Marcelo
Aith: Prisão domiciliar de Bolsonaro - medida legal, mas com controvérsia
processual
A
decisão proferida pelo ministro Alexandre de Moraes, na noite de 4 de agosto de
2025, decretando a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro,
reverberou intensamente nos meios jurídico e político. A medida decorreu do
descumprimento de cautelares impostas desde 25 de julho, entre elas a proibição
de utilizar redes sociais — ainda que de forma indireta ou por interpostas
pessoas.
Durante
manifestação ocorrida no dia 3, o senador Flávio Bolsonaro divulgou vídeo em
que o ex-presidente, mesmo impedido por decisão judicial, discursava de forma
incisiva a seus apoiadores, com críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF). O
material foi publicado no Instagram, reforçando o entendimento de que Bolsonaro
teria conscientemente burlado a medida judicial, valendo-se de terceiros para
atingir o público.
Na
decisão, o ministro Moraes foi categórico: “Agindo ilicitamente, o réu Jair
Messias Bolsonaro produziu dolosa e conscientemente material pré-fabricado
[...] para seus partidários continuarem a tentar coagir o Supremo Tribunal
Federal e obstruir a Justiça”. Afirmou ainda que, na mesma data, o
ex-presidente atendeu a uma videochamada do deputado federal Nikolas Ferreira,
o que foi utilizado para impulsionar discursos em suposta tentativa de
interferência indevida nos trabalhos da Corte.
Frente
a esses atos, a consequência foi a decretação da prisão domiciliar, acompanhada
de medidas restritivas adicionais: uso obrigatório de tornozeleira eletrônica,
proibição de comunicação com outros investigados e necessidade de autorização
judicial para deixar sua residência. A medida, ainda que menos gravosa que a
prisão preventiva, impõe vigilância intensa e limita a liberdade de maneira
significativa.
Mas
qual é a natureza jurídica dessa prisão?
A
prisão domiciliar cautelar, prevista no artigo 318 do Código de Processo Penal,
substitui a preventiva em casos específicos — como idade avançada, doença grave
ou situações de vulnerabilidade social. É um instrumento legal que tem como
finalidade garantir o andamento do processo sem a necessidade de encarceramento
em ambiente prisional, preservando, quando possível, a dignidade do acusado.
Ainda
que, no caso de Bolsonaro, não haja enquadramento direto nos incisos do art.
318, a decisão encontra amparo na jurisprudência que admite a domiciliar em
substituição à preventiva como forma de assegurar medidas judiciais, quando
houver risco de reiteração delitiva ou obstrução da Justiça.
Entretanto,
a decisão suscita um ponto sensível: poderia o ministro decretar de ofício essa
medida?
Aqui
reside a controvérsia jurídica mais relevante. Por um lado, o descumprimento de
cautelares impostas judicialmente está evidenciado — o ex-presidente, ao
utilizar meios indiretos para se manifestar nas redes sociais, violou
frontalmente a determinação do STF. Isso, por si só, pode justificar a
conversão das medidas diversas em prisão, nos termos do art. 282, § 4º, do CPP.
Por
outro lado, surge a dúvida processual: seria necessária uma provocação formal
do Ministério Público ou da autoridade policial para que o Judiciário
convertesse a medida? O Código de Processo Penal não exige expressamente esse
requisito, mas parte da doutrina entende que, em nome do sistema acusatório, o
juiz não deve atuar de ofício em prejuízo da liberdade do réu, devendo aguardar
requerimento ministerial.
No caso
em tela, aparentemente, não houve representação do Ministério Público. Ainda
assim, o entendimento majoritário no STF e em Tribunais Superiores tem sido no
sentido de que o juiz pode sim, ao constatar violação de medidas cautelares,
decretar a prisão de ofício, especialmente quando a situação de flagrante
afronta à ordem judicial representa risco à instrução ou à integridade do
processo.
É
importante destacar que não se trata de uma prisão penal, e sim cautelar,
voltada à preservação da regularidade processual. Por isso, a decisão deve
sempre observar os princípios da proporcionalidade, necessidade e adequação — o
que, segundo o voto do ministro, estaria plenamente atendido, diante da suposta
tentativa deliberada do ex-presidente de contornar as proibições impostas.
A
prisão domiciliar também cumpre função simbólica relevante: reforça que ninguém
está acima das decisões judiciais, nem mesmo quem já ocupou o mais alto cargo
da República. Todavia, é preciso atentar para os limites da atuação judicial e
preservar, tanto quanto possível, a legalidade estrita do processo penal.
Em
suma, a prisão domiciliar de Bolsonaro parece encontrar justificativa legal e
fática diante do cenário apresentado. Ainda assim, a ausência de provocação do
Ministério Público pode alimentar questionamentos quanto à forma do ato
decisório, o que poderá ser objeto de recurso e debate nas instâncias
superiores.
A
legitimidade da Justiça não se constrói apenas com decisões firmes, mas também
com estrita observância ao devido processo legal.
• Andrea Gonçalves: Bolsonaro tem que ser
neutralizado com prisão preventiva
O Fórum
Onze e Meia desta segunda-feira (25) recebeu a comentarista política Andréa
Gonçalves para falar sobre os últimos acontecimentos em torno do julgamento de
Jair Bolsonaro (PL) e o desespero que toma contato da família do ex-presidente,
principalmente de seu filho e deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
Gonçalves
destaca que o clã Bolsonaro se encontra em total desespero e que isso deve
acender um alerta para o Judiciário de que eles podem tentar de tudo para
livrar o ex-presidente da prisão, inclusive planejar uma nova fuga para a
Embaixada dos Estados Unidos em Brasília.
"Desde
o início eu tenho alertado para essa situação. Porque se Bolsonaro entrar na
embaixada dos Estados Unidos, acabou. Ninguém pega ele mais. Ninguém pega. E aí
o que que vai ocorrer? Para ele sair lá de dentro e ir para os Estados Unidos,
ele vai vai precisar de um salvo-conduto, que é uma autorização pedida pela
embaixada do governo americano para o judiciário brasileiro. E o Supremo
Tribunal Federal não vai dar salvo conduto, aí a crise vai ser maior ainda. A
crise institucional, a crise do governo estrangeiro para com a nossa soberania
vai ser ainda maior", afirma Gonçalves.
A
comentarista ainda ressalta que o último relatório dos EUA sobre o Brasil fazia
falsas acusações de que o governo brasileiro, através da Suprema Corte, viola
os direitos humanos. Essas acusações já criaram um ambiente jurídico para justificar a aceitação da fuga de Bolsonaro
para a embaixada dos Estados Unidos e em seguida até mesmo conceder um asilo
político ao ex-presidente, de acordo com Gonçalves.
"Existe
muita discricionariedade no estabelecimento de um asilo político. E Donald
Trump já vai ter uma justificativa, que é exatamente essas tratativas de que o
Brasil, de forma mentirosa, é claro, desrespeita os direitos humanos. Então eu
prevejo até a preparação do ambiente para esse momento", afirma Gonçalves.
Andrea,
então, afirma que a prisão domiciliar de Bolsonaro tem que ser convertida em
prisão preventiva para garantir que isso não ocorra. "Claro que o ideal
seria o esperar, a condenação, o transe em julgado para ter uma decisão
definitiva e uma prisão definitiva. Esse é o ideal. Mas quando a gente fala de
extrema direita, quando a gente fala de golpista, de fascista, não tem como ir
para o ideal. A gente tem que agir conforme a realidade dos fatos e não ficar
idealizando demais, esperando o ideal demais, porque eles frustram tudo e daqui
a pouco a aplicação da lei penal será frustrada", diz a comentarista.
Gonçalves
completa que esse cenário traria uma desmoralização muito grande para o Brasil
e acirraria ainda mais o conflito com os Estados Unidos. "Então, para
evitar isso, infelizmente, tem que pegar Bolsonaro e colocar na cadeia para
garantir minimamente que a situação não piore em relação à instabilidade
institucional que o próprio governo estrangeiro de Donald Trump quer provocar
aqui no Brasil."
"É
um jogo de xadrez onde Bolsonaro tem que ser neutralizado – quando eu digo
isso, é dentro desse contexto que eu expliquei – para isso ele precisa ir para
cadeia", conclui Gonçalves.
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Eduardo Bolsonaro
Andrea
também analisou a situação de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) enquanto o principal
articulador dos ataques dos Estados Unidos contra o Brasil, e afirmou que o
deputado está prejudicando a própria imagem de "patriota". Para ela,
essas atitudes de Eduardo têm também um "caráter pedagógico importante de
demonstrar quem é quem".
"Quem
é quem? Quem é patriota no Brasil? Quem defende a pátria de verdade? E quem é
traidor da Pátria? Tudo isso está tendo esse caráter muito importante, onde eu
acho que até a direita está percebendo que não dá para tolerar e transacionar
com extremista", diz Gonçalves.
Ela
acrescenta que a própria direita está se "queimando" nessa situação.
"Eles não sabem se continuam apoiando os golpistas, eles não sabem se eles
correm para um lado, se eles correm para o outro. Uma hora lança Romeu Zema,
depois vem Caiado, depois vem Tarcísio. É aquela loucura. Aí depois o Eduardo
Bolsonaro, depois fala que é Flávio Bolsonaro. Então é isso que eles têm para
dar: confusão. É vira-latismo", completa Andrea.
Gonçalves
também analisa que o povo brasileiro tolera muita coisa, mas não aceita
humilhação, que é o que Eduardo está provocando. "O povo pode ser de
direita, pode ser de esquerda, pode ser de centro, pode ser tudo. Mas esse tipo
de situação de se humilhar, de vira-latismo O povo não aceita isso, não. O povo
não tolera isso, não. E eu tenho certeza que muitas pessoas que votaram em
Bolsonaro a partir dessa situação, estão deixando de lado, estão se calando e
se afastando. Porque é inadmissível isso."
Gonçalves
também afirma que mesmo percebendo que essas atitudes são um tiro no pé Eduardo
continua porque não tem mais volta para sua situação. "Não tem para onde
Eduardo Bolsonaro voltar mais. Ele já cometeu crime, ele já produziu a prova
contra ele, não tem como ele recuar. E perceba que depois que ele fez tudo, a
cada passo que ele ia fazendo, o Supremo foi recrudescendo o seu
posicionamento", afirma Andrea.
• Rota de fuga da casa de Bolsonaro até
embaixada dos EUA é de apenas 10 minutos, mostra Lindbergh
O líder
do PT, deputado Lindbergh Farias, fez o que seria um trabalho normal de uma
imprensa que investigasse e não fosse apenas declaratória ou feita de press
releases. Nos últimos dias, aumentaram em Brasília os rumores de uma possível
fuga do ex-presidente Jair Bolsonaro para a embaixada dos Estados Unidos.
O
deputado mandou sua equipe ao local. Eles repararam que não havia nenhum
policiamento na entrada do condomínio onde está em prisão domiciliar Jair
Bolsonaro. Foram de carro da entrada do condomínio até a Embaixada dos Estados
Unidos. Sem policial pelo caminho. Tempo total: em torno de 10 minutos.
É certo
que o ex-presidente está com uma tornozeleira eletrônica, monitorado pela
Polícia Federal. Mas não podemos nos esquecer que boa parte da polícia federal
é bolsonarista. Outra, além de bolsonarista, é anti-PT, como mostrou esta
imagem de um policial treinando tiro ao alvo sobre uma caricatura da presidenta
Dilma Rousseff.
Uma possível fuga de Bolsonaro para a
embaixada dos Estados Unidos com a concessão de asilo pelo governo extremista
de Donald Trump seria um duro golpe para o povo brasileiro, que aguarda há
quase 3 anos o julgamento do ex-presidente pelo crime de tentativa de golpe de
Estado, com o assassinato do presidente eleito, Lula, seu vice, Geraldo
Alckmin, e do presidente do TSE à época, ministro Alexandre de Moraes.
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PT pediu prisão de Jair Bolsonaro para evitar fuga
Na
sexta-feira, 22, o PT pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a prisão
preventiva imediata de Jair Bolsonaro (PL). A justificativa apresentada pelo
partido é clara e direta: há risco concreto de que o ex-presidente correr para
a embaixada dos EUA.
Segundo
Lindbergh Farias (PT-RJ), que formalizou o pedido, não é improvável que
Bolsonaro siga para a representação diplomática norte-americana, em Brasília,
repetindo o movimento já feito em fevereiro de 2024, quando se abrigou por dois
dias na embaixada da Hungria, quando estava na iminência de ter a prisão
decretada.
O
deputado foi categórico: “Ele primeiro chega e entra na embaixada e depois pede
o asilo. É perfeitamente factível. Ele já dormiu dois dias na embaixada da
Hungria em 2024, quatro dias depois que teve o passaporte apreendido”.
Na peça
enviada ao STF, o PT afirma que não há mais como confiar em medidas
alternativas, como o monitoramento eletrônico. O texto argumenta que o caso
ultrapassa a esfera individual e atinge diretamente a estabilidade democrática.
“As
condutas do representado transcendem a mera desobediência individual e se
inserem em um padrão de caos organizado e desestabilização institucional, que
alimenta uma escalada que já se manifestou em episódios de violência e de grave
perturbação da ordem, como plano para assassinar autoridades, o implante de uma
bomba para explodir o aeroporto de Brasília, bloqueios de estradas,
acampamentos em quarteis, o ataque ao prédio da Superintendência da Polícia
Federal no dia da diplomação do presidente eleito em 2022, a depredação física
dos prédios dos Três Poderes no 8 de janeiro, a escalada internacional com a
aplicação de sanções estrangeiras (revogação de vistos, aplicação da Lei
Magnitsky e imposição de tarifas) e a convocação permanente de manifestações para
instrumentalização de massas contra decisões judiciais”, cita no documento
entregue ao STF.
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Padrão de intimidação
O
documento reforça que Bolsonaro segue recorrendo a métodos de manipulação
digital e à mobilização de sua base mais radical para afrontar as autoridades e
intimidar a sociedade.
“Numa
lógica de permanente intimidação das autoridades públicas, por meio da
propagação de desinformação em larga escala, da mobilização de estruturas
milicianas digitais e da criação de um ambiente de instabilidade política,
econômica e social”, argumentou o petista na petição.
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Expectativa no Supremo
A
solicitação do PT chega justamente no momento em que o STF se prepara para
analisar a ação penal 2.668, que trata da tentativa de golpe de Estado
transcorrida entre o fim de 2022 e o começo de 2023. Para os parlamentares do
partido, somente a prisão imediata poderia neutralizar riscos de fuga e conter
novas movimentações que ameacem a ordem institucional.
Enquanto
a Corte não decide, cresce a especulação em Brasília, já que a qualquer momento
o tribunal pode determinar uma medida que mudaria o rumo da crise e colocaria o
líder extremista atrás das grades de forma preventiva.
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Casa e condomínio de Bolsonaro estão sem vigilância de agentes da PF
Desde
que o processo contra Jair Bolsonaro (PL), que responde por tentativa de golpe
de Estado, avançou no Supremo Tribunal Federal (STF), e tendo em vista que sua
condenação é considerada praticamente certa por especialistas, uma tese ganhou
força: o ex-presidente teria um novo plano de fuga.
Mas
então, qual seria esse esquema de evasão agora? Bolsonaro mora em um condomínio
no Jardim Botânico, área nobre de Brasília, a apenas 10 minutos da Embaixada
dos EUA. Até aí, tudo bem, mas o problema está no fato de que não há qualquer
tipo de campana em torno da residência do ex-presidente, e sua ida para a
embaixada estadunidense poderia ser realizada sem grandes dificuldades.
A Fórum
ouviu uma fonte com acesso ao alto escalão que comanda a PF e confirmou que não
há agentes da corporação monitorando presencialmente o entorno da casa de
Bolsonaro e que, de fato, existe um temor generalizado entre os servidores da
Polícia Federal de que ele possa buscar refúgio na embaixada dos EUA.
Além
disso, a fonte revelou que, até o momento, não há indicativo de que qualquer
campana será montada em torno da residência do ex-presidente ou na área
próxima, ainda que a razão para isso não tenha ficado claro. Ou seja, se seria
apenas uma decisão administrativa do órgão policial ou se há algum impedimento
legal para tal procedimento.
Caso
Jair Bolsonaro realmente fuja para a representação diplomática norte-americana,
ele poderia receber asilo e salvo-conduto do governo de Donald Trump para
viajar aos EUA, algo que representaria uma nova crise diplomática, ainda mais
grave, entre o Palácio do Planalto e a Casa Branca.
Fonte:
Correio da Cidadania/Fórum

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