sexta-feira, 1 de agosto de 2025

O desvario tarifário de Trump e a resposta do Brasil

Nos últimos dias tem se multiplicado as manifestações afirmando ser necessário negociar, adiar, esperar e espernear – compreensíveis – vindas dos setores mais diretamente afetados pela tarifação de 50% lançada pelo governo dos Estados Unidos. É compreensível a apreensão de quem vê seus negócios ameaçados de inviabilização – com custos adicionais dessa ordem – ameaçando empregos e transtornando a vida de muita gente brasileira por essa chantagem tarifária – medida à qual não se pode dar outro nome.  

Esse é o quadro ‘micro’, o plano de visão em cada setor ou exportador afetado. E a estes cabe dizer: tente conversar com seus parceiros de negócios dos Estados Unidos, eles, como contribuintes – e eleitores – estadunidenses, podem atuar perante o governo deles; ao mesmo tempo, tente também diversificar suas vendas, sabemos que não é fácil, relacionamentos comerciais levam tempo e exigem muito trabalho para se estabelecer e se consolidar. Mas, vale lembrar a advertência dos nossos avós: nunca ponha todos os seus ovos num só cesto… especialmente nas mãos do temperamental e instável Trump. 

Cabe ao governo brasileiro, contudo, pensar em termos ‘macro’, vendo o conjunto do interesse nacional, a condição do Brasil, como país soberano, independente, nossa credibilidade, interna e internacional. Achacado e atacado de maneira indefensável – e por motivo torpe – merece repúdio a investida anti-Brasil, exceto para quem está trabalhando contra o interesse nacional, contra todos os brasileiros, e pretenda se beneficiar dessa desastrosa investida dos EUA, interferindo no estado democrático de direito, na separação de poderes e nas instituições nacionais.  

O Brasil não pode e nem deve se curvar diante dessa ilegal, abusiva e vergonhosa chantagem que desencadeou o governo Trump. Além de continuar a tentar negociar, a única resposta é esta: retaliação no mesmo (des)medido patamar. Porque as diferenças mais sérias não são comerciais e econômicas. O que parece fácil comprovar, com dados. 

Primeiro, porque o Brasil é parceiro comercial com o qual os EUA têm superavit no comércio – computados bens e serviços – e não faz sentido atacar um país com o qual os EUA mais ganham do que gastam. É mentira do Trump falar em prejuízos para eles no comércio conosco. 

Segundo, porque os EUA pagam a segunda menor tarifa entre os maiores exportadores ao Brasil – alíquota média de 5,5%, enquanto a média mundial é de 9,3% segundo a Organização Mundial do Comércio, a OMC, lembra dela? Portanto, outra mentira do Trump: as práticas comerciais brasileiras não são desleais, nem fogem do padrão. Segundo padrões legais internacionais, não desse ataque. 

Terceiro, porque o Brasil exporta para os EUA diversos produtos que eles não têm condição de produzir e, portanto, a oneração de exportações brasileiras não será vantajosa para eles, em produtos como café, frutas tropicais e sucos, frutos do mar e óleo de palma. Tarifados, esses produtos prejudicam os exportadores brasileiros, mas também prejudicam os consumidores estadunidenses, que terão de pagar muito mais pelos mesmos itens de seu consumo, dependente de importação. Hello, Trump, tiro no pé dos consumidores americanos com essa tarifação maluca! Que se lembrem disso ao votar. 

Uma tentativa de última hora está sendo feita pelo Brasil, para excluir aeronaves e alimentos dessa bravata, nefasta e dispendiosa. Também porque outros produtos podem ser mais facilmente redirecionados, inclusive para o mercado interno – como carne bovina, pescados e frutos do mar – quem sabe reduzindo preços para nós, por enquanto? 

De novo, econômica e racionalmente nada disso faz sentido. Se as razões fossem econômicas e racionais. Ainda misturando fintechs, pix e a 25 de março! Mas não são. 

Por isso, tenhamos presente que ‘se um não quer, dois não brigam’ e, da mesma forma, se um não quer, dois não negociam. E, se não negociam, neste momento, o Brasil pode e deve retaliar. A reciprocidade é princípio básico do Direito internacional – e das relações humanas em geral, já dizia KANT – e agora temos a lei da reciprocidade, que nos permite ordenar esse tipo de medida. 

Retaliar, com certeza, é penoso e oneroso. Porque encarecerá produtos americanos dos quais necessitamos no mercado brasileiro. Mas é o que se oferece para hoje.  

Sem deixar de esperar que a pressão interna, lá nos States, leve a alguma razoabilidade(?) do governo americano em relação ao Brasil. Enquanto, aqui, sem deixar de esperar prevaleça o interesse nacional e a dignidade do nosso Brasil. E, em meio à turbulência, tem se mantido coerente o discurso do governo brasileiro – cumprimentos por isso. 

Quem sabe, possamos ainda esperar um mínimo de bom senso e de patriotismo de quem menosprezou e causa danos ao Brasil, por se engajar no caminho sem saída, ao sacrificar o interesse nacional e o bem-estar de milhões de brasileiros, por um indivíduo, que tantos males já causou, e continua a causar a este país? Tudo isso, em suma, por motivo torpe. 

¨       Soberania desafia e vence tarifaço. Por Washington Araujo

A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor uma tarifa adicional de 40% sobre produtos brasileiros, elevando a taxação total a 50%, anunciada em 30 de julho de 2025, inclui uma lista de exceções com 694 itens, divulgada pelo governo americano como parte do decreto.

Essa relação abrange setores cruciais da pauta de exportação brasileira, como a indústria aeronáutica e o agronegócio, sinalizando que a medida não foi aplicada de forma indiscriminada, mas com o intuito de mitigar impactos em áreas vitais.

Principais produtos isentos incluem aeronaves e insumos, como aviões da Embraer e peças de reposição — pneus, motores e turbinas; produtos de ferro, aço, alumínio e cobre, metais básicos para indústrias diversas; madeira, matéria-prima para construção; minérios, abrangendo ferro, estanho e derivados; carvão, gás natural, petróleo e derivados, fontes energéticas; castanha-do-brasil, relevante para mercados internos e externos; suco e polpa de laranja, bebidas de alta demanda internacional; e fertilizantes, insumos agrícolas essenciais.

Essa seletividade reforça a robustez brasileira, permitindo que o país transforme o desafio em uma alavanca para maior soberania econômica e diversificação comercial. Longe de representar um bloqueio total, a ordem executiva de Trump, ancorada em alegações de ameaças à segurança nacional, economia e política externa dos EUA, expõe uma perspectiva intervencionista e enviesada.

Acusações sobre violações à liberdade de expressão, perseguição política e interferências em empresas americanas são escancarados pretextos para protecionismo, misturando questões internas brasileiras com um bocado interessadas econômicas. Referências a ações judiciais, como as do ministro Alexandre de Moraes, e à suposta caçada ao ex-presidente Jair Bolsonaro, destacam uma tentativa de politizar o comércio.

Não tenho dúvida de que, com isenções preservando fluxos em setores estratégicos, o Brasil ganha uma boa margem para reafirmar autonomia e explorar novas rotas.

Em primeiro lugar, a tarifa, atenuada pelas exceções, acelera a diversificação de mercados. Os Estados Unidos, apesar de relevantes, cedem espaço para destinos como China, Índia e União Europeia, principais interessados por itens brasileiros, especialmente commodities e manufaturados.

Em 2024, a China capturava 26% das exportações, contra 10% dos EUA.

As isenções em energia, minérios e agroprodutos mantêm receitas estáveis, facilitando negociações bilaterais que diminuam dependências e elevem ganhos. O Mercosul, por sua vez, pode revitalizar-se como polo integrado, com liderança brasileira em cadeias regionais.

As isenções estimulam inovação doméstica. Setores afetados, como manufaturados não excepcionados, impulsionam aportes em tecnologia e valor agregado. É nesse contexto que penso o Brasil, tradicional exportador de primários, prioriza agora industrialização, ampliando competitividade.

Iniciativas da Embrapa e BNDES expandem suporte a empresas menores, fomentando bens sofisticados e reduzindo exposição a barreiras.

Não podemos ser eternos exportadores de matérias-primas. Não estamos mais nos séculos 19 e 20. O século XXI é o século da tecnologia de ponta, da imersão científica, da criatividade em todos os campos da atuação humana e não será exportando soja nem café que o Brasil mudará sua posição de “deitado eternamente em berço esplêndido” para alcançar o futuro que lhe é destinado. E que não tem nada a ver com o “destino manifesto”, aquela destrambelhada visão centenária dos irmãos do Norte.

A medida de Trump também fortalece a diplomacia econômica brasileira e esse será tema do próximo artigo. Porque merece.

Na OMC, contestações à legalidade das tarifas — com precedentes como o caso do algodão em 2009 — demonstram expertise. A ameaça de escalada em retaliações abre vias para posturas claras, inequívocas, aliando-se a parceiros globais contra unilateralismos.

As isenções, ao limitar danos imediatos, concedem tempo para estratégias precisas.Por último, o decreto, com suas exceções, pode unificar o país. Histórico de superação em crises une produtores, autoridades e sociedade em torno de desenvolvimento soberano.

Acredito que a visão de Trump, que retrata o Brasil como risco, contrapõe-se com diplomacia firme, exibindo solidez institucional.

Assim, a tarifa, moderada por isenções, emerge não como entrave, mas como catalisador de reinvenção. E com nosso território vasto, recursos abundantes e talento humano, o Brasil converterá pressão em marco de robustez econômica e independência estratégica. Isso se chama defesa real da soberania do país.

<><> 'Trump atacou o Brasil sem qualquer fundamento econômico', diz Dario Durigan sobre tarifaço dos EUA

Durante palestra sobre regulamentação da inteligência artificial realizada nesta quinta-feira (31) em Brasília, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, classificou como um “ataque sem nenhum fundamento econômico” as tarifas impostas ao Brasil pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Durigan afirmou que as medidas têm motivação política e representam uma afronta à soberania nacional. “A gente viu um ataque unilateral ao país sem nenhum fundamento econômico, digo isso da cadeira em que estou hoje no Ministério da Fazenda. Salienta-se o aspecto político, o aspecto de intervenção e a falta de respeito ao Brasil, à nossa tecnologia — dou o exemplo do Pix —, da falta de respeito aos nossos processos democráticos e à nossa independência do Judiciário”, declarou.

O secretário participou do evento como representante do Poder Executivo e da pasta da Fazenda. Após a atividade, seguiu para o Palácio do Planalto, onde se reuniu com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e um representante da Advocacia-Geral da União (AGU) para tratar das sanções e tarifas anunciadas por Washington.

Na véspera, Trump formalizou uma tarifa de 50% sobre uma parcela das exportações brasileiras. Ainda na quarta-feira (30), a Casa Branca anunciou sanções ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, com base na chamada Lei Magnitsky.

Em sua fala, Durigan reforçou a necessidade de o Brasil adotar uma postura firme frente às agressões externas. Para ele, o país é aberto ao diálogo e à negociação de serviços e produtos, mas não pode admitir interferência em princípios fundamentais. “Nossos produtos e nossos serviços estão sempre passíveis de serem negociados. A gente está sempre disposto a sentar, a negociar, a rever. Mas nossos valores e nossa soberania não estão em negociação”, concluiu.

¨      Simone Tebet diz que BRICS é a solução para o Brasil

A ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, afirmou nesta quarta-feira (30) que o fortalecimento da aliança do Brasil com o BRICS — grupo que reúne algumas das principais economias emergentes do mundo — é fundamental para o futuro do país. “O BRICS não é problema nessa equação; o BRICS, hoje, para o Brasil, é solução”, disse. A declaração foi feita durante o evento Logística no Brasilpromovido pelo jornal Valor Econômico, com apoio da Infra S.A e do Ministério dos Transportes, na sede da Fiesp, em São Paulo.

Tebet ressaltou que o Brasil não pode prescindir de mercados estratégicos, como o asiático, nem de insumos essenciais, como os fertilizantes da Ucrânia. “A nossa dependência do agro com países asiáticos é de quase 50% e 10% com os EUA”, afirmou, ao defender que decisões geopolíticas sejam guiadas por números e não por ideologia. A ministra também enfatizou que a integração sul-americana é chave para o desenvolvimento nacional. “A forma mais rápida e eficiente de chegar à Ásia é pelo Pacífico. Não podemos ficar sujeitos a intempéries como acabou de acontecer, pegando o mundo de surpresa”, alertou.

Sobre as novas tarifas comerciais impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Tebet propôs cautela e pragmatismo. “Não podemos fazer biquinho nem chorar. É preciso entender o que é espuma e o que é chope nesse processo”, declarou. Segundo ela, é necessário compreender quais setores americanos serão protegidos e o que os EUA estão dispostos a conceder em contrapartida. “Eles são pragmáticos. Pode haver diminuição de tarifas sobre café, frutas e aquilo que interessa a eles. A partir disso, podemos desenhar políticas de contingência com responsabilidade fiscal”, disse.

Tebet também refletiu sobre o impacto das políticas americanas na economia global. “Obviamente, o mundo não será mais o mesmo”, afirmou, ao comentar o cenário após a posse de Trump para seu segundo mandato. “A nossa sorte é que Trump não foi reeleito e, nesse ‘gap’, muitos países se reposicionaram”, acrescentou, referindo-se ao período anterior à atual gestão. Segundo ela, o Brasil aproveitou esse intervalo para avançar em rotas de integração com os países vizinhos.

A ministra ainda criticou o recente acordo entre Estados Unidos e União Europeia, classificando-o como “fraco”, e questionou se a Europa terá condições de cumprir os compromissos assumidos, sobretudo diante de tensões com a Rússia. “Será que a União Europeia vai mesmo conseguir cumprir esse acordo de investimentos com os americanos, à custa de certa proteção militar ou bélica?”, indagou. Ao comparar com a situação brasileira, afirmou: “Quando olhamos para o Brasil, não vemos nada disso. A balança comercial dos EUA com o Brasil é superavitária para eles.”

Ao final, Tebet reiterou a necessidade de o Brasil agir com estratégia e independência em um cenário internacional marcado por incertezas. Para ela, o fortalecimento das relações com os países do BRICS e com os vizinhos sul-americanos é parte essencial dessa equação.

 

Fonte: Por Paulo Borba Casella, no Le Monde/Brasil 247

 

Nenhum comentário: