Afinal
de contas, quem é J.D. Vance?
Enquanto
as atenções do mundo se voltam para a retórica explosiva de Donald Trump, J.D.
Vance, seu vice-presidente, lidera nos bastidores uma ofensiva silenciosa,
porém devastadora. Aliando-se a bilionários do Vale do Silício e arquitetos do
Complexo Civil-Militar da Guerra Híbrida, Vance articula um projeto de
recolonização global, no qual a dominação não se dá mais por tanques ou golpes,
mas por linhas de código, algoritmos e plataformas de controle cognitivo.
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O arquiteto da recolonização digital
Enquanto
o mundo se deixa hipnotizar pelo espetáculo de Donald Trump, um homem avança
silenciosamente nos bastidores, redesenhando a arquitetura do poder global com
precisão cirúrgica. J.D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos, não é
apenas um nome na chapa republicana; ele é o verdadeiro arquiteto de uma nova
forma de dominação imperial, onde as armas não são tanques ou frotas, mas
linhas de código, algoritmos e plataformas de modulação cognitiva. A era do
imperialismo visível está sendo substituída pelo que podemos definir como
Complexo Civil-Militar da Guerra Híbrida — uma coalizão entre corporações,
think tanks, estruturas jurídicas capturadas e plataformas digitais, onde o
poder de fogo foi transmutado em controle informacional e arquiteturas de subjetividade.
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Vance
representa a síntese dessa mutação do império. Sua narrativa oficial — a do
“caipira resiliente” que superou a pobreza, eternizada em seu livro Hillbilly
Elegy — é uma peça cuidadosamente construída de engenharia simbólica.
Por trás do enredo do self-made man, Vance foi moldado no coração
do Vale do Silício, sob a tutela de Peter Thiel, o maior financiador e ideólogo
do tecnolibertarianismo, doutrina que visa desmontar o Estado-nação e
substituí-lo por uma tecnocracia privatizada, operada pelas corporações e suas
infraestruturas digitais.
Graduado
em Direito por Yale e com passagem pelo Corpo de Fuzileiros Navais, Vance foi
introduzido nas engrenagens do capital de risco ao integrar a Mithril Capital,
de Thiel. Posteriormente, cofundou a Narya Capital, um fundo cuja missão
explícita é fomentar projetos que desmontem as burocracias estatais e
fortaleçam a soberania do capital sobre as instâncias políticas. A experiência
militar, longe de ser um simples adorno biográfico, ensinou-lhe as limitações
do poder bruto. Foi nos códigos, nas redes e na infraestrutura digital que
Vance visualizou a verdadeira arena do poder do século XXI.
Essa
trajetória não o levou apenas a mudar de opinião sobre Donald Trump — a quem
chamava de “repreensível” em 2016 — mas o transformou no executor mais
eficiente daquilo que podemos chamar de MAGA 2.0: um projeto que abandona a
teatralidade do populismo tradicional para adotar uma estratégia de
recolonização silenciosa, via tecnologia e guerra híbrida. Vance compreendeu
que não era mais necessário ocupar fisicamente os territórios para dominar
nações. Bastava controlar as plataformas, os fluxos de dados e a engenharia dos
algoritmos que moldam a percepção da realidade.
O que
está em jogo, sob a coordenação de Vance, não é apenas a reconfiguração interna
do Estado americano. É a reinstalação do imperialismo norte-americano sob uma
nova arquitetura invisível, onde países como o Brasil, que ousam construir
alternativas soberanas de governança digital, tornam-se alvos prioritários de
uma ofensiva sofisticada, que combina tarifas, lawfare, guerra
informacional e a cooptação das elites locais. A figura de Vance, portanto,
precisa ser compreendida não como uma anomalia da política americana, mas como
o operador mais eficiente de uma nova era de dominação, onde a farda foi
definitivamente substituída pelo código.
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As redes de poder: o ecossistema vancista de dominação
O poder
de J.D. Vance não nasce de sua posição institucional como vice-presidente, mas
da teia invisível de redes que ele teceu com precisão ao longo da última
década. Essas conexões não são meramente políticas ou econômicas; são
estruturas desenhadas para capturar, modular e reconfigurar a arquitetura da
informação e da subjetividade social. A base desse ecossistema de dominação é
tripla: Peter Thiel, a Heritage Foundation e a Rockbridge Network.
Thiel
não é apenas seu mentor financeiro, mas o engenheiro ideológico por trás da
estratégia que propõe substituir o Estado por uma tecnocracia privada, gerida
por algoritmos e mercados. A aliança entre Vance e Thiel vai além do capital: é
uma simbiose estratégica na qual o capital de risco se torna ferramenta de
engenharia social. A Narya Capital, cofundada por Vance, funciona como um
laboratório de experimentação de startups e projetos destinados a corroer a
soberania estatal por dentro, substituindo estruturas públicas por plataformas
privadas de controle.
O
segundo vértice dessa engrenagem é a Heritage Foundation, think tank ultraconservador
que abandonou as vestes da velha direita liberal para se tornar o centro
operacional do Project 2025, plano de reengenharia do Estado
americano. A estratégia é simples e letal: demolir a burocracia pública,
eliminar os contrapesos institucionais e instaurar um modelo de governança em
que o Executivo, sob controle MAGA, opere com poderes quase absolutos, livre de
supervisões do Judiciário ou do Congresso. Vance é o executor designado dessa
agenda, garantindo que a retórica revolucionária seja traduzida em reformas
administrativas concretas.
A
Rockbridge Network, por sua vez, é a rede silenciosa de financiamento e
influência que conecta bilionários como Thiel, os irmãos Winklevoss e Rebekah
Mercer a uma nova geração de políticos, ativistas e plataformas de guerra
informacional. É por meio da Rockbridge que recursos fluem para financiar
campanhas, think tanks paralelos, operações de desinformação e
a construção de uma infraestrutura política subterrânea, capaz de sustentar a
ofensiva do trumpismo mesmo fora do aparato estatal formal.
Ao
redor desse núcleo orbitam figuras como Elon Musk, Marc Andreessen e outros
magnatas da tecnocracia, que, embora em constante tensão com a ala
ideológica bannonista, convergem com Vance no objetivo de
transformar o Estado em uma extensão dos interesses do capital de tecnologia.
Vance atua como elo tático entre essas forças, equilibrando o caos ideológico
que Bannon deseja instaurar com a necessidade de estabilidade operacional
exigida pelos tecnoplutocratas.
Essa
rede de poder não age apenas nos Estados Unidos. Sua projeção é global, e a
América Latina — em especial o Brasil — ocupa um lugar central nesse projeto de
recolonização. A ofensiva vancista não depende de tropas ou golpes militares,
mas de uma arquitetura invisível de captura: tarifas econômicas seletivas,
bloqueios financeiros, guerra informacional massiva e, principalmente, a
cooptação das elites econômicas locais, seduzidas pela promessa de acesso
privilegiado aos fluxos do capital global em troca de submissão política.
No caso
brasileiro, a ofensiva se dá de maneira estratégica. A tentativa do STF,
liderada por Alexandre de Moraes, de regular as plataformas digitais e impor
limites à atuação predatória das Big Techs é vista por Vance e
seus aliados como uma afronta inaceitável. Sua resposta, articulada por meio
de think tanks, campanhas de desinformação e pressão econômica,
visa não apenas desestabilizar as tentativas de soberania informacional do
Brasil, mas também transformar o país em exemplo do que acontece com nações que
ousam desafiar a nova ordem algorítmica.
O
ecossistema vancista é, portanto, uma máquina de guerra híbrida que opera em
múltiplos níveis: do financiamento de campanhas políticas à engenharia de
plataformas digitais; da construção de narrativas ideológicas à manipulação dos
fluxos financeiros globais. É nesse terreno invisível que Vance exerce seu
verdadeiro poder, projetando sobre o Sul Global uma nova forma de colonialismo,
em que a ocupação territorial é substituída pela ocupação cognitiva e
tecnológica.
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Thiel vs. Bannon: a guerra entre os arquitetos do caos e o papel de Vance como
elo tático
Enquanto
a narrativa pública tenta reduzir o trumpismo a uma massa homogênea de
extremismo populista, o verdadeiro conflito decisivo acontece nas sombras: uma
guerra estratégica entre dois blocos que disputam a arquitetura futura do
império norte-americano. De um lado, Steve Bannon, o ideólogo do caos absoluto,
defensor da destruição total do Estado como única forma de refundar a ordem
política. Do outro, Peter Thiel e os tecnoplutocratas, engenheiros de uma
estratégia mais sofisticada, na qual a captura do Estado é operada via
algoritmos, plataformas digitais e a imposição silenciosa da vontade do
capital.
Essa
guerra é, na prática, uma disputa entre dois modelos de recolonização: Bannon
quer incendiar as instituições, destruir o establishment tradicional,
criar um vácuo de poder onde um novo nacionalismo antiliberal possa emergir de
forma orgânica e incontrolável. Thiel, em contrapartida, aposta em uma
abordagem cirúrgica: desmontar as engrenagens do Estado-nação por dentro,
substituindo progressivamente cada elo da cadeia de poder por estruturas
privatizadas, eficientes e subordinadas aos interesses das corporações
tecnológicas. É a transformação do Estado em uma extensão operacional das big
techs e do capital de risco.
É nesse
campo minado que J.D. Vance emerge como peça-chave. Ele não é apenas um aliado
de Thiel ou um simpatizante de Bannon — Vance é o pivot estratégico
que conecta essas duas forças em conflito, mediando interesses e construindo
pontes táticas. Sua função é simples e, ao mesmo tempo, extremamente complexa:
absorver a energia destrutiva do discurso bannonista e
convertê-la em reformas estruturais que sirvam ao projeto tecnocrático. Vance
compreendeu que o caos ideológico, sozinho, não é capaz de sustentar um império
duradouro, mas também sabe que o projeto de captura silenciosa de Thiel precisa
do fervor popular mobilizado pelo populismo de Bannon.
Essa
operação exige uma engenharia política de altíssimo nível. Vance atua nos
bastidores costurando acordos, equilibrando a agressividade dos ideólogos com a
necessidade de estabilidade operacional dos investidores. Nos corredores de
Washington, ele é visto como o “homem do meio”, aquele que traduz a retórica
incendiária das bases em ações práticas de desmonte burocrático, sem perder de
vista os interesses dos bilionários que financiam sua máquina.
O Project
2025 é a expressão máxima dessa engenharia. Enquanto Bannon prega a
destruição total do “deep state”, Vance trabalha para transformar essa
destruição em um projeto de captura racional, no qual cada secretaria, cada
agência, cada espaço do Estado seja desmontado metodicamente e substituído por
estruturas privatizadas, controladas por aliados estratégicos. É o caos
organizado. A revolução conservadora do MAGA, sob a coordenação de Vance, não
se dá mais nas ruas, mas nos fluxos invisíveis das redes, nos códigos de
plataformas e na burocracia reconfigurada como extensão do capital.
Essa
tensão interna — bannonistas clamando por guerra cultural
total e os tecnolibertários operando a captura silenciosa — é o que torna Vance
uma figura tão perigosa. Ele não é refém de nenhuma das duas correntes. Ele as
utiliza. Vance entende que o poder não se constrói na destruição pura, nem na
tecnocracia fria. Seu projeto é a fusão de ambas: uma máquina de dominação que
combina o fervor de massas com a engenharia digital do capital.
Para o
Sul Global, especialmente para o Brasil, esse equilíbrio tático é devastador.
Enquanto os setores progressistas tentam reagir à ofensiva ideológica explícita
(como a guerra cultural do bolsonarismo, por exemplo), Vance e seus aliados
trabalham nos bastidores, desmontando as infraestruturas que sustentam a
soberania nacional, comprando elites locais, bloqueando canais de financiamento
e impondo uma colonização algorítmica que sequer é percebida a tempo.
No jogo
de poder do século XXI, o inimigo mais perigoso não é o que grita slogans nas
redes sociais. É aquele que, como Vance, projeta o código que define quem será
ouvido e quem será silenciado.
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A arquitetura da guerra híbrida 2.0: Vance como executor do código imperial
Se no
século XX a arquitetura do poder imperial era construída com porta-aviões e
ocupações militares, o século XXI é moldado em linhas de código, algoritmos e
plataformas de controle cognitivo. J.D. Vance compreende isso como poucos. Ele
é o executor de uma nova doutrina imperial, na qual a guerra não se trava mais
no campo de batalha físico, mas nas infraestruturas invisíveis que modulam
comportamento, opinião pública e soberania informacional. A Guerra Híbrida 2.0,
sob a coordenação de Vance, é uma guerra de engenharia — e o campo de batalha
são os sistemas que definem como as sociedades percebem o mundo.
O Project
2025 não é apenas um plano de desmonte burocrático. É o protocolo
operacional de captura total do Estado. Sob o pretexto de “desinfetar o deep
state”, o projeto visa substituir cada elo da administração pública por
estruturas privatizadas, subordinadas a interesses corporativos. As agências de
regulação, os órgãos de fiscalização, os departamentos de ciência, tecnologia e
educação — todos eles são alvos de uma operação cirúrgica de neutralização, na
qual a eficiência não é medida pela qualidade dos serviços públicos, mas pela
docilidade ao capital.
A
lógica é brutalmente simples: demolir o Estado e, nos escombros, construir uma
infraestrutura de governança operada por plataformas digitais e redes privadas
de controle. O cidadão deixa de ser sujeito de direitos e passa a ser um objeto
de dados, capturado e modulado por sistemas que respondem não à soberania
popular, mas aos algoritmos de rentabilidade dos grandes fundos de
investimento.
Vance,
ao contrário de figuras como Bannon, não está interessado na destruição total
do sistema. Ele quer transformá-lo. O que o diferencia de tecnocratas clássicos
é que ele compreende a guerra cultural como uma ferramenta de distração
estratégica. Enquanto a opinião pública se debate em polarizações superficiais,
ele trabalha para garantir que as engrenagens do poder efetivo — as
infraestruturas digitais, as redes de dados, os mecanismos de controle
informacional — sejam apropriadas e reconfiguradas conforme os interesses do
capital.
No
plano internacional, essa engenharia se manifesta na exportação silenciosa de
um modelo de recolonização algorítmica, no qual países como o Brasil são alvos
prioritários. A guerra não se faz mais com frotas e marines, mas
com tarifas econômicas seletivas, bloqueios financeiros articulados com Wall
Street, campanhas de desinformação operadas por plataformas alternativas e,
sobretudo, a captura das elites locais por meio de parcerias privadas que
oferecem “integração ao mercado global” em troca de submissão.
A
sofisticação dessa ofensiva é o que a torna quase imperceptível. Vance sabe que
a guerra de quinta geração não precisa de confrontos explícitos. Basta garantir
que as infraestruturas de comunicação, transporte de dados, logística e
governança digital estejam subordinadas à arquitetura desenhada em Washington,
Palo Alto e nos conselhos das grandes corporações. O controle da percepção
precede o controle da política. O código precede a lei.
E é
aqui que a figura de Vance se revela mais letal: ele não disputa votos — ele
disputa o campo cognitivo onde os votos se formam. Ele não debate ideias — ele
estrutura os fluxos informacionais que definem quais ideias terão visibilidade.
Seu projeto é a instalação de um sistema de governança algorítmica, no qual a
dominação ocorre antes mesmo da formação da consciência crítica das sociedades
colonizadas.
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América Latina e Brasil: a recolonização pelo algoritmo
Se a
Guerra Híbrida 2.0 tem um laboratório para seus experimentos de dominação, esse
laboratório é a América Latina. E dentro desse laboratório, o Brasil ocupa
posição central. Não se trata apenas de um país de dimensões continentais, mas
do único território no Sul Global com capacidade de liderar uma coalizão
política, econômica e tecnológica que possa se contrapor ao projeto de
recolonização digital operado por Washington e pelo Vale do Silício. J.D. Vance
sabe disso. Ele sabe que, para consolidar a supremacia do império invisível, é
necessário neutralizar o Brasil — não com tropas, mas com algoritmos,
tarifas, fake news e sabotagem informacional.
A
guerra contra o Brasil, sob a ótica vancista, não é ideológica. É estratégica.
O embate com o governo Lula e com o Supremo Tribunal Federal, especialmente com
a figura de Alexandre de Moraes, ocorre porque o Brasil ousou fazer o
impensável: tentar regular as plataformas digitais em defesa da soberania
informacional e da democracia. Para Vance e seus financiadores, esse gesto não
é visto como um ato democrático legítimo, mas como uma ameaça existencial ao
modelo de dominação que depende da autonomia absoluta das Big Techs para
manipular fluxos de informação e moldar realidades sociais.
A
ofensiva já está em curso. Ela se articula em múltiplas frentes. A primeira é a
pressão econômica direta, como as tarifas unilaterais impostas sobre produtos
brasileiros, justificadas publicamente por Trump como retaliação política, mas
operadas estrategicamente para desestabilizar setores econômicos-chave e
cooptar elites empresariais insatisfeitas com o governo federal. O objetivo não
é destruir a economia brasileira — é fragmentá-la, enfraquecer o Estado e criar
fissuras internas que possam ser exploradas como alavancas de dominação.
A
segunda frente é a guerra informacional massiva, operada por meio de redes de
desinformação cuja base de operação é financiada por estruturas como a
Rockbridge Network e think tanks da extrema-direita
norte-americana. Trata-se de um ataque orquestrado para deslegitimar as
instituições brasileiras, alimentar o caos político interno e minar a
credibilidade de qualquer iniciativa que busque afirmar a soberania nacional
sobre a infraestrutura digital.
A
terceira é a mais silenciosa e perigosa: a cooptação das elites locais. O
projeto vancista não precisa de intervenções militares para recolonizar o
Brasil. Ele precisa seduzir o agronegócio, os conglomerados de mídia, o sistema
financeiro e setores da indústria com promessas de acesso preferencial aos
fluxos de capital global — desde que aceitem abdicar da autonomia política em
troca de rentabilidade. Essa cooptação é o núcleo da estratégia: transformar
parte das elites brasileiras em agentes internos do projeto de recolonização
digital, criando um ambiente no qual a submissão é vendida como modernização.
No
centro dessa guerra está a disputa pela regulação das plataformas digitais. O
embate entre Alexandre de Moraes e as Big Techs não é um
problema jurídico isolado — é um campo de batalha geopolítico. Para Vance e
seus aliados, a capacidade de um país como o Brasil impor limites ao poder das
plataformas representa uma ameaça inaceitável à arquitetura de dominação
global. Derrubar essa tentativa de regulação é, para eles, um imperativo
estratégico.
Vance
não precisa declarar guerra ao Brasil. Ele já está em guerra. E essa guerra se
dá na manipulação dos fluxos de informação, na sabotagem econômica, na captura
dos espaços públicos digitais e na cooptação das elites locais. O projeto é
claro: transformar o Brasil, novamente, em uma colônia — só que agora, uma
colônia algorítmica, onde a ocupação territorial é irrelevante diante do
controle absoluto das infraestruturas que definem o que é realidade.
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Quem é mais perigoso para o Brasil: Trump ou Vance?
A
maioria das análises convencionais tende a enxergar Donald Trump como a maior
ameaça ao Brasil e ao Sul Global. E há motivos óbvios: Trump é imprevisível,
agressivo e tem um histórico de políticas protecionistas e ataques explícitos à
soberania de países que ousam contrariar seus interesses. No entanto, reduzir a
equação a essa visão seria um erro estratégico. Trump é o catalisador do caos.
Ele é o espetáculo, a bomba de fumaça, a força que desestabiliza pela
brutalidade. J.D. Vance, por outro lado, é o arquiteto do sistema. E é por isso
que ele é mais perigoso.
Trump é
um homem de impacto imediato. Ele age por instinto, pela explosão. Suas tarifas
contra o Brasil são exemplo disso: decisões que causam rupturas, mas cuja
sustentabilidade depende de um ecossistema de poder que nem sempre Trump
consegue controlar. Ele é o incendiário que joga o fósforo, mas não sabe
construir a usina de dominação permanente. Vance, ao contrário, é o engenheiro
da usina. Ele não se interessa pelo espetáculo, mas pela estrutura. Ele não
quer apenas chocar o sistema — ele quer substituí-lo de maneira silenciosa,
definitiva e irreversível.
O
projeto de Vance é mais perigoso porque ele entende que o imperialismo do
século XXI não se consolida com ocupações militares, mas com a captura das
infraestruturas que moldam a realidade. Ele não está preocupado em governar
países diretamente; ele está focado em controlar as plataformas que definem o
que esses países podem ou não enxergar. Sua guerra não se trava nos palanques,
mas nos data centers, nos algoritmos, nos protocolos de governança
digital. Enquanto Trump ataca de maneira explícita, Vance constrói um sistema
em que o próprio conceito de soberania se esvazia, dissolvido em fluxos de
dados controlados por corporações alinhadas aos interesses do império.
Para o
Brasil, a ofensiva de Vance é mais letal porque ela opera em camadas profundas.
Ele sabe que a disputa real não é apenas pelo controle econômico ou político,
mas pela infraestrutura cognitiva das sociedades. Sua visão é a de um
colonialismo 5.0: um modelo em que não é necessário subjugar governos pela
força, pois a colonização acontece antes mesmo da formação da consciência
coletiva. Se Trump é o martelo, Vance é a impressora 3D que reconstrói a
marreta conforme a necessidade do capital.
O
perigo de Vance está justamente em sua capacidade de cooptar elites, modular
narrativas e operar a captura dos fluxos informacionais sem alarde. Ele
representa uma forma de dominação que não depende de votos ou de tanques, mas
de processos tecnopolíticos que redefinem a própria ideia de democracia,
transformando-a em uma simulação gerenciada por algoritmos e plataformas
privadas.
Enquanto
Trump pode ser enfrentado com resistência política explícita, Vance exige um
nível de enfrentamento muito mais sofisticado, que passa pela construção de
soberania informacional, desenvolvimento de infraestrutura digital própria,
letramento midiático de massas e articulação de redes globais de
contra-informação. Ele não quer destruir o Brasil pela força. Ele quer
transformá-lo em um território onde a resistência nem sequer chegue a se
articular, porque as ferramentas de resistência terão sido capturadas ou
neutralizadas.
O
verdadeiro perigo, portanto, é a combinação entre o impacto brutal de Trump e a
engenharia silenciosa de Vance. Mas, enquanto Trump pode ser detido por
movimentos de mobilização política, Vance só será derrotado por uma estratégia
de contra-engenharia, na qual a batalha pela soberania será travada nas
trincheiras da informação, da tecnologia e da infraestrutura cognitiva.
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A última linha de defesa: o Brasil como trincheira global contra a dominação
algorítmica
A
última linha de defesa contra o projeto de recolonização digital liderado por
J.D. Vance não será construída nos fóruns internacionais, muito menos nos
tratados diplomáticos que há décadas falham em conter a expansão do
imperialismo informacional. Essa linha de defesa será erguida — ou sucumbirá —
dentro do Brasil. Porque é aqui que as forças da soberania informacional, da
regulação democrática da tecnologia e da autonomia cognitiva estão sendo
testadas sob fogo cruzado. O Brasil não é apenas um alvo — é o laboratório e,
ao mesmo tempo, a última trincheira do Sul Global.
Diferentemente
de outras nações que já se renderam ao poder das plataformas ou que sequer
possuem estrutura para resistir, o Brasil vive um momento crítico, no qual a
disputa ainda está aberta. O governo Lula, por meio de iniciativas como a
tentativa de regulação das Big Techs, o fortalecimento do STF como
guardião da democracia e a articulação de alianças com os BRICS, representa uma
resistência estratégica à colonização algorítmica. Mas essa resistência está
sob cerco.
J.D.
Vance e sua rede de influência global não buscam uma confrontação direta. O
projeto é sufocar o Brasil por dentro. A ofensiva não virá apenas em forma de
tarifas e pressões econômicas; ela se manifestará no campo invisível das
percepções, das narrativas fabricadas, das plataformas que decidem o que é
visto e o que é silenciado. A guerra será travada na modelagem dos fluxos
informacionais, onde a realidade será uma construção dos algoritmos alinhados
ao império, e a autonomia nacional será sabotada sem um único tiro.
Para
resistir, o Brasil precisará abandonar qualquer ilusão de que a luta se dá
apenas em esferas jurídicas ou regulatórias tradicionais. É necessário
construir uma estratégia de contra-engenharia, na qual a soberania
informacional se traduza em infraestrutura própria de comunicação,
desenvolvimento de tecnologias descentralizadas e plataformas nacionais de
modulação de fluxos de dados. Essa batalha exige um nível de sofisticação que
vai muito além da política partidária: trata-se de articular redes de conhecimento,
ciência, tecnologia e mobilização social com uma visão geopolítica clara de que
a guerra já começou.
Além da
infraestrutura técnica, será vital construir um projeto massivo de letramento
midiático, capaz de armar a sociedade contra as operações de desinformação e
manipulação cognitiva que já estão em curso. A batalha pela soberania não será
vencida apenas nos tribunais ou nas esferas governamentais — será vencida na
capacidade de criar uma consciência coletiva crítica, resistente aos ataques
psicoinformacionais.
Mas
essa luta não pode ser solitária. O Brasil precisará liderar a construção de
uma coalizão internacional de nações, movimentos e organizações que compreendam
a natureza dessa nova guerra. A América Latina, os BRICS, movimentos sociais
globais — todos terão que convergir para formar uma rede de resistência contra
a recolonização digital. O Brasil tem a escala, a influência e a complexidade
política necessárias para ser a vanguarda dessa trincheira.
O que
está em jogo não é apenas a autonomia do Estado brasileiro, mas a possibilidade
de existência de qualquer projeto de soberania no Sul Global. Se o Brasil
sucumbir, as demais nações seguirão. Se o Brasil resistir, estará inaugurando
um novo capítulo na luta contra o imperialismo — um capítulo no qual a guerra
se trava não em campos de batalha tradicionais, mas nos códigos, nas redes, nos
fluxos invisíveis de informação que moldam o presente e o futuro das
sociedades.
A
guerra silenciosa já está em curso. A pergunta que resta é: o Brasil terá a
capacidade de transformar-se na trincheira global da resistência contra a
dominação algorítmica? Ou seremos, mais uma vez, relegados ao papel de colônia
— só que, desta vez, não de território, mas de consciência?
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon Gonçalves, em Brasil 247

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