quarta-feira, 1 de outubro de 2025


 

A multiplicação do ethos negacionista na crise do tarifaço

O bolsonarismo se apropriou seletivamente da imprensa tradicional para reinterpretar o tarifaço de Donald Trump contra o Brasil.

<><> Do INQ 4995 ao tarifaço

Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, passou a ter endereço fixo nos Estados Unidos desde março deste ano, quando se licenciou do cargo de deputado federal, supostamente por problemas de saúde.

“Desde o início do ano, o deputado federal vem, reiterada e publicamente, afirmando que está se dedicando a conseguir do governo dos Estados Unidos a imposição de sanções contra membros do Supremo Tribunal Federal […]”, assim começa a peça nº 1 do Inq 4995 no STF. Assinada em 25 de maio pela Procuradoria-Geral da República, a petição abriu investigação contra Eduardo por suspeita de coação.

Quatro dias antes, em 21 de maio, Eduardo comemorou em post que a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes estava sob análise do governo americano. No vídeo divulgado, o senador Marco Rubio responde ao deputado republicano Cory Mills sobre “grandes possibilidades” de Trump sancionar Moraes; abaixo, aparece a imagem do ministro com a frase: “Moraes próximo de ser sancionado!”. Na legenda, Eduardo agradece a Mills e conclui: “Thank you, Congressman. We will win”.

Dois meses depois, os EUA aplicaram a Lei Magnitsky contra Moraes, bloqueando bens e transações em solo americano. Nesse intervalo, Trump anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros; Jair Bolsonaro foi alvo de medidas restritivas do STF; e Lula passou a ser retratado, no ecossistema bolsonarista, como culpado pela ofensiva da Casa Branca. A apropriação seletiva da imprensa tradicional serviu, assim, para sustentar o ethos negacionista e oferecer respostas simplificadas – como a culpabilização ou mesmo o impeachment de Lula e Moraes – diante da complexidade da crise tarifária.

<><> Cimento do negacionismo

Segundo Nunes (2022), o bolsonarismo não nasce de um partido ou de marcos tradicionais, mas de uma confluência de matrizes discursivas – anticomunismo, libertarianismo econômico, moralismo, anticorrupção, militarismo – aglutinadas por uma gramática moral comum. Essa moralidade articula três eixos centrais: individualismo, punitivismo e valorização da ordem acima da lei.

É nesse terreno que prospera o “Cidadão de Bem”, figura ideal que dá coesão a diferentes estratos sociais do grupo. O bolsonarismo, portanto, ultrapassa a figura de Bolsonaro, configurando-se como um movimento interclasse e contemporâneo, alimentado por crises globais e locais. Tal qual a Hidra de Lerna, o mito grego da serpente que regenerava duas cabeças ao perder uma, quanto mais golpeado por adversidades – pela crise de 2008, pandemia e a emergência climática – mais cresceu o bolsonarismo, precisamente porque originou-se no caos.

Se a gênese do bolsonarismo tem a forma da hidra, o negacionismo é uma das cabeças desse mito, pois, como assinala Nunes (2022) e Demuru (2024), cumpre o papel fundamental no ethos do populismo de extrema-direita mundo afora. Esse ethos combina traumas coletivos e desigualdades sociais crescentes que geram a oscilação entre o “choque de realidade” e o “choque de fantasia” (Demuru, 2020), materializado em narrativas conspiratórias difundidas por figuras como Trump, Milei e Bolsonaro. O resultado é a substituição do abismo real por um abismo fabricado, mais palatável e passível de ser resolvido por soluções simples. Nesse processo, a imprensa ocupa lugar paradoxal: desacreditada como instituição, mas constantemente reapropriada como insumo discursivo.

<><> Análise

É nesse ponto que esta análise se insere. Maingueneau (2001) mostra que a citação direta é uma estratégia de intertextualidade que visa reforçar a verossimilhança daquilo que é citado, ao mesmo tempo em que distancia o enunciador do discurso original. 

Exemplo: no mesmo dia em que foi divulgada a carta de Donald Trump sobre as tarifas, em 9 de julho, a deputada federal Júlia Zanatta repostou no X o print de uma reportagem do G1. Zanatta, assim, endossa a veracidade do fato noticiado, com a citação direta, mas também se distancia: quem diz é a imprensa, não ela. Assim, a deputada apenas reconhece a imprensa pelo seu estatuto de autoridade. 

Mas junto da imagem, Zanatta acrescenta o comentário: “O PT é uma arma de destruição em massa”. Com efeito, o fato noticiado serve apenas para servir à narrativa desejada: a de que a tarifa resultaria da ação do PT e de Lula, e não da agenda de política externa de Trump. E aqui entra o negacionismo. Isso porque a deputada reconfigura a factualidade originária do tarifaço. Na outra face da mesma estratégia, a seletividade do recorte também subverte os sentidos da própria imprensa dentro do ecossistema bolsonarista. 

Esta seletividade fica ainda mais evidente quando contrastada com editoriais publicados, na mesma data, por outros veículos de primeira ordem: o Estadão classificou o trumpismo – e, por tabela, o bolsonarismo – como “daninho”; O Globo lembrou que dezenas de países receberam cartas semelhantes, tratando a menção a Bolsonaro por Trump como mera retórica.

Convém assinalar que, no próprio 9 de julho, Trump anunciou tarifas também ao Sri Lanka, e nos dois dias seguintes a Canadá, México e União Europeia, com taxas entre 30% e 35%. Ainda que o Brasil tenha sido alvo da sobretaxa mais alta, caberia perguntar até que ponto a serialização dos anúncios não esvazia, logo de saída, a narrativa negacionista construída por Zanatta: afinal, Lula e o PT também seriam responsáveis pelas tarifas impostas a outros países?

<><> Ironia como deslocamento de sentido

À medida que o tarifaço ganhava repercussão, pesquisas já indicavam sua gravidade na percepção pública: 89% acreditavam que ela prejudicaria a economia nacional (Datafolha). Nesse cenário, a disputa discursiva concentrou-se na atribuição de responsabilidades: para 35% dos entrevistados, a culpa era de Lula; para 22% e 17%, de Jair e Eduardo Bolsonaro, respectivamente (Datafolha).

Diante desse quadro, líderes bolsonaristas recorreram a prints e trechos de matérias jornalísticas como estratégia de apropriação discursiva. Isso porque, o uso da citação direta, como descreve Maingueneau (2024), confere ao enunciador uma aura de seriedade e objetividade, que em casos de instabilidade tornam-se recorrentes. No caso de Nikolas Ferreira, ao compartilhar um vídeo do portal Metrópoles que lista dez críticas de Lula a Trump antes do tarifaço, o deputado acrescenta apenas a frase: “Mas a culpa é do Bols- Ops”.

Aqui, o recurso da citação preserva a autoridade jornalística como garantia da verossimilhança, mas desloca seu sentido original com uma legenda irônica. Mantida como dado factual, a notícia sustenta, contudo, uma operação implícita de ordem negacionista. O abismo é reconhecido, mas sua responsabilidade é direcionada a Lula – e sua solução, simplificada: o fim de Lula. 

<><> Sarcasmo como banalização

Em registro ainda mais satírico, o vereador Pablo Almeida, do PL de Minas Gerais, compartilhou uma matéria da Folha de S. Paulo intitulada, acrescentando a legenda: “E se o Lula enviar muita jabuticaba?”. O comentário faz alusão ao vídeo em que Lula, logo após o anúncio do tarifaço, ofereceu uma jabuticaba a Trump em tom de leveza e descontração – gesto que foi recebido por seus apoiadores como sinal de serenidade diante da crise. No ecossistema bolsonarista, porém, a cena foi ressignificada como símbolo de inépcia: a gravidade do impacto econômico é reduzida a uma piada, que circula apoiada na credibilidade da imprensa. Como nos exemplos anteriores, o jornalismo é recortado seletivamente, não para informar, mas para zombar, reinterpretar e reforçar a gramática política que atribui a Lula a responsabilidade pela crise.

<><>Conclusão

Nos três casos analisados, a apropriação da imprensa tradicional opera menos como mediação de fatos e mais como matéria-prima para reinterpretar a partir de recortes seletivos, embotados por ironia e negação. O resultado é a conversão sistemática de Lula em polo de responsabilidade pela crise, reforçando a gramática moral e o ethos negacionista do bolsonarismo.

        "Foi um tiro no pé", diz Haddad sobre tarifaço de Trump ao Brasil

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), criticou nesta segunda-feira (29) a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de aplicar uma tarifa extra de 40% sobre produtos brasileiros. Durante evento promovido pelo Itaú, em São Paulo, Haddad classificou a medida como um erro econômico que prejudica tanto o Brasil quanto os próprios americanos.

Segundo o ministro, a medida contradiz entendimentos anteriores sobre a relação comercial entre os dois países. "O Bessent concordou comigo que não fazia o menor sentido tarifar a América do Sul,que, enquanto continente, era deficitária em relação aos Estados Unidos. Dois meses depois, muda tudo e vem uma tarifa extra de 40%. Não faz o menor sentido, nem para eles nem para nós. São economias amigas", afirmou.

<><> Crítica ao impacto da tarifa

Haddad avaliou que a medida é danosa também para os consumidores norte-americanos. "Foi um tiro no pé deles, totalmente, inclusive para a economia americana. Não faz sentido pagar mais caro pelo café, pela carne. Quero crer que se iniciará um debate racional, separando o que é econômico do que é político", declarou.

O ministro destacou que usar tarifas como instrumento de pressão política é um equívoco. "Tentar usar a tarifa como arma política é um equívoco que deveria ser corrigido o quanto antes", disse.

<><> Relação bilateral e diálogo

Haddad reforçou que o Brasil continuará apostando no diálogo, destacando a diferença entre o sistema político dos dois países. "Aqui não há autocrata. Há* presidente, Congresso, Supremo. Não temos um autocrata no Executivo, temos uma democracia. Sensibilizar os EUA sobre como funciona o Brasil é fundamental", afirmou.

Ele ainda citou a postura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em fóruns internacionais. "O discurso do presidente Lula na ONU foi muito oportuno, gerou um clima mais amigável, e temos que explorar isso. Nossos dois povos não vão brigar. Não faz sentido essa animosidade artificialmente gerada", acrescentou.

<><> Impactos e perspectivas

Apesar de minimizar o impacto macroeconômico, Haddad ressaltou que a sobretaxa pode afetar diretamente as famílias brasileiras. "Impacto macro não haverá, mas micro haverá, e atrapalha muito as famílias brasileiras esse tipo de comportamento. Mas eu não penso que perdurará. O bom senso prevalecerá", disse.

O ministro afirmou que o governo brasileiro busca resolver a questão por meio de negociações, sem abrir mão da firmeza diplomática. "O presidente Lula não fez um único discurso de animosidade. Nós resolveremos. O presidente não usou até agora a Lei de Reciprocidade aprovada pelo Congresso. O presidente tem sido muito cuidadoso, caminhando para uma negociação, sem abaixar a cabeça", concluiu

<><>< Haddad pode se reunir com secretário do Tesouro dos EUA para discutir tarifas

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou nesta segunda-feira (29) que poderá se reunir com o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, para discutir as tarifas impostas pelo governo americano a produtos brasileiros. A expectativa é de que a conversa ocorra antes da reunião de ministros das finanças do G20, marcada para os dias 15 e 16 de outubro em Washington.

“Eu tenho uma ida para os Estados Unidos para o G20. Na pior das hipóteses, acredito que a gente vai se falar lá. Mas quem sabe antes disso os dois gabinetes marquem uma reunião. É possível também”, afirmou após participar do Macro Vision, evento do Itaú BBA, de acordo com o jornal O Estado de S. Paulo.

<><> Reunião presidencial em negociação

Questionado se participaria da reunião que vem sendo articulada entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, Haddad disse que a decisão cabe ao chefe do Executivo, mas garantiu estar à disposição.

<><> Histórico das negociações

O ministro recordou que, em maio, esteve reunido com Bessent em Washington. Naquele encontro, o secretário do Tesouro havia sinalizado que não seria lógico impor barreiras comerciais à América do Sul. “Aí, dois meses depois, muda tudo, e veio uma tarifa que está aí, de 40% extra sobre alguns produtos. Todo mundo vai concordar que não faz o menor sentido, do ponto de vista econômico, nem para ele, nem para nós”, afirmou.

        Planalto exige garantias antes de reunião entre Lula e Trump

A equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciou tratativas preliminares para viabilizar um encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O governo brasileiro vê na aproximação uma oportunidade para rebater a “narrativa bolsonarista” que ainda circula em Washington, segundo a qual Lula teria um viés antiamericano. De acordo com o Valor Econômico, auxiliares de Lula avaliam que o gesto de Trump na semana passada abre espaço para a reconstrução da relação bilateral, mas a ordem do Planalto é agir com prudência. O Itamaraty deve conduzir as primeiras conversas diplomáticas em etapas, deixando um possível encontro presencial como última fase.

<><> Cautela marca preparação do encontro

Nos bastidores, diplomatas brasileiros reconhecem que Trump é visto como uma figura política imprevisível. A estratégia, portanto, é escalar embaixadores experientes para uma sequência de contatos de alto nível, garantindo segurança ao diálogo. Só depois desse processo amadurecido Lula estaria disposto a se reunir com o republicano.

Entre os cenários discutidos, está a hipótese de reunião em território neutro, como a Malásia, que sediará em outubro a cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean). Antes, porém, assessores defendem que os dois líderes conversem por telefone, como forma de medir convergências e evitar embates desnecessários.

<><> Possibilidade de reunião em terreno neutro

O Planalto avalia que não se pode “baixar a guarda” após os episódios em que Trump mudou radicalmente de posição. “O pêndulo dessa narrativa vai continuar sendo puxado de volta [pelos bolsonaristas]. Cabe a nós mostrarmos que não temos uma postura antiamericana”, afirmou um negociador brasileiro ouvido pela reportagem. Nesse contexto, a diplomacia quer garantir que Lula não seja exposto a gestos hostis. A eventual reunião só ocorrerá se houver segurança política e diplomática para preservar a imagem do Brasil.

<><> Prioridades do Brasil na mesa de negociações

Um dos principais temas da agenda será a regulação das big techs. O governo brasileiro pretende destacar que a discussão sobre segurança digital e combate a crimes virtuais ocorre há anos no Congresso, sem qualquer intenção de prejudicar empresas norte-americanas. Além disso, Lula deve reforçar que o Brasil está aberto à instalação de data centers internacionais e busca parcerias em minerais críticos e terras raras, desde que fortaleçam o desenvolvimento nacional.

<><> Temas sensíveis que podem gerar atritos

Apesar da expectativa de aproximação, alguns pontos são considerados delicados. Entre eles, a alíquota de 18% imposta pelo Brasil ao etanol americano — resposta às tarifas dos EUA sobre o açúcar brasileiro.

Outros tópicos que podem tensionar a conversa são as disputas na Organização Mundial do Comércio (OMC), imigração, mudanças climáticas e a participação do Brasil nos Brics. O PIX, sistema de pagamentos instantâneos, também foi alvo de questionamentos em Washington, mas o Itamaraty já reiterou que não há restrições a plataformas estrangeiras.

 

Fonte: Por Pedro Madeira do Nascimento no Le Monde/Brasil 247


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