Vilson
Vieira Junior: A comunicação no Governo Lula 3 - entre boas intenções e
contradições
Nas
eleições de 2022, a Coligação Brasil da Esperança lançou a candidatura de Lula
com a missão de reconstruir a democracia no Brasil, que saía de um governo de
extrema direita marcado por inúmeros retrocessos. Para tanto, tornou público um
documento com várias diretrizes. Entre os 121 pontos, saliento o de número 118,
que aborda a democratização da comunicação:
“O
direito de acesso à informação e aos meios de comunicação é essencial numa
sociedade democrática, orientada pelos direitos humanos e para a soberania. A
liberdade de expressão não pode ser um privilégio de alguns setores, mas um
direito de todos, dentro dos marcos legais previstos na Constituição, que até
hoje não foram regulamentados. Esse tema demanda um amplo debate no
Legislativo, garantindo a regulamentação dos mecanismos protetores da
pluralidade, da diversidade, com a defesa da democratização do acesso aos meios
de comunicação”.
A
comunicação tem enorme centralidade nas democracias; não à toa, está entre as
diretrizes para a retomada democrática do Brasil. No entanto, a distância que
separa o discurso da realidade chama a atenção. Isso porque o Governo Lula 3
chega à sua reta final sem políticas que gerem mudanças estruturais no setor e
alterem o cenário de concentração.
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Sem regulamentação e com retrocessos na radiodifusão
O
primeiro exemplo é a falta de regulamentação do artigo 221 da Constituição
Federal, que determina às emissoras de rádio e TV aberta privilegiarem
conteúdos informativos, culturais e educativos, além de abrir espaço a
produções locais e independentes. Regulamentá-lo seria um passo fundamental
rumo à democratização da comunicação, possibilitando o ingresso de uma
pluralidade de vozes na esfera pública midiática. Mas o artigo se mantém letra
morta, dadas as dificuldades políticas que se apresentam à menor intenção de se
debater o tema no Congresso Nacional.
Tais
dificuldades se expressam através do controle de concessões de rádio e TV
aberta por dezenas de parlamentares (deputados federais e senadores) e seus
familiares; o forte lobby do empresariado das grandes redes de radiodifusão,
muitos dos quais mantêm ligações com parlamentares radiodifusores por meio das
afiliadas desses políticos; e a falta de vontade política dos que ocupam um
mandato – cautelosos ao lidar com essa temática –, somada ao lugar-comum de que
políticas de comunicação não representariam prioridade frente a questões
consideradas mais urgentes. As forças conservadoras que integram a coalizão de
governo também colaboram para a permanência do status quo.
Provavelmente,
a combinação desses fatores levou Lula, em 2024, a assinar a lei 14.812/24, que
flexibiliza o número máximo de estações de rádio e de TV aberta que cada
entidade ou grupo econômico pode explorar. A medida alterou o Decreto-Lei
236/1967, que previa um número mais restrito de outorgas de radiodifusão por
entidade justamente para evitar a concentração desses veículos em poucas mãos.
No caso das rádios, aumentou de seis para 20 emissoras; já as concessões de TV,
de 10 para 20.
A nova
lei vai na contramão do que pregam a Coligação Lula-Alckmin e a Constituição
Federal (art. 220, §5º), que veta práticas de monopólio e oligopólio. A medida
favorece a concentração no setor, tornando inviável a plena liberdade de
expressão.
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Rádios comunitárias: continua a mordaça legalizada
Se de
um lado o Governo Lula 3 fortalece a concentração da radiodifusão comercial e o
coronelismo eletrônico de políticos, as iniciativas para a radiodifusão
comunitária não são nada animadoras. A mudança na lei que rege o setor desde
1998 – maior reivindicação das entidades que atuam em defesa dessas emissoras –
ainda não aconteceu. A atual legislação é vista como a principal barreira para
o crescimento das rádios comunitárias, devido ao excesso de restrições que
impõe e à ausência de incentivos para que esses veículos atuem com autonomia e
sustentabilidade.
O
governo federal relançou o Plano Nacional de Outorgas (PNO), a principal (e por
que não dizer a única) política voltada a essas emissoras. O PNO é uma medida
de caráter administrativo, que busca agilizar e dar transparência aos processos
de autorização de novas rádios pelo Ministério das Comunicações, estabelecendo
um cronograma antecipado de editais. Procedimento semelhante também foi adotado
para as rádios educativas, na busca de ampliar a presença desses veículos nos
municípios.
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O oligopólio em alta definição
Outra
iniciativa com potencial de encurtar o caminho rumo à democratização da
comunicação é a DTV+, ou TV 3.0, cujo decreto de implementação foi assinado por
Lula em agosto deste ano. Rodeado pelos maiores radiodifusores do país em
evento disputado, o presidente deu o pontapé inicial para que TV aberta e
internet se unam e, segundo o Ministério das Comunicações, ofereçam uma
experiência interativa e de melhor qualidade de som e imagem.
A
julgar pelos dados oficiais, percebe-se uma evidência no aspecto técnico em
detrimento das possibilidades de diversificação de conteúdo e da abertura de
novos canais. O formato da nova TV foi sugerido pelo Fórum SBTVD, cujo
presidente é Raymundo Barros, da Rede Globo. Também compõem essa instância a
Band, a RecordTV, o SBT e emissoras regionais, além de empresas de tecnologia e
universidades.
O Fórum
também atuou na transição do sistema analógico para o digital, que adotou o
padrão japonês para a TV aberta, o mesmo defendido pela ABERT, entidade que
representa a Rede Globo e outras emissoras. Organizações da sociedade civil que
atuam pela democratização da comunicação não integram esse Fórum. Qualquer
semelhança com a implantação da TV digital (no Governo Lula 2) não é
coincidência.
À
época, o país perdeu a oportunidade de iniciar um processo de democratização do
setor se tivesse adotado como critérios a regionalização e a pluralidade de
operadores dos canais que surgiriam no sinal digital. Mas foi dada prioridade à
qualidade de som e imagem, em vez da multiprogramação, e os novos canais foram
concedidos aos concessionários que controlam há décadas esse setor. A
multiprogramação ficou restrita às TVs dos poderes da União, e para a criação
do Canal da Cidadania.
Na
tecnologia 3.0 (DTV+), entre as “vantagens” que se aventam estão a maior
visibilidade para os canais públicos – que dividirão espaço isonômico nas telas
dos televisores com os canais privados por meio de aplicativos –, e a conexão à
internet. Mas o obstáculo à garantia desse último benefício é a desigualdade na
distribuição da banda larga fixa, com disparidades regionais e entre classes
sociais. Inclusive, o próprio governo admite que isso pode ser um complicador
ao pleno uso da “TV do futuro”, pois só 22% da população com mais de dez anos
possuem conexão satisfatória.
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A TV pública entre avanços lentos e grandes desafios
A
iniciativa que talvez melhor dialoga com a diretriz 118 seja a volta da
participação social à Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Foram nove anos sem
a presença da sociedade civil desde a extinção do Conselho Curador por Michel
Temer, em 2016. Com Lula, e graças às mobilizações dos movimentos sociais, esse
retorno se efetivou em junho de 2025 com a criação do Comitê Editorial e de
Programação (COMEP) e do Comitê de Participação Social, Diversidade e Inclusão
(CPADI). Mas foi um retorno demasiado lento e difícil. Foram quase três anos
até que seus membros fossem empossados e os comitês, instalados.
Outra
ação que avalio como positiva foi o lançamento, em 2024, de um edital no valor
de R$ 110 milhões para produções independentes com exibição na TV Brasil e nas
emissoras da Rede Nacional de Comunicação Pública (RNCP). Focando na
regionalização e na inclusão, o edital é fruto da parceria entre a EBC e a
Agência Nacional do Cinema (Ancine). A última chamada pública havia sido em
2018, quando foram investidos R$ 70 milhões.
Mas
iniciativas do gênero ainda se mostram tímidas diante da concentração de
mercado e da escassa regionalização do audiovisual. Pesquisa do Coletivo
Intervozes lançada em 2024 mostrou que a TV ainda está longe do modelo ideal de
regionalização prevista na Constituição e materializado no projeto de lei
256/1991, da deputada federal Jandira Feghali – arquivado no Senado em 2013. O
PL previa cota de 30% de programação regional; já a pesquisa revelou que apenas
15,47% da programação semanal das 59 emissoras pesquisadas de onze capitais são
dedicados a produções locais. Policialescos e jornalísticos dominam as grades
das TVs comerciais; ou seja, falta diversidade de conteúdo.
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Em defesa da EBC
O
Governo Lula 3 enfrentou protestos dos trabalhadores da EBC, que denunciaram a
falta de estrutura, o fechamento de emissoras, a redução na programação local,
além da carência de profissionais e a pouca valorização dos funcionários.
Também divulgaram uma carta aberta ao presidente Lula, na qual cobram um plano
de carreiras e remuneração. Emissoras do campo público também se manifestaram
por mais investimentos no setor. Em comunicado, elas reivindicaram a
regulamentação e o uso da Contribuição para o Fomento da Radiodifusão Pública
(CFRP), incluída na lei da EBC, em 2008. Os valores, pagos pelas operadoras de
telecomunicações, estão estimados em R$ 3,6 bilhões (dados de 2024).
Vale
recordar que a passagem de Bolsonaro na presidência foi desastrosa para a EBC,
que quase foi privatizada. Todavia, o atual governo segue devendo uma política
convincente e robusta para que especialmente a TV pública conquiste espaço na
preferência dos brasileiros e abandone o rótulo criado pela mídia hegemônica de
“gasto público desnecessário”.
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Não há mais tempo…
Dado
que 2026 é ano eleitoral e a conjuntura política não costuma ser favorável a
debates sobre políticas de comunicação e regulação da mídia – ao menos em
âmbito institucional –, seria utópico esperar que o Governo Lula ponha em
prática propostas nesse sentido, pois seriam rotuladas de “tentativas de
censura”. O que não impede uma postura mais permeável e menos contraditória,
consciente do papel central que a comunicação desempenha na luta por um país
soberano e democrático. Assim, o governo dará um passo além das boas intenções.
• Sites governamentais desempenham papel
importante na checagem de notícias online, aponta estudo. Por Sheila Sacks
Relatório
divulgado este ano pelo Reuters Institute, instituição britânica especializada
no estudo do Jornalismo, mostra que mais da metade do público consultado (58%)
afirma estar preocupada com o que é real e o que é falso quando se trata de
notícias online.
Em sua
14ª edição, o Digital News Report 2025 coletou dados de quase 100 mil pessoas
em 48 países de cinco continentes, em uma análise abrangente do contexto dos
mercados digitais. Quando perguntada, a maioria dos entrevistados identificou
duas fontes principais a recorrer quando existem dúvidas sobre a veracidade da
informação: o canal de mídia jornalística em que confiam (38%) e os sites
governamentais (35%). As redes sociais foram mencionadas por 14% dos
entrevistados.
Para a
verificação de uma notícia específica, o maior percentual dos pesquisados (44%)
também respondeu que recorre às fontes oficias representadas pelos sites
governamentais. Em seguida, 35% disseram que acessam sites especializados e,
logo abaixo, empatados em 26%, aparecem a Wikipedia e a mídia jornalística
tradicional.
O fato
reforça a importância e a responsabilidade dos jornalistas que trabalham em
assessorias de comunicação social de órgãos públicos nas várias instâncias de
governo.
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Influenciadores e políticos
O
relatório de 170 páginas verificou que a preocupação com notícias falsas é
maior entre o público dos Estados Unidos e da África (73%), e mais baixa na
Europa Ocidental (46%). Quando se trata de fontes subjacentes de informações
falsas ou enganosas, influenciadores e personalidades online são vistos como a
maior ameaça em todo o mundo, juntamente com políticos nacionais (47%).
A
preocupação com influenciadores é maior em países africanos como Nigéria (58%)
e Quênia (59%), enquanto os políticos são considerados a maior ameaça nos
Estados Unidos e Espanha (57%), e em grande parte da Europa Oriental, incluindo
Sérvia (59%), Eslováquia (56%) e Hungria (54%).
A
mostra revela ainda que pessoas mais jovens, na faixa de 18 a 34 anos, e
entrevistados de 35 anos ou mais, tendem a confiar mais em fontes de busca e
checagem. A diferença estaria no fato de que as pessoas mais jovens são muito
mais propensas a dizer que confiam em comentários de outros usuários, mídias
sociais e chatbots de IA.
Tratando-se
de redes sociais, 21% dos mais jovens as usariam, contra 12% dos mais velhos. A
diferença também ocorreria no que se refere aos chatbots de IA, nomeados por
13% dos mais jovens e 7% das pessoas com mais de 35 anos.
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Nível educacional
Dados
da pesquisa também apontam que o nível educacional influencia nas opções de
ferramentas utilizadas na checagem das informações. Observou-se que os
entrevistados com níveis mais baixos de educação formal (21%) estão muito menos
propensos a dizer que recorreriam à mídia de notícias, fontes oficiais,
mecanismos de busca ou verificador de fatos, ao contrário daqueles com níveis
mais altos de escolaridade (33%).
Outro
sinal relativamente positivo é que a confiança geral nas notícias (40%)
permaneceu estável pelo terceiro ano consecutivo. A proporção de assinantes que
pagam por notícias online se conservou em 18% em um conjunto de 20 países mais
ricos – com a maioria ainda satisfeita com as ofertas gratuitas.
A
análise da pesquisa foi divulgada pelo professor Rasmus Kleis Nielsen,
professor de Jornalismo na Universidade de Copenhague e diretor do Reuters
Institute entre 2018 e 2024 (‘How the public checks information it thinks might
be wrong’, ou em tradução livre, ‘Como o público verifica informações que podem
estar erradas’, em 17/6).
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Menos TV como fonte de notícia
Sobre o
Brasil, o relatório observa que após décadas de domínio da TV aberta, o mercado
de mídia no país vem sendo desafiado pelas plataformas digitais e serviços de
streaming. Em 2013, 75% dos brasileiros tinham a TV como fonte de notícias e em
2025 apenas 46%. A maioria dos brasileiros (78%) buscam informações on-line e
17% pagam pelo serviço.
As
notícias impressas também tiveram uma forte queda no período, de 50% para 10%,
enquanto as mídias sociais evoluíram de 47% para 54%, sendo as principais
fontes de notícias para 33% dos brasileiros. Tratando-se de dispositivos de
acesso às notícias, a TV registrou uma queda consistente, de 81% para 52%, com
o celular dominando em 82% (em 2013 eram 23%).
Acerca
do nível de confiança das notícias apresentadas nas diversas mídias houve uma
queda de credibilidade no período de 2015 a 2025, de 62% para 42%, notadamente
com as notícias online. O relatório assinala que 67% dos brasileiros se
preocupam com as fake news.
No que
diz respeito ao alcance de público, apesar da rede Globo estar à frente em
termos de abrangência no noticiário de TV (41%) e notícias online (32%), o grau
de confiança é menor (55%) em relação a outras emissoras, como a SBT News
(64%), Record (62%) e Band (59%). A rede Globo também apresenta a maior taxa
dos que não confiam (29%).
No caso
de notícias impressas, o jornal O Globo soma 54% de credibilidade, um pouco
acima de O Estado de S. Paulo (53%) e Folha de S. Paulo (52%). Porém, o
percentual dos que não confiam é maior tratando-se de O Globo (27%) em
comparação aos jornais paulistas, com 23% e 26% respectivamente.
O
relatório destaca que o Brasil ocupa a 63ª posição entre 180 países no índice
de liberdade de imprensa – World Press Freedom Index Score 2025 – da
organização Repórteres Sem Fronteira. Dos oito países do continente americano
incluídos na pesquisa, o Brasil é superado apenas pelo Canadá (21ª) e Estados
Unidos (57ª), estando em melhor posição que o Chile (69ª), Argentina (87ª),
Colômbia (115ª), México (124ª) e Peru (130ª).
Fonte:
Observatório da Imprensa

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