Eleições
2026: a Folha começa a abrir o jogo
Jornal
produz e destaca em manchete matéria com informações distorcidas. Objetivos:
garantir o “ajuste fiscal” a qualquer preço e evitar que, em ano de disputa
eleitoral, o Estado brasileiro seja incapaz de atender às necessidades sociais
A Folha
de S. Paulo estampou em sua capa desta sexta-feira (17/10) matéria sobre a
possível aprovação pelo Congresso de um projeto que abre uma brecha bem-vinda
no “arcabouço fiscal”. Se o texto for aprovado, estarão livres das regras que
achatam o gasto público as despesas com educação e saúde financiadas com o
Fundo Social do Pré-Sal e também os investimentos financiados por empréstimos
internacionais.
No
decorrer da matéria, o jornal aponta que o projeto teria acendido um “alerta no
governo” e que técnicos do ministério da Fazenda estariam preocupados com sua
possível aprovação. Mas uma leitura mais atenta da própria reportagem aponta:
os fatos contrariam o que o texto tenta passar.
De
autoria do deputado Isnaldo Bulhões Jr. (MDB-AL), o Projeto de Lei Complementar
(PLP) 163/25 foi aprovado pelo Plenário da Câmara com parecer favorável do
relator, José Priante (MDB-PA). A proposta autoriza o uso de até 5% da receita
anual do Fundo Social por um período de cinco anos, para financiar despesas
temporárias definidas na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). O objetivo é
garantir que parte dos recursos provenientes da exploração do petróleo seja
direcionada prioritariamente às áreas de saúde e educação. Atualmente, os
aportes anuais no Fundo Social são da ordem de R$ 30 bilhões e o projeto
possibilita a utilização de aproximadamente R$ 1,5 bilhão anuais nas duas áreas
nos próximos cinco anos.
Bulhões
destacou, à época da aprovação da matéria, em setembro, que, sem essa mudança
no arcabouço fiscal, não haveria base legal para ampliar os investimentos
sociais. O PL também exclui esses recursos adicionais dos pisos mínimos
constitucionais de gastos, evitando que haja algum tipo de “compensação”,
assegurando assim um acréscimo real de investimentos.
O
projeto prevê ainda a exclusão dos gastos financiados com recursos de
empréstimos internacionais e suas contrapartidas dos limites de despesas
primárias. “A submissão desses recursos ao limite de despesas primárias da LC
nº 200, de 2023, pode atrasar a realização das ações planejadas, trazendo
prejuízos maiores, inclusive com imposição de multas, a depender do contrato
firmado”, diz a justificativa da proposta.
Bulhões
é um aliado do Planalto. Tanto que teve seu nome cogitado para ser líder do
governo na Câmara quando já se especulava sobre a saída de Nísia Trindade do
Ministério da Saúde com o deslocamento de Alexandre Padilha das Relações
Institucionais para a pasta. Caso o atual líder, deputado José Guimarães
(PT-CE), ocupasse o lugar de Padilha, o emedebista era cotado para seu cargo na
Casa. Pouco provável que um projeto dessa natureza, com a aprovação em regime
de urgência, fosse proposto à revelia da gestão Lula.
Quando
o projeto passou na Câmara, o próprio site da bancada petista celebrou: “Com o
voto do PT, Câmara aprova projeto que libera recursos do Fundo Social para
saúde e educação”, dizia o texto da página eletrônica, que trazia um trecho do
discurso do deputado Jorge Solla (BA). “Para nós e para o governo Lula, deixar
de fora do limite estes recursos extraordinários para a saúde e para a educação
é fundamental”, apontava. “Recursos que foram definidos por lei, que seriam
destinados à saúde e educação. Recursos que não estão sendo utilizados por
causa dos limites estabelecidos pelo arcabouço fiscal.”
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Conjunção de interesses
Com
esse retrospecto à vista, é pouco provável que “um sinal de alerta” tenha sido
aceso no governo. O que pode haver é uma tentativa de “fogo amigo” de
integrantes da equipe econômica, alguns deles contrariados com qualquer
tentativa de flexibilizar o arcabouço, buscando minar a proposta ou parte dela
com a mobilização da mídia tradicional, aliada do chamado mercado na defesa
incondicional de cortes de gastos públicos, ainda que isso custe postergar o
enfrentamento do gigantesco déficit social (e não só) que o Brasil carrega há
décadas.
Além de
ser uma tentativa de constranger o governo e mobilizar a oposição para barrar
ou modificar o projeto, o jornal busca pautar desde já a defesa da rigidez do
arcabouço fiscal, que deve ser um dos pontos de debate das eleições de 2026. A
postura do veículo, evidenciada em editoriais, não é somente por ideologia ou
uma alegada “preocupação com o país”. É sempre importante lembrar que a família
Frias, que comanda a Folha, tem participação no Grupo Uol, dono do PagSeguro,
que oferece serviços de pagamento eletrônico e financeiros, e do PagBank, que
apenas no segundo trimestre deste ano reportou um lucro líquido de R$ 565
milhões, avanço de 4% na comparação anual. Ou seja, uma instituição financeira
que lucra com a restrição do gasto público e os juros altos estabelecidos de
forma quase permanente pelo Banco Central.
A
postura de veículos da mídia também tem outros propósitos que caminham junto
com os interesses de parte da direita e da extrema direita. Com a retirada de
pauta da MP do IOF, o governo se viu obrigado a fazer uma reengenharia para não
ter uma queda em seu potencial de gastos e investimentos em 2026, um ano
eleitoral. O interesse em manter a gestão federal à míngua ficou explícito em
uma manifestação de um dos pré-candidatos à Presidência em 2026, o governador
de Goiás, Ronaldo Caiado, em seu perfil no X (ex-Twitter), em 8 de outubro.
“Atenção, deputados: votar a favor da MP 1303 é votar para aumentar impostos e
dar um presente de R$ 30 bilhões para o governo Lula torrar em 2026 — com mais
medidas populistas e irresponsáveis”, postou na ocasião.
Caiado
e outros próceres de seu campo político têm reiterado críticas ao governo,
atribuindo a ele uma irresponsabilidade fiscal inexistente e o qualificando
como “gastador”. Sabem que é uma forma de ter entrada na mídia tradicional,
assim como cortejar o apoio de agentes do mercado financeiro. Em que pese o
governo Bolsonaro ter furado o então vigente teto de gastos em R$ 795 bi em
quatro anos de governo, inclusive em 2019, antes da pandemia, e deixado uma
dívida de R$ 141,7 bilhões com precatórios, o que não é exatamente um exemplo
para os apologistas da austeridade.
O
posicionamento nada surpreendente da mídia é um pré-jogo das eleições de 2026.
Assim como o arcabouço foi elaborado como uma solução para acabar com o Teto de
Gastos, mas sem criar rusgas mais severas com os defensores da austeridade,
tendo em vista ainda uma correlação de forças desfavorável, é preciso ir além e
trazer essa discussão para o centro do debate público, onde se busca impor uma
espécie de pensamento único referendado pelos mesmos de sempre. É possível e
necessário ir além.
• Bolsonaro adia apoio e indefinição trava
planos de Tarcísio em 2026
Sob
forte expectativa sobre quem será o nome da direita na disputa presidencial,
Jair Bolsonaro (PL) deve adiar a decisão sobre seu apoio até julho de 2026,
praticamente às vésperas do início oficial da campanha. A análise, segundo a
coluna de Gustavo Uribe, da CNN Brasil, é compartilhada por dirigentes
conservadores e também por aliados do governador de São Paulo, Tarcísio de
Freitas (Republicanos).
Segundo
essas lideranças, a demora de Bolsonaro cria incertezas e trava os planos de
Tarcísio, que avalia concorrer novamente ao governo paulista caso não receba
apoio formal para disputar a Presidência da República.
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Pressão interna e divergências na direita
Enquanto
o presidente nacional do PP, Ciro Nogueira, defende que o anúncio seja feito
ainda em dezembro, a família de Bolsonaro tem resistido a essa antecipação. Nos
bastidores, aliados afirmam que os filhos do ex-mandatário influenciam a
estratégia de segurar a decisão, movimento que contaria com a anuência do
próprio Bolsonaro.
A
avaliação é que um anúncio precoce poderia fragilizar a articulação do PL no
Congresso em torno da proposta de anistia aos condenados pela tentativa de
golpe de Estado, além de afetar a defesa internacional de Bolsonaro, que vem
recebendo apoio de integrantes do governo do presidente dos Estados Unidos,
Donald Trump.
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Tarcísio prefere aguardar cenário
Tarcísio
de Freitas já admitiu, em conversas reservadas, que só seria candidato ao
Planalto com o apoio explícito de Bolsonaro. Diante da indefinição, sua
tendência é disputar a reeleição em São Paulo, onde mantém alto índice de
aprovação.
Essa
postura, porém, abriu espaço para novas movimentações no tabuleiro político. De
acordo com a reportagem, o mercado financeiro, por exemplo, já passou a
sinalizar preferência por Ratinho Júnior (PSD), governador do Paraná, como
alternativa para a direita em 2026.
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Ratinho Júnior ganha espaço
A
eventual candidatura de Ratinho Júnior ainda depende do aval de Gilberto
Kassab, presidente nacional do PSD, mas já aparece como possibilidade concreta
diante do impasse que paralisa Tarcísio.
• Tarcísio trabalha para o capital, não
para o povo. Por Mário Murici
O
governo Tarcísio de Freitas não para de surpreender, e isso não é um elogio.
Sem um rumo claro, move-se ao sabor do vento, ora para agradar a opinião
pública, ora pressionado por forças externas. Em sua última cartada, revelou
que tornará pública a lista de empresas beneficiadas com incentivos fiscais em
São Paulo, uma caixa-preta de R$ 61 bilhões, que supera os orçamentos de Saúde
e Educação, somados.
Pode
ser um tiro no pé. Eu, como muitos, estou curioso para saber o que vem por aí.
Se é que de fato vem alguma coisa. Em sua habilidade para transformar limões em
limonadas, o governo Tarcísio disse que divulgará os dados, mas não revelou
quando o fará. Pode ser rápido, pode tardar uma eternidade, pode acontecer só
no próximo governo. É daqueles exercícios de futurologia difíceis de prever.
Ao
divulgar a iniciativa, o governo Tarcísio deu a entender que a ideia de abrir a
lista foi uma iniciativa própria, embebida no nobre desejo de dar transparência
aos critérios de concessão de isenções fiscais. Balela. Se assim fosse, porque
só agora divulgar os nomes das empresas, passados quase três anos do início do
seu mandato?
Uma
outra narrativa circula na imprensa, mais crível, a de que um acordo para a
divulgação da lista foi costurado nos bastidores entre o governo Tarcísio e o
TCE (Tribunal de Contas do Estado), que, em 2024, aprovou as contas da gestão
com ressalvas em 11 áreas, entre as quais figuram, justamente, as finanças e as
renúncias de receitas.
Também
tramita no âmbito federal, o Projeto de Lei 4.471/2024, que obriga todos os
entes públicos a divulgarem listas de beneficiários de incentivos fiscais, com
identificação, valores individuais e totais e leis autorizativas.
A
análise das contas 2024 do governo pelo TCE acendeu um sinal de alerta ao não
encontrar critérios claros para a concessão dos benefícios. Outro achado tão
importante quanto foi o fato de que 31 das 50 maiores empresas agraciadas
possuem débitos inscritos na dívida ativa do Estado. Ligou os pontos? Empresas
devedoras contumazes de impostos são beneficiárias de renúncia fiscal.
A
relação de Tarcísio de Freitas com o empresariado é terreno minado, fértil para
escândalos, e que ainda deve “render pano pra manga”, como se diz no ditado
popular. Nasceu daí um dos maiores esquemas de corrupção já registrados dentro
do Governo de São Paulo, com a liberação de créditos de ICMS mediante o
pagamento de propinas, que resultou em um prejuízo estimado em R$ 1 bilhão aos
cofres públicos e a prisão de Sidney Oliveira, dono da rede de farmácias
Ultrafarma.
Ainda
assim, o governador não economiza elogios ao falar da capacidade de gestão da
iniciativa privada. São frequentes seus jantares e encontros com empresários. O
que se negocia entre taças e tapinhas nas costas, ninguém sabe. O que chega ao
público é quase nada.
Desde o
primeiro dia de seu governo, Tarcísio de Freitas tem se empenhado para fazer
das privatizações uma das principais bandeiras do seu mandato. Se considerarmos
o volume de empresas estatais vendidas, devemos reconhecer seu êxito. Em
novembro do ano passado, ele aumentou para R$ 500 bilhões a meta de arrecadação
com privatizações até o fim do seu mandato em 2026.
O
problema é que quantidade não é sinônimo de qualidade. O que vemos na prática é
o sucateamento de empresas públicas, antes saudáveis e lucrativas, leiloadas a
preço de banana para a iniciativa privada.
O
principal exemplo dessa prática é a Sabesp, que teve suas ações vendidas pelo
governo a R$ 67 cada e, no mesmo dia, a ação foi revendida no mercado a R$ 87.
O descompasso gerou uma perda de pelo menos R$ 4,5 bilhões aos cofres do
Estado.
Com a
Sabesp privatizada, a qualidade do serviço melhorou? A companhia já foi
flagrada despejando esgoto sem tratamento no Rio Tietê, permitiu que bairros
inteiros sofressem com o desabastecimento de água por longos períodos e, agora,
reduziu a pressão da distribuição durante a noite sob a alegação de escassez
hídrica.
Ao
invés de aumentar o lucro de empresários, que já estão com os bolsos bastante
cheios, os bilhões que Tarcísio deixa de arrecadar com benefícios fiscais
poderiam ser mais bem investidos se utilizados em benefício da população, com a
construção de escolas ou a modernização de hospitais, por exemplo.
Em uma
fiscalização surpresa em 371 escolas públicas de São Paulo (109 delas sob
responsabilidade do governo Tarcísio), o TCE flagrou absurdos como alimentos
vencidos, falta de higiene no manuseio de alimentos oferecidos na merenda,
pombos sobrevoando as áreas de refeição e prédios caindo aos pedaços, com
problemas de rachaduras, goteiras e infiltrações.
O
dinheiro que o governo deixa de arrecadar com as renúncias fiscais seria
suficiente para cobrir com folga os gastos para a correção de cada um desses
problemas, mas essa não parece ser a prioridade do governador.
Seguindo
a lógica do próprio Tarcísio, que em plena crise das bebidas alcoólicas
adulteradas com metanol afirmou que no dia que começarem a falsificar
coca-cola, iria se preocupar, talvez ele não se importe com a condição precária
das escolas estaduais, uma vez que já não frequenta mais a sala de aula, ou com
os hospitais públicos, já que, provavelmente, utiliza a rede privada em seus
atendimentos.
Se com
a abertura da caixa-preta das isenções fiscais concedidas pelo Governo de São
Paulo, a expectativa de Tarcísio de Freitas era receber aplausos, lamento.
Transparência é o mínimo que se espera no manejo de uma política que prevê a
renúncia de cifras astronômicas aos cofres do Estado, ainda mais quando esse
mesmo Estado vem agonizando em áreas fundamentais.
Por
atitudes assim, cada vez mais cresce a convicção de que o Governo Tarcísio está
a serviço do mercado, do grande capital, e não da população de São Paulo.
Fonte:
Por Glauco Faria, em Outras Palavras/Brasil 247

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