quarta-feira, 1 de outubro de 2025

“Bolsonaro ainda é insubstituível”: antropóloga analisa os rumos da extrema direita

Às vésperas do julgamento que pode condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro, o movimento chamado de “bolsonarismo”, que antes mobilizava setores organizados, como empresários e o agronegócio, mostra sinais de mudança. Hoje aparece mais disperso em bolhas menores e em ações individuais. Um reflexo de episódios recentes, como o tarifaço de Donald Trump, que atingiu diretamente parte dessa base.

Para a antropóloga Isabela Kalil, coordenadora da pós-graduação em Antropologia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), que acompanha grupos bolsonaristas há anos, essa movimentação não significa que Bolsonaro tenha perdido poder. “Mesmo que ele esteja inelegível e que a prisão esteja próxima, ele ainda é visto como uma figura insubstituível”, afirma.

Na entrevista à Agência Pública, Kalil explica as mudanças que enxerga no comportamento dos bolsonaristas em relação às eleições anteriores. Também fala sobre os possíveis herdeiros da extrema direita. Para ela, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro tem mais potencial para ser a herdeira política do marido do que os filhos do político.

LEIA A ENTREVISTA:

•        Quais sinais você observa entre os grupos bolsonaristas em termos de mobilização e engajamento? Há um clima de expectativa, apatia ou radicalização?

Eles partem do pressuposto de que é uma perseguição política, então é como se não houvesse julgamento, como se fosse uma performance para chegar a um resultado pré-determinado desde o começo. Eles acham que a gente estaria vivendo uma ditadura do judiciário.

Não há expectativa de que algo diferente aconteça, mas sim um processo de desconfiança em relação às instituições, e até em relação à realidade. A mobilização é mais no sentido de não cumprir ordem judicial do que por atos violentos, como destruir a Suprema Corte, ou algo desse tipo.

Sempre existe o temor de ataques isolados, como já aconteceu na porta do Supremo Tribunal Federal (STF), mas é diferente do que estava acontecendo em 2022, em que a gente via a mobilização de grupos, até de grupos armados. Não consigo ver isso agora. Então, se há radicalização, vai ser mais de indivíduos, separadamente.

•        Quais segmentos do bolsonarismo estão mais ativos nesse momento? Existem fissuras entre eles?

Depois do 8 de janeiro, empresários e militares saíram um pouco de cena. Pelo menos do ponto de vista público, deixando um vácuo que passou a ser ocupado pelos evangélicos. Isso acontece, principalmente, na figura do pastor Silas Malafaia, que organizou os últimos atos de rua do bolsonarismo. Esses eventos, inclusive, passaram a usar a estrutura de eventos religiosos, como carro de som e telão.

Apesar desse elemento religioso, hoje, os segmentos mais ativos são os que se conectaram com o debate de liberdade de expressão, principalmente nas plataformas digitais. A ideia de liberdade de expressão, conectada com o trumpismo, e com as ações de Elon Musk depois do banimento temporário do X no Brasil.

O que aconteceu no caso dos empresários? Como tiveram setores dos empresários e do agronegócio diretamente afetados com o tarifaço imposto por Donald Trump, houve uma retração. Ainda que alguns possam publicamente dizer que é culpa do Lula, houve uma visão pragmática por parte desses setores.

Agora, os mais ativos são pessoas comuns. Hoje o bolsonarismo é mais disperso. Diferente do que era alguns anos atrás, em que dava para a gente identificar segmentos específicos mais fortemente unidos em torno da figura do Bolsonaro. Hoje, há uma dispersão maior em torno dessa noção, principalmente pelas divergências de visão sobre o 8 de janeiro e a ideia de liberdade de expressão.

•        Em que medida a base bolsonarista ainda enxerga Bolsonaro como figura insubstituível? Há espaço para a ascensão de outros nomes?

Mesmo que ele esteja inelegível e mesmo que a prisão esteja próxima, acho que ele ainda é visto como uma figura insubstituível. E isso não é só uma questão dos eleitores, mas também pragmática do campo da direita e da extrema direita.

Com a eleição, Bolsonaro passou a ser hegemônico, ou seja, consolidou o campo da extrema direita que não tinha essa consolidação institucional no Brasil. Também tem a questão da conjuntura, como o esfacelamento do PSDB, por exemplo. Forças políticas mais tradicionais ou mais jovens de direita se aproximaram. O bolsonarismo arrastou a direita como um todo. Então, Bolsonaro é uma figura insubstituível no campo da direita mais ampla, ainda que exista um certo espaço para outros nomes.

Agora, já vem aparecendo nas pesquisas que os filhos do Bolsonaro não têm credibilidade [junto ao] eleitorado. Existe uma desconfiança em relação a eles. Se os bolsonaristas tivessem que votar nos filhos, alguns não fariam, e outros fariam à contragosto. Porém, não vejo as mesmas ressalvas em relação à [ex-primeira-dama] Michelle Bolsonaro. Acho que ela, potencialmente, tem a capacidade de ser a herdeira mais forte do bolsonarismo dentro da família.

Fora da família eu acho que é o [governador de São Paulo] Tarcísio de Freitas, mas, na família, a Michelle tem esse capital político. Por ser mulher, ela atrairia uma espécie de bolsonarismo moderado. Para o tipo de eleitor bolsonarista que acredita que uma mulher não teria capacidade de levar adiante uma candidatura própria, fica a ideia de que ela tem uma proximidade muito grande com o Bolsonaro, e seria uma intermediária do próprio Bolsonaro. Inclusive no caso de uma eventual prisão domiciliar, por estarem na mesma casa.

Eu sou muito cética quando qualquer figura do bolsonarismo diz que vai ou não vai se candidatar, quais são os planos, porque eles mudam os planos a cada minuto. Mas, sim, Bolsonaro ainda continua como uma figura insubstituível. Porque é o único que consegue agradar, de uma certa forma, um amplo espectro político, coisa que nenhum de seus herdeiros vai conseguir fazer do mesmo jeito.

•        Como as lideranças digitais do bolsonarismo estão pautando a narrativa sobre esse julgamento?

O envolvimento de figuras internacionais, como Elon Musk, Steve Bannon e Donald Trump, dão munição para os bolsonaristas, como se houvesse um reconhecimento internacional sobre a suposta supressão da liberdade de expressão, como se o julgamento fosse mesmo parcial. A primeira pessoa que fez isso de fato foi Elon Musk. Antes, não tinham lideranças que colocassem isso nesses termos. Mesmo no primeiro mandato do Trump, era mais o Bolsonaro correndo atrás do que o Trump retribuindo qualquer tipo de aceno, de diálogo ou de alinhamento.

O trumpismo deu uma certa vantagem para o Lula e para o PT em relação às questões de defender uma agenda de soberania, mas, por outro lado, para os bolsonaristas também deu combustível para a narrativa de perseguição política, que se conecta com a discussão sobre as big techs.

•        Você percebeu um movimento de bolsonaristas “pulando do barco” ou a maior parte da base se mantém firme?

Existem bolsonaristas pulando do barco até por razões de autopreservação, para não se envolverem em problemas com a justiça. Mas outra coisa é o voto.

Quando a gente estava fazendo pesquisa na última eleição, tinha um fenômeno de homens jovens que, no grupo focal, diziam que não iam votar no Bolsonaro. Na época, em 2022, havia uma dimensão da gestão da Covid, de pessoas que tiveram mortes na família se recusarem a dizer publicamente que apoiavam o Bolsonaro. Eles diziam que ficavam desconfortáveis de dizer que votaram no Bolsonaro para suas companheiras, mães e amigas, ou então no trabalho para o patrão, mas, à medida que o grupo focal ia avançando, eles começavam a se sentir confortáveis para dizer que iam votar no Bolsonaro.

Eu acho que uma coisa é a manifestação pública de apoio ao bolsonarismo. Outra coisa é votar em um herdeiro político do Bolsonaro ou em alguém que o Bolsonaro está apoiando. Isso não dá para a gente mensurar. Vamos ter que esperar e ver o impacto, de fato, do julgamento, se ele diminui ainda mais a base bolsonarista, e como vão se dar as disputas pelos herdeiros do bolsonarismo.

•        Tarcísio se reúne com Bolsonaro, apoia anistia e fala em união da direita para 2026

O governador do estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou nesta segunda-feira (29) que visitou Jair Bolsonaro (PL) em Brasília (DF) com o objetivo de "prestar solidariedade", "sem nenhum tipo de interesse". Foi a primeira visita dele após o ex-mandatário ser condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado. Foi a primeira visita do governador a Bolsonaro, após o ex-mandatário ser condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado, numa pena determinada pelo Supremo Tribunal Federal em 11 de setembro.

"É muito triste ver o presidente na situação que ele está. Assim, a gente conversando, e ele soluçando o tempo todo. Isso ainda é a consequência das várias cirurgias que ele fez, consequência do atentado covarde que ele sofreu, que quase ceifou a vida dele", disse Tarcísio a jornalistas após visita de três horas a Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar na capital federal.

Na entrevista, o governador defendeu a anistia para pessoas envolvidas em tentativas de golpe. A medida, segundo ele, abriria um "caminho de pacificação do país". "Muitas pessoas que estão presas não sabiam o que estavam fazendo. Cumpriram, entenderam que toda depredação é deplorável, é condenável. A gente não pode, e não é falar de privilegiar, de uma reincidência, uma impunidade, é reconquistar um caminho para paz. Na minha opinião, o caminho para a pacificação é a anistia".

Questionado por jornalistas, Tarcísio comentou sobre as eleições de 2026 e afirmou que é pré-candidato à reeleição. "Obviamente falamos sobre política e, da minha parte, o recado que eu quero dar para todo mundo, para que não haja dúvidas, é que independente de como as coisas vão transcorrer daqui para frente, eu, Tarcísio, nós, os partidos de centro-direita vamos estar junto de qualquer forma em 2026 para a gente recolocar o Brasil nos trilhos a partir de 2027".

•        Fora Tarcísio, já! Por Maurici de Morais

Enquanto avança na articulação para viabilizar seu nome como candidato da extrema direita, seja na disputa presidencial ou na reeleição para governador, Tarcísio de Freitas tem que lidar com uma situação, no mínimo, incômoda na Assembleia Legislativa: um pedido de impeachment para retirá-lo do cargo de governador de São Paulo.

Se a iniciativa vai ou não prosperar, melhor deixar o tempo dizer. Mas o simples fato de existir já traduz um sentimento que cresce nas ruas: um contragolpe contra o esforço de Tarcísio e da extrema direita em justificar o injustificável, em nome de uma anistia que nasceu fadada ao fracasso.

Tarcísio abandonou São Paulo à própria sorte e mergulhou de corpo e alma na articulação para livrar Jair Bolsonaro da cadeia. Saiu das sombras e passou para a linha de frente de um grupo que está disposto a qualquer negócio em troca de uma anistia cada vez mais improvável.

O governador de São Paulo sabe que está em uma missão impossível. E isso faz parte do seu cálculo. Com Bolsonaro fora da jogada, a esperança é ver seu o esforço para salvar o “mito” reconhecido, e receber, como retribuição, a indicação do bolsonarismo e da extrema direita para a disputa eleitoral de 2026.

Para azar de Tarcísio, a espera vai ser longa. O bolsonarismo move lentamente as peças de seu tabuleiro e tarda até o último minuto para tomar suas decisões. Até lá, o governador de São Paulo vai ver sua popularidade derreter nesse jogo duplo entre agradar os radicais e manter a imagem de ponderado.

E a última semana não foi boa para o Tarcísio. O tamanho das manifestações da esquerda no último domingo e as suas repercussões deram um recado claro ao bolsonarismo: o de que não vai ter anistia. O Centrão sentiu o baque e está recuando em sua posição, desidratando a proposta ao convertê-la em dosimetria.

Com isso, o projeto de Tarcísio de ser o elo entre o Centrão, que quer a blindagem, já enterrada pelo Senado, e o bolsonarismo, que defende a anistia, ficou menos factível, já que tanto um quanto outro tendem a fracassar. A Tarcísio, sobrou apenas o desgaste por suas escolhas.

A sustentação do pedido de impeachment nos dá uma pequena amostra da metamorfose do governador. Constam nele uma série de violações a preceitos legais, que incluem improbidade administrativa, desrespeito ao livre exercício do Poder Judiciário e incentivo ao descumprimento generalizado de decisões judiciais.

Essa é a nova imagem de Tarcísio. Goste ele ou não.

O pedido de impeachment tem a assinatura do PT e do Psol. As bancadas se uniram na elaboração do texto – do qual eu sou coautor. Ele foi protocolado no último dia 10 de setembro, logo após o fatídico discurso do governador na avenida Paulista para uma plateia de bolsonaristas reunida no 7 de Setembro.

Quem esteve ali ouviu Tarcísio chamar o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes de ditador e tirano. O governador de São Paulo ainda incentivou a desobediência a decisões judiciais. O bolsonarismo foi à loucura, enquanto a sociedade ficou de cabelo em pé, surpresa com o que presenciava.

O discurso foi o ponto alto de uma mudança de tom que já vinha sendo desenhada dias antes, quando surgiram rumores na imprensa de que Tarcísio teria feito um telefonema para o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Mota, para discutir a possibilidade de colocar para andar o projeto de anistia aos golpistas.

Logo depois, ao ser questionado em uma entrevista ao jornal Diário do Grande ABC se concederia indulto ao agora já condenado Jair Bolsonaro caso fosse eleito presidente da República, respondeu na lata que o faria “na hora”, como seu “primeiro ato” no cargo.

Depois do 7 de Setembro na Paulista, Tarcísio seguiu empenhado em seu novo papel. Mobilizou aparato e recursos pagos pela população de São Paulo para uma viagem de dois dias a Brasília para cumprir uma única agenda oficial, uma reunião com um aliado na Aneel. Aproveitou o tempo livre para seguir na articulação pela anistia de Bolsonaro.

Enquanto Tarcísio avança em seu projeto personalista, São Paulo agoniza. O assassinato do ex-delegado geral da Polícia Civil Rui Ferraz Fontes demonstra o fortalecimento do crime organizado frente a uma política de segurança pública ineficiente.

Já a Sabesp, privatizada por ele, aumentou em mais duas horas a redução da pressão na distribuição de água, deixando bairros inteiros sem abastecimento por ainda mais tempo. Esses são apenas dois episódios registrados nos últimos 15 dias que mostram o tamanho da crise que enfrentamos na São Paulo de Tarcísio.

Não vai tardar para que a população comece a ligar os pontos: enquanto Tarcísio usa São Paulo como trampolim para alçar voos mais altos, o povo paga a conta do abandono de um governador que agora tem outras prioridades.

O pedido de impeachment que corre na Assembleia Legislativa ecoa esse sentimento. Em apenas um fim de semana, quase 4 mil pessoas aderiram a um abaixo-assinado pedindo sua saída do cargo.

Esse é o sinal de que São Paulo não aceita ser governada por quem virou as costas para o povo. Agora é hora de transformar indignação em mobilização. É hora de sair às ruas e exigir: Fora Tarcísio, já!

•        "Amante de Bolsonaro": Michelle vai à Justiça contra Joice Hasselmann

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro entrou com uma ação judicial contra a ex-deputada federal Joice Hasselmann após declarações feitas em um podcast que segue disponível no YouTube. O processo pede indenização por danos morais no valor de R$ 20 mil e a exclusão do conteúdo da plataforma.

Segundo Ancelmo Gois, do jornal O Globo, o episódio que motivou a ação foi gravado em 27 de agosto, quando Joice fez críticas contundentes à ex-primeira-dama. Durante a entrevista, a ex-parlamentar a chamou de “uma grande farsa”, “um horror” e “de baixíssimo nível”. Ela também acusou Michelle de ter sido “amante de Bolsonaro, enquanto ele era casado com outra” e de se envolver com “outro homem comprometido, de quem engravidou da primeira filha”.

<><> Pedido de censura e indenização

Na petição, os advogados de Michelle Bolsonaro afirmam que as falas configuram difamação e solicitam a retirada imediata do vídeo. Eles sustentam que a gravação extrapola os limites da crítica política e afeta diretamente a honra da ex-primeira-dama. Apesar do pedido, a Justiça do Distrito Federal negou a liminar para remoção imediata do material, mantendo a gravação disponível no YouTube até nova decisão.

 

Fonte: Por Amanda Audi, da Agencia Pública/Brasil 247

 

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