Samuel
Hanan: Políticas equivocadas já comprometem as próximas gerações
O mais
recente estudo Atlas da Mobilidade Social, elaborado com base nos dados do
IBGE, Receita Federal e Cadastro único, cujo resultado foi publicado pelo
jornal Folha de S. Paulo (edição de 6/6/25, página A13), traz dados muito
preocupantes porque revela que o futuro das crianças brasileiras está sendo
comprometido em razão de políticas públicas equivocadas.
De
acordo com o estudo, apenas 1,8% das crianças pertencentes às famílias
incluídas entre as 50% mais pobres do país têm chance de obter ascensão social
e, quando adultas, se colocarem entre os 10% mais ricos, ainda que, no Brasil,
estar nesse patamar signifique ter renda de R$ 8.034,00/mês, pouco mais de 5
salários-mínimos.
A
perspectiva não é muito melhor quando se fala em ascensão social capaz de, no
futuro, nossas crianças serem incluídas entre os 25% de brasileiros mais ricos
– aqueles com renda média mensal de R$ 10.600,00, o equivalente, no máximo, a
7,5 salários-mínimos. O estudo mostra que menos de 10% dessas crianças pobres
conseguirão chegar lá.
Dado
ainda mais grave aponta que dois terços (66,6%) dessas crianças provavelmente
permanecerão entre os 50% mais pobres, na fase adulta. O comprometimento do
futuro está anunciado.
Pior
ainda é a situação das crianças habitantes das regiões Norte e Nordeste. Elas
têm, respectivamente, 78,3% e 76,4% de chance de, quando adultos, permanecerem
no mesmo patamar social da infância, percentual muito maior do que as crianças
nascidas na região Sul, cuja probabilidade cai para 41,4%.
O
quadro futuro será o resultado das políticas públicas dos últimos governos, de
pouco ou nenhum progresso no processo distributivo de renda, com reflexo direto
no desenvolvimento e na qualidade de vida das crianças pertencentes às famílias
dos 50% mais pobres do país.
As
consequências na educação também se prenunciam devastadoras. O novo estudo do
Atlas da Mobilidade Social denuncia que somente metade das crianças das
famílias mais pobres conseguirá concluir o ensino médio. Obter um diploma de
faculdade será ainda mais difícil: apenas 1,9% dessas crianças – ou 2 em cada
100 – concluirão o ensino superior, diz o estudo. É muito pouco. E tem algo
muito errado.
No
Brasil, 66% dos jovens não atingem o nível básico para atender o mercado de
trabalho. Ou seja, dois terços de nossos jovens não têm a mínima chance de
obter sucesso na vida, especialmente em um mundo altamente tecnológico e ainda
mais desafiador diante do avanço da Inteligência Artificial. Para efeito de
comparação, no Chile esse número é de 44% e, entre os jovens europeus, de 20%.
Enfim,
nossos atrasos de hoje são o retrato dos seguidos erros nas políticas públicas
implementadas, grande parte delas calcada em favores e de caráter demagógico e
eleitoreiro.
O
Brasil precisa rever, urgentemente, suas políticas econômicas e sociais, pois
alguns dos grandes problemas do país vêm sendo ignorados e pouco divulgados,
como a insegurança alimentar, trabalho infantil, falta de acesso à educação,
evasão escolar, precariedade na saúde e baixos índices de saneamento básico
(quase inexistente em uma nação que ostenta a posição de 10ª economia do
mundo). Tudo impactando negativamente a vida das crianças pertencentes às
famílias mais pobres.
A
educação precisa ser prioridade de fato e não elemento de propaganda ou de
política eleitoreira, nas quais os números são superlativos, mas desmentidos em
avaliações sérias como o do Pisa, o estudo comparativo internacional que avalia
o desempenho dos estudantes de 15 anos em leitura, matemática e ciências. É
igualmente premente que o saneamento básico seja universalizado para garantir
mais saúde e melhor condição de vida, e necessário melhorar a alimentação das
crianças, com mais proteínas, sobretudo na faixa de 0 a 4 anos de idade, etapa
da conformação cerebral.
Além
disso, a eficácia dos maiores projetos sociais – para os quais são destinados
bilhões de reais por ano – deve passar a ser medida não pelo número de novos
beneficiários, mas pelo número dos que galgaram a ascensão social e passaram a
não depender mais dessa transferência de renda governamental.
Melhorar
a distribuição de renda é outro caminho fundamental para mudar a realidade
brasileira. As diferenças são gritantes. Segundo dados da PNAC Contínua,
pesquisa do IBGE, na faixa dos mais ricos 0,5% estão no topo, com renda média
mensal de R$ 140.000,00. Apenas 1% ganha R$ 28.659,00 por mês e 5,0% têm renda
mensal de R$ 10.313,00. Os que ganham R$ 8.034,00 por mês somam 10,0%. Entre os
mais pobres, 50% têm renda mensal de R$ 713,00; 20% recebem R$ 601,00 e 10,0%
ganham apenas R$ 516,00 por mês.
Considerando-se
a metodologia do Banco Mundial, 27,4% da população brasileira vive abaixo da
linha da pobreza. Outros números confirmam essa triste realidade nacional: 70%
dos brasileiros têm renda média bruta de até R$ 3.036,00/mês e 90% da população
nacional vivem com renda média bruta mensal de até R$ 3.650,00, o
correspondente a menos de três salários-mínimos.
Aumentar
a renda dos brasileiros deveria ser prioridade. Entretanto, o governo federal,
nos últimos 2,5 anos, vem preferindo aumentar os gastos com
publicidade/propaganda e patrocínios, via estatais federais (mesmo com algumas
delas registrando prejuízos) e com a Lei Rouanet para artistas, cantores e
intelectuais (sobretudo os mais renomados e influenciadores), além de expandir
e com mais generosidade os penduricalhos e privilégios de categorias que podem
ser classificadas como os novos donatários do poder.
E como
se não bastasse, desde o início de 2025 vem tirando dinheiro dos pobres e,
consequentemente, diminuindo os alimentos nas mesas dos trabalhadores. Vem
fazendo isso graças à alteração da lei do reajuste anual do salário-mínimo,
atingindo diretamente 27,0 milhões de aposentados e pensionistas do INSS, 4,7
milhões de beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BCP) e ainda
quase 35 milhões de trabalhadores do setor privado que têm rendimentos mensais
de 1 salário-mínimo.
Não
para por aí. Ao decidir pela não correção do valor médio do maior programa
social do país, o Bolsa Família, o governo está tirando quase R$ 40,00 por mês
de cada beneficiário do programa que assiste 21 milhões de pessoas ou famílias.
Outra
marca negativa do governo federal, consequência da inflação alta e fora da meta
e já ultrapassando a 5% ao ano, juros Selic de 14,75% ao ano – o recorde em
mais de 15 ou 20 anos –, e baixos salários, tem sido a explosão silenciosa
(porque pouco noticiada) do nível de inadimplência nos principais programas
sociais do governo. Um exemplo é o Minha Casa, Minha Vida – faixa 1, no qual
mais de 45% dos contratos registram atraso de um ano. Já no FIES, de
financiamento estudantil, a inadimplência já ultrapassou 60%.
O
quadro vem se tornando ainda pior com uma nova categoria de endividados,
formada por aposentados, servidores públicos e trabalhadores do setor privado.
Tudo por conta do Crédito Consignado, empréstimo bancário com taxas de juros
mais baixas que as praticadas no mercado, mas ainda assim exorbitantes e
suficientes para provocar desarranjos nos orçamentos domésticos dos tomadores
de empréstimo. Vendido como bondade, transforma-se em tormento para milhões de
famílias.
Não se
esclarece que a taxa para aposentados, de ordem de 1,6% ao mês, significa quase
21% ao ano, muito superior ao reajuste anual aplicado às aposentadorias. Pior
ainda acontece com o servidor público, com taxa de 1,90% ao ano (25,34% ao ano)
e mais grave com os celetistas (setor privado), graças à taxa de 3,9% ao mês
(ou 59,25% ao ano). Esse tipo de incentivo nada tem de saudável, pois apenas
propiciará ganhos adicionais para as empresas do setor financeiro, uma vez que
os riscos de inadimplência ficam muito próximo do zero, dada a garantia ser o
próprio salário ou a aposentadoria.
Parece
evidente que a preocupação verdadeira não é melhorar a vida do cidadão, mas
pavimentar o caminho para as eleições de 2026 quando, sem dúvida, as benesses
do governo ganharão ainda mais impulso, provavelmente com a correção do Bolsa
Família, expansão do auxílio-gás, programas de refis para garantir perdão de
juros e multas para inadimplentes, e outros benefícios.
Então,
na prática o governo primeiro tira dos pobres para depois devolver, parte, como
se fosse uma benesse ou generosidade, a mais perfeita representação da célebre
citação do escritor americano, ativista político libertário e consultor de
investimentos Harry Browne: “O Governo é bom em uma coisa. Ele sabe como
quebrar as suas pernas apenas para depois lhe dar uma muleta e dizer: “veja, se
não fosse pelo governo, você não seria capaz de andar!".
Enquanto
isso, há pouca esperança para as próximas gerações porque o futuro está
comprometido em razão de políticas que já se mostram desastrosas e merecem
revisão urgente.
*Samuel
Hanan é engenheiro com especialização nas áreas de macroeconomia, administração
de empresas e finanças, empresário, e foi vice-governador do Amazonas
(1999-2002). Autor dos livros “Brasil, um país à deriva” e “Caminhos para um
país sem rumo”.
Fonte:
Vervi Assessoria

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