Osnan
Silva de Souza: A CIA do terror e a mídia brasileira
Em
2005, Marion Gordon Robertson – conhecido pastor evangélico e homem “de fé
cristã e americana inabalável” –, no seu programa de TV The 700 Club,
conclamava os serviços secretos de seu país a uma ação mais enérgica no sentido
de “restaurar a ordem na Venezuela”, liquidando fisicamente Hugo Chávez, a quem
ele descrevia como um “perigo terrível”: “Nós temos a habilidade de tirá-lo do
poder, e eu acho que chegou a hora de fazer uso dessa habilidade (…). É muito
mais fácil que agentes infiltrados façam o trabalho”. À época, o governo Bush
apontou o conselho como algo apenas inapropriado: “ou seja, certas coisas são
feitas quando necessário, mas não proclamadas publicamente”. A inquietação
escancarada de Pat Robertson, como é conhecido, evidencia uma tradição da
política externa estadunidense e de sua máquina de terror. São palavras do
eminente filósofo liberal Alexis de Tocqueville: “não tenho visto sem
preocupação esse espírito de conquista, e até de roubo, que se manifesta entre
vocês [americanos] há alguns anos”. Como bem lembra Domenico Losurdo em A
Linguagem do Império, foram inúmeras as tentativas de assassinato de Fidel
Castro executadas pela CIA. Entre os anos 1950 e 1960, foram elaborados planos
concretos para neutralizar ou eliminar fisicamente Stalin, Arbenz, Lumumba,
Sukarno etc. Os dirigentes da CIA sempre partiram do pressuposto de que
qualquer meio é legítimo quando se trata de livrar-se dos “cães loucos”.
Essas
ações sempre contaram com uma cobertura de conivência e legitimação dos mais
variados veículos da imprensa ocidental. Há algumas décadas, o International
Herald Tribune anunciava com grande satisfação: “a CIA destinou enormes somas
para encontrar um general ou coronel para colocar uma bala no cérebro de
Saddam”. Durante as eleições de 2000 na Iugoslávia, a imprensa norte-americana
anunciava com regozijo as dificuldades que Milosevic enfrentava para realizar a
campanha eleitoral: “receoso de ser assassinado, o presidente de 58 anos
raramente aparece em público e apenas para pronunciar na frente de seus
seguidores discursos curtos sobre os males do fascismo”.
Nos
últimos dias, Donald Trump direcionou a máquina de guerra e terror do império
para a América Latina, e o alvo principal é justamente a Venezuela, o país com
as maiores reservas de ouro, gás e petróleo do mundo, com 302,3 bilhões de
barris. Nesse cenário, a grande imprensa brasileira tem anunciado, sem
indulgências, o Terror (mas não espere pela utilização de tal categoria)
norte-americano: “Trump autoriza ação secreta da CIA na Venezuela para derrubar
Maduro”. São esses os termos que tomam conta da capa do jornal Folha de S.
Paulo, no dia 16 de agosto, que acrescenta: “ações letais, bombardeios, ataques
aéreos e em terra e captura do ditador são avaliados”. O Estadão navegou nas
mesmas águas: “Trump infiltra a CIA e cogita ataque por terra na Venezuela.
Presidente americano confirma ter autorizado ações secretas”. A banalização por
parte da imprensa diante das agressões desferidas pelos EUA contra a Venezuela
fez com que o Brasil 247 encabeçasse no título de uma análise: “Mídia
brasileira naturaliza ação da CIA contra um país vizinho da América do Sul”.
Mais: “tratamento complacente e acrítico de Folha, Valor e jornal Estado de S.
Paulo legitima a incursão norte-americana sob o pretexto de derrubar ditadura”.
Tratar-se-ia, com efeito, de uma “velha submissão ideológica da imprensa
brasileira à hegemonia dos Estados Unidos”, isto é, “um padrão histórico de
colonialismo informativo”.
Essa
“submissão ideológica” ou esse “colonialismo informativo” podem ser verificados
nos estúdios da Globonews. Aqui, a jornalista Ana Flor critica a nota do
Partido dos Trabalhadores (PT), que denunciou como “uma iniciativa inaceitável
e deplorável”, além de uma “afronta à soberania do país sul-americano e uma
violação do Direito Internacional”, as “declarações do presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump, em que autoriza operações secretas da CIA no território
da Venezuela”. Para a jornalista, a reação do partido deu-se num “momento
errado” e “não ajuda na relação que Mauro Vieira quer construir [com os EUA]”.
Flor recebe o apoio analítico de Malu Gaspar e Natuza Nery, que, além da nota,
criticam também o discurso do presidente Lula da Silva, que, durante o
congresso do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), foi enfático: “o que nós
defendemos é que o povo venezuelano é dono do seu destino, e não é nenhum
presidente de outro país que tem que dar palpite de como vai ser a Venezuela ou
vai ser Cuba”.
Para
Nery – assim como para as duas outras jornalistas –, deveria haver uma data
especial para um chefe de Estado se opor a uma agressão externa a um país
vizinho e enfatizar o respeito à soberania popular: “acho que no dia de hoje a
nota [do PT] e essa declaração [do presidente] … me parece um erro
estratégico”. Nas análises dessas jornalistas, por estar na mesa de negociação
com os EUA (discutindo as tarifas impostas – outra agressão injustificada), o
Brasil deveria manter-se em silêncio perante as tentativas de Trump de derrubar
o governo Maduro. A voz dissonante ecoa no mesmo estúdio por meio das palavras
de Octávio Guedes: “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa (…). Vamos
e voltamos: é um absurdo mesmo um país admitir que está utilizando o seu
serviço secreto para derrubar um presidente”.
Se as
três jornalistas da Globonews veem o posicionamento do Presidente da República
e do seu partido como “inadequado” para o momento, a preocupação de Lourival
Sant’Anna, um conhecido analista da CNN Brasil, se concentra no “excesso de
transparência” do dirigente do império: “quando um presidente anuncia que o seu
serviço secreto está executando uma operação, ela perde muito o seu caráter
profissional e técnico. Agora os serviços de contrainteligência venezuelanos
estão vasculhando cada centímetro da Venezuela. Isso [o anúncio feito por
Trump] não ajuda a oposição venezuelana nem a própria operação”. Trata-se de
uma análise que compactua com a cobertura da imprensa no Brasil, que reproduz a
linguagem do império ao noticiar: “EUA fazem novo ataque a barco suspeito de
tráfico de drogas perto da costa da Venezuela”.
O
júbilo – do qual fala Losurdo – com o qual a imprensa norte-americana e
europeia se expressa para se referir às tentativas de assassinato de Saddam e
Milosevic é o mesmo que verificamos em Demétrio Magnoli. Com sorriso no rosto
(e também no Estúdio i da Globonews), o jornalista e sociólogo anuncia “a volta
da diplomacia das canhoneiras; aquilo que Theodore Roosevelt se notabilizou por
fazer na América Central no começo do século XX (…) A ideia é desestabilizar o
governo venezuelano sem a necessidade de uma invasão terrestre”. Podemos notar
a satisfação também em seus olhos: “Maduro, que falava pela televisão sempre no
palácio de Miraflores, o palácio presidencial, parou de usar o palácio. Ele
está falando a cada vez num hotel diferente de Caracas. Maduro parou de ir a
eventos públicos só com os seus auxiliares do governo; ele vai a eventos
públicos cercado por algumas dezenas de civis de seu partido, usando-os, claro,
como escudos humanos, porque ele teme ações pontuais dos EUA em terra”.
Magnoli
é quem, nas dependências da Globonews, eleva a crítica ao discurso do
presidente Lula da Silva a outro patamar. Se as três jornalistas concordam com
a ideia de um “momento errado”, o sociólogo pondera que, embora Lula tenha
razão em criticar a “interferência militar dos EUA na América do Sul”, o
“problema foi a continuação da fala dele. Lula defendeu a ‘soberania popular’
da Venezuela e Cuba, mas não há soberania popular em ditaduras”. Para Magnoli,
só há soberania em democracias liberais do Ocidente – ou talvez nas ditaduras
aliadas. Não se trata de mobilizar a categoria “soberania nacional”, como
alertou Rodrigo Azevedo, “para blindar um regime que suprime a competição
eleitoral”. Mas se as palavras utilizadas pelo presidente da República – “o povo
venezuelano é dono do seu destino, e não é nenhum presidente de outro país que
tem que dar palpite de como vai ser a Venezuela” – para se opor ao imperialismo
estadunidense não têm validade, a CIA está autorizada – não apenas por Trump,
mas pela moral e pela lógica – a estender as execuções extrajudiciais, que têm
como alvo indivíduos desconhecidos em embarcações no Caribe, para o território
venezuelano e liquidar Maduro.
A essa
altura do campeonato, os mais entusiastas defensores da liberdade e da
democracia – os grandes campeões dos direitos humanos – sabem que não podem
fazer nenhuma reflexão séria sem ter no horizonte os golpes de Estado
orquestrados pelos EUA, as narrativas mentirosas para invadir outras nações, o
seu interesse nos recursos naturais alheios, o fracasso de suas operações e o
horror e o sofrimento humano causados a inúmeros povos. No entanto, a
insistência enfadonha em categorias como terrorismo, autocracia, “regime” e
ditadura permite que veículos da grande imprensa tentem legitimar ou minimizar
as agressões estadunidenses e as suas consequências. Podemos encerrar com uma
passagem de um artigo de Valério Arcary em A Terra é Redonda: “a Venezuela
resiste não apenas a sanções, mas a uma narrativa que ignora sua soberania. O
que se vê em Caracas é um povo que, mesmo exausto, mantém viva uma consciência
política rara — e que o cerco midiático não deixa transparecer”.
• As lições da guerra em Gaza para o
jornalismo contemporâneo. Por Carlos Castilho
A
esmagadora maioria dos jornalistas palestinos mortos na guerra em Gaza perdeu a
vida ao exercer sua profissão no meio da população civil. Eles não foram
identificados porque os drones, misseis e os jatos de combate de Israel não
conseguiram, ou não quiseram, detectar os coletes usados por repórteres,
fotógrafos e produtores palestinos com a inscrição PRESS (imprensa).
A
convivência com as pessoas comuns e o uso intensivo de bombardeios à distância
criaram o ambiente para uma letalidade recorde entre os jornalistas palestinos
atuando em Gaza e na Cisjordânia. A combinação pode ser explicada pela
coincidência de dois fatores:
1. A crescente automação do armamento bélico
ampliou enormemente a distância entre as forças envolvidas no conflito, o que
aumentou a incidência de ações em que os combatentes não tem contato direto
com o oponente.
2. A proibição israelense de ingresso de
correspondentes estrangeiros nos territórios palestinos obrigou a grande
imprensa internacional a recorrer a free lancers e fixers1 palestinos.
Nada
menos que 274 jornalistas, 269 deles de nacionalidade palestina2, foram mortos
pela Força de Defesa de Israel (Israel Defense Force- IDF) durante a ofensiva
terrestre e ataques aéreos contra alvos palestinos na Faixa de Gaza. Nos dois
anos de guerra morreram 3,5 vezes mais jornalistas do que em toda a guerra no
Vietnam, que durou 20 anos e é considerada o maior conflito bélico da era
moderna.
O
brutal contraste na mortalidade de jornalistas entre as guerras do Vietnam e
Gaza indica que a cobertura noticiosa de combates assumiu características
diferenciadas na era digital. As regras estabelecendo que ataques e mortes de
jornalistas durante combates são considerados crimes de guerra pela ONU3 foram
simplesmente ignoradas pela própria grande imprensa ocidental.
Isto
acabou colocando o jornalismo diante de uma nova realidade em matéria de
cobertura de conflitos bélicos, o que obriga os profissionais e
pesquisadores a uma complexa reflexão
sobre como produzir notícias em conflitos bélicos contemporâneos. Fatores como
a necessidade de estar junto das pessoas, a falta de regras universais e as
novas estratégias militares baseadas na automação e na guerra cognitiva4 criam
condições para um aumento exponencial dos riscos a da complexidade informativa
a que estão sujeitos repórteres, fotógrafos, cinegrafistas e equipes de apoio.
Apesar
dos desmentidos formais do governo israelenses, depoimentos e investigações
feitas por organizações e empresas jornalísticas ocidentais ficou claro que
houve intencionalidade em muitos ataques da IDF que resultaram na morte de
jornalistas árabes em Gaza. O bombardeio do hospital Nasser onde morreram cinco
repórteres palestinos é considerado paradigmático.
O caso
foi investigado pela rede de televisão norte-americana CNN que concluiu ter
havido uma intenção deliberada de atingir jornalistas. Um primeiro ataque aéreo contra o quarto
andar do hospital Nasser, o único ainda em funcionamento pleno em Gaza, gerou
mortes e uma grande confusão no atendimento às vítimas. Dez minutos depois,
quando vários jornalistas correram para o local buscando informações, dois
tanques israelenses dispararam contra o mesmo quarto andar matando cinco
jornalistas palestinos contratados por empresas jornalísticas europeias, árabes
e norte-americanas. Segundo a CNN, os repórteres e fotógrafos caíram numa
armadilha ao desempenharem sua função de informar enquanto a IDF alegava que havia “terroristas”
entre os jornalistas. A rede de TV norte-americana salientou que não era
segredo que os free lancers e fixers se concentravam no alto do hospital Nasser
porque era o melhor acesso à internet, na hora de enviar notícias.
O
antagonismo étnico e ideológico fez com que os soldados israelenses deixassem
de distinguir jornalistas, guerrilheiros, influenciadores e pessoas comuns.
Quem não vestisse uniforme eram visto como palestino e automaticamente tratado
como terrorista inimigo.
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Gastar sola de sapato
É uma
situação nova e complexa porque, na era digital, o jornalismo tende a se
identificar com os ambientes sociais onde atuam, por conta da necessidade de
identificar demandas informativas do público bem como produzir narrativas
adaptadas à cultura local. Isto faz com que o jornalista acabe se transformando
em um membro da comunidade, o que pode complicar muito a sua situação pessoal
quando irrompem conflitos violentos.
Esta
mesma situação acontece em bairros da periferia de grandes cidades onde a
população local está submetida ao controle do crime organizado. O exercício do jornalismo nestas condições só
é possível quando o profissional se mistura com as pessoas para obter
informações que o ajudem a descrever o que está acontecendo com um mínimo de
objetividade e credibilidade. Sem esta imersão, o repórter ou fotografo é
facilmente envolvido pela narrativa das forças de segurança.
O
jornalismo produzido dentro de redações perde terreno pelo trabalho feito
diretamente na realidade. Pode-se dizer que é uma espécie de volta à velha
metáfora “gastar sola de sapato”. Mas não se trata apenas de uma volta
romântica ao passado. O engajamento nas comunidades é considerado a ferramenta
mais eficaz para reduzir o efeito da desinformação gerada por quem é alheio à
realidade local ou tem interesses antagônicos.
Esta
nova realidade criada pela imersão do jornalista nas zonas de conflito cria uma
situação que envolve diretamente também as empresas e organizações
jornalísticas. Quem distribui ou publica informações sobre uma guerra ou
rebelião passa a ter que assumir algum tipo de proteção a repórteres ou
influenciadores digitais atuando em zonas de alto risco pessoal. Não é um ato de generosidade e sim a defesa
de indivíduos que garantem a viabilidade do negócio da notícia.
É uma
responsabilidade tanto das comunidades beneficiadas como das empresas
jornalísticas que contratam free lancers porque sem o fluxo de informações
gerado por quem está no campo, elas perdem credibilidade, são superadas pela
concorrência, além de ficarem vulneráveis à propaganda oficial. Quando há
omissão na defesa e proteção do jornalismo em zonas de conflito, as empresas e
organizações se tornam cúmplices da mortandade de profissionais como acontece
em Gaza, sem falar no fato de que a ausência de notícias confiáveis provoca a
desorientação das pessoas e aumenta o risco de elas serem empurradas para
situações letais.
Fonte:
Observatório da Imprensa

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