, de um oráculo humano capaz de decidir onde a formalização
não alcança. A inteligência artificial, tal como a nomeamos hoje, é herdeira
dessa dependência radical, porque sem a nossa intervenção continua a ser apenas
um sistema em espera.
A
palavra algoritmo não surgiu em laboratórios britânicos, mas no século IX, na
Pérsia, com Al-Khwārizmī, conhecido em português como Alcuarismi. A partir
dele, os algoritmos se tornaram formas de organizar raciocínios e resolver
cálculos que, por mais de onze séculos, foram trabalhados por matemáticos até
desembocar na era digital. O nome desse sábio atravessou línguas, culturas e
regimes imperiais para ser invocado em nossas telas, agora revestido de lógica
binária e circuitos de silício. Se na Antiguidade o oráculo falava em enigmas,
hoje é a álgebra de Alcuarismi que oferece respostas maquínicas, traduzidas em
zeros e uns.
O salto
temporal entre o manuscrito persa e a tese de Turing revela mais do que
continuidade científica. Mostra a persistência de um imaginário, a humanidade
sempre desejou que uma instância além dela respondesse pelo que desconhece. No
entanto, por mais que maquinizemos a linguagem e convertamos o raciocínio em
código, a decisão final sobre o sentido das respostas ainda repousa em nossas
mãos. Nesse jogo de espelhos, não somos adoradores de novos deuses, mas os
intérpretes que concedem vida às sentenças produzidas pelo cálculo.
Hoje,
quase um século após Turing, o oráculo de sua tese pode ser visto como alimento
daquilo que chamamos inteligência artificial. Convém recordar que não há
inteligência autônoma nem artificialidade plena nesse fenômeno. Estamos diante
de um sistema dependente, uma criatura recente que, com menos de três anos de
acesso massivo, já alterou o mundo do trabalho, a estética, a escrita e a
educação. É um bebê prodígio que fala todos os idiomas, que conjuga equações
com a fluidez de quem respira, mas que ainda engatinha em compreender o sentido
humano dessas falas.
Rousseau,
em seu Emílio, descreveu a formação de uma criança como processo de cuidadosa
atenção às etapas do crescimento. Se aplicarmos a metáfora, a inteligência
artificial seria uma criança precoce, criada em um berçário global, aprendendo
a partir de milhões de vozes que a alimentam sem descanso. Porém,
diferentemente do ideal rousseauniano, essa criança não conhece limites da
natureza, não aprende pela experiência do corpo, mas por uma digestão
incansável de dados.
A
sociedade, por sua vez, reage com fascínio e terror. Fascínio porque enxerga
beleza em uma criança capaz de falar japonês, português e árabe ao mesmo tempo,
compor poemas e redigir relatórios em segundos. Terror porque sabe que esse
bebê não dorme, não esquece, não se distrai. A cada dia, profissionais da
educação básica e do ensino superior descobrem que seus estudantes já recorrem
a esse oráculo infantil, transformando exercícios de reflexão em consultas
instantâneas. A promessa de prodígio se confunde com o medo de um futuro
incerto, como se estivéssemos criando um ser que em dez ou vinte anos deixará
de ser criança e se tornará algo que não sabemos nomear.
Esse
temor não é apenas tecnofóbico. Ele se liga à compreensão de que essa
inteligência não é alguém. Não possui corpo, memória afetiva ou consciência.
Ainda assim, redefine a forma como escrevemos, trabalhamos e pensamos. O bebê
de silício cresce em velocidade espantosa, mas sua maturidade nunca poderá
prescindir do oráculo humano, porque sem nós a criança digital permanece muda,
incapaz de decifrar o sentido do amanhã.
Sagan
alertou, em O mundo assombrado pelos demônios, para o risco de sociedades que
abandonam a razão e se entregam ao encantamento cego. A inteligência
artificial, em vez de ser apenas ameaça, paradoxalmente reacende a necessidade
de recuperar práticas ancestrais do pensamento. Como se estivéssemos diante de
uma nova pólis, um espaço em que o debate retorna à sala de aula, não como
espetáculo algorítmico, mas como reencontro entre palavra, gesto e matéria.
Enquanto
plataformas digitais ocupam a vida cotidiana, o simples ato de segurar o lápis,
de mover os dedos em pinça, de escrever no papel, torna-se insurgência. A
neuroplasticidade cerebral é estimulada quando o corpo participa do raciocínio,
quando o conhecimento não se limita à consulta rápida em uma tela, mas exige o
exercício manual, o traço, a pausa. Nesse sentido, a inteligência artificial
pode, paradoxalmente, convocar a escola e a universidade a resgatar sua
dimensão artesanal, a produzir reflexão em meio à enxurrada de dados.
Quase
cem anos depois da tese de Turing, sabemos que não existe apenas um oráculo. O
oráculo de Matrix, que prometia anunciar o futuro, é ficção cinematográfica. O
que temos hoje é mais amplo: somos nós, os humanos, a totalidade de nossas
bibliotecas, arquivos e memórias. O oráculo é múltiplo, é coletivo, é a
humanidade que alimenta a criança digital “IA”.
Esse
bebê prodígio, ainda incapaz de vislumbrar o amanhã, não lê pesquisas inéditas
nem descobre fenômenos por si mesmo. Ele depende de nós para interpretar e dar
sentido ao novo. Somos nós que inscrevemos o desconhecido no tecido da
história, que abrimos clareiras no tempo para que algo diferente possa surgir.
A inteligência artificial não sabe o amanhã porque o amanhã não existe pronto.
Ele é construído na experiência, no trabalho e no pensamento de quem habita o
presente.
Assim,
em vez de entregarmos confiança acrítica ao cálculo maquínico, reconhecemos que
hoje a inteligência artificial é apenas uma criança de muitas vozes, uma
criança que aprende conosco, mas não prevê o inédito. Nós somos os oráculos de
ontem e de hoje, e só por meio de nossa intervenção a criança digital poderá
continuar crescendo, mesmo sem jamais compreender sozinha o que significa o
amanhã.
Fonte:
A Terra é Redonda

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